Passos, perdido, negando citações: confirmando tudo.

No debate quinzenal de hoje, o primeiro-ministro citou a célebre entrevista dada por Passos Coelho na qual este afirmou só vamos sair da crise empobrecendo.

Passos Coelho, indignado, negou o dito. O problema não é, realmente, ter afirmado a frase brutal, o que realmente aconteceu, de resto mais do que uma vez. O problema é a frase resultar de uma prática ideológica dentro e fora das fronteiras, que levou ao recuo de décadas em matéria de desemprego, de investimento, de pobreza e de emigração.

Não por acaso, no mesmo debate, criticou a postura de António Costa aquando da sua deslocação à Grécia. Uma deslocação construtiva, contrária à postura de Passos Coelho, quando este era primeiro-ministro. Então, tudo fazia, junto das instituições europeias, para afundar o mais que pudesse a situação do povo grego, apenas para seu ganho político: esse de poder dizer que havia um país com pior execução orçamental do que Portugal.

Passos Coelho pode tentar negar o que disse. É inútil, porque disse o que se cita e porque não faria sentido não ter dito o que espelha a sua a ação governativa. No seu desespero atual de tentar continuar a colar com cola fora de prazo a ideia de que os horrores de Portugal se devem a 2011, tem um povo inteiro como que suspenso na sua memória coletiva por 4 anos.

Os portugueses sabem que a devastação social fruto de uma política escolhida de austeridade expansionista, a que agora se põe fim, agravou todas as consequências da crise económica internacional de 2008.

Os portugueses sabem que o governo de Passos Coelho não executou o programa da Troika. Não: o seu Governo, usou-o como pretexto para a viragem ideológica do PSD para um extremismo ideológico caído no liberalismo selvagem já anunciado antes de Passos ser primeiro-ministro e agora de uma evidência que impressiona.

As suas frases são, por isso, não só reais, mas cheias de consequências. O povo português ouviu Passos Coelho, antes das eleições, a afirmar que o programa eleitoral ia muito além do memorando. Os pobres ouviram Passos Coelho a afirmar que os mais pobres não foram afetados por cortes. Os pensionistas e os funcionários públicos ouviram o mesmo. Os portugueses ouviram Passos Coelho a afirmar, no contexto da educação, para não sermos piegas e ter pena dos alunos, coitadinhos. Os desempregados ouviram Passos Coelho a afirmar que o desemprego pode ser uma oportunidade. Todas e todos nós ouvimos Passos Coelho a prometer que não aumentaria impostos.

 

Faz mal, em face de tanta compilação de frases, Passos Coelho dedicar um minuto que seja num debate quinzenal a desmentir uma citação que seja, porque isso é sempre dar uma oportunidade ao país de ouvir Passos a tentar apagar 4 anos de um governo inédito.

 

Cada uma das frases é verdadeira e teve a consequência conhecida. Passos, o obediente feliz em Bruxelas, foi para além, do memorando, nomeadamente em matéria de privatizações, corte de pensões, de reformas, em de direitos laborais ou de prestações sociais.

Passos, o obediente feliz em Bruxelas, esmagou os mais pobres com a sua política, assim como a classe média, ao nível das pensões, dos salários ou do corte das prestações sociais mais eficazes ao combate à pobreza.

Passos, o obediente feliz em Bruxelas, disparou ideologicamente contra a escola pública e o ensino superior, humilhou alunos com exames inúteis e estigmatizantes.

Passos, o obediente feliz em Bruxelas alterou o Código do Trabalho sem que memorando algum o obrigasse a tal, promoveu o desemprego sem direitos, apelou à emigração, apresentou-nos todo um país de falsos recibos verdes e de falso emprego.

Tudo isto, dizendo que vivíamos acima das nossas possibilidades.

Aqui teve razão. Vivemos. Muito acima. Um povo que podia ter tido outro caminho foi um laboratório para viver acima das possibilidades de respirar.

É, pois, normal que Passos continue de lapela no casaco.

Não tem oposição a apresentar.

É o que lhe resta.

 

8 comentários a “Passos, perdido, negando citações: confirmando tudo.”

  1. Isabel Moreira,
    eu não sei se alguém te corrigiu até agora nessa lufa-lufa dos artiguinhos escritos a metro que vais postando no jornal da Impresa. Em caso de resposta negativa, e especulando embora, isso poderá ter várias explicações e uma delas é péssima para ti: que há pouca gente letrada na caixa de comentários do Expresso, o que é uma verdade-verdadinha, que te lêem mas não percebem (alfabetização deficiente), que não lês o que se vai dizendo nessa tua missão inglória de te dirigires às massas ou, o que é pior, que… ninguém te lê (a excepção é o Valupi no Aspirina B e, vê lá, eu quando dá).

    Permite-me dizer, pois, que quando escreves “novecentista” (deverias escrever Novecentista, mas passo) te estás directamente a referir ao século XX. Como imagino que te querias referir ao século XIX, embora erradamente e já veremos porquê a seguir, deverias escrever Oitocentista assim com a capitular em grande. Quanto ao resto, é das sebentas: o “estado mínimo” de que falas começou exactamente a ser corrigido, no último quartel do século XIX, com as medidas “sociais” dos governos do chanceler Bismarck na Alemanha. Deixo-te uma sugestão de leitura (apanhada assim de repente, imagina que é uma cena de 1985), mas que espero que sirva para o teu serão.

    Política social e democracia: reflexões sobre o legado da seguridade social – Sonia Maria Fleury Teixeira
    http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-311X1985000400002

    e

    «A direita não se limitou a conformar-se com a pobreza e com as desigualdades. Lutou por esse modelo inevitavelmente resultante de um estado mínimo NOVECENTISTA e, por isso, hoje acusa – bracejando como pode – o governo do PS de fazer aquilo que uma social democracia decente teria por urgente: repor rendimentos; repor prestações sociais; aumentar o salário mínimo; puxar pela classe média; apostar nos maiores motores da escalada social positiva, como a escola pública; dignificar o fator trabalho; apostar na qualificação dos portugueses; desbloquear os fundos estruturais; fazer tudo por tudo para garantir um serviço nacional de saúde e uma segurança social para todas e para todos sem sobressaltos.»

    Aqui, serviço público: http://expresso.sapo.pt/blogues/blogue_contrasemantica/2016-05-21-O-Problema-da-Direita-e-a-Direita .

  2. Isabel, o pipol já sabe isso tudo. O problema da encenação politica e que anda de seis meses a um ano atrasada em relação ao mood pop.
    Mas ok se Passos é um mentiroso sem escrupulos , o que dizer de Marcello?
    Hoje foi outra bronca com a camarilha amarela, ta bem q os gajos dos colégios são torpes mas não me lixem, alguém acredita que naquele comunicado as palavras dele foram forjadas? Ahahah

    Numas próximas eleições presidenciais sr o PS tiver cojones até o rato Mickey ganha ao Toppo Gigio.

    Marcello, a day at the office.

    https://m.youtube.com/watch?v=dAE7uOO_4v4

  3. Passos Coelho representa tudo o que nunca deveria ter sido politicamente executado no seu (des)governo que atacou sem qualquer piedade o País e os portugueses. Passos faz-se agora de amnésico despudorado dono de uma alegada superioridade ética, política e moral sobre as medidas deste Governo pensando poder acusar sem ninguém lhe relembrar o que disse e fez durante 4 longos anos. Os portugueses não se esquecem. Passos atacou o Estado social, a educação, a justiça, a saúde, tudo para além da Troika, usando-a como pretexto para a sua ideológica política selvagem de direita. Os portugueses não se esquecem. Agora, fazendo de oposição que não é oposição, lá continua o obediente feliz em Bruxelas com o seu já bem conhecido despudor revoltante, a sua hipocrisia e o maldito pin, supostamente “patriótico”, na lapela. É mesmo só o que lhe resta. Parabéns, Isabel, por mais um notável artigo. É um orgulho. Parabéns. Obrigado.

  4. Minha netinha Patrícia:

    é espantoso como repetes quase palavra por palavra o que a Isabel Moreira diz, a tua criatividade está no osso (se me permites o trocadilho, hábitos da antropometria). Se afinal te chamas Isabel, ou se não és uma impostora, repito-me eu também. Não posso ter orgulho de ti, ou dar-te os parabéns, e dizer-te obrigado publicamente.

    Mais um notável artigo, livra!! Mais um?! Qual? Onde?

    Beijo-te daqui, espero falar sempre contigo (é mesmo boa a rede wi-fi que esse António Costa instalou no cemitério dos Prazeres) e não dês ouvidos às más-línguas. Eu sou dos fortes, eternos.

    Avô Francisco.

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