Um livro por semana 288

«África – frente e verso» de Urbano Bettencourt

Autor de 6 volumes de ensaio e de 9 livros de poesia e narrativa, Urbano Bettencourt (n. 1949) assina neste seu 16º título uma revisitação de África onde cumpriu uma comissão de serviço entre 1972 e 1974. O título propõe uma dupla inscrição mas nem no Natal o poema sugere alegria: «sem nozes nem lâmpadas / sem presépio nem padres finalmente / o natal escorre de saudade pelos olhos do soldado / agarrado à breda remuniciada.»

O tom geral é a raiz de mágoa, título do primeiro livro do autor em 1972: «o Pedro morreu com 22 anos, tinha x metros de altura, pesava n quilos, a mina arrancou-lhe as pernas, procurei os restos e reuni-os debaixo de um mangueiro, (…) eu bebi whisky puro toda a tarde.» A alma e o corpo ocupam lugares diferentes: «Do corpo jamais se soube o que foi feito (…) mas a alma, essa mesma que foi enterrada junto ao poilão, é que continua multiplicada e enorme por dentro das noites a assombrar as bolanhas e as florestas, os riso e os poços.»

O poema pode falar dos mortos em geral: «Deixem aos mortos o vinho amargo do silêncio, a taça onde uma flor de sangue aos poucos se desfolha: a paz de pinho que lhes coube é apenas a face iluminada do engano». Ou de um certo morto como o Marques: «O Marques falava demoradamente, o olhar sobre a quietação do rio. É a saturação de tudo. A caserna, o pessoal, a gritaria. Os gestos e as vozes, o rumor das armas, o cheiro e o toque dos corpos.»

Na dupla inscrição a «frente» de África pode ser o poema «Não recordo o número de homens / esqueci o recorte dos ombros / contra a luz do regresso. / Apenas soube guardar de um deles o último pavor / e os seus dedos na minha carne, uma herança de sangue e morte.» Mas o «verso» pode ser esta prosa: «Se calhar, ainda te vais lembrar do tempo de África. Das gentes que viveram um pouco melhor graças a ti. Caminhos, estradas, casas, água potável. Mas a sombra das pessoas que destroçaste há-de seguir-te como um cão açoitado. E as casas a que deitaste fogo vão continuar a arder nos teus olhos.»

(Editora: Letras Lavadas, Foto: Magda Medina, Capa e Grafismo: Urbano)

3 comentários a “Um livro por semana 288”

  1. Oh Xico! Se o rapaz morreu aconselho a Funerária Beleza. Não compres caixões na Funerária Vilaças que são caros comó caraças!

    Funerária BELEZA propriedade de Zé Caixão

    Aqui jaz Zé do Caixão
    que finalmente morreu,
    vendeu mais de um milhão
    e só não vendeu o seu!

    Já agora para ajudar aqui vai um anúncio duma casa de enterros

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    Se sogra é uma jóia
    temos o estojo à venda,
    um caixão p’rá lambisgóia
    e feito por encomenda.

  2. Sem conhecer o autor nem o livro, vê-se que a historia passa-se na Guiné.

    Como já me repeti neste blog, a Guiné está prestes a ser menos um PALOP.

    Estou apenas a denunciar , embora este Aspirina esteja nos antípodas.

    Para que este autor tenha andado por lá para alguma coisa que tenha valido a pena!

  3. fogo, ó xicu franciscu, da forma que apresentas a africa na capa, pá, aquilo lembra qualquer coisa maneta meu.Oube, deixa os mortos em paz, pá, escrebe antes sobre a cátia abeiro, pá e a maxmen, ou a luciana abreu das mamas falsas e os nomes das filhas, oube debes tar cum inbeja, ca gaja pos mais de dois nomes as piquenas.

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