Chega!

Hoje foi dia de greve geral, debaixo das críticas do costume, essas que falam da peça de mobília que é essa forma de expressão, de luta, essa greve que é um direito fundamental.
Hoje foi dia de greve geral e perde-se mais tempo a ouvir Passos Coelho a elogiar quem vai trabalhar ou o dinheiro perdido pela Pátria à conta de uma paralisação de muita gente, mesmo sem o acordo das duas centrais sindicais, do que o vendaval que corre por baixo de formalismos oratórios.
Hoje foi dia de greve geral, mais um dia de protesto, mais um dia de desespero contra a evidência da nossa sufocação. O tal anacronismo das greves é calado pela adesão de trabalhadores de empresas privadas, pela adesão dos trabalhadores que Passos ignora, os tais a quem custa muito um dia de salário, mas a quem custa mais cada dia que passa com este Governo em funções.
Depois há os trabalhadores precários, depois há os trabalhadores que, com fundamento, têm medo de fazer greve, porque exercer um direito é perder – agora tão facilmente – o seu posto de trabalho.
Talvez seja mais honesto, por isso, respeitar esta greve como uma das formas de luta que os trabalhadores têm, e em vez de discutir em demasia da adesão da UGT ou da sua utilidade imediata, enquadrá-la no conjunto enorme de protestos e de vozes contra um Governo e repetir, uma e outra vez, a substância da nossa sufocação.
Temos uma dívida de 228 mil milhões de Euros para pagar. Desta dívida, 120 mil milhões de Euros são juros. Ou seja, este ano, 2012, teremos de pagar 9 mil milhões de Euros só de juros, o que corresponde a 5% do PIB.
Para pagar esta brutalidade, a economia teria de crescer 5% ao ano.
Para lá chegar, o Governo apresentou um OE em 2012 mais ambicioso do que o memorando de entendimento, pediu-nos sacrifícios que jurou transitórios para passar a perna à TROIKA e chegar ao fim do acordado mais cedo.
Os portugueses pagaram a experiência laboratorial e o Governo apresentou os seus resultados: errou na dívida; errou no défice; errou no crescimento; criou recessão económica; e aumentou brutalmente o desemprego.
Transformado assim o país, diria uma inteligência moderada que era de adaptar o modelo à realidade, mas, para espanto dos portugueses, o Governo voltou com o seu modelo, desta feita mais forte, incapaz de qualquer tipo de empatia social e política e de ponderar sobre uma cláusula velhinha que se chama “alteração de circunstâncias”. Renegociar ou aproveitar ventos do FMI é coisa para os outros devedores, não para Gaspar.
A economia vai decrescer cada vez mais, o emprego aumenta a cada dia, o nível de empobrecimento é crescente, temos 3milhões de portugueses abaixo do limiar da pobreza, os jovens escolhem entre emigrar ou empobrecer, os cortes nas prestações sociais são três vezes superiores ao previsto no memorando, e parece que se entende que cortar 4, 5 mil milhões de Euros no Estado Social não é, para o Governo, uma forma de criação de impostos nem uma outra forma de criação de recessão e de aumento de dívida.
Perante este Governo, com maioria absoluta, com o apoio do PR, com um acordo com os parceiros sociais que chegou a este autismo, que faz uma pessoa?
O que estiver ao seu alcance.
Se for a greve, pois muito bem e espero que muita gente possa exercer esse direito. E espero também que se fale do por quê da greve.
Chega.
Este Governo é uma facada a cada dia que passa.
Houvesse quem o demitisse.
(No P3)

16 thoughts on “Chega!”

  1. Sra. deputada Isabel Moreira,
    já parou para pensar quantos postos de trabalho se perdem, quantos impostos têm que ser aumentados, quantas pessoas são empurradas para a miséria, quanto a nossa dívida cresce, à conta das suas queridinhas greves, com a dos estivadores à cabeça ?

  2. Lucas diga-me lá quantos milhares de empresas faliram nos últimos 4 anos sem que nelas tivesse existido qualquer greve? Cite-me uma empresa que tenha falido devido a greves dos seus funcionários. Os estivadores estão em greve às horas extraordinárias, cumprem, portanto, o dia normal de trabalho. Mas eu pergunto-lhe uma coisa, se a estiva é assim tão importante para o país porque razão o governo anda a tentar precarizar-lhe o trabalho. Um governo inteligente concerteza que não iria atacar as condições de trabalho de uma classe de que tanto precisa para a economia do país. Um governo inteligente, disse. Já um governo de paspalhos consumados como é o actual não é de esperar outra coisa, não é de esperar senão prejuizos de toda a espécie para os trabalhadores e pessoas que diz querer proteger.

    Por mim você pode ir de carrinho mais a sua conversa governista.

  3. Há sempre uns campeões do luxo que protestam cronicamente contra as greves que também a eles os defendem. É a miséria que empurra as pessoas à greve e não o contrário; é o incremento activo e propositado da dívida que empurra os cidadãos para a greve e não o contrário; é porque os impostos aumentam e porque se vem em massa parar ao olho da rua que se fazem as greves e não o contrário. Esta forma favorita de certa direita acéfala em contra-argumentar com inversões baratas de categorias é pior que a verdadeira estupidez: a essa é sempre possível desculpar muita coisa.

  4. hoje gostei da actuação da polícia de intervenção, foi pena não terem começado mais cedo a enxotar o pessoal. entretanto o armónio carlos diz que não tem nada a ver com os desacatos, mas aproveita para ameaças veladas de mais desordem e o cavaco diz que optou por não fazer greve.

  5. o ministro da polícia já veio agradecer à cgtp o protesto exemplar. o trolha da areosa ainda é medalhado no próximo dia da raça.

  6. “Os portugueses pagaram a experiência laboratorial e o Governo apresentou os seus resultados: errou na dívida; errou no déifice; errou no crescimento; criou recessão económica; e aumentou o desemprego.”.
    Permita-me que não concorde consigo. Os portugueses pagaram a experiência laboratorial e o governo apresentou os seus resultados: acertou na dívida; acertou no défice; acertou no cescimento; criou recessão económica; e aumentou o desemprego. Afirmo-o porque penso que o acima citado não aconteceu por acaso, tendo a estratégia um objectivo ideológico que veremos com o decorrer do tempo. Um governo forte com os fracos e fraco com os fortes apresentará, perante os resultados negativos cirurgicamente alcançados, a inevitabilidade de uma forte redução da despesa. Todavia, essa redução será efectuada na “sua” despesa. Na despesa que redundará num aumento de receita para as suas clientelas. Os sinais avolumam-se, estão aí: ao nivel do discurso dos agentes políticos; ao nível dos avençados do costume; ao nível da arrogância que se detecta na postura de alguns “agentes económicos”. Cada vez se torna mais premente a mudança do paradigma, antes que este nos mude e nos reduza à indigência.

  7. “Cite-me uma empresa que tenha falido devido a greves dos seus funcionários.”

    Seria uma conta interessante: Os prejuízos causados pelas greves da TAP, da CP e dos estivadores nos últimos 10 anos (só essas, nem era preciso mais) chegariam para pagar quantos subsídios de desemprego e por quantos anos? Outra boa: valem quantos salários mínimos os ordenados médios dos trabalhadores destas empresas?

    Os comentários de Joões e Nunos Fonseca e atitudes complacentes com o “quanto pior melhor”, como a de Isabel Moreira ou de Arménio Carlos, acrescentam satisfação à circunstância de estar a assistir de longe ao afundamento da nau, vendo tripulação e passageiros a golpear furiosamente com seus machados, ao despique, a madeira pôdre que ainda a deixava flutuar.

  8. Obrigada, e bravo, Isabel, pelo testemunho cheio de dignidade, raiva genuina que desta vez conseguiste lançar. Desta vez estiveste muitissimo bem, porque estiveste no centro, no núcleo precioso do que é o sentimento colectivo perante a tragédia que nos estão a impôr.

    Quanto ao resto, Lucas, estás do lado errado da barreira:não há barreira, neste momento, entre CGTP, e independentes e privados e funcionários, porque todos estão a ser reduzidos ao nível subhumano demonstrado pelas imagens INCRÍVEIS que vi na SIC (em mais nenhum canal): às ordens do Macedo, uma parede maciça de polícia de choque atacou pessoas, como mulheres com as malas a saltarem-lhes dos ombros, porque cegamente espancadas pelos bastões insistentes da polícia (e tumba, tumba, já estão caídos no chão , a sangrar, sem acção, mas continuam: e tumba, tumba…) Parece que a ordem do Macedo era “esmaguem tudo o que mexa a partir das 20H00). E assim fizeram. E a SIC mostrou. E eu nunca tinha visto imagens destas em Portugal .Nunca. E espero que isto sirva pra tirar os abutres do poleiro antes de Fevereiro de 2013, prazo do Valupi e outros racionais, porque o povo só reage quando lhe chegar concretamente ao bolso. Espero que o povo reaja porque lhe chegaram literalmente ao lombo. Crânios a sangrar? Velhos, jovens e mulheres espancados? NÃO! CHEGA! Não são terroristas, é o povo, ESTÚPIDOS!!!!!!!!
    O que há de pior que estar sem emprego, sem casa, sem meios mínimos de subsistência e levar com um bastão na cabeça por protestar? Alguém me diga. Uma familiar que vive na Alemanha viu as imagens e perguntou-me candidamente: “se aqui na Alemanha Ocidental (sic) ninguém pode com a Merckel e toda a gente lhe quer torcer o pescoço, motivo pelo qual não se desloca sem dezenas de seguranças, porque é que aí em Portugal, país assassinado, ninguém se mexe contra um governo que parece alemão”?
    Ainda não consegui arranjar resposta.

  9. “Os portugueses pagaram a experiência laboratorial e o governo apresentou os seus resultados: acertou na dívida; acertou no défice; acertou no cescimento; criou recessão económica; e aumentou o desemprego. Afirmo-o porque penso que o acima citado não aconteceu por acaso, tendo a estratégia um objectivo ideológico que veremos com o decorrer do tempo.”
    Por esta vez, totalmente de acordo: esse era o programa. Está escrito , mas o eleitorado não leu. Votou em branco conta Sócrates e depois logo se vê. Já se viu. E agora?

  10. E agora? E agora é “tirar os abutres do poleiro antes de Fevereiro de 2013”. Repito, mudar o paradigma, antes que este nos mude e destrua. Já estou a ficar gasto para levar cachaporradas pelas costas abaixo e a ruas da Boavista e São Paulo são tão loooongas. Nos idos de sessenta do século passado a dita do Ouro tinha apenas vinte metros, ou menos, para as minhas pernas de adolescente que o levantar e cair não custavam nada. Além do mais, os gorilas do Maltez que se esforçam agora por reinventar, eram tãos feios nas suas fardetas cinzentas e elmos pretos.

  11. ja ja ui ui é é o ps , outros políticos e tal , que vão resolver isto tudo , né ? eu não sei , mas acho que vocês todos , todos , não têm um pingo , um pingo que seja , de dignidade. de forma nenhuma confio o meu futuro a tralha que devia estar no lixo há buérere. e é este o sentimento do povo “representado” , era capaz de apostar.

  12. :(( achorarpara não rir, mano, tás a ver mal a cena. Bué da mal, tipo IV Internacional. Memo buérere ( :(( a chorarpara não rir dixiti) da mal. Bué da dignidade amandam os ajudaram a amandar isto tudo pó buérere e agora recebem os elogios acerca da sua capacidade de controlo de manifes do Macedo dos cassetetes.
    Tás a confundir tudo mano, tás a fazer bué da confusão. Tipo olho do cu com a feira de Borba. Baza meu, pós bancos de trás do 742!

  13. Cara Isabel Moreira:

    O PS, ainda que mais aceitável que o PSD, não é alternativa. Mais, de um ponto de vista aristotélico, uma candidata independente não pode ser de um partido centrista. Aliás, em Portugal temos bem aprendido o que significa ser um candidato “independente”. A Isabel é um motivo de orgulho para a nossa política, e para mim em especial, uma fonte de inspiração. Mas o partido a que se associou é rasteiro, e a sua liderança, indiferente. O PS está cheio de Relvas e de Passos: gente que não interessa a ninguém, e que muito menos deveriam interessá-la a si, que é inteligente, e justa, e sensata. A Isabel terá sempre em mim uma voz em sua defesa, mas nunca, em tempo algum, do seu partido e do do Fernando Nobre (outro candidato independente). E sobretudo, agradeço-lhe o simples facto de existir: não fosse a Isabel Moreira e mais meia dúzia, e se eu me ficasse pelos exemplos da Jonet e da Cristas, certamente concluiria que as mulheres eram acéfalas e dignas de torturas piores que as propostas pelo Corão.

    Afinal de contas, o PS quer outra política ou quer fazer esta política de outra maneira?
    Pois… bem me parecia, Isabel!
    :-)

  14. Por muitas voltas que demos a violência, que muitos repudiamos, tem algumas vantagens. Tornou patente o caráter autoritário deste governozinho que por aí se arrasta que, ao exercer uma resposta policial tardia e mediaticamente preparada, mais não pretendeu do que amedrontar quaisquer potenciais manifestantes futuros. Quais dos mais timoratos se aventuram a apresentar-se em protesto no Largo de S. Bento correndo o risco de se verem envolvidos numa carga policial mais ou menos justificada? E o próximo teste será já no dia 27/11. A segunda vantagem foi fazer passar pelas televisões de todo esse mundo que afinal passa-se qualquer coisa neste país. Como a cordialidade de qualquer manifestação não chega a notícia então que chege a porrada. Pelo menos tornará evidente que isto por aqui não vai tão concensual como o Governo e os porta-vozes da CE pretendem fazer crer.

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