Vinte Linhas 797

Os passos na manhã do Corpo de Deus e a memória do Mar da Palha

Alguém perto de mim pisa o empedrado da calçada dita portuguesa. São passos na manhã do feriado da Festa do Corpo de Deus, dizem as vozes que este é o último. Talvez por isso a procissão saída da Sé de Lisboa às cinco da tarde parecia não ter fim nas ruas da Baixa.

O único interesse de quem circula é o passeio no miradouro em frente ao Castelo de São Jorge. À direita, o Rio Tejo e o mesmo Mar da Palha onde há 55 anos as barcaças com o lixo doméstico dos lisboetas eram despejadas no Porto da Lama. Carroças lentas levavam esse material a servir de adubo pelos campos do Afonsoeiro, Jardia, Alto Estanqueiro e Atalaia. O Porto da Lama ficava no Montijo, logo a seguir e bem perto do Cais dos Vapores.

Daqui não se vê mas eu recordo a Romaria da Senhora da Atalaia com seus círios, seus peregrinos, seus ex-votos na capela a lembrar os naufrágios nos Invernos cheios de tempestades do Mar da Palha. Íamos de carroça com o vizinho Ilhéu, havia muito povo no arraial entre o pó e o sol, homens a vender água a um tostão a barrigada. Ali já cheirava a Alentejo, uma certa secura de deserto, a obstinada procura de uma sombra. Por isso eu gostava mais de ver os ex-votos com os seus desenhos ingénuos e as suas mais que ingénuas memórias descritivas dos milagres da Senhora da Atalaia.

Em São Pedro de Alcântara alguém caminha olhando o Tejo ao fundo e eu recordo as Festas de São Pedro no Montijo com a «queima do batel» no fim, lá para a meia-noite. E havia gente que se punha em cima dos telhados para ver esse fogo de despedida das festas. Tal como havia gente a passar com tijolos na mão para verem os jogos no campo Luís de Almeida Fidalgo, por detrás do muro, lá para os lados da malhada do Ferra. E o som da bola de cautchú no pelado.