A view of HAL 9000’s central core in the Discovery

Fenómeno cultural, desporto, actividade urbana, exercício de evasão, arte do deslocamento – estes são alguns dos termos utilizados para definir o Parkour.

O Parkour é uma palavra inventada a partir do termo francês parcours, que significa percurso, trajecto, caminho que une um ponto A a um ponto B. O Parkour é igualmente um manual de instruções para ser inicialmente utilizado por um praticante (um traceur ou uma traceuse) de forma a evitar ou suplantar um conjunto de obstáculos que lhe surge durante o seu exercício. A prática desse sistema de técnicas corporais difundiu-se pela Europa e pelo mundo inteiro sobretudo através de vídeos na Internet, tendo sido de imediato adoptado por pessoas em busca de adrenalina e por adeptos de artes marciais que o interpretaram como um misto de desporto radical e de exercício meditativo.

O Parkour foi inventado em Lisses, um subúrbio de Paris, no início da década de 90, por um adolescente chamado David Belle. O seu pai, Raymond, era um acrobata e um bombeiro que se inspirou no método natural de Georges Herbert para educar física e espiritualmente David e Sébastien Foucan, um amigo de infância do filho que viria posteriormente a desenvolver uma vertente mais livre, estética e muito popular do Parkour chamada Free Running. Esta distinção é importante, pois a agilidade, a velocidade, o impulso, o equilíbrio, a precisão e a técnica são apenas atributos de um genuíno traceur quando os mesmos são utilizados de uma forma eficiente e não como ornamentos de um espectáculo.

Apesar de poder ser praticado tanto em paisagens rurais como urbanas, é sobretudo nas cidades que se podem encontrar os praticantes do Parkour, cuja filosofia e práxis muda radicalmente a forma como vemos e vivemos a paisagem urbana. Todos os obstáculos são transformados numa espécie de instrumentos de um imaginário ginásio urbano em que se subverte o designo que esteve na origem da construção de escadas, rampas, muros, valas, postes, fossos, estátuas, telhados, grades e vedações.

O primeiro objectivo de qualquer traceur consiste em desenvolver uma perícia técnica que lhe permita executar e adaptar todos os movimentos corporais de forma instintiva e adaptá-los com a máxima eficiência aos diferentes obstáculos. Parafraseando Alec Wilkinson, os músicos de Jazz costumam dizer que os novatos precisam de aprender tudo sobre o seu instrumento e a música para depois esquecer tudo isso e poderem finalmente aprender a tocar. O mesmo se pode dizer sobre o corpo e a técnica que um traceur utiliza na prática da modalidade: no seu estado mais puro, o Parkour é, tal como o Jazz, uma arte do improviso.

O segundo objectivo de um traceur é o autoconhecimento. Ignorando a dimensão plástica e circense valorizada pelo Free Running, o praticante do Parkour emula constantemente um estado de emergência a partir do qual terá de escolher, em fracções de segundo, a estratégia mais eficiente para ultrapassar um obstáculo, nem que essa estratégia passe por contornar esse obstáculo humildemente. É por isso que um genuíno traceur jamais considera o Parkour uma actividade perigosa, na medida em que essa procura de autoconhecimento passa por uma constante avaliação e aplicação das suas capacidades e limitações. Mais do que o trajecto, o tempo ou a distância necessários para unir um ponto A a um ponto B, o Parkour remete sobretudo para esse processo de transformação, auto-conhecimento e purificação interior. O traceur é um peregrino. E o Parkour o seu método de expiação.

37 thoughts on “A view of HAL 9000’s central core in the Discovery”

  1. Ce sont des mecs de banlieues. Faut bien qu’ils trouvent quelque chose à faire, non? Personnellement, je me serais fait cassé la gueule en moins de deux.

  2. Gostei muito do teu texto, ó primo. Porque promoves a dimensão meditativa. Por aí, como escola de atenção, o Parkour é um exercício de descoberta interior, a partir dos espaços públicos, à disposição de todos, tal como frisas, e sem necessidade de qualquer atributo atlético. Está perfeitamente resumido, este espírito, na fala inicial: “Enquanto o normal seria ir por ali, nós vamos por aqui.” (ou qualquer coisa que diz o mesmo)

    A possibilidade de nos reinventarmos, ou nos revelarmos outros, só porque saltámos por cima de uma barreira que outros preferem contornar, é algo que não se explica pelo que é dado ver ao observador externo. Mas é em tudo igual ao processo de descoberta do mundo experimentado por uma criança.

  3. Obrigado, primito. É precisamente essa dimensão que me seduz, a possibilidade de reinvenção através do corpo, sensação que apenas recordo ter sentido quando era criança. Espero sobretudo ter bem frisado a diferença entre o Parkour e o Free Running, bem visível quando o David Belle diz: «Este salto mortal não faz parte do execício, mas já que faço ginástica…». Não há ali ornatos nem o espectáculo é um fim em si, mas um efeito colateral. Também me fascina a emulação de um estado de emergência, o imaginar que há algo ou alguém que nos persegue, numa atitude que, pelo menos a mim, me parece ser fruto desse desejo de reinvenção que falas. Tudo isto é simplesmente fascinante.

  4. Concordo com o Valupi no respeitante à descoberta interior através de espaços públicos, da filosofia subjacente (cf. preferir o caminho mais inusitado ao mais percorrido), porém trata-se de uma modalidade desportiva aristocrática: não é para todos. Mas é fascinante, sim. Concordo.

  5. claudia, depende de como olhas para ela. se do ponto de vista acrobático claro que é para poucos. mas o conceito está ao alcance de manobras menos arrojadas. quando vou buscar o meu filho à escola costumamos saltar um muro ao invés de seguirmos pela escada e por vezes desviamos o trajecto através de um relvado ou por cima de um murete em vez de escolhermos o caminho pedonal. outras vezes, os meus filhos e eu, andamos de costas para o percurso. se bem percebo este tipo de coisa já pode ser classificado como a criação de um obstáculo que testa o uso do corpo, mesmo se muito modesto. :)

  6. Touché, Susana. O que fazes com o teu filhote é tão «parkour» como as acrobacias do Belle. Eu faço o mesmo sempre que passeio com a minha cadela – basta, para isso, tentar seguir-lhe o percurso.

  7. O descarrilar num espaço físico é porta aberta para o desconhecido e só desse modo, no confronto com o que esquecêramos, é que nos reencontramos. Para me surpreender, basta ir ao mar porque as próprias ondas parecem brincar. Temos tendência a calcorrear caminhos já pisados, instauradores de segurança…

  8. já tinha visto estes saltimbancos ….fabuloso… espero que não venha a dar num housejacking
    um apontamento à Cláudia…O cara que inventou os telefones disse “nunca ande pelo caminho já traçado…pois ele conduz apenas onde os outros já foram”

  9. JPC, gabarolice é pior que diabetes, por isso abstém-te. Ainda esticas o pernil e não vai haver nem cavalo, nem macaco que te possam valer.

  10. João Pedrinho:
    Não esqueças as flores na campa da tua tia ESPERANÇA. E olha, leva flores cor de laranja, que era a sua cor preferida. Coitadinho, até ficámos comovidos por não te teres esquecido deste importante pormenor. E olha, dizes bem: «Deus tenha em paz a sua alma»!
    Mas não fales muito dela aí, nas caixas de comentários dos outros blogs. Dá azar! A tia pode vir de noite puxar-te os pés se dormires com eles de fora.
    Agradecidos também por continuarmos a ser os teus «ídolos favoritos e os grandes senhores» da música portuguesa. Obrigadinhos, amor. És tão querido!
    Por hoje terminamos. Aceita os nossos votos de boa sáude para ti, para o teu gato e para a tua cadela.

    Joaquim Bastos e Manuela Santos Silva

  11. Contigo já somos três, claudinha!
    E não te esqueças da tia ESPERANÇA. Quando fores visitar a sua campa, leva-lhe gladíolos cor de laranja. Como muito bem disse o Pedrinho, era a sua cor predilecta e nesta época do ano são muito fáceis de arranjar. «Deus tenha em paz a sua alma», afirmou o Pedrinho, a mostrar o seu lado extremamente caridoso e crente.
    Não sei se sabes, mas somos «os grandes senhores» da música portuguesa, como nos define o Pedrinho. Isto é: somos os seus «ídolos favoritos». Claudinha, não nos faças a desfeita de seres do contra! Melhor do que nós, só o Quim Barreiros e não nos apetece falar dele agora.
    Não vos sabia, quer a ti, quer ao Pedrinho, com inteligência suficiente para pregar uma partida. Mas olha, calhou. Pena ter durado tão pouco tempo. Os gladíolos duram mais.
    Esperamos que este comentário te vá encontrar de boa saúde. Por cá, ficamos bem, graças a Deus.

    Joaquim Bastos e Manuela Santos Silva

  12. Com que então, já se faz censura, aqui, no aspirina? Comentários censurados, cortados? O blog deixou de ser livre quando por aqui tanto se apregoa a liberdade de expressão e outras!?
    Será o Joãozinho quem está hoje de turno? Provavelmente. Fiz dois comentários e ambos foram cortados, Mesmo com censura, fico SATISFEITA porque alguém os leu, mesmo em privado. Para mim, isso me basta. E também mostra como os critérios do Aspirina mudaram. Para pior, é óbvio.
    Vim aqui apenas para retribuir a visita do Joãozinho ao meu blog. Nada mais. E não vale a pena negar. O comentário lá deixado tem a sua «marca». Não merece a pena negar.

  13. “Não nos faças a desfeita de ser do contra, claudia! Somos ou não somos os teus «favoritos»? ”

    Não sei do que andam para aí a falar. Penso estar perante pessoas ressabiadas. Quanto às flores cor-de-laranja, deram-me inevitavelmente uma ideia fantástica: uma foto que tenho de flores cor-de-laranja de nome “chagas”, foto tirada em Serralves. Não era para pô-la no blog, mas antes de ir de férias, vou pô-la. O ressabiamento de uns, faz a felicidade de outros. LOL

  14. Afinal, vejo que não houve censura. A não ser que tenha havido consenso. Mas inclino-me mais para o mau funcionamento momentâneo da caixa dos comentários.
    Como escrevo directamente na caixa, daí a razão dos dois comentários «repetidos» não serem bem iguais. Mas isso não interessa nada. Pessoalmente, prefiro o das 20.58. Se o incómodo não for grande, poderiam retirar o das 20.23? Agradeço.

    claudia: aqui não há ressabiados nem ressabiamento. Foste apanhada na torrente e estás inocente – parece! Coloca lá no teu blog as «chagas» cor de laranja, se isso te traz felicidade. Mas lembra-te da tia ESPERANÇA! Se tiveres dúvidas, pergunta ao Joãozinho. Ou ao Pedrinho, se preferires. Ele explica.

    Escrevi sozinha, mas assinamos os dois: Joaquim Bastos e Manuela Santos Silva

  15. claudinha: estás enganada. Tão enganada quanto eu fui pela «Ermelinda». Sabes por acaso quem é? Não caias para o lado, mas tenho más notícias. Trata-se do João Pedro da Costa! Não sabias, nem eu. Mas é ele a «Ermelinda» que foi deixar um comentário tão infantil, tão tosco no meu blog, que deu logo para desconfiar. A graça é que respondi ao comentário, pensando tratar-se de uma garota a «bater um pouco mal». Resolvi, por isso, vir aqui esclarecer o assunto.
    Imagino a risota que o meu tão ingénuo quanto bondoso comentário deve ter suscitado à «Ermelinda». Mas olha que não parei ainda de rir com toda a confusão causada pelos meus e os teus comentários!

    Voltei a escrever sozinha, mas continuamos a assinar os dois: Joaquim Bastos e Manuela Santos Silva.

  16. Já conhecia, cris (tb via s&v), mas há tempos que não passava por lá. Aquilo é uma maravilha, até fiquei com vontade de fazer um. Tens alguma ideia?

  17. É lindo, não é? Uma ideia, atão… assim de repente… o raindogs do tom waits, o hatful of hollow dos smiths (quase todos deles dão), um bocado mais badalhoco o sticky fingers dos stones (esse devia ficar giro), o straight outta compton dos nwa (mais difícil, mas até dava). Bem, na verdade não explorei o site todo, por isso até é possível que já tenham feito algum destes.

  18. Não passava por aqui há uns tempos. Sim senhora, o Aspirina com novo visual, quanto a mim para melhor…Mas a grande novidade foi ficar a saber que o João Pedro da Costa tinha dado em transformista! E logo escolheu chamar-se Ermelinda. Diabo de nome! Mais aquela “deus tenha em paz a alma da tia Esperança”! Dava tudo para saber de quem é o blog cor de laranja onde o JPC foi deixar o comentário. Ó Pedro, não podes desvendar uma pontinha do vèu? Faz lá isso à malta, pá!
    A graça é que ficaste calado. Nem pias. Foste descoberto pelos dois cromos, como diz a claudia? Responde, pá! Quem são eles? Das duas, uma: ou te calas para te armares em bom, tipo «não passo cartucho», ou tens falta de argumentos. Mas gostei da historieta, acredita. Só não estou a ver é o filme todo, topas?

  19. Pontos nos ii: aconselho-te a vasculhar as caixas dos comentários do Aspirina. Isto é cada doido que vem cá parar que um gajo até se cotorce com riso. Se não ligo não é para me armar em bom (facto universalmente indiscutível), mas porque, sinceramente, um gajo tem medo de estragar a festa. Mas parece que se calaram de vez. É pena.

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