Paraísos perdidos

ao José Rentes de Carvalho

Nesta casa já se dançou a pavana, num tempo em que as damas da família sabiam dissimular o queixo delicado atrás de leques andaluzes, à sombra frondosa das nogueiras. Havia um piano vertical na sala das visitas. E entre a leitura dos folhetins recortados d’O Século, e a bruma evanescente de paisagens campestres a amanhecer no cavalete das aguarelas, por certo alguém, à tarde, punha a rodar na vitrola de corda uma ária do Caruso, uns acordes de zarzuela, enquanto duas donzelas ensaiavam coreografias de salão, entre javas e habaneras. Cheirava a terra a chuva de Setembro e os galos cantavam no ar de vidro de Janeiro, assim terá sido há muitos anos, antes de o mundo dar sinais de começar a morrer.
Quem primeiro morreu foi o patriarca que construiu a casa, ou a mandou fazer assim tão regular e adequada. Havia nela um tão exacto casamento entre função e forma, que por trás se lhe adivinha grande paixão e muita sabedoria. Depois foram as damas que partiram, e consigo levaram o piano, o Caruso e os anelos adocicados, para terras menos agrestes e remotas do que estes fins do mundo.

Jorge Carvalheira


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Ficou a casa a cargo dos caseiros, que mais tarde a compraram, subindo e descendo vai a roda do mundo, tanto que alguma vez a história há-de mudar de qualidade, se não são antes os homens que, ao fazê-la, mudando vão. E assim nesta casa fomos nascendo todos nós.
Descíamos todos os dias as escadas de granito antigo, já polidas por gerações de passantes que no gesto nos antecederam. Por certo, em alvoradas já esquecidas, tinham forçada primazia os tamancos ferrados da criadagem, chamada a calar as exigências matutinas dos gados domésticos. E só mais tarde, havendo sol, chegava a hora das botinas das damas descerem ao jardim, a aspirar os primeiros pólenes da primavera, a distribuir bênçãos de mão aos junquilhos floridos, que atestavam a migração definitiva do inverno.
A casa era uma unidade agrícola perfeita, e nela havia lugar para todas as figuras desse passado mundo, com cómodos privados e requintes próprios de damas e senhores, com aconchegos para a criadagem e os serviçais da jorna, com aposentos para os bichos de todo o tipo que cabiam no quadro, e um vasto quinteiro rodeando a casa, onde se acomodavam os apetrechos rústicos, uma adega húmida que alegrava aquelas sedes todas, e fundas arcas de castanho que cheiravam a cereal. Por isso havia naquelas escadas a plebeia dignidade das coisas verdadeiras, criadas para servir os ditames da vida, sem favorecimentos nem discriminações.
Nós não tínhamos então, e não tivemos por muitos anos, qualquer consciência disso. Éramos cinco ganapos de alturas variadas, chegávamos ao fundo da escadaria e sentávamo-nos ao redor da nossa mãe, que ultimava no caldeirão de folha o repasto dos cevados impacientes, já roendo as gáspeas da porta do chiqueiro entre grunhidos e encontrões. Não sabiam eles que de nada lhes valia a pressa, ali bem perto iriam acabar, deitados à força no banco dos condenados quando chegasse o Natal, enquanto gritavam ao mundo o seu protesto lívido, e a lâmina fatal lhes abria caminho para o coração, através da opulência roxa dos peitos.
O caramanchão da glicínia começava logo ali, era um manto rosa-paixão a cobrir o terreiro onde corríamos, indiferentes ao zumbido macio da legião das abelhas, finalmente saídas da colmeia. O perfume das flores rosadas juntava-se à doçura de mel dos cachos da robínia, que rescendiam na aragem, e espalhava-se em cascata sobre a ladeira que descia para os tanques da água, entre paredes de pedra que a vinha-virgem começava a cobrir de verde.
Depois do segundo lance de escadas, por baixo do pequeno mirante, havia o jardim das camélias, e era um luzimento de cores e matizes quando chegava a Páscoa, e começavam as romarias às ermidas. Vinham mordomos das terras em volta, com cestos fundos de verga e largo fervor devoto. Sofriam as japoneiras os ramos destroçados, e os lírios, e os lilases, era aquilo outra matança de inocentes. Mas oragos e outros santos de pau das redondezas mereciam bem a festa de um dia, pela canseira do ano inteiro a cuidarem do mundo.
Ao lado das romãzeiras, de pequena flor rubra escarlate, duas palmeiras de tronco peludo abriam no ar os leques pontiagudos que grasnavam na brisa, e foram elas as primeiras vítimas do machado verdugo. Decepadas no chão apodreceram durante anos e nunca ninguém explicou porquê, acaso são iguais todos os altares de sacrifício, vãos caprichos de medonhas divindades ocas. Ao abrigo dum canto uma olaia suave protegia os cortiços das abelhas, enquanto não chegou, para ela também, o inexplicável dia fatal.
No inverno, quando os nevoeiros se colavam às paredes sujas da aldeia, gotejando dos beirais grossos fusos de cristal de gelo, melros negros apareciam no telhado e apontavam a seta urgente dos bicos à ramagem da oliveira, e às bagas rubras da árvore de Natal. E quando uma e outra também desapareceram, ninguém soube avaliar se mais perderam os melros em poiso e alimento, se maior foi a nossa mágoa ao descobri-las ausentes da paisagem.
Aos cantos do jardim florescia o barroquismo excessivo das peónias e gipsofilas, entre chorões rasteiros e dálias e narcisos, cujos bolbos migravam por ali ao sabor do remover das terras. Festões debruçavam-se dos muros verdes de hera, e longas grinaldas de Maio acenavam ao sol peregrino que voltara. Ao longe, entre pinheirais, o vento amaciava a cabeleira das searas, enquanto no vale, separando várzeas, corria a ribeira onde as rãs gritavam sem descanso a aflição urgente da reprodução.
Lá para os fundos da casa o quinteiro alargava-se. Em redor havia lojas onde inquilinavam gados de trabalho, vacas loiras que ruminavam babas eternas e viviam aos pares, na vida e na morte como bíblicos casais, e tinham estranhos nomes de frutos, e olhos melancólicos, e vastos lombos que arrastavam o mundo. O largo portão vermelho era uma fronteira, ali ao cimo da ladeira que dava para o quintal, e os batentes de granito, onde encaixavam as dobradiças presas a chumbo, tinham a mesma imponência dum forte de Elvas. Também lhes foi fatal o agigantado porte, um dia desapareceram, e hoje só o vazio das imagens antigas lhes preenche a ausência, à sombra da nogueira que uma qualquer moléstia fez desabar há muito.
À flor da terra corriam inquietas águas frígidas, abríamos os tanques de pedra entre algazarras sem fim e deixávamos os pés mergulhar na frescura da terra, o veio lá ia ao encontro dos pés de milho e das verduras da horta, das raízes sedentas da buganvília e dos troncos donde pendiam ginjas garrafais. Ao longo do quintal desenhava um ângulo recto a carreira dos buxos, a espaços cresciam nela árvores aos pares, e em chegando o S. João trepávamos às copas em busca do tépido milagre dos ninhos, onde os pintassilgos e as carriças se afadigavam a alimentar a gula rósea dos bicos de nácar dos filhos.
Às vezes chegava-nos da rua o sobressalto festivo do tambor das potricas. Um rapazola batia a caixa pelas ruas, a chamar o povo, enquanto um homem de bigodes, de macaquito ao ombro, anunciava ao respeitável público os artísticos dotes da afamada contorcionista, uma magricela que tomávamos por sua filha e olhávamos com admiração, enquanto ela se torcia toda, enleando pernas e braços. A mãe estendia o rectângulo esgarçado do tapete sobre a calçada do adro, incitando uma cabra desesperada ao improvável equilíbrio das patas sobre o gargalo duma garrafa escura. A nossa emoção crescia à medida dos seus falhanços, e só esfriava quando a beldade, de chapéu na mão, dava início à ronda da assistência, convidando ao óbolo devido.
Não sei dizer que ventos de perdição se abateram sobre esse mundo antigo. Aprenderam-nos os olhos a ver abrindo-se a tantas cores, não nos afinaram os ouvidos por outras sinfonias que não fossem as da natureza, e outro alimento não nos bebeu a alma, para além desses tantos aromas e emoções. Assistíamos ao milagre hesitante dos botões das rosas de Alexandria que rebentavam em Abril, acaso foi exagerado privilégio nosso, num tempo e num lugar remotos onde a vida da gente era faminta, rudíssima e imunda, como vida de béstias, que o mundo desprezava.
Aos poucos foram degolados os loendros, sumiu-se o escarlate impúdico dos hibiscos, das ginjas garrafais ficou apenas um sabor na memória, e na paisagem nenhuma sombra resta das copas escuras dos buxos altos. Grossas paredes de granito antigo, que albergavam a eternidade, cederam lugar a tijolos fúteis de cimento, só uma fada malvada podia obrar tanta malfeitoria. É verdade que também nas encostas, ao longe, nenhuma árvore resta, a brisa corre em vão sobre plainos vazios, e o dorso benfazejo e protector dos montes ficou este espinhaço descarnado, de monstros fósseis de antes do dilúvio. Talvez o mundo esteja a morrer de vez, se não foram os deuses que o tiraram do cuidado, cansados de não saber o que fazer com ele. E no entanto a vida estava ali, cheirava a terra a chuva de Setembro, cantavam galos no ar de vidro de Janeiro.

Jorge Carvalheira

5 comentários a “Paraísos perdidos”

  1. É sempre com prazer que se lê um texto seu.
    Pelo poder descritivo e a riqueza de vocabulário, merecem realmente ser lidos e relidos.
    Mesmo quando mais agressivos e incisivos, que não é de modo nenhum este o caso. Pelo contrário, ressalta um cheiro de doce saudade.
    Muito belo

  2. Esta redacção (sem qualquer intento de ofensa ou ironia, apenas pretendo usar uma referência técnica) parece-me o esboço para uma síntese futura, ou síntese para futuro desenvolvimento. Está, no meu (limitado, claro) perceber e sentir, num terreno híbrido, entre o fulgor úbere da presença e o lamento estéril da ausência.

    Também desconfio da bondade do léxico, do seu modo antológico. Mas ele desperta, em simultâneo, o desejo de um grande romance. Uma grande viagem, com outro tempo e outros rasgos na superfície da memória, a esse ar de terra molhada; o qual – desculpa lá, Jorge – nem desapareceu, nem irá desaparecer.

  3. Sempre me desconcertaste, Valupi. E agora mais uma vez.
    É que deste um pontapé no ponto exacto.
    O futuro, esse, dizem que a Deus pertence.

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