O Júlio era um menino grande que andava aqui pelo Camões, pelo Calhariz e pela Calçada do Combro. À maneira dos galegos do século passado mas sem as cordas nos ombros, o Júlio, menino grande da nossa rua, fazia uns fretes e ajudava as pessoas com a sua força braçal. Caixotes, volumes e recados eram levados pelo Júlio ao destino com perfeição e rapidez. Uma vez por ano o Júlio aparecia na procissão da Semana Santa aqui na igreja de Santa Catarina. A capa que lhe vestiam e o lugar que lhe permitiam tomar na procissão, ora na espia de um estandarte ora duma bandeira, era uma espécie de ressalva de uma vida passada no lado inferior dos alcatruzes. O Júlio tinha 62 anos mas era um menino grande. O seu sorriso na procissão era bem o sorriso bom do menino que uma vez por ano se sentia igual aos outros. Mas os alcatruzes da vida que nunca o puxaram para cima pareciam estar combinados com os alcatruzes do elevador da Bica. O Júlio acabou por cair no buraco da casa das máquinas do elevador. Costelas partidas, contusões diversas, lá foi para o Hospital. Mas por pouco tempo, que os Hospitais de hoje não podem ter as pessoas muito tempo por causa da redução de custos. Por isso, numa casa fria, sem medicamentos, sem comida, sem um olhar amigo, o Júlio, esse menino de 62 anos, morreu. Morreu de solidão porque a assistente social que lá foi com a Polícia voltou para trás ao ver que ninguém abria a porta. Na próxima procissão da Semana Santa o Júlio já não vai segurar a espia do estandarte ou da bandeira de Santa Catarina. Não morreu cortado por uma roda de navalhas como a sua padroeira mas cortado por lâminas de solidão, de vazio e de desespero. E todos nós somos um pouco responsáveis por isso.
Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.
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Pobre Júlio! E o sr. Tabaquinho, que é feito dele?
Mais uma vítima das medidas de restruturação da saúde do Correia de Campos, não é J. C. Francisco?
A tentação da demagogiazinha. Ao menos respeite a morte do Júlio, se realmente gostava dele.
Vocês é que são demagogos. Eu dou a cara pelo que escrevo e não me escondo atrás de falsos pseudónimos. Safa!
1. Garanto que o meu pseudónimo é verdadeiro.
2. O Júlio morreu na solidão porque a assistente social se foi embora ou porque o padre, o sacristão, os meninos de coro, os fregueses da procissão de Santa Catarina, o António, a Laura, o José Carmo Francisco se esqueceram da sua existência?
Pode-se falar da solidão, da pobreza, de tantas ausências, presentes na história de vida do Júlio…
ou ainda da beleza do texto…
mas não, tenta-se diminuir o seu autor.
Porque será?
O meu pseudónimo também é rigorosamente verdadeiro. O texto é bom, mas o aproveitamento para falar sobre os hospitais era escusado. Subscrevo a interrogação pertinente do Zeca Diabo.
Sim, não teria sido preciso falar dos hospitais. Dizia-se que o Júlio morreu porque partiu as costelas, e pronto. Da mesma maneira que os bebés que morreram a caminho do hospital não foi por causa da ambulância nem de não haver hospital mais perto. Nada do que acontece de mal neste país é por culpa do governo. Rigorosamente nada. Porque este governo não se engana nem nos engana, e só serve para provocar belos textos como este do JCF.
1. Daniel, é sempre mais fácil culpar o Governo, o azar, o Fado, que enxergar a crua realidade: o homem morreu porque nenhum vizinho quis saber dele.
2. É verdade que a tristeza, a dor, a miséria, a morte, o luto, proporcionam textos sublimes.
3. Estou um bocado farto de neo-realismos lamechas. Que tal levantar o cuzinho da cadeira e fazer alguma coisa pelos Júlios em vez de compôr belas lamúrias post-mortem? Para variar?
Zeca Diabo
Não faço ideia se o teu lado de Zeca é superior ao de Diabo. Já levantaste o cuzinho hoje para ajudar alguém? E o Estado tem de confiar nas boas vontades ou de garantir o essencial? Eu sei que é fácil culpar o Estado. E, sobretudo, é fácil culpar um Estado que tem culpas graves. Embora custe, como cidadão deste país que eu amo mais que tudo.
Eu, por acaso, acho que o Estado tem responsabilidades. É por isso que quase 1/3 do que ganho entrego ao Estado, para que Estado levante o cuzinho da cadeira e faça a gestão daquilo que eu e toda a gente lhe entrega. De preferência uma gestão bem feita, em que sobrasse alguma coisa para os Júlios todos deste país. E esse 1/3 faz-me bastante falta. Ou trocado por dias: 10 dias por mês eu levanto o cu da cadeira e trabalho *só* para entregar o que ganho nesses dias a esse tal Estado. Chamam-se impostos e é isso que nos permite dizer que os tipos gerem muito mal o nosso dinheiro e o resto é que é conversa.
Belíssimo texto, José Francisco.
Totalmente de acordo com o Zeca Diabo. A culpar-se alguém, que não em primeiro lugar os excelentes e magnânimos amigos póstumos do Júlio que nada fizeram por ele em vida, talvez se devesse olhar para as bandas da Carris, que não tem uma vedação em volta do fosso, mas apenas uma tampas levadiças, tipo alçapão, que já vi abertas durante horas, com risco para quem ali passa, crianças sobretudo. Não é que o Júlio não conhecesse o fosso e o perigo, bem pelo contrário. Mas para velar pela segurança e saúde públicas é que são necessários organismos de fiscalização tipo ASAE e quejandos, com mão pesada de preferência. Num país civilizado, isto dava um processo à Carris e uma indemnização à família… que o Júlio se calhar não tinha. O que me chateia e enoja é ver certos abutres à procura de assunto lamuriento para matéria de acusação política, quanto mais demagógica, melhor. E esta puta desta mania portuguesa de olhar para o Estado em geral como se fosse uma teta gigante, mais o padrinho e a madrinha juntos, em véspera de Páscoa?
Milagre! A Santa Catarina veio em socorro do freguês!
Daniel, acreditarias em mim se eu aqui me gabasse de tudo o que faço em prol de vizinhos ou desconhecidos desfavorecidos?
Catpirata ;), o Estado pode ser parceiro mas nunca pai e mãe. Ou vizinho.
E o burro sou eu? E o burro sou eu?
Ora que que vinha aqui mandar mais umas quantas sobre impostos e berrar mais um bocado, pronto ali o Zeca já me lixou. :D Fiquei logo conciliadora.
Sim, o Estado não é pai nem mãe nem vizinho. Mas sobrassem uns pozinhos para as Juntas de Freguesia ou os bairros terem um sítio simpático onde os vizinhos se juntassem e se conhecessem. Se calhar já ajudava não?
Quanto ao Nik e ao processo à Carris e indemnização à família totalmente de acordo. Mas cá não serve. Sigo um blog de uma rapariga que há anos partiu a perna no metro e não ficou muito bem. Precisou de operações e mais operações e o metro demorou anos a assumir a culpa e a accionar o seguro…
Ah já agora faço notar que, quanto à teta gigante, não sendo o Estado uma vaca leiteira nem produzindo o que quer que seja, do lado de lá da dita teta estão os contribuintes.
Sobre o Estado e os Partidos já Raúl Brandão disse em 1908 «Não se entendem, não. Todos querem comer e não chega para todos…»
Como diabo queriam que o Estado atribuísse reforma a um menino? Daí o resultado! O Hospital como instituição que zela por todos tomou a resolução possível.
É tocante a homenagem, não fosse a frase do hospital. No entanto sem a historinha do hospital resta o velório do Júlio, cru, acompanhado pelos amigos e vizinhos que o visitaram em convalescença.
O Estado é mesmo nosso amigo, até eternizou a morte do Júlio.
Tenho que pedir perdão ao Júlio por falar assim sobre ele, eu que nunca fui honrado pela sua presença e de maneira alguma o quero ofender, mas só assim posso comentar depois de tanta baboseira ler.