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Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Polícia Municipal – as patrulhas do vazio

Acabo de dar um pequeno passeio pelo Miradouro de São Pedro de Alcântara, seguramente um dos mais belos do Mundo. Nem Edimburgo, que tem um parecido, tem um panorama assim – com castelo, rio e cidade. Nem Bolonha, Veneza, Paris, Madrid, Bruxelas, Amesterdão, Londres ou Roterdão, cidades que recordo de imediato, se podem orgulhar de ter um miradouro assim. Duas turistas espanholas, expressivas e faladoras, salpicam os filhos com pingos de água da fonte enquanto a brisa de Lisboa ajuda à festa.

De repente surgem dois guardas da Polícia Municipal que formam a dois (parece o filme «A Quadrilha Selvagem» de Samuel Peckimpah) e avançam para o lado mais escuro do miradouro, o espaço onde não está a esplanada. Dito de outra maneira: os dois homens avançam para o esplendor do vazio. Eles patrulham uma ausência, um buraco escuro, uma não-coisa.

António Costa anunciou a sua candidatura à Câmara neste lugar. Com o café fechado e as cadeiras empilhadas e guardadas a cadeado, prova cabal e perfeita da incompetência da Câmara de Lisboa. Exigir 2.500 euros de renda num espaço onde isso é impossível de obter a vender cafés e pastéis de nata, só pode ser delírio, maldade ou incompetência. Aqueles dois homens a patrulharem o vazio nesta noite de domingo arrepiam-me. Vivo aqui desde Dezembro de 1976 e já sou mais do Bairro Alto do que da minha terra. Muitas vezes assobio a marcha «O Bairro Alto / Fidalgo e fanfarrão». Aqueles dois homens no vazio causado pela estupidez de alguém na Câmara dizem-me que em qualquer país civilizado um miradouro destes teria a sua esplanada sempre cheia de turistas.


  1. 1 Fernando P

    Cheia de turistas? Cheias de portugueses… Ou será que estes nem de esplanadas gostam?

  2. 2 jcfrancisco

    Com as cadeiras atadas a um cadeado e as mesas em monte é que não há turistas nem portugueses – não há ninguém. Só há o vazio para a Políciai Municipal patrulhar…

  3. 3 Manuel Pacheco

    Nasci num dia frio do mês de Janeiro de 1949. Tive a infância possível para aquela data. Ainda me recordo das brincadeiras dessa altura; o jogo do pião, da montanha, da cagalhufa, dos cowboys, do bate-parede, do caça-caça, dos jogos de futebol entre lugares, em que o dono da bola tinha sempre lugar numa das equipas, acabavam sempre com uma corrida à pedrada e umas cabeças partidas. Até nisto éramos pobres, hoje é só nomes de rua. A propósito há dias numa conversa de desempregados e reformados, hoje é o que está em voga, um meu colega referia-se que havia de de haver uma rua com o nome do pai que tinha sido um grande homem, ao que outro retorquiu: grande homem foi o meu pai que numa família numerosa nunca nos deixou passar fome. Para acabar com a discussão disse que se fosse eu que mandasse em lugar de nomes às ruas atribuía-lhes números como acontece na cidade de Espinho. Mesmo assim corria o risco de ser criticado pelos moradores das ruas, onze e sessenta e nove.
    Mas voltando à vaca fria. Hoje na era da informática é raro vêr uma criança que não tenha uma PSP, lelemóvel ou gameboys. Quando tive uma televisão em casa de meus pais já tinha cumprido o serviço militar. Antes de ir para a tropa não havia lá em casa luz eléctrica, serviamos do candeeiro a petróleo. Hoje vejo os meus netos, tenho dois rapazes, «primos entre eles» um com três anos o outro com sete, a falar ao telemóvel melhor que eu e já homem. Ganhei mais experiência pelo motivo de no serviço militar têr tirado a especialidade de rádio telefonista.
    Com isto não quero particularizar, não era só comigo, era com a maior parte dos miúdos. Hoje, homens com sessenta anos, dá-me orgulho quando os encontro e velo o rumo que todos levamos. Aqui deixo uma saudade a três que nos deixaram, Luís de Sousa Afonso, Manuel Marques Nunes, vítimas de doença prolongada, vulgo cancro, o outro não revelo o nome porque pôs termo à vida, por uma questão de honra.
    Uma vez mais peço desculpa pelo espaço que vos ocupo.
    Cumprimentos.

  4. 4 jcfrancisco

    Amigo – nunca peça desculpa- o seu lugar é entre nós e não ocupa espaço de ninguém. Temdireito ao seu próprio…

  5. 5 claudia

    JCF a dar lugar a outros. Estarei eu sonhando?

  6. 6 Manuel Pacheco

    Manhã de sete de Outubro de mil novecentos e cinquenta e seis.
    Saí de casa acompanhado pela minha mãe para dar início ao meu primeiro ano escolar. Para mim é novidade para minha mãe não. Dois anos antes tinha feito o mesmo com a minha irmã mais velha, Amélia. Depois da chamada ali fiquei com mais trinta e tal crianças, todas do sexo masculino-naquela altura havia escolas masculinas e femininas, era proíbido juntar meninos e meninas-a partir daquele dia ficamos a ser companheiros, a maioria deles, pela vida fora. Tive como professor o Sr. Valente, já na casa dos sessenta anos, ainda bem conservado e de uma disciplina rígida, era um mestre-escola, que hoje em dia a ministra da educação, Maria Lurdes Rodrigues necessitava nas suas fileiras. Quando por algum motivo não podia dar aulas, era substiuído pela sua esposa «também professora» mas a sala de aulas era a anarquia total. Era de uma bondade extrema. Para segurar numa turma como a minha era difícil, só pessoas do género do professor Valente, ou como mais tarde na quarta classe-andei até à terceira classe com o professor Valente-vim a encontrar a Srª. professora Adelina.
    Passei a têr aulas no período da tarde. Todos os dias de manhã deslocava-me à cantina escolar para ir tomar o leite em pó. Naquela altura os mais necessitados socorriam-se destas dávidas para matar a fome. Morava a cerca de um Km da cantina escolar e a minha mãe esfarelava um bocado de broa velha e punha um bocado de açúcar numa malga para eu ir tomar o dito leite em pó. Como ficava um pouco distante a fome e a lambarice eram mais fortes, quando chegava à cantina já tinha devorado tudo, depois só bebia o leite. Ao meio dia lá aparecia para comer o caldo, sopa era para os ricos, e que bom que era, com feijão grande, era uma delícia. Nos dias do óleo de figado de bacalhau bem me apetecia não ir, mas a fome… fechava os olhos e tapava o nariz era assim que o tomava. Quando vinha para o recreio tinha colegas, poucos, com mais posses, desembrulhavam uns pequenos embrulhos e de lá tiravam o lanche e não ofereciam a ninguém. Não podiam oferecer senão não comiam nada. Entre esses ditos abastados havia um que todos os dias me pedia para copiar os meus deveres e eu deixava. Como não me oferecia do seu lanche a partir de um certo dia pus-lhe como condição, ou me dava um pão com manteiga, era o que ele lanchava, ou ia bater a outra porta. Todos os dias ansiava pela hora do recreio.
    A partir da terceira classe veio uma ordem em que os alunos eram obrigados quando entrassem na sala de aulas a vestir uma casaca igual às da mocidade portuguesa, e a cantar o lá vamos cantando e rindo.
    Coisas da vida.
    Recordar é viver.

  7. 7 jcfrancisco

    Amigo – lembrei-me de uam coisa: havia na minha escola no MOntijo três filas – burros, bons e assi-assim. Como já sabia ler e escrever eu estava na dos bons…

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