O grande investimento da direita

Compreendem-se bem estes gemidos de indignação de António Barreto. A direita sente-se enrabada e AB assume, voluntarioso, a sua quota-parte das dores.

O maior investimento estratégico da direita portuguesa de 2004 até hoje foi a tentativa de assassinato de carácter de Sócrates, o ganhador de duas eleições e da única maioria absoluta socialista desde que Soares fundou o PS. O comentador “independente” AB colaborou pressurosamente nessa tentativa desde os seus alvores. Releiam-se os seus “retratos da semana” repletos de ódio, publicados no jornal do Belmiro em 2007 e 2008, quando ainda não havia uma crise financeira internacional cujas culpas se pudessem atirar para Sócrates. Usando de pulhices saloias, AB chegava a interrogar-se se Sócrates não seria fascista: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.” Fosse ou não fascista, Sócrates era então, para AB, “a mais séria ameaça contra a liberdade” que Portugal conhecera desde os anos 70 (Público, 6 de Janeiro de 2008). O carapetão da “asfixia democrática”, espalhado pelo PSD em 2009, também colheu ali inspiração. Veio, então, a crise financeira e a direita mudou completamente de registo: fora Sócrates o seu autor.

O alvo último da longa campanha negra da direita – que desde 2014 conta com a desavergonhada assessoria jurídica do Ministério Público – nunca foi exactamente Sócrates, mas sim o PS. A direita presumiu erradamente que, linchando Sócrates, arredaria o PS do poder durante uma década ou duas. Essa gente vê hoje o seu logro, que o ódio cego de antanho não lhe permitiu vislumbrar. Investiram tudo num papel marado, que em 2015 se desvalorizou completamente. Sentem-se enrabados, mas a culpa é deles próprios, que investiram as suas poupanças e esperanças num pacote de patranhas.

Com efeito, a derrota da direita nas últimas eleições legislativas, a formação do governo de Costa e o balanço francamente positivo de um ano e meio de governação socialista vieram pôr totalmente em causa a racionalidade do maior investimento estratégico da direita no presente século – a diabolização de Sócrates e, por tabela, o aniquilamento do PS e o esmagamento da esquerda.  A campanha anti-Sócrates  já não rende – a não ser, talvez, como mera e triste vingança pela vingança – e não se vê quem poderia substituir Sócrates no papel de bode expiatório e bombo da festa.

A desorientação e o desespero grassam nas fileiras e estados maiores da direita raivosa. O maná da diabolização de Sócrates faliu, é chão que já deu uvas. Continuam a odiar Sócrates com todas as suas forças, mas já não sabem porquê nem, sobretudo, para quê. O grande investimento, que até já tinha granjeado alguns dividendos na bolsa eleitoral, parece agora perdido. Há, porém, saudosos que sonham ainda recuperá-lo. AB dá eloquentes sinais disso mesmo, exibindo em cambalhotas retóricas uma desesperada tentativa de conotar Costa com o “nefando” governo de de Sócrates.

Note-se que, para AB, António Costa teria sido em 2007, quando saiu do governo para a câmara de Lisboa, uma vítima da limpeza que o déspota Sócrates teria levado a cabo no governo, com o objectivo de ficar “enfim só” no poder (Público, 27 de maio de 2007). As lágrimas de crocodilo que AB então verteu por Costa aparecem agora transformadas em libelo acusatório contra o mesmo Costa, a quem acusa de branqueamento e complacência criminosa com o “nefando”. Os objectivos últimos são sempre exactamente os mesmos: atacar um governo de esquerda, atacar o PS e, se possível, apagá-lo do mapa.

12 thoughts on “O grande investimento da direita”

  1. apanhou sol na moleirinha , foi ? eu detesto o socras e não tenho nada contra o ps. felizmente o dito cujo não conseguiu dar cabo do partido.

  2. É recorrente no Barreto a sua fixação em Sócrates pois, na crónica anterior a “música”
    era a mesma e lamentávelmente, serviu de mote para uma crónica de um distinto
    comunista que se diz jornalista de nome Pedro Tadeu no mesmo jornal o DN!
    Consta-se que o Barreto mais a companheira gastam uma garrafa de whisky por noite
    com o acumular dos calores que se sentem … só pode dar asneira!!!

  3. O barreto questionou-se se Sócrates não seria fascista quando este criou a lei que proibia fumar nos lugares público. O barreto na altura grande adepto do tabaco (o mesmo fez sousa tavares) dizia que dele não sabia se era fascista mas que a tal lei sim, era fascista. Um artificioso jogo de palavras para chamar fascista ao homem.
    Na mesma altura, numa entrevista ao mesmo público dos belmiros pai & filho, voltou a insinuar o fascismo de Sócrates porque este entregara “magalhães” aos miúdos das escolas o que, segundo o grande visionário sociólogo, iria diminuir as futuras capacidades cognitivas e de inteligência dos miúdos. O que pensará barreto acerca das exuberantes capacidades actuais desses miúdos para utilizar telemóveis-computadores e o mais complexo computador como ferramenta de trabalho qualificado.
    Este barreto foi mais um caso de falhado político que chegado com a aura de académico “exilista” (os que se recusaram combater na guerra colonial e se exilaram na boa e alegre Europa) de esquerda rapidamente, na prática política, resvalou para aquilo que era e dissimulava; uma nulidade auto-convencida que, como todos assim, acabou agarrando-se ao que de pior e detestável existiu no nosso país, o cavaquismo.
    Tal como os fedorentos, os ditos, os pachecos, as clarinhas, o tavares, os soromenhos, os adãos e agora também o conselheiro cultural mexia quando não têm provas nem argumentos para indiciarem actos de corrupção de alguém arranjaram uma fórmula; citam o nome de Sócrates. E juntam à citação, que usam como argumento de autoridade, umas risadas alarves para reforçar e dar brilho ao seu argumento.
    Contudo, o que atesta tal comportamento anti-Estado de Direito através de um processo de difamação sobre alguém não acusado sequer é a sombra que a coragem, integridade e capacidades políticas de Sócrates projecta nas suas pírricas qualidades intelectuais e políticas. Tal uso e abuso do método pavloveano
    pode enganar o ignorante mas sobretudo serve para julgarem e sentirem que ão se estão enganando a si próprios. Porque os actos de corrupção deles são cometidos em directo, quase diariamente, frente às câmaras de tv os quais são pagos em alta pelos donos dos “meios” com o cheque mensal que vai engordar os outros cheques obtidos de outros lados pelo mesmo processo de caluniar pela voz do dono.
    Tentam tudo para que o pagode pense tudo tal qual como eles pensam tudo à frente das câmaras de tv e nunca para que o povo pense pela própria cabeça e descubra a podridão intelectual que grassa sob as mesas e câmaras desligadas.

  4. Grande Júlio, óptimo “regresso” e mais um festival de lucidez. Abaixo os aios, sipaios e todos os lacaios! Que se phoda o sipaio Barreto, pim!

  5. AB, foi ministro da Agricultura num dos governos de Soares .
    Sucedeu a Lopes Cardoso, um homem de esquerda, que saiu em discordância com o partido .
    Convidado por Soares para ocupar o cargo – em jeito de ultimato – AB respondeu que nada sabia de agricultura . Soares insistiu que não fazia mal, mesmo assim, iria ocupar o cargo .
    No desempenho das funções, e no âmbito do desmantelamento da chamada reforma agrária, falava grosso contra a esquerda, numa altura em que era fácil fazê-lo, e estava na moda .
    Mais tarde, aquando do vergonhoso e injusto afastamento de Medeiros Ferreira ( embrulhado este numa intriga que alegadamente envolveria o Gen. Eanes, então PR ) um dos maiores enxovalhos de Soares, exercido sobre uma das mais brilhantes figuras do PS, AB terá dito algo em conselho de ministros, essencialmente por estar perturbado com a virulência manifestada na altura, por Soares, contra Medeiros Ferreira .
    Soares replicou de pronto mais ou menos assim, se não está satisfeito, pode também escrever a carta ( de renúncia ) .
    AB, exilado em Geneve, refractário ou desertor, convidado por Soares, para cargo ministerial, só poderia ser boa peça .
    Ou será tudo ao contrário ?
    Moderem, moderem …

  6. Excelente análise. No fundo, é tudo política, sendo que, no caso do António Barreto, que se marimba para os portugueses, será politiquice.

  7. José Neves: não foi o motivo que indicas – a proibição do fumo em lugares públicos – que esteve na origem do artigo de AB “Sócrates e a liberdade”, de 6 de Janeiro de 2008, em que o autor admitia que Sócrates pudesse ser fascista (“não sei, mas…”). Lê o artigo, que é instrutivo, está lá tudo muito bem explicado. É uma rara colecção de sofismas, aldrabices e insinuações. O artigo, na altura, foi reproduzido em dezenas de sites e blogs de direita e extrema-direita.

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