Morte assistida ou do fluir na minha morte

Sou uma das signatárias do manifesto em defesa da despenalização da morte assistida e da sua regulamentação. O texto já é conhecido. Aqui, vou tentar dizer do por quê de defender a morte assistida precisamente por se defender a dignidade da vida humana, a definição pessoalíssima do que é, em concreto, no eu de cada um, uma vida digna. A morte assistida consiste no ato de, em resposta a um pedido do próprio — informado, consciente e reiterado —, antecipar ou abreviar a morte de doentes em grande sofrimento e sem esperança de cura.

A vida pertence-nos. É-me simples o corolário segundo o qual o que acontece na vida – refiro-me à minha morte – também possa pertencer-nos. Esta pertença toca no mais profundo substrato da individualidade, da autonomia, da liberdade, da personalidade, da convicção e da consciência. Todas estas palavras têm um sentido, têm um valor, são direitos fundamentais consagrados na Constituição. Mas antes disso e para além disso, são o que nos define como pessoas inteiras.

Não somos biologia apenas. Não somos vida definida externamente, pela qual terceiros devem lutar contra o inalienável dono dessa vida, lutar quando não há alternativa ao sofrimento associado a uma morte inevitável, lutar quando alternativas que prezo muito, como os cuidados paliativos, não dão resposta a um querer íntimo e intransmissível: porque a primeira definição do fim de uma vida digna tem de ter a dignidade de pertencer a quem habita essa vida.

É tempo de se abandonar o conceito de pessoa apenas e entender que cada pessoa é uma pessoa inteira e, como tal, sabe – com as cautelas regulamentares – do momento em que a biologia fez submergir o seu nome, sabe do momento em que é apenas pessoa, na indignidade de não ser inteira, sabe do momento em que mesmo batendo-lhe o coração dá por acabada a sua jornada e quer ter o direito que não tenham por crime a autonomia de partir da indignidade para a dignidade de escolher a morte assistida, que será a morte biológica de quem já se decidiu e já se sabe morto.

Nesta demanda, o apelo é que cada cidadã e cada cidadão não veja o outro através das suas convicções, mas que tenha o sentido ético e moral de ser o outro e, assim, não impor nessa pele que se veste as vestes valorativas ou morais que não lhe cabem.

É por isso que as expressões e as palavras são três: pessoa inteira; eu; e tu. O respeito pelas convicções de cada um numa sociedade plural, como as convicções religiosas, obrigam ao respeito pela negação de uma sociedade moralmente padronizada, obrigam à rejeição, num Estado de direito e laico, da imposição dos valores de alguns a todos ou mesmo dos valores e convicções da maioria a uma minoria.

Se os direitos fundamentais são contramaioritários, se a dignidade e os direitos fundamentais não se referendam, certamente a definição individual, pessoalíssima, a decisão mais cravada na nossa intimidade, não está à disposição da opção religiosa, ou outra, de terceiros. Não estamos a falar do plano do divino, em que a religião implica epistemologicamente uma relação e uma delegação no absoluto, que respeito para quem a pratica, que refuto quando tentativamente é transposta para a legislação de um Estado assente num conceito laico de dignidade da pessoa humana.

Olhem-me nos olhos, quero ser olhada nos olhos, quero, como outros, que a minha morte, que acontecerá na minha vida, possa, em caso de sofrimento insuportável e inútil, ser promovida/supervisionada por um médico, negando um qualquer curso natural das coisas , esse conceito impiedoso, e deixando fluir na minha morte a dignidade definida por mim: deixando fluir na minha morte a minha liberdade e a minha personalidade desenvolvidas nas suas complexidades; deixando fluir na minha morte, não um corpo biológico, mas uma pessoa inteira.

 

(publicado no Jornal “Sol” com link indisponível)

 

5 comentários a “Morte assistida ou do fluir na minha morte”

  1. Quem, tal como eu, já viu ao seu lado tanto sofrimento impiedoso, não pode deixar de concordar com estas palavras da Isabel “….que a minha morte, que acontecerá na minha vida, possa, em caso de sofrimento insuportável e inútil, ser promovida/supervisionada por um médico, negando um qualquer curso natural das coisas , esse conceito impiedoso, e deixando fluir na minha morte a dignidade definida por mim…”

  2. Desculpe Isabel, mas depois de ler tudo, retive só a última linha.
    Também publica no esgoto do Sol?
    Que desilusão.

  3. Eheheh
    Este texto e uma mensagem subliminar de apoio ao suicídio assistido do arquitecto saraiva.

    Himno Tutanasia

    O Saraiva e o Balsemão primeiro
    Depois o Macedo
    E o Octavio Ribeiro

    Fucking brilliant!

  4. adorei ler-te, Isabel. se não podemos escolher a nossa morte que caralhos é, afinal, a vida – a liberdade e o que somos no lugar onde habitamos. beijinho. :-)

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