Novela do estudo científico das línguas reais – I

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O estudo científico da linguagem humana verbal começou tarde e a más horas: apenas no século XIX com a Linguística Histórico-Comparativa. Até lá, como é óbvio, não se pode afirmar que a malta toda andou a apalermar (muito pelo contrário), só que, até aos histórico-comparativistas alemães, uma série de características enfermaram o estudo da linguagem humana verbal e o afastaram da cientificidade. Estas características foram, sobretudo, o pragmatismo (ver a descrição utilitária do sânscrito feita por Panini), a preocupação filológica (cheirar os estudos de Eratóstenes e de outros autores da Escola de Alexandria sobre os textos homéricos), a normatividade (audível, de forma geral, em todos os textos dos gramáticos até ao séc. XIX) e a subordinação à Filosofia da Linguagem (sobretudo no travo prolongado da questão do Crátilo de Platão sobre a origem convencional ou natural da linguagem, cujo paladar se prolongou de forma áurea até Santo Agostinho e São Tomás de Aquino). Como é óbvio (não é nada óbvio, eu é que gosto de me armar), não está aqui em causa os importantes contributos de todos estes autores no estudo da linguagem humana verbal, mas o facto de nenhum deles a terem promovido a objecto formal do seu estudo. A linguagem surge em todos eles com uma espécie de medium, cujo estudo era sempre motivado por questões extra-linguísticas.

Após os séculos XV e XVI, época em que se acentuou o contacto com novas civilizações e linguagens, começou-se a esboçar uma teoria monogénica da linguagem de cariz bíblica, em que se elevava de forma babélica o Hebreu a língua adâmica ou edénica. É apenas nos séculos XVII e XVIII que surgem os primeiros autores que me interessam (logo, que deverão interessar a toda a gente) para um estudo científico da linguagem humana verbal. Os dois primeiros são Antoine Arnauld e Claude Lancelot, autores da Gramática de Port-Royal, cujas páginas desenvolve a noção inovadora de universais linguísticos: se a linguagem é estruturada segundo a razão humana, é natural que se possa definir uma Gramática Universal comum a todas as línguas (o Chomsky viria, séculos mais tarde, a chamar um figo a essa inovação). O terceiro autor é Leibniz, que foi o primeiro a pôr em causa a teoria monogénica de que o Hebreu seria a língua-mãe de todas as línguas, argumentando com a impossibilidade dessa língua camito-semita ter dado origem a línguas com estruturas tão díspares. O rapaz era uma montanha de virtudes.


PUB: os parênteses do parágrafo seguinte têm o patrocínio do Swimmer’s Digest.

No século XIX, a acção conjunta do Romantismo (e o seu desejo de fuga temporal aliado ao cariz nacionalista da demanda do Volksgeist), do Historicismo (que tinha como objectivo a reconstituição e estudo das causas da evolução histórica, vista como um fluir contínuo), o Evolucionismo de Darwin (que encara o passado como uma evolução, um movimento de selecção natural e adaptação ao meio) e a intensa actividade sexual dos anões e das anãs alemães irão possibilitar o surgimento da Linguística Histórico-Comparativa.

O método comparativo-histórico definido por R. Rask, F. Bopp e P. Donald (só consegui encontrar na net uma gravura desse último) tem como premissa a já referida teoria da não motivação do símbolo linguístico, segundo a qual a língua é uma convenção arbitrária, não havendo qualquer motivação entre a sua componente fónica e os seus referentes (concepção antagónica aos famosos bolos de canela de Isidoro «Etimologias» de Sevilha). Desta forma, a única explicação para se verificarem semelhanças entre algumas línguas seria o facto destas terem, hipoteticamente, a mesma origem, ou seja, de derivarem da mesma língua comum, da mesma Ursprache (santinho). Segundo este método, uma língua isolada, para além de produzir pouca saliva, é uma língua sem história, na medida em que não tem termo de comparação para poder ser inserido num carrinho de compras do Continente ou num eixo cronológico (veja-se, por exemplo, o que aconteceu durante anos com a língua basca até ela ser comparada com outras línguas caucasianas). O método comparativo-histórico estabelece três campos de comparação: a Morfologia (estudo da estrutura das palavras), a Fonética (estudo do som das palavras) e o Léxico (estudo do conjunto de palavras de um determinado idioma).

A MORFOLOGIA é a parte mais púdica e estável de uma língua. Segundo a definição de Schlegel, existem três tipos de língua: as isolantes, as aglutinantes e as flexionais. As isolantes são línguas em que as palavras são justapostas e onde a significação é dada pela entoação, pela colocação e pelo recurso a «palavras vazias» (Chinês e Vietnamita). As aglutinantes são línguas em que as palavras estão de tal forma aglutinadas que se torna difícil proceder à sua segmentação e onde a ordem adquire também valores de significação (Euscaro e Turco). As flexionais são línguas em que as informações morfo-sintáticas estão incluídas nas próprias palavras. Definem-se igualmente pela formação de palavras complexas sem recurso a elementos adicionais, pela existência de declinações nominais, pela mobilidade dos prefixos e pelo seu intenso sabor (Alemão e línguas eslavas).

Contrariamente à Morfologia, não é muito útil na FONÉTICA proceder a comparações sincrónicas, visto que as correspondências fonéticas entre duas ou mais línguas passam sempre pela língua de origem comum a estas:

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Mais importantes do que as semelhanças são as diferenças sistemáticas entre as línguas. Será a partir das correspondências /tt/ <=> /yoj/ /yE/ <=> /tS/ <=> /yt/ que se irão estabelecer as leis fonéticas que explicam a evolução da língua de origem (Latim) até às diferentes línguas derivadas: /kt/ > /tt/ (Italiano); /kt/ > /yoj/ /yE/ (Francês); /kt/ > /tS/ (Espanhol) e /kt/ > /yt/ (Português). Segundo essa malta, as leis fonéticas são fixas e aplicam-se não apenas a uma palavra, mas a todas, ou seja, à totalidade do sistema fónico, o que não deixa de ser um tanto ao quanto megalómano. Um exemplo grandioso desta concepção são as quatro, perdão, as três leis de Grimm (esse mesmo), que estabelecem correspondências entre as línguas germânicas e indo-europeias ao nível das mutações consonânticas: 1) ensurdecimento das oclusivas sonoras (sempre que surge numa língua indo-europeia não germânica a letra «b», numa língua germânica aparece «p»); 2) Fricatização das oclusivas surdas (sempre que surge numa língua indo-europeia não germânica a letra «p», numa língua germânica aparece «f»); e 3) Perda da aspiração das aspiradas sonoras.

O LÉXICO é a parte mais doida e instável de uma língua, na medida em que, por um lado, está sujeito a fenómenos de empréstimos de outras línguas (os verbos e os adjectivos são mais «indígenas» que os substantivos) e, por outro, a evolução semântica das palavras pode ser tão acentuada que as marotas podem parecer novas palavras. Não obstante o facto de serem as correspondências ao nível do vocabulário as mais visíveis na comparação de duas línguas da mesma família, o seu «parentesco» apenas pode ser provado foneticamente. Ou seja: há sempre uma relação muito estreita entre a evolução histórica do vocabulário e a evolução fonética.

De uma forma geral, o resultado teórico do método comparativo-histórico assemelha-se a uma árvore (Stammbaumtheorie de A. Schleicher), em que uma língua mãe dá origem a línguas derivadas, podendo estas, se forem pacientes e souberem aguardar pela sua vez, darem igualmente origem a outras línguas. Os ramos vectorizados de cima para baixo correspondem às leis fonéticas.

As características positivas do método comparativo-histórico (poderá parecer mais bonito dizer histórico-comparativo, mas a verdade é que se compara primeiro na sincronia antes de se passar à diacronia e a minha mãe sempre me disse que não há nada mais belo do que a verdade) são a cientificidade do seu método, o facto das línguas passarem a ser um objecto de estudo em si e não um meio e, finalmente, a perspectiva descritiva da sua análise. As características negativas do método ainda perduram em muita cabecinha que anda por aí (isto não é uma boca para o meu primo Valupi, nem nada). O método é acidentalista (provoca acidentes e não consegue explicar o porquê da mudança), atomista (pode dar origem a cogumelos não comestíveis e as suas leis fonéticas, apesar de abrangerem todas as palavras, são feitas «letra» a «letra»), fatalista (deu origem ao fado e há um inegável determinismo na concepção mecânica das suas leis fonéticas), decadentista (levou à homossexualidade e defende que é da deterioração ou fragmentação da Ursprache – santinho – que derivam as outras línguas) e é germano-centrista (viria a pôr em causa a União Europeia e a língua alemã, pelo seu caracter flexional, é considerada a língua menos decadente por estar mais próxima das características do sânscrito).

Cenas do próximo capítulo: os Neo-Romantics (perdão: Neo-Gramáticos), Saussure e a quadratura do Círculo Linguístico de Praga.

31 comentários a “Novela do estudo científico das línguas reais – I”

  1. não percebo patavina do assunto para saber se a tua mãezinha te educou realmente bem, mas está absolutamente fantástico.

  2. Apesar de tudo o que mostras estar certo, há, no entanto, certas passagens onde atinges o grau máximo de concisão e profundidade. Para mim, estás a fazer de propósito e detecto uma intenção qualquer, não identificável, nisso que escreves. Antevejo também que te vais debruçar, por pouco que seja, sobre o clássico “Zur Geschichte der deutschen Sprache”, de Scherer, que tanta vontade dá de rir, especialmente se lido em voz alta junto de senhoras mais sugestionáveis e dadas ao entendimento da língua e demais questões linguísticas.

  3. JP,

    E andei eu a matar juvenis anos, por húmidos quartos de estudante, quando podia tê-los gozado à manâra, esperando por este bendito Agosto de… a quantos vamos? ah, 2007.

    Eu só invertia a ordem de Aquino e Agostinho. Não tem nada a ver, eu até detesto o Agostinho, e o teu primo sabe-o de há anos. Mas a cronologia… já percebeste.

  4. Ui, ganda chocolate! Daqueles que eu gosto, belgas com 70% de cacau e um elefantinho de tromba erguida.

    Mas eu aqui sou estudante.

    Agora acho que isto aqui Fricatização das oclusivas surdas deve ter que se lhe diga…

  5. contaram-me que o Agostinho dizia que ‘no amor não há temor’ e eu acho que em última análise é verdade, até se faz amor com a Morte e é muito bom

  6. Julguei que com isto deixavas todos sem pio.
    Se calhar enganei-me.

    Já agora, gostava de saber o que aconteceu com a língua basca começou a ser comparada com outras línguas caucasianas (e quais).

  7. O estudo da língua basca é um dos capítulos mais fascinantes da história do estudo da linguagem humana verbal na sua diacronia. Durante muito tempo, a língua basca foi considerada o último vestígio da língua dos Iberos e, por isso, tentou-se estabelecer comparações (muito forçadas) com línguas camito-semíticas como o berbere e algumas línguas ameríndias e até (juro) com o japonês. A hipótese mais frutífera foi a comparação com as línguas caucasianas do Norte na década de 30. A base dessa aproximação foi sobretudo a sintaxe: a língua basca partilha muitas semelhanças sintácticas com as línguas caucasianas (exemplo: uma construção sintáctica indo-europeia muito corrente do tipo «o Grunho limpa a sanita» dá origem a algo do género: «existe limpadela da sanita pelo Grunho»). Se quiseres saber ainda mais recomendo-te a leitura do capítulo V da «Introduction á la grammaire des langues caucasiennes du Nord» de Georges Dumézil (Paris, 1933). Há diversos exemplares da obra nas bibliotecas universitárias de Coimbra, Porto e Lisboa.

    Como a língua basca é uma língua arcaica que precedeu as línguas indo-europeias na Península, ela deixou algumas marcas no nosso vocabulário. A mais flagrante é ezker («metade da mão» / «má mão») que deu origem a «esquerdo», suplantando semanticamente o «sinistrus» latino.

  8. Escapa-me o fino à coisa, mas diz-que o castelhano nasceu em húmus êuskaro – bom, em certa aragem basca. Nada disso transpira na gramática (latina até ao tutano), mas parece que a proximidade, ou mesmo alguma sobreposição, do berço do castelhano – a Rioja (vá lá, deu bom vinho) – com a Vascónia deixou rasto nas sonoridades.

    Alguém sabe mais?

  9. só sei que à conta da fricatização andei todo o dia a lamber-me a pensar em fricassé de galinha, mas como não encontrei, acabei a alambazar-me com lulas recheadas…

    isto da linguística abre o apetite, e não é metáfora

  10. Sendo a língua basca um substracto do Castelhano, a influência é sobretudo lexical (e toponómica). Ao nível da sonoridade o Castelhano mantém as características vocálicas da coiné da România Ocidental. Por isso, Fernando, a haver influência da língua basca nas sonoridades do Castelhano só se for no sistema consonântico. Prometo investigar.

  11. eu aqui sou mesmo estudante…

    mas uma vez um amigo basco disse-me que a língua deles vinha de outro lado qualquer, que agora não lembro,

  12. O basco é uma língua de pastores e contrabandistas, sem vocabulário erudito. Quando precisam de dizer algo inteligente, pegam nas palavras castelhanas, metem-lhes uns sufixos acabados em ak e tá a andar. Por mais naxionalistas que sejam, sem o castelhano os bascos regressavam à pastorícia.

  13. Chego tarde… bem sei… mas será que, antes do próximo capítulo, podes explicar cientificamente como é que surge o Yiddish?

  14. Bom dia! Se calhar já ninguém vem aqui mas deixo ficar uma pergunta que andei a matutar, estudante na última fila, caladinho mas de orelhas arrebitadas e cauda felpuda no ar:

    Não sei se é válida a analogia. Lá em Ecologia na comunidade de plantas que habita um ecossistema (a fitocenose, ou seja o emaranhado das diferentes populações vegetais) nós falamos em dominância, sendo que as árvores são muitas vezes dominantes, quando existem, dado o papel primordial na intercepção da luz e na absorção de água e nutrientes. Será que nas línguas se pode dizer que os verbos dominam?

    Então e o basco tem raiz no latim com uns ak à mistura?

  15. O dicionário é de 1856, atenção. Ainda não usavam os KK de que hoje usam e abusam para se diferenciarem, usavam os CC. Só há algumas décadas é que os bascos substituiram os CC e os QQ por KK.

    Mas dá para ver quão reduzido era o vocabulário propriamente basco. Na letra F, por exemplo, todas as palavras são de origem castelhana.

  16. Obrigado Nikita, já guardei.

    Então o basco não tem raiz no latim, mas consegue-se divisar a origem mais provável?

  17. para mim, farejador diletante, aqueles z todos fazem-me lembrar o nahuatl e derivadas mesoamericanas. Mas além de não ter feito análise de correlação alguma, isto não deve fazer sentido nenhum, ou a história ainda dava uma voltinha ao contrário…

  18. Das origens do basco ninguém sabe ao certo, a não ser que é uma língua pré-indoeuropeia, a única, aliás, na Península Ibérica e na Europa Ocidental que não pertence à família indoeuropeia. Esteve séculos em declínio e quase desapareceu no século XX, mas desde os anos 50 que, com balões de oxigénio e carradas de nacionalismo, se tem mantido viva. Há sete dialectos principais, bem diferenciados, do basco ou vascuense, dispersos por Espanha e França. Alguns desses dialectos são tão ou mais diferentes entre si do que o português do castelhano!!! Desde os anos 60 que existe o euskera unificado, produto artificial do labor de linguistas nacionalistas, anti-espanhóis fanáticos. Contra o euskera unificado se insurgem, de resto, os defensores dos dialectos.

    Encontrei, a propósito, o nome da língua basca em cada uma dessas sublínguas e dialectos regionais bascos: «Según la región, se le llama euskala, eskuara, eskuera, eskara, eskera, eskoara, euskiera, auskera, oskara, uskera, uskaa, uska o üskara.»

    Lindo, não é? Já perceberam, caros aspirinautas, porque é que os bascos falam castelhano, não já?

  19. Mas portanto se o basco não é de raiz indo-europeia donde terá vindo? Às tantas ainda veio do lado de lá, e então a história faz lembrar o Aguirre ao contrário…

    Noutro dia li uma notícia de que os celtas afinal migraram ao contrário do que se supunha, da península para Inglaterra.

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