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«Lavagante» de José Cardoso Pires

No dia 1-5-1962 houve em Lisboa uma grande manifestação popular: muita pancadaria, tiros, mortos, feridos, correrias, cacetada brava, o carro da água e o da tinta azul que sujava tudo e marcava os manifestantes. É nesse tempo e nesse espaço que decorre a acção desta narrativa que tem o subtítulo de «encontro desabitado». Cecília («cabelo claro, busto pequeno, pernas e pés sólidos, uma fria altivez») encontra Daniel num café de estudantes e diz-lhe sem mais nem menos «Importa-se de me levar a casa?» acabando por «ficar uma hora dentro do carro a conversar». Os dois falam de si e do mundo: «Estamos em plena Idade Média com astronautas a voar por cima de nós». Nesse dia 1-5-1962 «enquanto Daniel tratava dos feridos e a cidade andava em guerra, Cecília, no seu quarto de mulher só, fumava cigarros atrás de cigarros». Daniel esteve preso 52 dias e foi libertado ao 53º dia com uma carta de Cecília que explica tudo: «Não me podes levar a mal. Perder-te! Vê tu ao que eu cheguei: perder-me para te salvar! Cheira a fado lamechas que tresanda mas que queres?». O PIDE a quem Cecília se entregou em troca da libertação de Daniel é o lavagante, o animal «de tenebrosa memória, paciente e obstinado que, depois de alimentar o safio e de o ver engordar vem, de garras afiadas, devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo».
Dez anos depois da morte (apenas civil) de José Cardoso Pires a publicação deste inédito surge num duplo registo: descoberta para o leitor actual e homenagem a um grande escritor português.

(Editora: Edições Nelson de Matos, Capa Paulo Condez, Ilustração: Sónia Oliveira, Fixação de texto: Ana Cardoso Pires)


  1. 1 Nik

    Pela amostra, prefiro lagosta.

  2. 2 João Pedro da Costa

    NIk: LOLOLOL

    Eu li o livro. E não me fez nada bem ao colesterol. A milhas d’O Delfim e dos primeiros capítulos do Alpha.

  3. 3 Comendador Antunes de Burnay

    Não é espantoso, o Lavagante. Felizmente é curto, menos de noventa páginas, letras grandes e espaçamento exagerado, tipo Rio das Flores e esses livros que agora há por aí, com muitas páginas e letras iguaiznhas aos meus livros de primeira classe, que dão a ideia ao leitor de estar a ler um livro dos grandes, dos bons.

    Agora de causar espanto é que Nelson de Matos, depois de construir a D. Quixote, se aventure com uma editora. Pequenas edições, nicho de mercado, com gosto, quase uma coisa de amigos, de tertúlia.

  4. 4 Nik

    Gosto de te fazer rir, JPC. Nem sempre consigo.

    Comendador, tanto quanto sei, quem fez a D. Quixote foi a Snu Abecassis, que foi depois concubina do católico Francisco Sá Carneiro. O Nelson de Matos acabou com a D. Quixote. É diferente…

  5. 5 Comendador Antunes de Burnay

    Nik, é verdade o que diz, a D. Quixote foi feita pela Snu Abecassis.

    O Nelson de Matos apenas esteve no período mais interessante da D. Quixote, nomeadamenente editando alguns dos sul-emericanos da minha preferência na colecção Ficção Universal.

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