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«Pequenos elogios» de Joaquim António Emídio

Trata-se do 11º título deste autor (Chamusca, 1955) que se estreou em 1983 com «Os dias sonâmbulos». O ponto de partida do livro é a paisagem povoada da memória do amor:

«gosto do café sem açúcar mas peço-te / por favor um pouco da tua saliva / na minha chávena para aprender / a gostar do café muito doce.» O poeta viaja a partir do seu bilhete de identidade: «Sou um homem do campo / tenho as mãos grandes / e os dedos grossos / de amassar o pão para comer». O lugar da viagem pode ser Roma («depois de subir / uma das sete colinas de Roma / entrei numa igreja / e cheirei as flores de um casamento») ou pode ser a Chamusca: «Os rouxinóis já não cantam / nos salgueiros da maracha / venho de lá agora / pelo caminho das searas / onde o rio é mais livre / sem a lembrança das margens». Não é inocente a referência ao espaço entre terra e água como ponto de encontro para o amor: «vem comigo apanhar sol na cabeça / e ouvir os pássaros da vindimas / que trazem no bico as novidades da vila / e nas asas o cheiro a mosto das adegas». O amor não é uma abstracção e só existe quando os amantes estão perto da Terra: «Amo o teu rosto de lua azul / sonho com a tua saliva doce / de tantos beijos adiados / sou o confidente das ervas / que crescem à tua porta / o sol que entrou pela tua janela / sou eu a correr para ti de braços abertos / um dia vou amanhecer nos teus olhos / e florir nas tuas mãos». A escrita é uma viagem que tem referências: «quem me dera ter nascido / com o coração do Ruy Belo / e o sangue impróprio / do Jorge de Sena». Para o poeta «Os livros são crianças / a morrer de sono / comendo das nossas mãos / o pão e o sonho». Num terreno armadilhado pelo lugar-comum, eis um livro onde a voz própria do poeta se ergue, se articula e se projecta na memória do amor.

(Editora: Terra Branca, Impressão: Europress Lda.)


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