Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



Apesar de algumas ilustres excepções como as dos realizadores Paulo Costa Pinto (Driving You Slow dos The Gift), António Ferreira (Sunset Boulevard dos Belle Chase Hotel), José Pinheiro (co-realizador do documentário Brava Dança sobre os Heróis do Mar) ou Rui de Brito (autor do magistral Feeling Alive de Gomo), não existe em Portugal uma tradição na criação de videoclips que estejam, pelo menos, ao nível da qualidade da nossa produção musical. As razões são diversas, mas prendem-se sobretudo com as características do nosso mercado musical (o investimento não tem retorno e, quando tem, raramente compensa) e audiovisual (que apenas recentemente começou a disponibilizar plataformas onde os telediscos nacionais pudessem ser, pelo menos em potência, difundidos de forma regular). Na sua esmagadora maioria, a produção de vídeos musicais no nosso país deve-se sobretudo à carolice de músicos e (algumas) produtoras, pois quando as editoras nacionais resolvem investir a sério na produção de um vídeo mainstream, esses projectos tem sido quase sempre concretizados com uma displicência de bradar aos céus.

João Pedro da Costa


No entanto, as coisas parecem estar a mudar e 2006 foi um ano excepcionalmente fértil na produção de vídeos nacionais de qualidade. Para além da consolidação do YouTube como a plataforma ideal para a difusão dos telediscos, já indiquei aqui uma das razões para esse saldo positivo: o mercado audiovisual português começou a dar sinais de estar receptivo à difusão do formato (e isto apesar de ainda não existir em qualquer dos quatro canais generalistas um programa que promova com um mínimo de seriedade a divulgação dos telediscos, sejam eles nacionais ou estrangeiros). Outra razão tem a ver com o surgimento no nosso país de produtoras vocacionadas para a criação e desenvolvimento do formato. Salvas algumas excepções, 2006 foi por excelência o ano em que os projectos musicais portugueses deixaram de produzir os seus próprios vídeos e começaram a sentir a necessidade e a urgência de recorrerem a estruturas especializadas. Apesar de ainda não termos atingido a idade adulta, 2006 veio mostrar que já existem em Portugal talento, meios e vontade suficientes para fazer com que um vídeo musical seja um todo imensamente superior à soma das partes.

Por razões profissionais, tive o privilégio de ver este ano quase uma centena de telediscos de projectos musicais portugueses. Leram bem: quase uma centena. Claro que uma boa vintena deles eram fraquinhos e que outros tantos não passavam de exercícios francamente inconsequentes. Sobra assim uma meia centena que, dadas às características do mercado musical e audiovisual do nosso país, são pequenos milagres de empreendedorismo e dedicação (ler esta última frase com se fossem o José Sócrates). Nesse sentido, proponho aos leitores deste blogue uma pequena viagem, por ordem descrescente, pelos dez telediscos nacionais que mais fizeram vibrar a minha corda sensível em 2006. A selecção é, pois claro, espectacularmente subjectiva, até porque não se pretende aqui fixar qualquer cânone. É apenas um convite para ouvirem boa música portuguesa (um dos inevitáveis critérios para a selecção) com os olhos abertos. Até se vão esquecer de pestanejar.

10. Wake Up Song (You Should Go Ahead)
Não se pode dizer que o teledisco prima pela originalidade, mas a qualidade do resultado final supera em muito essa lacuna. Ao reinventar um filão já muito explorado por outras bandas (ver, por exemplo, Californication dos Red Hot Chili Peppers»), Miguel Rocha da Bleach Films conseguiu produzir um dos videoclips mais bem conseguidos do ano. Estejam atentos à homenagem prestada à obra-prima de Jonas Akerlud: Smatch My Bitch Up dos Prodigy.

9. «Luna» (Moonspell)
Para culminar um ano verdadeiramente inesquecível para os Moonspell («Memorial» no primeiro lugar da tabela de vendas nacional e atribuição do prémio para «Portuguese Act» nos MTV Europe Music Awards), a banda portuguesa no activo com mais projecção internacional surge quase no final do ano com este autêntico mergulho no universo de Tim Burton que é «Luna». Actualmente, já ninguém duvida que o universo gótico e a música do quarteto conseguiu finalmente romper o fenómeno de culto habitualmente ligado às bandas de heavy-metal. E o teledisco de «Luna» (também ele de confecção nacional e realizado pelo trio Miguel Braga, Sérgio Martins e Edgar Martins) está aí para o provar. Uma animação cujo bom-gosto e requinte ultrapassa em muito a sensibilidade dos fãs do metal.

8. «I Can’t Move» (Dapunksportif)
Novamente, não prima pela originalidade (ver Go With The Flow dos QOSTA), mas esta animação computadorizada realizada em chroma key por Ricardo Viana, da produtora Slingshot, e inspirada na estrutura das vinhetas da banda desenhada (olá, Sin City) surpreende sobretudo pela qualidade do resultado final. O que é nacional é bom. E imobiliza.

7. «Com a Força das Palavras» (Twism)
Da autoria de Eduardo Sousa, este teledisco consegue evitar com inteligência e elegância 99% dos lugares-comuns dos vídeos de hip-pop e prova que o género vai muito para além da ostentação e da misogenia. Uma autêntica lufada de ar fresco.

6. «Our Hearts Will Beat as One» (David Fonseca)
A par de Gomo, David Fonseca é dos artistas portugueses que mais tem investido na produção dos seus vídeos musicais (ver os excelentes The 80s e Hold Still). Este último, novamente realizado por Pedro Claúdio, é um dos mais sofisticado telediscos nacionais de todos os tempos. E institui definitivamente David Fonseca como o Robert Palmer português.

5. «Ping-Pong» (X-Wife)
Apesar de não ser uma produção nacional e de nem sequer ser uma opção economicamente viável para a maioria das bandas nacionais, nada disto invalida o apuro técnico e visual do sublime trabalho realizado pela dupla finlandesa Kalle Kotilla & Malakias (vencedores do prémio de melhor vídeo musical na edição do ano passado do Festival de Curtas Metragens de Vila do Conde). Um dia, todas as T-Shirts serão assim.

4. «Carta da Mãe Natureza» (Tranquilo)
Um vídeo caseiro que consiste numa muito pertinente montagem e reciclagem de imagens televisivas feitas pelo próprio Tranquilo com a ajuda do amigo Vasco Viana. De como a imaginação pode suplantar a falta de meios. Exemplar.

3. «Prick (I Am)» (Mau)
É muito Flaming Lips, claro, mas essa influência é apenas o ponto de partida para aquele que considero um dos mais originais e hilariantes vídeos do ano (realização de Luís de Sousa & Pablo Camp). Os coelhos, para além de suicidas, são também uns valentes fornicadores. Apenas uma crítica a apontar: a publicidade descarada à SIC Radical. Não havia necessidade, caramba.

2. «Poetas de Karaoke» (Sam The Kid)
E se um dia o melhor rapper português (Sam The Kid) se juntasse com o melhor realizador de vídeos musicais do país (Rui de Brito) para fazer um teledisco? Como não quero estragar a surpresa a quem ainda não viu esta maravilha, apenas me atrevo a chamar a vossa atenção para o sublime cameo de Gomo num parque de estacionamento. Estive quase quase a pô-lo no primeiro lugar desta lista.

1. «Bad Mirror» (The Vicious Five)
Este teledisco é um monumento de amor e dedicação supervisionado por Luís Alegre, da Ideias Com Peso, em que cada um dos 4370 frames do vídeo foram reproduzidos manualmente em acetatos utilizando diversos estilos ao longo de 6 meses pela produtora, banda e amigos. O resultado é, apenas, um dos melhores videoclips nacionais de todos os tempos.

ADENDA
Graças à Só Hip Hop que irá distribuir em breve Nutrição Espiritual, Portugal vai poder finalmente conhecer um dos maiores rappers angolanos da actualidade: MC K. Desde Trincheira de Ideias, de 2002, que MC K se tem revelado um dos mais talentosos, inspirados e socialmente activos músicos da lusofonia. E basta ver o seu último vídeo («Atrás do Prejuízo», realizado por Samurai) para sentir que somos nós, e não ele, quem vai ter de correr atrás do prejuízo por não termos os seus discos disponíveis há mais tempo no mercado português. Há-de ser, pelo menos, o melhor vídeo lusófono de 2007.

João Pedro da Costa


  1. 1 LR

    Vais desculpar-me, mas o “Driving You Slow” é uma colagem parola de chavões pós-modernaços. Só falta mesmo é um segmento gravado no Lux…
    Mas é bom ver-te por aqui, carago!

  2. 2 João Pedro da Costa

    Só citei o «Driving You Slow» porque é o vídeo mais conhecido do Paulo Costa Pinto.

    (Obrigado, Luís).

  3. 3 Mariana Hannon

    Julgo que o “Driving you” tem mais de 2 anos, acho fantástico alguém ainda ter uma reacção tão efusiva e ainda dar sugestão para cenas extras. Aposto q também se lembra de todas as personagens, cores etc. Escrevo porque nessa altura fazia Erasmus num campus na zona de Bologna, que garanto era tudo menos parolo e, sem querer, mostrei o vídeo que durante algum tempo se tornou numa espécie de cult, poucos acreditavam q fosse gravado em Portugal. Independente do som dos Grift, dando uma vista de olhos por aqui, não aguentei mais de 30 seg dos videos - excepto o Sam que é bemm “esgalhado” - acho que o Driving é mesmo outro planeta. Bjs.

  4. 4 Ricardo dos Santos

    Na critica ao video “Luna” dos Moonspell refere-se da mesma: “Uma animação cujo bom-gosto e requinte ultrapassa em muito a sensibilidade dos fãs do metal.”. Gostaria de saber o que querem dizer com isto, pois parece-me que para voces o pessoal do Metal nao tem a capacidade de apreciar algo deste genero. Acontece que eu sou um grande fa de Tim Burton e gostei deste video, assim como outro pessoal do Metal. Pensei que este tipo de mentalidade em relacao a este tipo de musica e as pessoas que o ouvem ja fazia parte de outros tempos.
    RDSDS

  5. 5 João Pedro da Costa

    Ricardo: a tua observação faz todo o sentido e, quando escrevi o texto, senti que havia uma ambiguidade que poderia dar origem a um mal-entendido como este. O que quis dizer não é que o vídeo tenha uma sensibilidade «superior» à dos fãs do metal, mas que há um deslocamento da sensibilidade metaleira dos Moonspell para o gótico. Como sabes, isto é muito recente, pois lembro-me que há alguns anos (quando era metaleiro) esses dois universos estavam bem delimitados (estou-me a lembrar da confusão que foi juntar em Alvalade os Metallica e os Cult).

    Peço desculpa pela manifesta falta de jeito em exprimir essa ideia correctamente e é óbvio que subscrevo tudo aquilo que dizes no teu comentário.

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