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Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



ESTRADA DE MACADAME

CXC – «As cavacas do Gato Preto estão na minha vida há mais de 50 anos»

Desde o tempo da «estrada de macadame» que me habituei a ver o meu avô ou a minha avó de Santa Catarina a chegarem das Caldas com um embrulho de cavacas do Gato Preto. Se o calor as fazia duras derramava-se um cálice de vinho abafado ou, em alternativa, do vinho comum. Quando fiz os exames da terceira e da quarta classe na Escola Primária ali ao pé do Parque em Abril e em Julho de 1961, tive um fato do Chiado como prenda mas as cavacas do Gato Preto nem foram prenda porque já estavam destinadas ao aluno que «ficou bem», ainda antes de o exame começar. No dia do Pai de 2009 fui às Caldas, passei pela Livraria 107 e pelo Gato Preto, passei pela redacção da Gazeta e fui almoçar com o meu pai às Cruzes. O dia estava correr bem. Falei com os meus três filhos e ao fim da tarde a ASAE estragou-me o dia. Parei na Associação Cultural e Recreativa de São Salvador e Espinheira para tomar um café e vi as pessoas muito tristes. Tinha sido a ASAE que os tinha multado por não terem livro de reclamações. Repare-se que nem sequer puseram a hipótese de dar 8 dias ou 15 para eles procurarem arranjar um livro de reclamações. Foi logo multa para cima do pessoal. Ora a ASAE, que é uma coisa assim como os fogos florestais (queima tudo à sua volta) nem sequer considerou que aquele café pertence a uma associação (fundada em 1-5-1974) que ajuda os idosos e as crianças numa povoação que tem 180 habitantes. Além do mais, tratando-se de um associação cultural e recreativa, está sempre presente um elemento da direcção da colectividade o que faz com que qualquer possível problema seja resolvido in loco e em pouco tempo. A minha revolta foi tal que de imediato escrevi um texto que coloquei na Internet (www.aspirinab.com) e as Câmaras Municipais da Azambuja e do Cadaval souberam do caso e ajudaram a direcção da colectividade a pagar a multa.


Vivemos um tempo complicado e não me admirava nada que um dia as leis europeias que aqui nos chegam em transposição para a lei nacional (como se diz em politiquês) venham a proibir as cavacas das Caldas – incluindo, claro, as cavacas do Gato Preto. Tremo só de pensar que os burocratas de Bruxelas, fechados em gabinetes e ganhando fortunas à nossa custa, resolvam acabar com as nossas cavacas. Se tal vier a acontecer temos que tomar providências. Para começar devemos preservar a receita. Esta é uma possível: «Tomam-se 300 gramas de farinha, 30 gramas de manteiga, 6 ovos e glace de açúcar (feito com 300 gramas de icing sugar, 2 claras de ovos e uma colher de chá de sumo de limão). Peneira-se a farinha para um tijelão e juntam-se os ovos um a um, batendo fortemente até obter uma massa bem ligada e consistente que se amassa com manteiga amolecida em banho-maria. Untam-se muito bem com azeite forminhas de empadas e enchem-se com a massa até ¾. Carregam-se no meio com o dedo polegar enfarinhado para lhes dar o clássico feitio das cavacas. Cozem-se em forno esperto. Logo que saem do forno tiram-se das formas e põem-se a arrefecer. Em esfriando, barram-se com a glace e deixam-se secar, separadas, sobre uma tábua húmida».

Mas depois de preservar a receita (que só deve ser usada em último caso) o melhor (para mim) é mesmo continuar a comer as cavacas do Gato Preto, numa fidelidade que já vem dos meus tempos de criança. Hoje, 55 anos depois, sou avô e a minha filha Ana já pôs o meu neto Tomás em Londres a aprender a gostar.


  1. 1 Manuel Pacheco

    Como os anos passam e trazem-nos à memória o tempo passado. Fez ontem dia 18-07-2009, 49 anos que iniciei a minha carreira como trabalhador numa fábrica de moveis. Fiz a 4.ª classe, antes oito dias. Era filho de uma familia humilde com cinco filhos, áquela data, hoje tenho mais nove irmãos, sou o segundo filho mais velho e naquela altura o que nos esperava era tentar fazer a 4.ª classe porque o nosso destino estava traçado. Tanto valia ser inteligente, se fosse filho de gente pobre, sabia que tinha as fábricas de moveis à minha espera e ganhava 10 tostões por dia. Dinheiro esse que somado ao do pai e de uma irmã que era criada de servir num senhor Doutor em Santo Tirso, ajudava a minorar o equilibrio quinzenal; nessa altura recibia-se à quinzena. Era um aluno média alta, mas como referi atrás as condições económicas não davam mais esperanças. Naquele tempo não havia liceus nas proximidades a não ser S. Tirso ou Guimarães. Hoje tudo é perto, antes era uma eternidade para lá chegar. A primeira vez que vi o mar foi num passeio da catequese, de borla, porque não tinha dinheiro para esse fim.
    No dia 13 Dezembro celebra-se na minha terra a S. Luzia, mais conhecida como feira dos capões e nós miudos aproveitavamos esse dia para carregar capões a troco de uma pequena gorjeta. Nesse dia coube em sorte a mim e a outro colega, carregarmos uns capões num percurso de duzentos metros, quando chegamos à viatura, deparamos com um motorista fardado a preceito que meteu os capões na mala do carro. De imediato o Sr. meteu a mão na algibeira e deu-me uma nota de vinte escudos e ao meu colega a mesma quantia mas em moedas, nessa altura retirei a mão pois não acreditava naquilo e tive medo de receber tanto dinheiro – o habitual era dar vinte e cinco tostões e em trajectos mais longos. O Sr. fez questão para nós aceitarmos o dinheiro que era dado com todo o prazer. Passado pouco tempo encontrei o meu pai dei-lhe o dinheiro, nesse ano fui padrinho de uma minha irmã e disse ao meu pai para lhe comprar uma prenda. O meu pai ficou admirado e disse-me deve ser um santo quem te deu o dinheiro. Nessa altura o meu pai não ganhava mais de vinte escudos por dia. Aos trinta e cinco anos andei em explicações, autopropôs-me a exame do sexto ano e num grupo de vinte e sete fui o único a passar a tudo. Acabei por ficar por aí pois a minha vida familiar complicava-se, saía do trabalho ia para explicações jantava tarde e a minha família era prejudicada. Hoje tenho pena e que inveja, no bom sentido, tenho de você e Valupi por escreverem tão bem. Peço desculpa por este comentário não sei se o vão publicar, mas faz bem ás vezes desabafarmos.
    Cumprimentos

  2. 2 jcfrancisco

    Meu Caro – eu nasci em 1951 em Santa Catarina (Caldas da Rainha) e também ouvi muitas vezes a frase terrível «Os filhos dos motoristas não vão para o Liceu» mas fui sempre um revoltado e, por isso mesmo, tendo começado a trabalhar num Banco aos 15 anos nunca desisti de escrever… Fez bem em escrever e nunca peça desculpa quando deixa falar a emoção…

  1. 1 Filho de gente pobre at Aspirina B

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