Prémios da ILGA 2016 – Preciso da minha gente

Todas as músicas acabam. Há poucos momentos na minha vida em que sinto claridade. Há poucos momentos na vida em que sinto que é a claridade que predomina. Há poucos momentos na minha vida onde a luta veloz de pensamentos sobrepostos tem descanso. Ando a correr, a correr, a correr, não sei onde está a meta, as músicas que me podem acalmar o espírito chegam todas ao fim, o fim do dia é ele mesmo o esquecimento do que devia ser lembrado. Para dar força. Para correr de uma outra forma, aceitando solidões e derrotas, aceitando que a dor da ansiedade vai estar sempre lá, no dia calmo espreitará pela esquina e, nesse dia, como em todos os dias, vou ter medo, nunca dos outros, sempre de mim.

Todas as músicas acabam, as vidas que nos salvam têm as suas vidas e nós as nossas, os intervalos em que não vemos o mundo que nos dá força dá espaço ao silêncio, parece que nos cortam as pernas, eu tenho a certeza de que não sou capaz, tenho a certeza, tenho a certeza, todas as músicas acabam e não registo com a força interior que devia aquele dia e o outro e o outro em que a diferença se fez ganhando a igualdade.

Há poucos momentos na vida em que sinto claridade. Há poucos momentos na vida em que o meu corpo, na fraqueza e na força da angústia, permite sentir, mais do que pensar.

Preciso de vocês.

Como ontem, nos prémios da ILGA, cheios de rostos que esperaram, que lutaram, que então ontem enchiam um recinto enorme, tantas e tantos e as imagens, sempre as imagens a contarem do que foi feito, da igualdade conquistada, em cada imagem posso projetar quem casou, quem teve filhos, quem foi reconhecido como pai ou como mãe, em cada imagem posso projetar a próxima geração, mas há mais do que isso.

É o estar em casa, é o estar com a minha gente, é desta vez a música não acabar, é sentir e não pensar, poucas vezes tenho momentos de claridade, poucos momentos, muito poucos, ontem ouvi a mulher trans dizer que percebe que não entendam, que se vai lutando, olhei para ela, um ser tão belo, ouvi o gay que dizia dele, dos pais, foi assim, explicava, e vi, com a música paralisada, pessoas a beijarem-se livremente, pessoas, beijos e abraços, cada vez que vejo duas mulheres ou dois homens a beijarem-se sorrindo numa pista de dança, em liberdade, tenho vontade de chorar e depois penso aquilo, penso “eu preciso de vocês”, sem vocês eu não me aguento, recordam-me sempre que valeu tudo a pena que valerá sempre tudo a pena.

Não sei o que seria de mim sem a comunidade LGBT, não sei o que seria de mim sem as pessoas que estão nesta luta, sem as pessoas que sentem, sim, que sentem empaticamente que estar do lado de quem rejeita o amor entre dois homens ou de duas mulheres, do lado de quem não entende que todas e todos podem ser pais, do lado de quem não entende que género e sexo não são a mesma coisa é estar no obscurantismo, é o mesmo que ser racista, é querer matar o outro, é não conseguir ser o outro.

Nos prémios da ILGA junta-se uma multidão, um momento feliz, sabemos do tanto que há para fazer, da discriminação que continua, da diferença entre ser-se LGBT em Lisboa ou numa terra recôndita, sabemos disso e estamos do mesmo lado e isso sente-se com tanta força num recinto enorme a ferver de convicção que se dá um desses raros momentos em que a música nunca acaba e que ganha o sentir ao pensar e então descubro esta coisa simples, descubro que preciso de estar com vocês, descubro que preciso de estar com a minha gente.

Para me agarrar. E continuar.

 

17 comentários a “Prémios da ILGA 2016 – Preciso da minha gente”

  1. e essa também é uma luta pela liberdade dessa gente – também a tua gente precisa de ti. Força no que acreditas!

  2. Louvo em si a Mulher coragem, a Mulher de causas, a Mulher lutadora, destemida, sem medos e sem dúvidas quanto a esta nobre causa. Um grande abraço Isabel Moreira e, … nunca desista!

  3. essas fotos que vocês estão a linkar são os transsexuais que ganharam os prémios ? mais valia terem continuado mulheres , como homens não valem um corno.

  4. Eu é agradeço a sua coragem em abraçar uma causa que deveria ser obrigação de todos nós e às vezes por puro comodismo, parece órfã.

  5. «às vezes por puro comodismo, parece órfã»?

    Mónica, grande frase! Assinalo que ela é todo um programa neo-realista sobre o nosso tempo:
    de vez em quando, a pureza casa com o comodismo e não sei quem nem o quê assemelha-se a uma criança a quem morreram os pais.

    Nem o Valupi prosaria melhor, evidentemente.

  6. E continue sempre, Isabel, pois é um exemplo. É uma lutadora, uma verdadeira Capaz, uma mulher da liberdade, da igualdade, da democracia, das causas que deveriam de ser de todas e todos nós. Sem absurdos, ignorantes e ridículos preconceitos, discriminações, sexismos ou rótulos estereotipados ( que são alguns dos piores males do mundo) que para nada servem a não ser para fazer o mundo regredir e retroceder nos seus ( ainda insuficientes) avanços sociais e civilizacionais. E por cá, a Isabel é uma das pessoas que mais têm lutado para que a igualdade, a liberdade e a democracia seja de todas e todos nós, sem excepção. Um bem-haja e continue sempre, porque a claridade não se define só na luz e as músicas podem não ter fim mesmo que em silêncio. Obrigado por tudo. Parabéns, Isabel!

  7. Francisco Ferraz de Macedo
    17 DE JANEIRO DE 2017 ÀS 17:43
    O seu comentário aguarda moderação.

    Ó minha netinha Patrícia:

    Nem sabes quanto eu sinto (nós sentimos!) a falta dos teus excertos poéticos que são o orgulho do avós, pais e filhos deste mundo em que também vivemos! Como este, lindo de morrer: «a claridade não se define só na luz e as músicas podem não ter fim mesmo que em silêncio». Que bonito, e que bem-hajas tu também.

    Obrigado, e vou mostrar o que escreveste aqui aos meus amigos do Cemitério dos Prazeres.

    Beijo-te,
    o teu avô Francisco

    Post Scriptum – Valupi tu que tens a mania, e aquele Renzo desgraçado de ontem, ora tomem lá poesia para aprenderem.

  8. Queria deixar aqui o meu comentário, um simples, mas importante comentário. A Isabel é uma pessoa, uma gente, muita importante para nós, a sua gente. Desde a sua luta para o casamento de casais do mesmo sexo que tenho seguido os seus passos. Passos estes, que mostram que a Isabel é alguém que se preocupa com os outros. Conseguiu deixar a sua marca em Portugal no que toca aos direitos das pessoas LGBT e não só. É importante explicar que os direitos não podem ser para uns em detrimento de outros. Não existe pessoas de segunda, mas sim pessoas com características diferentes com direitos iguais. Os direitos à liberdade, à igualdade são fundamentais para uma democracia plena. Agradeço tudo o que tem feito, agradeço a si e a outr@s que sabem quem são.

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