A orelha que adivinha reloaded

Sentia a orelha direita gelada, o que me obrigou a um doloroso coitus interruptus. E logo naquele dia, que tinha engatado a Jolie. Acordei. Estranhei que tivesse acontecido com aquela orelha, porque a outra (a esquerda!) é que estava ao léu, mas vá lá um gajo travar-se de razões com uma orelha – é parte do corpo que não nos encara de frente. Podia dizer que são só garganta, não fora cair-se um bocado no non sense – e logo num post que se quer sério, afinal trata-se de uma estória verídica! Eram seis da manhã. Raisparta a minha vida, o sonho já não o apanho outra vez, qu’isto dos sonhos é malta que não espera por ninguém. Encostei-me mais dez minutinhos (não confundir com dez minutos). Meio-dia! Acordei como se tivesse sido atropelado por um cowboy – resultado, muito provavelmente, da carga de porrada que levei do Brad Pitt (afinal, alguém esperou por mim) e das trinta e seis vezes que calquei no snooze do despertador. Foram por trinta e seis vezes só mais dez minutinhos. Deviam pôr pernas no cabrão do despertador assim que se carrega a primeira vez. Isto dá cabo dum homem. Tomei o pequeno-almoço e almocei – não gosto de quebrar rotinas. Uma taça de cereais, meio litro d’água, uma sopinha, um bife grelhado com batatas fritas e ovo a cavalo. No bife. Uma laranja. Cheguei à repartição a tempo da abertura da tarde, com ar de quem estava em paz. ‘Tão, pá? Kékspassou, meu? O chefe nem vai acreditar. Faltou a luz na minha área e o despertador não tocou / tive um acidente / a minha tia morreu / o meu cão passou mal a noite / estou muito triste. Optei pela última (hás-de pagá-las caro). Tinha faltado de manhã porque estava muito triste. Era oficial. Já não podia voltar atrás. Esperei pela desova. Vai-te sentar que já lá vou falar contigo. ‘Tou fodido. A minha mesa estava um verdadeiro caos. Resolvi arrumá-la para que o chefe não pegasse também por aí. No meio do labor deixei-me dormir – tal era. Voltei à Angelina.

O chefe acordou-me com um beijinho na orelha direita. Eram sete da tarde. Não havia mais ninguém na Repartição.

7 comentários a “A orelha que adivinha reloaded

  1. Afixe,

    Perfeitamente verosímil. Duma ponta à outra. Se não se passou contigo, teve de passar-se com outro. A estatística é inflexível.

    Só há um probleminha. Nada de grave, meu. Mas chega para a pulga. Essa tal, num sítio que o teu chefe agora também descobriu, o marau. E é isto: se dormiste o que estava no despertador, mais o que durou a luta com o snooze, como é que foste dormir depois a tarde inteira, quando nem sequer bebeste nada de ensonante ao almoço?

    Tens de ver isso. Há médicos para o efeito, e talvez tenham até já inventado nome prá cena.

  2. Esqueci-me de assinar o comentário anterior.

    Aproveito para te dizer que tens razão, Fernando. Não se passou comigo (infelizmente não “não trabalho” numa repartição), mas já há-de ter acontecido.

  3. Como é que é? «Infelizmente»? Gostavas de trabalhar, ou mesmo de «não» trabalhar, numa repartição? Que gostos, santo Deus!

    Pois, se calhar és dos das liberais… e invejas o ordenadozinho ali certinho. Não invejes. Não tem aventura, não tem poesia.

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