Novela do estudo científico das línguas reais – II

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Foram neo-gramáticos do calibre de K. Brugman, H. Osthoff e Hermann Paul que desenvolveram o legado dos histórico-comparatistas ao sublinharem o carácter mecânico e absoluto das leis fonéticas:

– Lindinhos, as leis fonéticas não têm excepções.
– Nunca-nunca-nunca?
– Ok, quase nunca.
– Bem me parecia…
– Mas, nessas raras excepções, é possível encontrar outra lei fonética complementar que as explique.
– Sempre-sempre-sempre?
– Ok, quase sempre.
– Bem me parecia…
– Mas, nesses casos ainda mais raros em que não se concretizam as leis fonéticas, é porque houve uma analogia.

A analogia foi definida pelos neogramáticos como um mecanismo de compensação que actua no plano gramatical e que restaura distinções ou paralelismos que cegam (tadinhas) as leis fonéticas. Neste mecanismo (muito presente em certos «erros» da linguagem infantil, como o não cumprimento das excepções gramaticais), está implícito uma distinção muito clara entre o plano fónico (fisiologia dos sons) e o plano psíquico (analogia) da linguagem humana verbal. Na verdade, até sou gajo para dizer que já se encontram aqui latentes os princípios da teoria sausseriana do signo linguístico.


Um exemplo clássico da História do Português coloca em arena a analogia (83 quilos, 1m81, 61 vitórias e 4 derrotas) e uma lei fonética chamada palatalização (79 quilos, 1m77, 243 vitórias e 11 derrotas). A palatalização acontece quando certas consoantes palatais sucedidas de hiato (duas vogais seguidas) passam a ser emitidas no lugar de outras não palatais: filiu > filho; pinea > pinha; ingeniu > engenho, etc… O Português do Brasil, por exemplo, é nesse aspecto uma língua mais evoluída que o Português continental, na medida em que já procede oralmente à palatalização de vocábulos do nosso léxico: tio > tchio e dia > djia. Voltando ao nosso duelo (analogia vs. palatalização), o vocábulo latino ardeo (primeira pessoa do Presente do Indicativo do verbo ardere), apesar de ter lá o hiatozito, cagou de alto para a palatalização e não evoluiu para a forma *arço. E isto devido à analogia com o resto do paradigma português (nesse caso, as restantes pessoas do Presente do Indicativo), onde se conservou o /d/, visto que não existia o tal hiato necessário à palatalização nas correspondentes e shakirianas formas latinas.

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Viria a ser Ferdinand de Saussure (que, para além de calçar 40, também foi um distinto neogramático), quem, malgré lui, melhor definiria o mecanismo da analogia. No famoso edifício sistemático deste doido, fazem-se duas opções teóricas: renega-se a Parole (Fala) do objecto da Linguística, e dentro da Langue (Língua), opta-se pelo seu sincronismo, abandonando-se (supostamente) a diacronia, por razões de ordem metodológica: apenas o estudo da Língua em sincronia pode ser o objecto da Linguística devido ao seu caracter estático e sistemático. Nesta óptica, a História da Língua (diacronia) estaria à margem do objecto de estudo da Linguística. O malandro.

No entanto, Saussure entra em contradição quando aborda a questão da analogia. O exemplo que ele dá é o facto de honos em latim ter evoluído para honor apesar de não reunir as condições (fonema /s/ em contexto intervocálico) para se verificar a lei fonética (rotacismo) que permitiu, por exemplo, a evolução honosem > honorem. Saussure explica o fenómeno analógico de duas formas: por um lado, houve uma atracção do paradigma: após a evolução das outras formas, honos tornou-se irregular (fenómeno de reposição da regularidade); por outro lado, o próprio paradigma da língua latina já admitia a possibilidade de um nominativo em –r (orator, oratorem). A anologia é um coisa muito bela e, de resto, já aqui a usei com razoável sensualidade para explicar a tendência de muitos falantes do Português em flexionarem da mesma forma a segunda pessoa do singular e do plural do Pretérito Perfeito do Indicativo. Se bem que, no início, honor apenas pertence ao domínio da Fala, ele depende directamente do sistema, na medida em que é dele que surgem as forças geradoras da evolução e da analogia. Como é óbvio, Saussure irá tentar encaixar a analogia na Língua e não na Fala. Porém, ao fazê-lo, ignora por completo o seu caracter dinâmico. Concluindo: contrariamente ao que diz muito distinto linguista, na teoria de Saussure, nem a sincronia é estática, nem a diacronia é assitemática, visto que, na analogia, o próprio sistema não apenas suporta como motiva a evolução. Ufa. Há muitos anos que andava com esta entalada.

Para os que não perceberem patavina do que estive práqui a dizer, retiro-me cabisbaixo, deixando-vos ficar com o desenvolto «The Death Of Ferdinand de Saussure» de Stephin Merritt (o rapaz do boné), que explica de forma superior toda esta pessegada.

THE DEATH OF FERDINAND DE SAUSSURE (The Magnetic Fields, 1999)

I met Ferdinand de Saussure on a night like this [1]
On love he said «I’m not so sure [2], I even know what it is
No understanding, no closure: it is a nemesis
You can’t use a bulldozer to study orchids [3]»

He said:
So, we don’t know anything
You don’t know anything
I don’t know anything about love [4]
But we are nothing [5]
You are nothing
I am nothing without love

I’m just a great composer [6] and not a violent man
But I lost my composure [7] and I shot Ferdinand
Crying «It’s well and kosher [8] to say you don’t understand
but this is for Holland-Dozier-Holland [9]»

NOTAS

[1] Gosto muito deste tipo de incipit que legitima uma canção, tipo: «Ai e tal esta noite faz-me lembrar aquela distante em que conheci aquele moço chamado Saussure e acho que vou escrever uma canção sobre isto…».

[2] Bela para-homofonia transidiomática (Saussure / so sure). A ambiguidade semântica também é muito engraçada: se calhar, o rapaz disse que não é «Saussure» no que toca os assuntos do coração, o que, por analogia, quer dizer que não é sistemático. Wise decision, né.

[3] Aqui o rapaz estica a corda. Mas tem piada.

[4] Bela inversão do silogismo (do geral passa-se para o concreto – nós > tu, eu), que é aqui uma óbvia referência analógica ao método arrojadamente dedutivo de Saussure. Ver também a parte em que se diz: «No understanding, no closure».

[5] Wo-owo.

[6] Palminhas.

[7] Por analogia com a primeira quadra, há aqui mais um belo par parónimo: composer / composure. Olé.

[8] Uma boca para os biógrafos de Saussure. Agora só lhes falta o nariz. E os olhos. E as bochechas. E as orelhas. E a testa. E o cabelo. E, já agora, o resto do corpito, que tanta falta nos faz.

[9] Referência ao trio de compositores e produtores responsáveis pelos grandes êxitos da Motown na década de 60 e que, de facto, percebiam muito mais dos assuntos do coração que o Saussure. A teleologia da linguagem humana verbal como técnica para o acasalamento. Mi piachi vero.

Cenas do próximo capítulo: fonética vs fonologia e (agora sim) a quadratura do Círculo Linguístico de Praga.

12 comentários a “Novela do estudo científico das línguas reais – II”

  1. Joâo Pedro da Costa.
    És professor,ou entâo um jornalista imérito!Platon,Rousseau,Saussure,
    Kant,Hegel,Nietzsche,FreudJean Paul Sartre,Ernest Hemingway mesmo Heidegger,depois de Jacques Derrida, tiravam o chapéu em signo de respeito.Henri de Toqueville sentia-se diminuido em sabendo que Bush éra um verdadeiro monron!O Araméen que tinha sido a lingua dos povos semitas tal os Assiriens Chaldéens Hébreux e Syriens,e que foi 500 anos AC que os Palestiniens a adaptaram,talves que uma dezenas de probelemas nem deles houviamos falar,nâo interéssa, eu admiro-te,mesmo se sou Célta d’origem

  2. JP,

    Espectacular. Vou ali já buscar o meu diploma de linguística (Amsterdam, 1976, assinado por Simon Dik, o da Gramática Funcional) e devolvo-o na secretaria. É isso, é como nos tirarem a carta de condução.

    Só um pormenor, uma grainha de nada: algum dia terá existido em latim «honosem»? E outra: será «paixão» assim um tão belo exemplo, se for preciso explicar, agora, a sequência «-ix-»?

  3. Nikita, o João Pedro é indiscutivelmente mais sexy que o gajo da foto, embora tenha problemas amnésicos e, de vez em quando, responda a todos nos comentários, excepto a mim. Nobody is perfect.

  4. Estão todos lindíssimos!

    Mas, acautelemo-nos:

    Nem tudo o que ostenta, faz alarido, parece, é.
    Às vezes o ruído, o “bater de pratos”, a indignação, correspondem ao desejo de esconder, de abafar – com muito, muito barulho – algo de absolutamente inaceitável.

  5. outro ganda chocolate belga cote d’or!

    Mas portanto agora vamos passar àquela coisa do significante e do significado?

    Já comprei um livrinho chamado As Dimensões Pragmáticas do Sentido, de A. D. Rodrigues que parece bem arrumadinho para estudantes como eu.

  6. Saussureal. E, se bem te leio, primo, estás a usar a analogia como desculpa para dar uns sopapos no coitado. Merecidos sopapos, como irás relembrar nos próximos capítulos, pois ninguém o mandou retirar o sujeito fazedor da língua, o tal que cria analogias, o tal psíquico. O tal, que coisa e tal. E que não se cala.

  7. Hum. Se a gente vai pensar que um grito espontâneo é um sinsigno indicial remático acho que nem acode ao vizinho…

    A tríplice tricotomia do signo (Peirce)?

    Seja como for já percebi que a seguir à fricatização das oclusivas, que até me deixou meio envergonhado, hoje temos trabalhos de palatização num dia de sol

  8. Fernando: «paixão» é, de facto, um exemplo miserável. Vou já retirar. Quanto a honosem, não percebo a dúvida – estarás a dizer que tudo o que aprendi no estudo diacrónico do Latim é um logro? :) Ah, fiquei muito impressionado com essa do Simon Dik. Eu «apenas» tive a sorte do Óscar Lopes me ter explicado numa tarde a Gramática de Valências. Mas foi uma tarde inesquecível.

    Cláudia: continua a chamar-me sexy e verás que responderei muito mais vezes aos teus comentários.

    Primito: o Saussure é um daqueles génios que até nos dá as ferramentas para provarmos que ele estava errado.

  9. Não me custa nada, João Pedro. Galileu descobriu que a terra girava à volta do Sol e eu descobri que tu eras sexy, no dia em que me caiu uma maçã em cima da cabeça.

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