O verde da pupila

Era no fundo do quintal que afinávamos
as cores para evitar confusões. Embora
eu fosse azul e o meu pai amarelo,
a verdade é que a luz nos ourava até

ao imo da pupila e não era assim fácil
esquecer que habitávamos um mesmo nome.
Como os melros, recuperávamos o silêncio
sob os castanheiros, porque era apenas

lá, naquela sombra delicada, que as coisas
se vingavam de opacidade. Sobra-me
ainda hoje um pouco desta claridade na

memória e, embora a minha mãe me jure o
contrário, acredito que se um dia me conseguir
subtrair à relva, quem sabe, o meu pai.

14 thoughts on “O verde da pupila”

  1. Quem terá metido na cabeça do João Pedro Costa que era um poeta!? Se escrever poemas só com palavras ordinárias, talvez seja possível…Agora com “Verdes na Pupila”…Eu mudava-lhe o título para “Cor de Burro quando Foge”!

  2. Muito bom poema e para além das cores, há semas relativos às cores noutras palavras (quintal, melros, castanheiros, sombra, relva, opacidade / claridade).

  3. JP,

    Tens a informação de que não és poeta. Tens uma abordagem estruturalista. Que mais se poderia desejar – se não for dizerem-te que se gostou, e muito?

    Olha, já ficou dito.

  4. Na senda da claudia e do fv, a subtracção do autor (azul) à relva (verde) dá o pai (amarelo). E também gostei. Mas a opinião é suspeita: não é, JP? :)

  5. este poema é sempre.
    subtracção, sim, pois esta relação de cores só é possível na síntese subtractiva.

  6. Não foste um menino tão feliz quanto poderias ter sido ou pensado teres o direito de ter sido. Disso tenho eu a certeza, sem ajuda das ideias escorregadias e apaneleiradas do homo-Freud. Quanto a poeta, para mim, come-se bem, comesmos-te bem. Põe aqui mais desse material e despe a camisola que esconde esse peito cabeludo de vergonhas que escondes com tanto jeito. Um beijo à mamã-centro-do-mundo e não ligues às marílias que te criticam.

  7. Subtrair à relva = viver. Se conseguir viver, quem sabe, um dia poderei ser o meu pai. E tudo isto com as correspondências cromáticas que os anteriores comentários tão bem dissecaram. Muito bom, caralho. Quem é que precisa da vaca da TVI?

  8. Bem, no que me fui meter.

    Em primeiro lugar, gostaria de dizer que escrevi este texto num manifesto estado de embriaguez, o que anula de imediato qualquer veleidade sobre as intenções do mesmo.

    Apolo: sabes uma coisa triste? Nem sequem me despertas a vontade de te brindar com uma eloquente demonstração da minha arte do manejo do palavrão. Mas não desistas, estou certo que um dia vais chegar lá.

    Fernando: não posso, de facto, desejar mais.

    Mário: a tua opinião é mais do que suspeita. Só tenho pena da mesma não ser mais costumeira (vais logo à Praça?)

    Germano Filipe (nome catita o teu, né): não vou, como é óbvio, falar aqui da minha infância (tava a brincar, claro que vou, da minha infância e dos meus hábitos sexuais). Penso que o dizes sobre a minha infância pode-se aplicar à da grande maioria das pessoas. Não tenho é o peito cabeludo. E, como é óbvio, qualquer filho com sorte (como eu) elege a sua mãe como centro do seu mundo.

    Preia-mar: já li mais do que uma vez essa referência ao peixe podre de Sesimbra e confesso que gostava de saber o que isso quer dizer. Sinto que toda a gente se diverte menos eu.

  9. JPC: não se trata de troca amável de comentários. Já tinha intenção de me pronunciar sobre o seu poema. Também não sendo o meu género (tal como o meu não faz o seu!), a verdade é que gostei. É um bom poema. Está lá a infância (ou a adolescência, creio), alguma saudade, alguma mágoa, os sentimentos…Estão as recordações que tecem a nossa vida, que nos fazem crescer e amar – mesmo sem contrapartidas – os que nos são queridos. Mas há que saber lê-lo, palavra a palavra, com as pausas e o ritmo que lhe quis dar. Só assim o poema se torna voz e testemunho. Só assim se enriquece…Repita!

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