Vinte Linhas 668

«Gaivotas mortas no convés» em 1972 (foto Círculo de Leitores)

Fernando Grade escreveu e Pedro Osório musicou a canção «Vamos cantar de pé» em 1972 para Paco Bandeira cantar no Festival da RTP. Foi a canção número um do sorteio. Mas não ganhou. Nem podia ganhar; soube eu hoje por um acaso de conversa.

Recordemos os versos iniciais: «Vives s em sol fechado no teu quarto / Que fica longe, ao pé do mar / Amigo triste, sombras marés / Gaivotas mortas no convés.»

E o refrão: «Amigo vem deita a tristeza ao mar / Vamos cantar de pé / Quem tem cabeça tem sempre valor / Vamos cantar de pé».

O responsável máximo da RTP ao tempo (um senhor de seu nome Martins) tentou convencer Pedro Osório a levar Fernando Grade a alterar o verso que o senhor achava embirrante – «Gaivotas mortas no convés». Era mais que óbvio o segundo sentido: quem vinha morto no convés dos navios como o Niassa eram soldadinhos bisonhos e não as gaivotas.

Mas o poeta não alterou nem o verso nem uma vírgula e daí as retaliações pois o «colégio eleitoral» que vinha de diversos distritos do Portugal Continental (como se dizia) e ficava hospedado num hotel de Lisboa, logo foi industriado a não votar na canção número um, essa mesmo.

Aqueles versos ficaram atravessados no espírito atento e censório do responsável, o tal senhor Martins. Por isso o vencedor foi outro – a canção «Festa da Vida» cantada por Carlos Mendes.

O poeta Fernando Grade que já tinha preparado a escrita de «Os mortos de Pidjiguiti» a ocorrer em 1974 («Nuvens de vento cortadas a chicote») continuava a perguntar, a perguntar sempre: «- E os crimes meu general? / – Ah, isso foi há muito tempo…Já ninguém se lembra!»

2 comentários a “Vinte Linhas 668”

  1. Depois do 25 de Abril também veio a da gaivota. É uma prova de que a história se repete.
    Essa dizia: “Gaivotas mortas no convés.” Se eram soldados eu teria achado melhor: gaivotas mortas nos porões.
    Mas pronto,cada um é como cada qual e não há 2 poetas iguais.
    Pois, a gaivota depois do 25 de Abril dizia mais ou menos (já não me lembro bem):
    Uma gaivota voava, voava,
    e a filha da puta nunca mais se calava.

    Eles cantavam isto: uma gaivota voava, voava aí umas 200 vezes. Daí a razão do 2º. verso. É que eles (os comunas) nunca mais se calavam.

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