O parlamento errado

Foi hoje.

No dia em que no Parlamento foi recordada a aprovação, no dia 2 de abril de 1976, da Constituição democrática portuguesa.

Foi hoje.

No dia em que foram recordados as deputadas e os deputados constituintes que deram corpo à lei fundamental de um país, o nosso, a qual consagrou finalmente a democracia e os seus pressupostos elementares, como os nossos direitos individuais.

Foi hoje.

Neste dia de proclamações, o Parlamento reprovou dois votos de condenação da punição dos jovens ativistas angolanos apresentados pelo PS e pelo BE.

Foi hoje.

Neste dia de proclamações, CDS, PSD e PCP votaram contra.

O processo contra os jovens ativistas angolanos foi decidido no dia 28 de março de 2016 com sentenças entre os 2 e os 8 anos de prisão para todos eles. Dois dos condenados estão em greve de fome.

Foram condenados por lerem um livro. Foram condenados por exercerem direitos humanos, como a liberdade de pensamento.

Todas e todos assistimos aos alertas de diversas organizações internacionais. Em lisboa, como noutras cidades, assistimos – e muitas e muitos de nós participámos – a vigílias e marchas, dias em que a Avenida da Liberdade ficou repleta desse nome – Liberdade.

Todas e todos sabemos que estes jovens foram condenados por exercerem direitos consagrados na própria constituição angolana, nos estatutos da CPLP e em declarações e convenções de direito internacional.

Nestes votos de condenação não estava em causa pôr fim ao relacionamento normal entre dois Estados soberanos. Não estava em causa qualquer corte de relações entre Portugal e Angola. Estava em causa muito daquilo que hoje, precisamente hoje, foi recordado no Parlamento.

Foi assim hoje, precisamente hoje, que o Parlamento virou as costas a jovens que se atreveram a ler, a reunir-se e a discutir ideias.

Ainda dentro do Parlamento, do lado de cá da porta da saída, encontrei-me com uma angolana e com dois angolanos. Tinham os olhos estupefactos e em lágrimas. Mudos durante um minuto, olharam para mim, até que a jovem angolana fez esta pergunta:

– Por quê?

Foi hoje, precisamente hoje, que o Parlamento, votando contra os dois votos de condenação da punição dos jovens ativistas angolanos apresentados pelo PS e pelo BE, votou, portanto, a favor dessa condenação e dessa punição.

Essa é a mensagem que chegará a 17 jovens inocentes.

Hoje tivemos o parlamento errado.

 

 

 

 

 

16 comentários a “O parlamento errado”

  1. O Parlamento esteve errado porque simplesmente os deputados se prestarem a uma votação sem qualquer sentido e sem qualquer sentido.

    Se no Zaire, na Serra Leoa, no Ruanda, na Guiné Bissau, Etiópia, Nigéria ou Guatemala e em Moçambique, a cada injustiça o nosso parlamento perder tempo a mandar bocas, quem tem paciência?

  2. Olhe Isabelinha

    E quando é que o “seu Parlamento certo” se preocupa com isto:
    http://observador.pt/2016/03/31/inspetor-tributario-sem-data-terminar-investigacao-socrates/

    Um cidadão português tratado desta forma pela Justiça do seu país, Isabelinha, e a menina é deputada e não faz NADA. E os seus companheiros deputados também não fazem NADA.
    E é no seu país, não é no país dos outros !!!

    Esses jovens angolanos não são “inocentes”, são heróis que lutam contra uma ditadura, e sabem-no.
    Sabem-no, e sabem que isso normalmente tem um preço. O preço costuma ser este. Um dia alguns deles serão deputados, ministros, até presidentes da República de Angola. Esperemos que nessa altura não se transformem em novos JES.

    E ao menos lá acusaram e julgaram.
    Por cá não fazem nada disso. Simplesmente prendem e lincham.

  3. Pois. A melhor forma de os homenagear e lutar contra o que eles lutam, a justiça iniqua, mas no seu próprio pais. Senão será so um acto gratuito e panfletário e incongruente. Va para Angola ca dentro.

    ” À política o que é da política, à justiça o que é da justiça”

  4. Ó Isabelinha!
    Aproveite o estralejar das hormonas, dê uma volta e penteie uns macacos.
    E não deixe de LUTAR NA SUA TERRA contra a Justiça ultrajada! Esse dever que tem menosprezado.

  5. Ó senhora deputada, pergunte ao seu paizinho que ele deve recordar-se, quando o embaixador americano, almirante George Anderson, no âmbito da política Kennedy para África, sugeriu a Salazar um referendo para apurar se os angolanos queriam auto-determinação, o ditador, pacientemente explicou que, os chefes guerrilheiros, e na altura, praticamente existia a UPA de Holden Roberto, nada mais queriam que ser chefes disto e daquilo, ou seja, presidentes, primeiros-ministros, ministros, governadores, e por aí adiante, Roberto, não representava ele próprio, senão o tribalismo – dos bakongos – , e quanto ao referendo, exigiriam, primeiro, a saída do exercito, depois, da polícia, e assim sendo não podia abandonar os cidadãos à sua sorte .
    O tempo viria a dar-lhe razão, com um electricista, chamado Nino Vieira, a mandar num estado falhado chamado Guiné-Bissau, um enfermeiro, Samora Machel, a destruir um país de nome Moçambique, e um engenheiro da mula ruça, porventura formado na Universidade Patrice Lumumba, em Moscovo, a dirigir outro estado falhado, eregido sobre o nepotismo e a cleptocracia .

    Quanto ao Parlamento português, temos o que merecemos, e continuamos sendo a mesma aurea medocritas que sempre fomos, qual a razão para a estranheza ?

    http://www.ipri.pt/investigadores/artigo.php?idi=8&ida=27

    http://club-k.net/index.php?option=com_content&view=article&id=20915:quem-sao-os-colegas-de-jose-eduardo-dos-santos-na-engenharia-dos-petroleos-na-ex-urss-makuta-nkondo&catid=17:opiniao&lang=pt&Itemid=1067

  6. Ó Vicente Mais ou menos, bem esgalhado, mas para este atrazo de gente que anda por este país desta ” geração mais preparada”, incluindo esta inculta Isabel, mal empregado pai, estiveste a dar pérolas a porcos, grande Vicente.

    Mas temos que dar o benefício da dúvida ao ZEDU, parece que teve a coragem de travar a construção de mesquitas em Angola.

    É que o Boko Haram e outros estão a querer dominar toda a África, o que seria ainda pior para os jovens angolanos, que são milhões a vaguear por Luanda sem qualquer perspectiva de vida.

  7. Subscrevo as suas palavras, Isabel. Ontem tudo foi errado. É uma situação vergonhosa. A maioria dos deputados e deputadas preferiram o silêncio e a subserviência perante uma situação vergonhosa que é um atentado á liberdade e á Democracia. Tenho um enorme orgulho em si e nos deputados e deputadas que votaram a favor. Sinto vergonha perante o silêncio mais do que elucidativo da maioria de deputados e deputadas que ontem, sem dúvida, foram indignos dos cargos que ocupam. Ontem, foram eles que erraram e que fizeram com que o Parlamento português errado fosse. Certo só mesmo os deputados e deputadas como a Isabel que estiveram do lado da Liberdade e da Democracia. Honraram os valores e ideais de Abril, pena que todos os outros e outras não lhes tenham seguido o exemplo por interesse, medo e cobardia. Parabéns, Isabel!

  8. Primeiros:
    Ainda há por aí uma “retornagem” que já não tem salvamento possível. O tempo demonstra isso!
    Sigundos:
    E há aí também equívocos medonhos, ó Patrícia, oxalá eles não sejam fatais. Sobre Abril, e a liberdade, e a democracia, e a cidadania, e o real e concreto e verdadeiro acto de governar Portugal. Era tempo de ganharmos consciência do que isso é.
    Conclusão: gand’AspirinaB!

  9. Ontem ocorreu mais uma condenação por percepção no caso Duarte Lima. Segundo creio não houve prova feita em Tribunal. Desde que o reu tenha sido devidamente descredibilizado através de campanhas e deixado ao abandono, como pode um juiz não condenar? Provas ? Quais provas? Isto não é um caso de Justiça é somente um processo de higienização feito de cumplicidades tácitas. E um caso politico.

  10. O Strummer

    Mas então o gajo não pediu dinheiro a mais e em vez de o usar meteu-o em contas na Suíça ? E depois não pagou, nem a parcela que usou para comprar os terrenos nem a massa que estava na Suíça. É pá, olha eu o caso do Duarte Lima não acompanhei, mas se de facto é como dizes é absolutamente lamentável e criminoso.

  11. o que mais há é provas contra o duarte lima, mas não podem ser validadas sem correrem o risco de incriminar o cavacal todo. este preso enquanto lhe deu jeito para se proteger da justiça brasileira, agora a coisa aliviou e a pena foi reduzida. entreguem o gajo à justiça brasileira a ver se ele não compromete o psd inteirinho mais umas franjas e lantejoulas da paulette.

  12. Estou a referir- me a provas concretas em tribunal para o caso que foi a julgamento. Quanto a isso nepia, o q é grave.
    O vosso problema, Jasmim e Ignatz, e q no fundo estão de acordo com esta Justiça q tanto criticam pois funcionam no mesmo registo de subjectividade, não importa o que (não) existe o q interessa e o q o vox populi ou o senso comum ou mesmo a narrativa de adversariedade politica pode considerar sobre o assunto. A questão aqui é tão so uma questão de violência da Justiça sobre o individuo. Ele até pode ser culpado de mil crimes mas não pode ser condenado sem provas. E isso um estado de direito.
    Mas o comentário anterior era mais para a autora do post, que utiliza indignaçoes selectivas e panfletarias para promover uma forma confortável de responsabilidade politica.

  13. ora pois, as provas são aquilo que o ministério público mete & tira do processo e que a justiça considera relevante ou sem importância conforme o grau de amizade do acusado. nos processos à esquerda entre toda a merda que apanham legal e ilegalmente, inventam e testemunham falso e à direita evaporam provas legais e validadas, esquecem-se de fazer buscas e desaparecem testemunhas ou arguidos por falta de notificação. os primeiros vão dentro sem julgamento e os outros morrem, normalmente de cancro, antes ir a julgamento.

  14. Ignatz, metodologicamente e isso. Politicamente e mais complicado, embora haja um bias a direita e uma tentativa de contrabalançar perceptivamente os casos mais mediáticos. Até já existe um ex-procurador em prisão preventiva, que para mim ainda goza mais da presunção de inocência ate prova em contrario. Tal a necessidade de branqueamento de imagem.
    O MP tem uma agenda política própria que é indigna de um estado de direito.

    Era com isso q os carissimos deputados se deviam preocupar. Mas isso custa muito, desconsiderações
    , isolanento, a falta de convites dos jornais, etc…

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