Eu edito-me, tu editas-te

O João Pedro George informa, no Esplanar, que valter hugo mãe (assim, sempre com minúsculas e sem acento), um dos fundadores da Quasi, criou recentemente uma nova casa editorial, a Objecto Cardíaco. Óptimo. Queremos editoras. E valter hugo mãe fez, na Quasi, um magnífico trabalho.

Mas, que vemos? Que a Objecto Cardíaco acaba de editar o «Livro de Maldições» de… valter hugo mãe. Quer dizer: um dos primeiros livros, possivelmente o segundo, da juvenil editora é do próprio responsável da casa.

Trata-se, ainda assim, de um exemplo de discrição, já que conhecemos editores (pequenos, mas que julgávamos sérios) que oferecem ao mundo, antes de quaisquer outros, um livro próprio. Dão a desconfortável (ou descarada…) impressão de terem fundado a casa para se darem, a si mesmos, em repasto.

João Pedro George, que sabe fazer levantamentos, bem poderia ir mapeando os auto-editores portugueses. Bom proveito.

31 comentários a “Eu edito-me, tu editas-te”

  1. o próprio george também vai ser editado pelo valter. um dos livros é sobre (que surpresa!) luiz pacheco, de quem o george é hagiógrafo. o pacheco já lhe chamou “uma espécie de índio chupista”, mas nem isso lhe retirou santidade aos olhos do george. tu deixas-me armar em especialista e biógrafo oficial; eu deixo-te insultar-me. coisas que o george criticaria noutro qualquer. os moralistas são sempre assim…

  2. Bom, se o editor valter hugo paga os livros do seu próprio bolso, não vejo por que não se há editar a si próprio. Será que o moço lhe foi pedir dinheiro emprestado, F. Venâncio, para editar o seu livro? Você é accionista da empresa Objecto Cardiaco? Não é, pois não? Então, qual é o problema. O tipo até podia fundar uma editora para só editar hugo mãe, ou os poemas das suas tias.
    E isso de açular o xerife george contra os auto-editores, parece-me digno de quem tem uma concepção policial da crítica. Qual é a ideia, a de que todos passemos a vigiar-nos uns aos outros, na tentativa de decidir quem é o mais impoluto e o que melhor denuncia? Não tenho de dúvidas que o xerife george deve estar neste momento a bater com a mão na testa e a pensar – como é que eu não me lembrei desta!
    O problema, se é que existe, não está em vh mãe se auto-editar; o problema estará, quando muito, em editar um péssimo poeta – ele próprio. Mas ninguém pode negar-lhe esse direito.
    A edição de autor (e isto, para todos os efeitos, é uma edição de autor)é tão legítima como qualquer outra.
    Não percebo, enfim, qual é o problema.

  3. Estou com o Nosferatu: não percebo qual é o problema.

    Aliás, digo mais: parece-me uma tremenda estupidez toda esta preocupação com as aparências da qual parece que sofre toda a medíocre intelectualidade portuguesa. As obras valem pelo que são, porra! Quando é que vocês todos, João Pedro George incluído, metem esta coisa simples na cabeça? Que interessa se são euto-editadas, editadas por amigos, editadas por inimigos, editadas pela vizinha do 5º esquerdo, editadas pela avozinha ou editadas pela confraria das baratas e papossecos? Se prestam, prestam; se não prestam, lixo com elas! Sem mais considerandos. A obra é, independentemente da conjuntura que a traz a lume.

    Já não há pachorra para tanta mesquinhez! Meninos, escrevam, publiquem e deixem-se deste tipo de merdas estéreis, OK?

  4. Nosferatu,

    Tiro-te o chapéu. Dar a nobre designação de «edição de autor» àquilo que é simples caricatura da (também ela nobre) profissão de editor, essa não lembrava ao mais pervertido.

    Eu vejo as coisas de outro modo. A auto-edição põe em serviço próprio toda uma maquinaria que se supunha montada para o serviço de outros. Como autor, sinto-me achincalhado. E nunca iria bater, nem de rastos, a tal porta.

    Mas há mais. Mesmo sabendo nós que um editor (falo dos normais) não é garantia de qualidade, continuará a haver alguns que, mesmo assim, não desistimos da possibilidade de que o seja. Ora, a auto-edição ofende essa singela esperança.

    Eu preferiria, até, que nenhum poeta, nenhum contista, se antologiasse jamais. Há sempre alguém melhor do que nós, que esquecemos. Ou que não procurámos.

  5. Tanta asneira junta, Fernando.

    A “máquina” está montada para editar. Ponto. Seja outros, seja a si próprio, não interessa nem ao menino jesus. Mais: se a máquina é montada com o objectivo de editar o próprio e, de caminho, acaba a servir para editar também terceiros, óptimo, excelente, toda a gente ganha com isso. No fim de contas, o que fica é a obra, e é a obra a única coisa que interessa.

    Quanto às antologias, é acrescentar asneira à asneira. Neste anémico meio cultural o que mais falta é material com uma qualidade mínima e que se adeque ao que se pretende antologiar. Se parte desse material minimamente decente pertence a quem antologia, força. E mesmo que o material do antologiador seja menor, mais uma vez, se para termos a antologia é preciso levar com um texto medíocre de quem a compila, que se leve com o texto medíocre. É melhor haver antologia, mesmo com um ou outro texto medíocre, do que não haver.

    Claro que editar-se acaba por se tornar um risco. Não porque tenha intrinsecamente alguma coisa de errado. Mas sim por causa de atitudes mesquinhas como a tua, que acabam sempre por fazer estragos.

    Por fim, não deixa de me causar uma grande vontade de rir que logo tu venhas com mariquices destas quando defendeste (e muito bem) o Zé Mário por criticar o livro do amigo. Aí percebias que o fundamental era a obra e não os personagens envolvidos na história mas agora já não? Qual é a diferença ética entre uma coisa e outra, pode-se saber? Ou será que é por causa precisamente das personagens envolvidas na história que agora já não percebes? Não os gramas, é? Tens birrinha?

    Há macacos que precisam de ser penteados, pá.

  6. Jorge,

    1. A gente fica varada quando lê isto que escreves: «Neste anémico meio cultural o que mais falta é material com uma qualidade mínima e que se adeque ao que se pretende antologiar». Em que país vives? Não reconheço Portugal aí. Eu próprio sou antologiador. E o meu problema foi e é sempre… escolher.

    2. Não tenho birrinha, nem birra, nenhumas. Mal conheço as pessoas a que te referes, que nem passam (decerto para sorte deles) pelos meus círculos.

    3. Seja claro que não denego a um editor o direito de se editar. Simplesmente não o acho… chique.

  7. 1. Depende do que se pretende antologiar e da abordagem que se pretende dar à antologia. Se a antologia versa sobre aquilo que toda a gente faz (o que, devo confessar, me costuma encher de sono), então suponho que a dificuldade deva ser mesmo a escolha. Mas se se pretende sair um bocado do banal, a anemia é profunda e – há quem diga – irremediável. Basta comparar a nossa literatura fantástica com as de muitos outros países para ter um óptimo exemplo.

    2. Ainda bem. Fico é na mesma sem perceber que diferença ética de fundo há entre um caso e outro para merecer uma tão diametralmente oposta atitude da tua parte. E não só de tua parte, diga-se de passagem: o George, que no outro assunto foi tão virgem ofendida como tu neste, aparentemente está tão à-vontade com este como tu com o outro. Fico boquiaberto com essas vossas coerências.

    3. Chique? Isso é para a Lili Caneças e demais socialites. Eu prefiro que as coisas se façam a ficarem penduradas de “chiquezas” até apodrecerem.

  8. Fernando Venâncio nunca ouviu falar da Hogarth Press, a editora que Leonard Woolf criou em 1917 para editar os livros da mulher? Virginia Woolf, of course. E depois, ao lado dos livros da mulher, e dos seus (é claro), também editou Freud, Rilke, Svevo, Isherwood, Wells, Spender, Keynes, etc. Tendo-o feito sem complexos, depois de ter mandado Joyce (o Ulisses!), Auden, Sartre e Saul Bellow bater a outra porta. Coitado do hugo mummy!

  9. Arthur,

    Ah, estas refinadas chantagens!

    Virginia Woolf era uma mulher dotadíssima para a crítica, tinha ideias muito próprias sobre o romance, e escreveu-os ela própria para mostrar como devia, ou podia, fazer-se. Desculpe, mas não me impressionam estes prestigiosos precedentes.

    Desista, portanto. Eu sou muito difícil de impressionar.

  10. O Régio publicou-se a si próprio nas «Edições Presença», e o Simões, o Branquinho, o Casais, o Saul/Júlio, etc. Um caso editorial entre outros semelhantes.

  11. O que nos acontece se escrevermos Valter Hugo Mae ? Acho que estamos perante a história do rei vai nu… Dá vontade de rir, mas cada tolo tem a sua mania. :-)

  12. Pois eu acho muito bem. Por que não hão-de os líricos dedicar-se também ao empreendedorismo e aposta em si?
    E já agora lembro que o amigo do Zé Mário também foi um caso de auto-edição. O que, como se já disse, não é por si só qualquer indicativo da qualidade ou falta dela de um livro, especialmente quando se sabe bem que 99,9% dos livros de poesia são editados por conhecimentos, recomendações, influências, etc., e que 99,9% dos manuscritos originais não assinados por pessoa identificável são devolvidos sem serem lidos. E estou a ser optimista

  13. Pois eu acho muito bem. Por que não hão-de os líricos dedicar-se também ao empreendedorismo e aposta em si?
    E já agora lembro que o amigo do Zé Mário também foi um caso de auto-edição. O que, como já se disse, não é por si só qualquer indicativo da qualidade ou falta dela de um livro, especialmente quando se sabe bem que 99,9% dos livros de poesia são editados por conhecimentos, recomendações, influências, etc., e que 99,9% dos manuscritos originais não assinados por pessoa identificável são devolvidos sem serem lidos. E estou a ser optimista

  14. Fernando Venâncio, as ligas de decência sempre me impressionaram. A sua, a do George. Todas. o poeta que se edita escreve o quê? isto: “e é quando tento agarrar/ o sol que reparo ter/ as mãos convexas”. É com isto que o Fernando se preocupa? Oiça, o próprio George, conforme o Fernando muito bem sabe ler, quando escreve por conta própria é um bimbo. parolada atrás de parolada. É mau. O Fernando Venâncio que eu leio e de quem conheço textos limpos e fortes anda a fazer o quê à sua vida? a perder tempo? E poderá dizer-me: mas que tem você a ver com o meu tempo? e daqui lhe respondo com a sinceridade dos simples: Nada de nada.

  15. estou de acordo com o fernando venâncio. sempre me impressionou a auto-imposição. uma ocasião dei o fora no projecto de uma editora porque percebi pelas conversas nas reuniões que a ideia era lançar a editora para se auto-editarem-se. os outros vinham depois deles. mas eu não acreditava que viessem. eles tinham demasiado amor por eles próprios.

  16. Graça,

    Pergunta-me, com um perceptível tom de preocupação, que ando eu a fazer à minha vida. Neste momento, estou a escrever-lhe isto. Não imagino, assim de repente, uma vida melhor.

  17. Jorge,

    A nossa literatura fantástica, cuja eclosão coincidiu com a renovação literária da geração de 70, numa história que ainda está por contar, também tem coisas que se lhe digam. Comece por Júlio César Machado (A Récita do Roberto do Diabo), vá ao Teófilo dos Contos Fantásticos, depois ao Álvaro do Carvalhal e ao Eça das Prosas Bárbaras. Passe para Gomes Leal e Silva Pinto, competindo pela influência de Poe (mas o Gomes Leal é muito melhor, incluam-se todos os seus contos, sobretudo “O Espelho da Marquesa”). Termine-se uma fase na “Madona do Campo Santo” de Fialho (genial). Inicie-se outra com o Sá-Carneiro
    Olhe que o panorama podia ser pior.

  18. Alfinete, se só tens malta de há 100 anos ou mais para me indicar estás na realidade a comprovar o que eu disse. E, aqui para nós, o Teófilo dos Contos Fantásticos é paupérrimo. Fica a imensa distância de qualquer um dos nomes minimamente conhecidos que vêm lá de fora.

    Além disso, estamos a falar de coisas ligeiramente diferentes. Tu falas da literatura fantástica no sentido académico do termo; eu falo em literatura fantástica no sentido não académico, em que a expressão é usada, à falta de outra melhor, para designar tudo o que tem a criação de mundos irreais como pedra de toque: o fantástico propriamente dito, claro, mas também o maravilhoso, a ficção científica, a fantasia e até o realismo mágico e algum surrealismo.

  19. A mim parece-me que o Fernando Venâncio decidiu escrever uma imbecilidade para matarmos saudades do Daniel Olveira. Só pode.
    Uma manobra de marketing como outra qualquer.

    Susaninha

  20. Ó Fernando, pois o que lhe queria dizer era que não perdesse tempo nem a responder-me nem com o mau poeta que se edita, nem como George que se faz à vida, metódico e precioso, num blog gerido a preceito onde apenas escreve sobre quem vende, sobre quem se fala muito, sobre quem é editor, sobre quem mexe mais ou menos, para mais e nunca para menos. repare, Fernando, que quando George assina post de água-vai ou dos de publicidade em causa própria, o deixa estar em pousio o tempo suficiente para que o leiam e aquilo rode. depois, volta ao ritmo normal e escreve graçolas, tolices, baboseiras em que a Lena e bla bla bla. é com isto que o Fernando anda a desperdiçar o seu talento? e comigo? com as minhas preocupações? oiça. eu sou sua leitora e preciso de o ler a sério que é como quem diz sem que se arraste o Fernando por estes caminhos sem genica, cheios de donzelas ofendidas, folharecos e folharecas. que eu me dê na gana responder-lhe, oh, é cá comigo que tenho um emprego onde não trabalho. agora o Fernando?! Se tem de dar trela a alguém não a dê ao que assina mãe e não vale nem uma vogal também. e assim de rima em rima deixe-me que lhe diga que esta que se assina Graça gostaria de o saber com uma traça daquelas para produzir e zurzir em gente graúda. ou então, não. Escrever o que sempre escreveu sem cair na tentação Georgeana das senhoras americanas que querem tudo em pratos limpos e honrados e apontam com aquelas unhas afiadas as meretrizes, os imorais, os amorais e gritam: ai jesus! que lhes caia a cruz de cristo na cabeçorra. Fernando Venâncio, para isto das lições de moral, tem de concordar, não há pachorra! nem eu a tenho para mim quando desato nisto… assim…

  21. Graça,

    Mas eu ainda não desisti de mover as «donzelas ofendidas», que enchem os «folharecos e folharecas», a mudarem de rumo.

    Até num médium tão soft como este onde você e eu aqui nadamos. Não sou esquisito, já percebeu.

  22. Jorge, há uma antologia da Natália Correia, mas não me lembro dela. Aí, és capaz de ter uma certa razão. Por acaso, pensei que estavas a falar de literatura fantástica relativamente aos frenéticos franceses, e ao Hoffmann e Poe e quejandos.
    Mas… bem, o HH dos “Passos em Volta” conta? E o “Dores” da Maria Velho da Costa?

  23. Ai desculpe lá mas lá que o Fernando é esquisito, ai isso é. não é para desculpar? olhe, desculpe lá. que esquisito tão teimoso. deixe lá de me responder. vá escrever coisas úteis para os meus dias fúteis que se me correm neste emprego des graçado. Ai homem mais telhudo! Deixe lá as fraldas das moças pudentes ou que se armam nisso mesmo. Vá. Vá ler o Coelho de hoje que atribui a Tolentino uma gravidade no dizer até quando este brinca. É obra! Só que o Coelho não é dado à internet. não precisa. não quer. não sabe. tem mulher. não tem? tem. porque não leio eu o Fernando Venâncio nos jornais a sério, os de papel? ou no Le Monde? ou naquele dutch que de dutch não pesco nada. ó homem, vá escrever! Não ouve a minha voz de matrona à porta da pensão a ver passar a mona do quinto andar e a comentar: aquela ali gosta do abrupto mas o abrupto só tem olhos para o blogue. e a fedúncia não se enxerga! não me dê trela que eu não páro. olhe as leis da blogoesfera…

  24. Que eu vá ‘escrever’, Des Graça? Mas é que eu nem faço outra coisa. É embuchar um naco, e vir correndo para aqui… a escrever. Se você tiver paciência, ainda há-de ver coisas.

    Mas isto não era para lhe dar… trela. Esteja à vontade.

  25. Tenho uma pachorra de santa. Sou aliás, uma santa mas sem a sua graça quando se arma da sua esfregona vileda e vai tudo à frente cá com uma limpeza. Fico à espera de “ver coisas” que é como São Tomé ou José? Nem deu pelo meu piscar de olho em “páro”. Ia eu escrever como o outro: saiem, caiem mas não me calhava bem. Escrevi páro mas não reparou. Não era trela que eu queria dizer, era mais assim: “Çê num mimdeu trela
    Ieu paçei sebo nas canela”. Coisa de cordel. Não me dê trela que eu sou corvela. Assim é que era mas aqui em baixo diz Força! e eu, antes do tempo, assim fiz. Aguardando.
    Leitora, sua atenta e agradecida pelo que tem escrito para mim (nisso lhe dou razão. é que não me tem feito outra coisa. e eu impante virada para as colegas, invejosas, piranhas: olhem quem me escreve, suas aranhas… e elas roídas, as coironas!) Maria da Graça

  26. Olha na verdade nao entendi muito bem o X da questao!posso assim dizer!Alguem pode me explicar! queria saber sobre a inveja de pessoas perto de vcs!

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