O sucesso da geringonça, segundo Vítor Bento

No DN de hoje, Vítor Bento discorre sobre “A improvável geringonça”. Este “técnico” tem-se mantido a uma prudente distância da política – sobretudo a política mais arriscada, como quando recusou as Finanças que Passos Coelho lhe ofereceu. Nem por isso deixa de pensar e escrever politicamente – à direita, naturalmente.

Na sua coluna, o ex-conselheiro de Estado de Cavaco tenta dar a impressão que plana a grande altura sobre a bagunçada da luta política. Dá-se ares de isenção, assenta umas rabecadas fáceis no seu próprio quadrante político e até reconhece uns pozinhos de talento a Costa, sem nomear nomes. Uma pessoa distraída acaso pensará que Bento é um modelo de isenção.

O sucesso da geringonça constitui o objecto das reflexões de Bento, mas começa por apontar dois erros a Coelho: a teimosa recusa da legítima solução de governo encontrada pela esquerda e as previsões catastrofistas falhadas à luz dos resultados económicos até hoje conseguidos. Ora, na opinião de Bento, o que é que Coelho deveria ter feito? Deveria ter olhado para a frente e construído “um programa de futuro”, que “valorizasse” o que duramente conseguira no seu governo “incompreendido”, que respondesse aos “anseios sociais” e que fomentasse uma “alternativa mobilizadora”. Puro blá-blá-blá sem mistura. Como poderia agora Coelho valorizar a sua incompreendida política de 2011-2015, apontada à frustração dos mais elementares “anseios sociais”? Não saberá Bento que a direita perdeu 700 mil votos nas eleições de 2015 porque a sua governação a tornou o absoluto contrário de uma “alternativa mobilizadora”? Adiante.

O “improvável” sucesso (quer dizer que Bento não o previu) da chamada geringonça deve-se, segundo ele, a uma mistura de talento, sorte e cumplicidade dos media. Vejamos então.

No talento, refere a promoção de uma solução de governo nunca antes tentada e o “perceber que, em economia, tudo o que desce acaba por subir, e que, feito o ajustamento [pelo governo anterior], a viragem da onda não deixaria de trazer aproveitáveis dividendos”. Reparando melhor, este falso elogio não explica como surgiu a inédita solução de governo (o eventual talento de Costa não esclarece o essencial, que foi a recusa pela esquerda toda do governo de Coelho), deixa de fora as políticas concretas deste governo, aponta o oportunismo do confisco dos dividendos da política do governo anterior (a actual treta dominante da direita) e refere uma “viragem da onda” económica que, transparentemente, ele considera um bambúrrio e, logicamente, deveria constar do ponto seguinte, a sorte.

Na sorte, o colunista enumera uma salgalhada de coisas, desde a inesperada boa conjuntura económica internacional e o inesperado boom turístico, até à cumplicidade nunca antes vista (diz ele) do presidente da República com o governo (o que também relevaria da sorte). Não se coíbe aqui de mencionar, pasme-se, os “acidentes favoráveis à autoestima do país”, a saber, os êxitos do futebol e da Eurovisão, sem esquecer a visita do papa. Pelo meio refere um “amolecimento da obstinação dos falcões de Bruxelas”, que se teria devido apenas à conjuntura política internacional e não a qualquer mudança de atitude por parte do governo de Portugal. Qualquer burro pode ter sorte, é o que se conclui.

Na cumplicidade mediática, por fim, Bento expõe uma versão light da velha teoria da “asfixia democrática”. Segundo ele, há hoje em Portugal um “controlo do efeito político da comunicação social”, que “se materializa muito mais no que omite do que no que declara.” Dito mais claramente, a comunicação social portuguesa “reproduz e amplifica as notícias ou opiniões convenientes [ao governo], multiplicando-lhes o impacto social” e “ignora ou amortece as inconvenientes, abafando-lhes o impacto.” Bento não está a falar da Coreia do Norte ou da Venezuela. Está a falar de Portugal e do Público, do DN em que ele escreve, do Expresso, da SIC, da TVI, da TSF, da RTP, da CMTV, do Correio da Manhã e não sei se do Observador e do Diabo. Ou seja, uma vastíssima conjura destinada a glorificar o governo e a abafar a oposição – mas completamente inexplicável, dado que os media portugueses estão quase exclusivamente nas mãos da direita.

Os êxitos da geringonça estão a pôr a direita fula, cega e paranóica. Nem almas bentas escapam.

 

10 comentários a “O sucesso da geringonça, segundo Vítor Bento”

  1. O sucesso da Geringonça é continuar a haver um pais rendido às “delícias” da saloiice:
    do marzinho do beijinho, do santinho, do Salvadorzinho do Zézinho (este quase sempre Monte de Esterco) da dona Chica (érrima), do poucochinho, do pequenino, do futebolzinho e do espertinho.
    Nota: Já agora, “Geringonça” não?!

  2. Pergunta-se ao Provedor da Coisinha se é que ele ainda existe.
    Há alguma forma de mandar de contratar apenas o que interessa ou mandar retirar dos contratos existentes com as empresas, MEO, ZON/NOS, VODAFONE, ETC os canais de Tv que não interessem como sejam eventualmente os canais: um, vários ou todos da SIC; SIC NOTÍNIAS; um, vários ou todos da TVI; TVI24; um, vários ou todos da RTP; CMTV e ETC.
    A titulo de contra exemplo do que acontece a quem queira “doar” 0,5% ou parte do seu IRS em que necessita de por uma “X”zinha bem apostólica.

  3. Revolution iff Evolution

    HOLLYWOOD WARS by John W. Cones

    THE MEDIA MONOPOLY by Ben H. Bagdikian

    AN EMPIRE OF THEIR OWN by Neal Gabler

    HOLLYWOOD STUDIOS by Ethan Mordden

    IT’S THE MEDIA, STUPID Intro by Ralph Nader

    HOLLYWOOD VS AMERICA by Michael Medved

  4. O sucesso da gerigonça deveu-se a um funcionamento mais pleno da democracia Portuguesa, lembrando que democracia subentende a representação dos interesses do povo.
    Espero que os Portugueses aprendam com esta lição e terminem de vez, digo de vez, porque não leva a lado nenhum, com o pingo pong governativo que vínhamos praticando. Esse ping pong absolutamente previsível pôs os interesses de pequenos grupos acima dos democráticos interesses do povo e da nação.
    Porque a nação, não é o quadradinho no mapa, nem o Castelo de Guimarães , nem o Mosteiro dos Jerónimos.
    A nação somos todos nós Portugueses, a nação que quase faliu. Os governos que tivemos não nos representaram. Sempre submissos a Bruxelas mais papistas que o papa, para fazer carreira politica, trocaram favores entre si para se enriquecerem a si mesmos , em detrimento da Nação. De todos nós.
    A propósito e para mostrar o despropósito de tal atitude, lembro do Centeno que não foi por lamber botas que se tornou cobiçado politicamente no panorama internacional. Apenas mostrou bom trabalho e acho muito bem que fique por cá a continuar o bom serviço.

    25 de Abril sempre!

  5. Ainda no outro dia uma toalha espectacular que tenho ficou estragada por causa de uma nódoa que não saiu. Mas que nódoa era aquela?
    Pus-me a pensar e pus a possibilidade de se tratar de um erro informático.
    Fiquei absolutamente convencido dessa teoria. Nem foi preciso provar nada.
    Bastou-me a teoria, a plausibilissima possibilidade.
    Aliás, a toalha era demasiado boa para ter uma nódoa.
    Era muito mais lógico entender que os computadores servem para dar erros no que fazem. Aliás, qualquer comissão parlamentar sabe dessa verdadeira e factual, evidente verdade absoluta.

  6. Voltei a olhar para a toalha e a nódoa continua lá.
    A nódoa pode um dia esbater ou até mesmo sair, mas parece-me que não foi erro informático.
    Muito vago isso “erro informático”.
    Agora, a possibilidade de aproveitamento fraudulento por alguém com acesso privilegiado ao sistema, já soava muito melhor. Não seria melhor dizê-lo? Erro informático?
    Pois!

  7. Os cagagéssimos de sucesso da geringonça em relação à Espanha, Irlanda e outros é tão pouquinho, que relativamente a 2016, em 2017 ainda ficámos mais distantes da Europa.
    A conversa do Costa é um caso sério.
    Não é a direita que está a ser enrabada!

  8. Mas que o Passos é um imbecil a insistir com o discurso austérico, convenhamos… É!
    Muito imbecil mesmo. (soube bem)
    Até diria de que forma deveria uma oposição na situação do PSD reagir, mas gosto tanto do imbecil do Passos (soube bem outra vez) que não quero arriscar dar-lhe boas ideias.

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