Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.
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Porque não Isabel?
Nós até somos bons nessas coisas…
Mas os acordos ortográficos não gostam de invenções, pelo que…
Não! Direitrente e esquerdatrás!
concordo com o esquerdatrás mas, até pelo antónimo, preferiria frentireita.
Direitrente soa-me a diarreia com gastroenterite e frentireita tem uma conotação feia - nada bonita - de frente nacional. Mais vale PS:D e PS.
Ó meninas, não mais nada que fazer? Endireitem-se e caminhem na direcção que quiserem!
Tanto se pode dizer que foi mesmo dito.
Ei, essas palavras já foram inventadas. Li-as há pouco no último post deste mesmo blog. Que bom! Mas querem saber da melhor? Elas já podiam ser utilizadas antes disso. Bastava alguém ter essa ideia e querer fazê-lo. Não porreiro? Isso quer dizer que eu também posso escrever atrasquerda, encimuito, embaixante, invisilonge…
Luís Eme (e quem mais quiser responder), o acordo ortográfico e um livro do Mia Couto podem coexistir?
Já é tanta a confusão que mais vale desinventá-las
Tudo pode e deve existir, não são os “acordos” que cortam a raiz à imaginação, Rodrigo…
Ah, bom…
O “Mas os acordos ortográficos não gostam de invenções, pelo que…” fica sem efeito, então ;)
amigos,
Às vezes nem sei que diga.
Esta nossa língua antiga
tem tanto por inventar,
há nela tanto a fazer,
que eu nem sei o que dizer
do frentedireitatrás
ou do esquerdente que faz
o post da isabel.
Não me pareceu pecado;
achei até bem sacado
sim senhora, sem favor;
de resto, já vi pior
nesta língua de nós todos,
já vi mexer-lhe sem modos
e, por acordo universal,
ser ortografaneado
o falar de Portugal
(e na escrita foi igual:
ortografasucatado.)
Por isso esteja à vontade:
invente a isabel-prazer
o que lhe der na veneta;
tem verbos por descobrir,
ou melhor: por atribuir
àquilo que já se faz;
tem palavras por criar:
direifrente, esquerdatrás,
são dois exemplos de treta
mas servem, na circunstância.
Continue a improvisar
porque se alguém não gostar
acredite: é ignorância.
errata:
«…o falar de Portugal.
(e o escrever foi, igual,
ortografasucatado.)»
Elypse: “Já é tanta a confusão que mais vale desinventá-las”
Aí está uma boa. Se numa leitura desatenta fica a impressão de que o Elypse está a contrariar a proposta do Visitas Actuais, a verdade é que ele está a fazer precisamente o que é proposto, ao utilizar o verbo “desinventar”. Nem todos terão percebido, mas de certeza que foi de propósito. Boa, Elypse!
Essa faz-me lembrar aquela do indivíduo que diz para o amigo: “Estás-me sempre a contradizer”, ao que o outro responde: “Não estou nada!”
muito engraçado, rvn.
Rodrigo, não creio que possam ter pensado que não quis contribuir, com aquele trocadilho, para a rubrica da Isabel…
Olha que isto por aqui é gente que faz das linhas entrelinhas… Melhor, talvez, só as costureiras da CIA, as tais que não dão ponto sem nó
Os nós sempre dão direito a tropeções ;)
Abraço
gostei muito de frentireita e de isabel-prazer :)
http://novaaguia.blogspot.com/2008/03/em-defesa-do-acordo-ortogrfico-de-1991.html
Não resisto a escrever a tradução que há muitos anos fiz para um poema de Ernst Jandl:
muitos dizem
que esquerta e tireida
não as potemos drocar
esdúpitos!
Vamos invendar palavras… ao menos colocamos algo a mexer neste jardim
Sem palavras inventadas, Ruy Belo parece inventá-las a todas neste poema que tanto gosto, rendido a uma rima solta.
E eu que tanto detesto rimas simétricas ordenadas formatadas.
Meados de janeiro. No aeroporto duma capital
- Leitores eventuais se quereis saber qual
terei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:
o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -
um grupo de pessoas num encontro casual
desses que nem viriam no melhor jornal
de qualquer dos países donde alguém de nós seria natural
decerto por alguma circunstância puramente acidental
emprega no decurso da conversa a palvra “natal”
embora a pensem todos na respectiva língua original
E sem saber porquê eu sinto-me subitamente mal
Ainda que me considerem um filólogo profissional
e tenha escrito páginas e páginas sobre qualquer fenómeno fonético banal
não conheço a palavra. Porventura terá equivalente em portugal?
Deve dizer-me alguma coisa pois me sinto mal
mas embora disposto a consultar o português fundamental
ia jurar que nem sequer a usa o leitor habitual
de dicionários e glossários e vocabulários do idioma nacional
e o mesmo acontece em qualquer língua ocidental
das quais pelo menos possuo uma noção geral
conseguida aliás por meio de um esforço efectivo e real
E ali naquela sala principal
daquele aeroporto do nepal
enquanto esperam pelo seu transporte habitual
embora o tempo passe o assunto central
da conversa daquele grupo de gente ocasional
continua na mesma a ser o do “natal”
Tratar-se-á de um facto universal?
Alguma festa? Uma tragédia mundial?
Consulto as caras sem obter satisfação cabal
Li por exemplo a bíblia li pessoa e pertenci à igreja ocidental
e tenho de reconhecer que não sei nada do natal
Mas se assim é porque diabo sofro como sofro eu afinal’
Porque me atinge assim palavra tão fatal?
Que passado distante permanece actual?
Como é que uma mera palavra se me torna visceral?
Ninguém daquela gente reunida no nepal
um professor um engenheiro ou um industrial
um técnico uma actriz um intelectual
um revolucionário ou um príncipe real
que ali nas suas línguas falam do natal
aí por quinze de janeiro e num dia invernal
pressentem como sofre este filólogo profissional
Eu tenho atrás de mim uma vida que por sinal
começada no campo e num quintal
junto da pedra da árvore e do animal
debaixo das estrelas e num meio natural
vida continuada na escola entre o tratado e o manual
me assegurou prestígio internacional
Mas para que me serve tudo isso se naquela capital
entre pessoas que inocentemente falam do natal
eu que conheço as coisas e as palavras de maneira oficial
que como linguista as trato de igual para igual
travo afinal inexorável batalha campal
com tão simples significante como o de “natal”?
E entre línguas diversas num aeroporto do nepal
alguém bem insensível sofre mais do que um sentimental
pois pressente em janeiro que se o foi foi há muito o natal
Ruy Belo
Transporte no Tempo
E como quase sempre dois é melhor que um.
To Helena
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
A maneira mais triste de se estar contente
a de estar mais sozinho em meio de mais gente
de mais tarde saber alguma coisa antecipadamente
Emotiva atitude de quem age friamente
inalterável forma de se ser sempre diferente
maneira mais complexa de viver mais simplesmente
de ser-se o mesmo sempre e ser surpreendente
de estar num sítio tanto mais se mais ausente
e mais ausente estar se mais presente
de mais perto se estar se mais distante
de sentir mais o frio em tempo quente
O modo mais saudável de se estar doente
de se ser verdadeiro e revelar-se que se mente
de mentir muito verdadeiramente
de dizer a verdade falsamente
de se mostrar profundo superficialmente
de ser-se o mais real sendo aparente
de menos agredir mais agressivamente
de ser-se singular se mais corrente
e mais contraditório quanto mais coerente
A via enviesada para ir-se em frente
a treda actuação de quem actua lealmente
e é tão impassível como comovente
O modo mais precário de ser mais permanente
de tentar tanto mais quanto menos se tente
de ser pacífico e ao mesmo tempo combatente
de estar mais no passado se mais no presente
de não se ter ninguém e ter em cada homem um parente
de ser tão insensível como quem mais sente
de melhor se curvar se altivamente
de perder a cabeça mas serenamente
de tudo perdoar e todos justiçar dente por dente
de tanto desistir e de ser tão constante
de articular melhor sendo menos fluente
e fazer maior mal quando se está mais inocente
É sob aspecto frágil revelar-se resistente
é para interessar-se ser indiferente
Quando helena recusa é que consente
se tão pouco perdoa é por ser indulgente
baixa os olhos se quer ser insolente
Ninguém é tão inconscientemente consciente
tão inconsequentemente consequente
Se em tantos dons abunda é por ser indigente
e só convence assim por não ser muito convincente
e melhor fundamenta o mais insubsistente
Acabo de inventar um novo advérbio: helenamente
O mar a terra o fumo a pedra simultaneamente
Ruy Belo
Transporte no Tempo
Editorial Presença
1997
4 ª edição
grunfinho