Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



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Se o espaço deste romance é a Rua do Arsenal, o tempo é o tempo português dos anos 60 do século XX: «Aos novos, levava-os a guerra. Outros fugiam a salto para França. Os menos afoitos não resistiam ao encanto das luzes da capital.». Luís chega da sua terra a Lisboa olhando para os títulos de uma vitória do Benfica à porta de Santa Apolónia. Começa por descobrir os cafés: «juntou-se a uma tertúlia que abancava no Café Império, mistura de marialvas, amantes do fado, alguns estudantes e até forcados.» Cansado de ouvir na televisão a preto e branco «Adeus até ao meu regresso», participa na campanha eleitoral de 1969, mas acaba preso pela PIDE como se lê no bilhete entregue a Cecília: «O Luís foi preso. Deve estar em Caxias. Não me procure. PS – Consta que foi um Silveira do Técnico que o acusou.» Trata-se de Fernando António, o primeiro marido de Cecília. Ele simboliza o Portugal «velho» enquanto Luís surge como o Portugal «novo» ao lado de quem Cecília vai ouvir a célebre frase «Aqui Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas!». Entre dois mundos opostos, Cecília rejeita Fernando e corre para Luís na Rua do Arsenal, a rua onde se começaram a amar. A mesma rua onde foi assassinado o rei D. Carlos e o príncipe Luís Filipe em 1908 e mesmo ao lado da Câmara onde foi proclamada a República em 1910. Depois de Bichos do Mato com o olhar da guerra colonial, este Rua do Arsenal desenha em páginas vibrantes o mundo cinzento dos escritórios, dos cafés, dos estudantes e dos polícias que povoaram a Lisboa dos anos 60. Quando os homens «enchiam os bolsos de esperança» e fugiam a salto, que o medo «não matava a fome».

Editora – Palimage

José do Carmo Francisco


  1. 1 fv

    Zé do Carmo,

    Boa informação nos dás.

    Permite, todavia, que comente um pormenor.

    Na tua frase «Cansado de ouvir na televisão a preto e branco ‘Adeus até ao meu regresso’», a anotação «a preto e branco» está aí claramente para dramatizar, para infundir incómodo à situação.

    Ora (é preciso lembrar estas coisas a um jovem), a televisão era-nos tranquilamente a preto e branco, outra não havia e, acredita, nem com outra se sonhava.

    É, pois, um dramatismo forçado. Neo-realista no pior dos sentidos.

    A virtude, na escrita, é a sobriedade. Mesmo se encenada, claro.

  2. 2 Kaos

    Está a decorrer uma greve geral de blogs. Se desejares participar podes copiar a imagem que está no meu blog. Obrigado
    Um abraço

  3. 3 josé ferreira marques

    Relativamente ao comentário de fv (Fernando Venâncio?), que classifica a expressão «Cansado de ouvir na televisão a preto e branco” de “dramatismo forçado” e “neo-realista no pior dos sentidos”, o autor de Rua do Arsenal informa que essa expressão não existe no texto do livro.

    cumprimentos

  4. 4 Anónimo

    Quase fui levado ao mesmo engano.
    Depois, a tempo, reparei melhor.
    Ainda bem que veio JFM a esclarecer o que era um pouco fluido.

  5. 5 Fernando Venâncio

    Caro José Ferreira Marques (e Anonymous):

    Eu tive o cuidado de escrever «na tua frase». O neo-realista em acção é o Zé do Carmo.

    Não lhe(s) foi claro?

  6. 6 José ferreira Marques

    Obrigado pelo esclarecimento.

  7. 7 Anónimo

    Claro, FV!
    O meu ‘um pouco fluido’ referia-se ao post e não ao comentário.

  8. 8 TC

    “É, pois, um dramatismo forçado. Neo-realista no pior dos sentidos. A virtude, na escrita, é a sobriedade. Mesmo se encenada, claro.” Ele, fv, diz que não, que não estava a referir-se a “Rua do Arsenal” mas à informação que sobre este romance publicava José do Carmo Francisco. Pode ser que sim, e quem é quem para mover contra quem quer que seja processos de intenção, ainda por cima sumaríssimos! Não o faço, mas lá que parecia que era para o romance (para o autor do romance) o remoque, isso parecia, tanto mais que gastar tanto latim de pendor crítico-literário com uma informação de meia dúzia de linhas parece, no mínimo, excessivo.
    Dei-me ao trabalho de vir a terreiro com o que antecede por considerar que “sobriedade” é precisamente o que se ensina em “Rua do Arsenal”. Sobriedade e contenção. E bom-gosto. E escrita límpida, escorreita. E fácil, como é sempre fácil toda a escrita com muita oficina. Quanto à sobriedade e contenção de que falo veja-se, por exemplo, no romance, a “ligeireza” com que (não) se trata a passagem de Luís pela Faculdade de Direito. E como são baças (e parcas) as cores com que se descreve a prisão do mesmo Luís no mesmíssimo cenário — Reitoria/Faculdade de Direito. Aqui, no dito cenário, José Ferreira Marques fugiu a sete pés da facilidade. Aqui, onde podia navegar como peixe na água e fazer uns brilharetes, retraiu-se, recusou a meia dúzia de páginas de encher chouriços que facilmente lhe renderiam os seus tempos de faculdade. Fê-lo com notável sobriedade. E com bom-gosto, servido pela sua escrita límpida. Escorreita.

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