Epifania

A frase primitiva é benesse dos deuses, há-de ser verdade, se o disse um francês. Aparece à hora mais acidental, e fica a iluminar o que obscuro andava, a ruminar saída na treva original. Umas vezes é primeira. Porém outras a última será, mas sempre definitiva e terminal.
Depois é dar as outras ao papel, que saem em torrente, antes que um vento as leve. É roçá-las nos lábios, devagar, para arredondar arestas. É impor uma cadência, sondar uma harmonia, tentear-lhes o ritmo, forçar um andamento. A língua do leitor há-de lambê-las com volúpia, e essa não é contorcionista, nem gosta de fazer saltos mortais.
Dizem que tudo parte dum bafejo dos deuses, e eu não sei como se avêm os ateus. Mas já me fui deixando de ateísmos.

Jorge Carvalheira

7 comentários a “Epifania”

  1. Meu Caro Jorge
    Como é que eu vou retribuir um pouquinho essa beleza de textos que me fazem uma inveja danada? Ao menos valha-me a sorte de poder lê-los.
    Talvez com um poema que me dizem que o Fernando Venâncio descobriu no espólio de uma família judia em Amesterdão. Tratar-se-ia da segunda parte, ou de uma segunda cantiga a continuar o tema (“partindo-se”), de João Roiz de Castelo Branco, que, pelo nome, talvez pudesse ser judeu também. Será verdade, Fernando? (Pergunto quanto ao achado.) Vai a cantiga e o provável apócrifo.

    Senhora, partem tão tristes
    meus olhos por vós, meu bem,
    que nunca tão tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    Tão tristes, tão saudosos,
    tão doentes da partida,
    tão cansados, tão chorosos,
    da morte mais desejosos
    cem mil vezes que da vida.
    Partem tão tristes os tristes,
    tão fora de esperar bem,
    que nunca tão tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    Partem tão tristes os tristes
    Por deixarem de vos ver.
    E inda mais tristes os vistes
    Porque vos viram sofrer.

    Se na hora da partida
    meus olhos deixam de ver,
    cegos pela despedida,
    nada mais quero da vida
    que não seja só morrer.
    E, vendo os vossos tão tristes,
    percebo neles, meu bem,
    que nunca tão tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

  2. Daniel,

    Confere. A família judia está, de momento, em férias na Floresta Negra (só pra chatear). Guardam o manuscrito num relicário, em casa.

    A transcrição que fiz foi a melhor que se pôde. ‘Acóprifo’ é, claro, um exagero micaelense.

  3. Meu Caro Fernando
    Fazes-me lembrar uma personagem que criei e que ganhou nas calmas um concurso de mentiras. (Não era político, não.) Sendo o último a concorrer, e depois de ter ouvido as maiores barbaridades, apontou os outros concorrentes e disse: “Estes estão todos fora do concurso. Tudo o que eles disseram é verdade.”

  4. Se alguma retribuição aqui se justifica, meu caro Daniel, ela vem-me em excesso com esta novidade, para mim completamente nova.
    Sempre me bastou a cantiga do Castel Branco, o mote, a glosa, para me ver tomado de zelos.
    Trazes-me tu agora essa novidade, que o rato do Fernando andou a farejar.
    Grato te fico, embora também confuso. Dois refrões sugerem duas composições. Mas a segunda não é autónoma, não pode existir sozinha.
    Enfim, questão para os encartados. A mim basta-me a comparação. A primeira é a perfeição absoluta. A segunda tem umas rugas.

  5. Meu Caro Jorge, essas “rugas” devem-se a duas causas. A primeira, porque o autor não foi capaz de evitá-las; a segunda, para que olho atento percebesse que se trata de pura “patifaria”. No entanto, apesar de outros cuidados, já me andam por aí uns sonetos à maneira da Natália Correia que lhe foram atribuídos (salvo seja!) e um sermão a modos de Viera que a revista “Brotéria” tomou como sendo dele mesmo. (Neste caso, dose dupla de “salvo seja!”)

  6. Daniel, então sempre é verdade que o mundo anda cheio de patifes e montadores de emboscadas, contigo a fila-guia?!
    Ora porra! Logo agora que eu estava a pontos de me converter!

  7. Não faço ideia daquilo a que querias converter-te, meu Caro Jorge, mas se é a coisa boa, fico imensamente compungido de não conseguir deitar-te do cavalo abaixo. Suponho que não haverá raio que facilmente te derrube.
    Desculpa este vício, mas, quando gosto de um estilo de outro, tento imitar. No entanto assino com o meu nome. Deixo-te mais um exemplo desta minha mania das imitações.
    Senhor – Hesta verdade he puvriqua e bem sabida que asy como a sargento que sube de segundo a prymeiro loguo lhe outhorga Deos que elle aja intelligencia de prymeiro, asy a nosos ministros da noso Senhor intendimento de ministro, pollo quall cada acto de mandar podeloham fazer muim bem feito; e mais he sabido que o Regno do Allgarve era asy dito, como se lee em o titolo de nosso glorioso rey – Dom Manuell, per graça de Deos Rey de Portugall e dos Allgarves daquem e dalem maar em Africa senhor de Guinee e da conquista e navegaçam, commercio de Ethiopia, Arabia, Persya e da India; pollo que se vee que o ministro Manuell Pinho tem muyta rezam em mandar que o Algarve seja Allgarve, mas quamto a querer tambem mandar o Regno pera ese tempo em tall nam quero cuidar, e esto contra todallas e quaesquer openiõoes que o governo do doutor Santanna Lopes nam ouve tempo de fazer sandices senão de dizelas, e este governo já vae avendo tempo de dizelas e de fazelas.

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