As pessoas e as suas causas: erros, preconceitos e divergências cúmplices

Ontem, ouvi esta entrevista feita, entre outros, por Pedro Mexia ao Miguel Vale de Almeida. Saliento, entre os vários entrevistadores, Pedro Mexia, já que foram afirmações do próprio e o diálogo delas decorrentes que me levaram a escrever um texto que tenho há tempos na cabeça.

A entrevista e as respostas dadas dão pano para mangas para apontar três factores recorrentes nestes temas: um erro histórico, um preconceito e uma atitude.

Em primeiro lugar, há em algumas pessoas a falsa ideia de que as certas causas, como a do casamento entre pessoas do mesmo sexo (CPMS), não têm necessariamente paternidade na esquerda, antes devendo ser olhadas como “causas transversais”, causas que podem ser perspectivadas como mais um passo na conquista vagarosa dos chamados direitos liberais.

Pareceu-me que esta ideia não causou qualquer interrogação.

Com o devido respeito, as conquistas de direitos têm paternidade ideológica e lutas como a que se travou pelo CPMS são, na sua essência, lutas e causas de esquerda. Não se pode falar numa “causa transversal”, simplesmente porque ela não o é, nem mesmo porque aparecem uns quantos da direita a excepcionarem o seu mundo ideológico, a visão do mundo que os rodeia.

Podemos falar, sim, de comportamentos transversais, no sentido em que, evidentemente, a homossexualidade atravessa todos os quadrantes políticos. Mas ter por evidente que os comportamentos são transversais deve levar-nos a explicar de seguida que a reivindicação de um estatuto jurídico de igualdade, de visibilidade, brota de quem pertence a um específico universo político, ideológico e cultural. Este é, portanto, o erro que se traduz numa tentativa de validar nas convicções de todos uma conquista de esquerda, para que ela passe a pertencer, geneticamente, a todo o espectro jurídico.

É natural, por exemplo, que com o tempo pessoas e instituições que combateram o CPMS mudem de ideias. Mas se isso acontecer, o CPMS não deixa de ser património da esquerda.

Não se trata, nesta exposição, de distribuir pontos, mas de não procurar consensos e discursos amáveis à custa de uma leitura da realidade que não a honra.

Explicar que o CPMS pode ser visto como mais um passo nas conquistas do liberalismo é deixar no silêncio a circunstância de nunca ter existido liberalismo em Portugal e de o liberalismo normativo que tivemos, através de todas as constituições oitocentistas, caracterizar-se, em matéria de direitos, pela negação da universalidade. Conforme o texto, de 1822 a 1911, a titularidade de direitos dependia de factores como a classe e o género. O mesmo se passou noutros países.

Em suma, o CPMS é tanto uma conquista da esquerda e da sua visão do mundo quanto o é, por exemplo, a IVG.

Outro erro em que se cai na entrevista, com o devido respeito, é falar-se em anticatolicismo. Não consigo perceber o que é que se pretende significar com este conceito tão pobre, associado à luta pelo CPMS. Pedro Mexia fala nisto, por exemplo, quando se refere à minha atitude, e à da Fernanda Câncio, nomeadamente num debate anterior à aprovação do CPMS.

Falando por mim, posso apenas chegar à conclusão de que ainda vivemos num país no qual se uma pessoa é sentada à frente de um padre e contraria as posições do padre, padece de anticatolicismo. É automático.

Na verdade, é-me absolutamente indiferente o que a Igreja defenda em matéria de costumes: é o que é, conheço o que defende, e é um problema dos fiéis. Isso não me impede de criticar a interferência da Igreja no poder, por exemplo, quando assim entenda que é o caso, ou de, colocada num debate em que o opositor é um padre, contrariar, como não pode deixar de ser, as suas ideias. Mas já percebi, e esta entrevista veio fortalecer a minha convicção, que basta contrariar a Igreja ou alguém da Igreja para se ser anticatólico. Resta saber se o padre perante quem eu debato é um feroz anti-ateu.

Finalmente, nestes temas que desencadeiam uma luta de e por convicções, vem ao de cima como nunca, sob forma de mera análise do debatido, uma atitude sem cura à vista, o machismo. Trata-se de um sexismo difícil de suportar com postura amena, que ressalta em mais um programa de televisão e que é amigo do país dos bons costumes: mulheres que tenham uma intervenção forte na forma como se expressam são sempre, mas sempre, vistas por certa gente como não cordiais, ou antipáticas ou pouco conciliadoras, para não dizer histéricas.

Não vale a pena tentar explicar a calma de uns em contraposição à agitação de outras com a experiência na Academia (como o Miguel tentou), digo eu que tenho 15 anos dela.

A questão é que se uma mulher é insultada aos gritos e com uivos, numa estratégia para a calar, estando sentada em frente a uma plateia que levanta cartazes com definições criminosas de “homossexualismo” e ouvindo de tudo, desde os homossexuais serem anormais a os mesmos serem comparáveis com o que for, se essa mulher levanta a voz, se aponta ao dedo à plateia cobarde que uiva cada vez que ela fala, essa mulher é histérica, anticatólica, claro, pouco harmoniosa e coisa má para os “indecisos”, usando as palavras de Pedro Mexia.

Se um homem comparar homossexuais a animais, disser erros de direito propositadamente para confundir as pessoas, gritar quando isso lhe é apontado, acusar a mulher de ter mentido quanto à sua formação ou se, sendo padre, disser com voz de veludo que até tem amigos homossexuais, mas eles ou um pai ter relações com um filho é a mesma coisa, esse homem é incisivo, activo, participativo, tudo, porque a forma está correcta e é homem.

Evidentemente, se for explicado ao padre que considerar que alguém cometeu um erro é diferente de considerar que alguém é um erro, temos histérica e anticatólica.

 Este eterno duplo padrão de exame da intervenção feminina e masculina não se esgota no que foi dito numa entrevista; a entrevista serviu apenas de mote para estas palavras. Por outro lado, claro que falo por mim, quando recordo que participei em muitos outros debates televisivos antes e após o Prós e Contras, tendo ouvido por graça perguntarem-me se nesses ia drogada, já que não levantei a voz nem apontei o dedo a ninguém. Na substância, não disse nada de diferente, mas não senti necessidade de reacção, com inevitável dose de emocionalidade, em debates sem um ambiente de hostilidade, de agressão e de insulto anormal, como o que encontrara no famoso Prós e Contras.

Nada disto exclui que perante uma mesma agressão uma mulher possa reagir com calma olímpica e um homem com violência. Do que se trata é de apontar a qualificação de ríspida, histérica ou anticatólica que uma mulher merece sempre que tem um comportamento que, se fosse de um homem, seria qualificado de frontal, incisivo ou de corajoso.

Para além dos exemplos, esta entrevista fez-me pensar mais uma vez na existência de uma cultura de divergências cúmplices.

As pessoas pertencem a mundos diferentes, por um lado, defendem causas opostas, mas falam umas com as outras numa espécie de código de classe. É por isso que os restaurantes estão cheios de mesas com pessoas que negam as outras que bebem do mesmo vinho. Assim garante-se a tal classe, e com isso tudo o que der jeito e que daí venha, desde logo não se ser um excluído de circuitos de sedes de poder. O código de acesso a tudo isto é um código tacitamente acordado de não-agressão.

O que move uma pessoa livre quando abraça uma causa, antes do interesse pessoal na mesma, é a convicção de que reside ali um princípio de justiça.

Gosto de pessoas movidas pela convicção, que vão à luta contra quem quer que seja, que lançam mão do direito à indignação quando são vítimas de agressão e de insulto, que preferem a substância de cada um de nós a uma forma, seja ela qual for, com o conteúdo que for, mas obediente à lógica das divergências cúmplices; gosto de pessoas que usam razão e emoção, pessoas sem medo dos rótulos, que não pensam duas vezes antes de contrariar um adversário à conta do anti que lhes vai ser pregado às costas, gosto de pessoas que debatem ideias, que pagam o preço que for por isso.

Se essas pessoas forem mulheres, sei que estão condenadas à já referida dupla valoração.

Em suma, ser livre tem um preço.

E ser mulher também.

38 thoughts on “As pessoas e as suas causas: erros, preconceitos e divergências cúmplices”

  1. As suas conclusões são lamentavelmente óbvias, sentido de, creio, todos as lamentarmos…

    MAS…

    é para as inverter que aqui estamos

    todos juntos

    corrigindo situações, destruindo tabus,

    criando a confiança necessaria entre as gentes de bem

    para que normalidade de relação e responsabilidade

    sejam cada vez mais assumidas por todos, todas..
    abraço

  2. obrigada..
    isso mesmo: todos/todas
    felizmente, nem todos têm uma visão sexista da intervenção cívica das mulheres

  3. Cara Isabel Moreira,
    Texto belíssimo, impressivo, de uma ética irrepreensível, de uma exigência que até dói.
    É daquelas situações em que eu tenho “inveja”, pois gostaria, muito, de o ter escrito.
    Para me compensar, vou fazer, com sua autorização, link lá para a minha rua.
    Abraço.

  4. Que grande lençol de feminismo dogmático. Eu pensava que isso já tido os seus epílogos em manifestações de despedida na Place Concorde e em Trafalgar Square!

    Quer dizer, esta menina só contraria a igreja com diplomacia e educação, mas os padres dão gritos e uivos e são ferozes ateus!

    E sim, eu sei de gajos que comparam não apenas homossexuais, mas cerca de 96 da população mundial a animais. Adivinhe quem, menina Mayer?

  5. O BOM DE CADA SEXO, É TER O OUTRO

    DE QUEM DIFERE, PODE DIVERGIR

    MAS VISANDO A SINERGIA DA COMPLEMENTARIDADE, ENFIM, NA EVENTUAL SINTESE CONSEGUIDA

    INFELIZMENTE A SOCIEDADE, TODAS AS SOCIEDADES, POR MEDIOCRIDADE PROPRIA, EM ALTERNATIVA A POTENCIAR A DIDERENÇA, PREFERE EXPLORAR NEGATIVAMENTE OS ELEMENTOS, CURTOS, DE DIFERENCIAÇÃO…

    E FAZ DELES GUERRA POR (ALGUM ) “PODER” RELATIVO, ÀS VEZES ABSOLUTO, OPONDO UNS, CONTRA OUTROS

    PIOR… CAVAM TRINCHEIRAS POR ALGUNS “VALORES” SECTARIOS ADOPTADOS ASSUMIDOS…

    É A RAÇA, A RELIGIÃO, O SEXO, A IDADE, ENFIM SEI LÁ QUE MAIS…

    O IMPORTANTE AQUI E AGORA, É TODAS E TODOS, SERMOS CAPAZES DE VIRAR ESSA LOGICA DE CONFLITO, DE NEGAÇÃO DUMA VALORIZAÇÃO DO CONTRASTE,

    E TENTAR VER, ATINGIR, UM DISCURSO DE PLENITUDE

    QUE COMO DIZ,

    ATENDA E SUPERE E PROLONGUE AS EMOÇÕES , OS RACIOCINIOS, OS OBJECTIVOS, ENTRETANTO TORNADOS “COMUNS”

    DESATENDENDO PROVENIENCIA,

    CONSIDERE SEU VALOR INTRINSECO DE TROCA INTELCTUAL E OUTRO, NA COMPLEMENTARIDADE DA RELAÇÃO SOCIAL, INTELCTUAL, AFECTIVA, EMOCIONAL…

    DIGO EU… OBRIGADA PELO SEU OBRIGADO

    ABRAÇO

  6. Kalimatanos
    eu levanto a voz quando não tenho alternativa, em face das circunstâncias. daí que possas ver em debates ou entrevistas, sobre o mesmo tema, na TVI ou na RTP 2 ou na SICN a minha voz como a queres. mas o texto serve a muita gente, não estou a pensar só em mim. a referência, numa entrevista, à minha pessoa serviu de pretexto a este texto, como deves saber.
    agora parece-me que não sabes ler, não é? eu não tenho a Igreja como alvo. pergunto apenas se aqueles que me viram “agressiva” a contrariar um padre e me chamam de anticatólica já pensaram em ver num padre que compara homossexuais a pais e filhos sexualmente envolvidos um anti-ateia.
    sei bem onde queres ir com o “menina mayer”. queres concretizar?
    fala-me lá dos 96% da população, por favor. não sejas tímido.

  7. Como muito bem disse o MVA na entrevista, exigir a igualdade ainda é uma postura radical no nosso país. Tirando a boutade da “sanha anti-católica” do Pedro Mexia, penso que ele estava sobretudo a falar de estratégia comunicacional ou argumentativa. Posso defender A ou B de n maneiras diferentes. E o que define uma pessoa, Isabel, quer ou queiramos ou não não é apenas A ou B mas a forma que escolhemos para fazê-lo. Mais: hoje, em dia, numa sociedade tão mediatizada, a forma acaba por contaminar o conteúdo – se é que ainda faz sentido separar estas duas dimensões.

    Isso é particularmente visível numa diferença tão substantiva como o registo oral e escrito. Há pessoas que não suporto ouvir falar, mas cuja escrita aprecio. Mais: é óbvio que o registo oral produzido num cenário com uma assistência hostil é totalmente distinto do produzido num contexto como o do programa do canal Q. Culpado, me confesso: prefiro ler este teu texto ou qualquer outro da Câncio sobre este tema do que vos ver acossadas numa arena onde a vossa acção é mais reactiva do que produtiva. Não sejamos ingénuos: este é de resto um estratagema que foi usado propositadamente (e com algum sucesso) ao longo desse famigerado Prós & Contras.

    Aliás, és a própria a dizer que gostas de pessoas movidas pela convicção e dispostas a pagarem o preço por isso. Ou seja, e como não poderia deixar de ser, esse preço a pagar valoriza essas mesmas pessoas. O que pergunto é: até que ponto a escolha (consciente ou não) de uma determinada estratégia comunicacional belisca essa valorização? Penso que em nada, mas sempre daria para que a “mensagem” chegasse a uma maior audiência.

  8. Cara Isabel Moreira,

    Concordo nas grandes linhas, mas não sei se a sigo em todos os meandros do seu raciocinio.

    Julgo que a razão pela qual a luta pelo CPMS (e também, mas talvez seja menos nitido, a luta pela despenalização do aborto) é radicalmente de esquerda é ao mesmo tempo mais subtil (logo, não me espanta que as pessoas tenham dificuldades em identifica-la com precisão) e mais nitida.

    A luta pelo CPMS é de esquerda porque se inspira numa preocupação de igualdade efectiva. Isto não é evidente à primeira vista, porque a reivindicação pode soar, num primeiro momento, como um apelo à tolerância. Ora existe uma sensibilidade “liberal” à direita que se identifica perfeitamente com a tolerância mas não com a procura da igualdade efectiva ou material.

    O que acontece é que quem apreende a questão unicamente sob o prisma da tolerância, ou seja quem a encara a partir dos principios do liberalismo, acaba por não compreender porque é que se reivindica o direito de casar. Isto porque a liberdade de se unir, com efeitos idênticos ao casamento, lhe parcera normalmente suficiente, sem que perceba o que a sanção dada pela figura “casamento”, mero traço folklorico para um verdadeiro “liberal”, vem acresentar ao certo.

    Ou seja, no fundo, so se consegue perceber a reivindicação do CPMS aceitando que a liberdade formal não chega e que a dignidade requer que todas as pessoas sejam “consideradas” e tratadas de forma materialmente idêntica (o que, alias, não exclui que se tenham em consideração algumas diferenças, desde que isso não ponha em causa a igualdade fundamental, matéria na qual o direito fez progressos importantes de 1945 a esta parte). No caso do CPMS, não chega a liberdade de se unir com consequências idênticas às de um casamento civil. Ha ainda a aspiração a ser considerado (pela sociedade) como casado exactamente na mesma medida em que o é um casal hetero. Ou seja, importa eliminar a discriminação em razão da orientação sexual : a minha orientação sexual não deve exclui-me de um instituto tradicional com todas as suas caracteristicas (função na vida familiar, social, etc.).

    A esquerda define-se precisamente, em meu entender, a partir desse nucleo da primazia dada à igualdade, o que passa por uma critica realista do liberalismo (a liberdade so é admissivel na medida em que todos estão em condições iguais para a exercer).

    E’ um pouco mais dificil compreender porque é que a questão da despenalização do aborto é, também ela, uma reivindicação de esquerda (o Valupi, por exemplo, nunca percebeu isso). Ou seja, não se trata de um problema de “tolerância”, nem de “liberdade” (que alias, neste caso, e contrariamente ao que sucede com o CPMS, não poderia justificar-se eticamente com a mesma facilidade), mas sim de um problema de restabelecimento da igualdade. Neste caso, trata-se mesmo de uma questão de restabelecimento da igualdade entre os sexos.

    Se a Isabel tiver quinze ou vinte anos a perder, pode experimentar explicar isto ao Valupi…

  9. Belo início, muito bom mesmo, mas a prosa progride para alguma dispersão de ideias, à medida que o “tutano” do texto se vai esfarelando e aproximando de um tom próximo do desabafo dorido, quase impotente.

    Sem tempo para prosseguir na interessante (e interminável) pista do João Viegas, quanto às (dis)semelhanças entre “Liberalismo” e “pensamento de Esquerda”, aponto apenas para a necessidade de aprofundar mais a distinção entre o que possam ser noções éticas absolutas, num dado contexto histórico-social, e valores relativos, nesse mesmo contexto mental e cultural. Parece-me que, à luz de uma clara separação de conceitos neste domínio, aquilo que hoje se considera um direito político e jurídico, numa perspectiva ideológica de Esquerda, como a igualdade perante a Lei independentemente da chamada “orientação sexual”, é mais fruto de uma mentalidade gerada por comportamentos banalizados numa Sociedade que avançou mais do que certas Doutrinas, do que consequência de imperativos ideológicos mais ou menos dogmáticos, mais ou menos mecanicistas, ou pavlovianos, de “combate” a uma força social considerada “retrógrada”, como a Igreja Católica.

    Digamos que, à luz da experiência histórica, toda a luta quer por maior Igualdade de direitos, quer por mais Liberdade, é uma luta que apenas pretende ver traduzida na Lei a prática social já aceite pela Sociedade, mas que a Doutrina ainda não conseguiu encaixar na sua dinâmica intrínseca de aperfeiçoamento, mas que só pela força das circunstâncias conseguirá teorizar sem “perder a face”.

    Por esse motivo, todos os que assumem a vanguarda dessas lutas estarão sempre à “frente” do seu tempo, mas acabarão por ser reconhecidos e quase banalizados a partir do momento em que se dê a necessária ruptura no enquadramento jurídico da Sociedade, sem ferir as suas lógicas formais sistémicas.

    Resumindo, o que representam hoje os defensores dos direitos dos ditos “homossexuais”, ou LGBT, não é muito diferente do que representaram, noutros contextos históricos, os defensores do voto das mulheres (as “sufragistas”), ou anteriormente os defensores do sufrágio universal, ou antes ainda os defensores da Igualdade de todos perante a Lei, e por aí fora.

    A Igreja Católica, no meio de tudo isto, acaba por se baralhar numa dupla condição de folha arrastada pelo “vento” da chamada resistência social à mudança, a qual traduz um instintivo temor reverencial pelo desconhecido, e ao mesmo tempo factor de aceleração desse próprio “vento”, enquanto força moral inspiradora do argumentário reaccionário.

    Num estádio posterior de desenvolvimento social, a Igreja acaba por silenciosamente adaptar-se e conformar-se à nova mentalidade dominante, pelo que será de Futuro tão previsível a existência de Padres que façam holimias inflamadas contra o pecaminoso casamento homo-sexual, como hoje em dia existem cromos a pugnar ainda pela realização da Liturgia em Latim, ou a condenar às penas do Inferno os “hereges” que defendem a descriminalização do adultério, por exemplo.

  10. Peço desculpas e corrijo um lapso evidente: «(…) mas que a Doutrina ainda não conseguiu encaixar na sua dinâmica intrínseca de aperfeiçoamento, PELO que só pela força das circunstâncias conseguirá teorizar sem “perder a face”».

  11. João Pedro
    Mais uma vez, a entrevista ao Miguel foi apenas um pretexto para um texto que não me diz apenas respeito.
    O Miguel fez decorrer da sua vida académica uma hipótese para o seu estilo mais calmo. Nada a dizer. Pessoalmente, gosto muito, mas mesmo muito, de ouvir o Miguel, que tem um estilo em nada estudado, verdadeiro, autêntico. Já o vi levantar e bem a voz num debate televiso no canal 2, estava ao lado dele, e o Miguel sentiu que tinha de reagir a um ataque que me fizeram no sentido de eu ter mentido sobre as minhas habilitações. Acontece, mesmo a uma pessoa calma por natureza, e no caso tenho de lhe agradecer.
    É evidente que a forma interessa, e que há radicalidade transmitida em termos suaves, estamos de acordo. O que eu digo é isto: uma mesma atitude, num debate hostil, com agressões e insultos, uma mesma atitude de deixar vir ao de cima emoção, levantar a voz, apontar o dedo, essa mesma atitude é tida por histérica se pertencer a uma mulher e, em face das circunstâncias, por incisiva, por exemplo, se pertencer a um homem. ok? Não gosto de gritos, se me compreende, mas já senti a necessidade de levantar e muito a voz, surda que estava pela gritaria da plateia. Não há comparação com o canal Q, por outro lado. Falei de DEBATES a que fui, onde ouvi coisas difíceis de ouvir, mas sem um clima do PEC.
    Quanto ao preço, havendo este duplo padrão e escolhendo uma mulher ser livre, não cedendo às divergências cúmplices, o preço não é agradável. Mas paga-se porque se acredita.
    O meu “estilo” nunca foi “estudado”. Penso que a indignação não se estuda.
    Mas qual é o “estilo” de quem insulta com voz educada? Gostava de saber.

  12. Já eu não sou como tu, Isabel. Levanto a voz quase sempre. Coisas da meia-surdez. Confesso que nunca vi nem ouvi esses famosos debates em que tomaste parte e deste largas ao pulmão; mais grave ainda: se não tivesses aparecido aqui, nem saberia que existias, que é o que deve passar-se contigo se desceres à gentileza de considerares a minha pessoa durante um segundo ou dois.

    Se não tens a Igreja como alvo – mesmo pondo de parte a possibilidade de que eu possa não saber ler – disfarças mal. Os padres andam numa fona na tua escrita. E já foste ao Mexia para te explicar melhor, retractando-se, aquela coisa da “sanha”? Ou ele também não sabe dizer? No entanto nada disto tem a ver comigo, sinceros votos de que continuem amigos como sempre.

    Aliás, quanto a mim, mais importante que a indelicadeza do Pedro Mexia que tanto encrespou as tuas ondas foi a confissão do “entrevistado” de que lhe sobe a mostarda ao nariz mas só na companhia da família, isto é, dos “seus”. Fiquei com a noção de que este particular antropólogo é difícil de bater em relações públicas. O resto daquela aborrecedora conversa foi bate-papo de terceira para preencher “time”. Mas não tenhas medo que a coisa não vai dar volta ao mundo.

    Não vale a pena “concretizar” nada. Se não for aquilo que eu penso é aquilo que pensas que eu penso.

    Tenho a certeza de que nada do que eu dissesse sobre os 96 por cento (na área da estatística, só) seria bastante para saciar a tua vazilha estreita de feminismo ultrapassado, homossexualismo e direito ao aborto politicos. Deixo-te, todavia, um amostra num jornal à prova de bala democrática sobre a opinião de alguns sobre animais como tu e como eu:

    “Sure, but these are just plain words coming from a crazy rabbi and no one takes him serious, right? Watch the following video of an Israeli soldier who is proudly enforcing his “teachings”. He proudly says “Non-Jews are animals, we are humans! Others are monkeys, dogs, gorillas!” Can you believe this? What is this, Jewish Nazism?”

    Se não for a Nossa Senhora de Fátima, estás frita!

  13. João Viega
    aqui, disse de forma acessível o básico acerca de uma “tese”. podemos sempre desenvolver a questão. não vejo tolerância alguma (quanto a costumes e minorias) no liberalismo.
    em termos jurídicos, trata-se de uma questão de igualdade, sem dúvida.
    se falar desprendida do direito – o que é sempre impossível – não gosto de tolerância nem de respeito (apenas) pela diferença.
    já é tempo de se celebrar a diferença.
    nada tenho a “explicar” ao Valupi.

  14. Kalimatanos
    Não senti mostarda alguma. Veja se entende que gosto, mas muito, da postura do Miguel e do que ele defende. Só explico que a Academia, a mim, não evitou a postura que tive num dos debates a que fui. E não me interessa particularmente a entrevista, no sentido em que ela foi apenas o mote para uma discussão mais geral. Afaste lá a mesquinhez.
    o mesmo em relação ao catolicismo, sim? Muita da minha vida anda “a par” do catolicismo, dos católicos, de padres, etc. Quando estou a debater com alguém que representa a Igreja, sei que por rebater a pessoa firmemente vou ser apelidada do tal do anticatolicismo, o que é uma boa forma de se dizer que alguém não é sensato. Menos, ok? menos.

  15. A conversa está a ficar assim para o redondo, para o desconexo.
    Se eu li bem ( e sou bom leitor, reconheço-o) a Isabel tentou afirmar-se “eticamente”, a pretexto de uma entrevista, num “canalinho” de tv, com pessoas concretas.
    Tese1 da Isabel: – Mesmo com a possibilidade de sairmos mal da contenda, prejudicados, devemos, sempre, defender as nossas posições substantivas.
    Tese 2 da Isabel: – As mulheres têm dificuldades de serem ouvidas…na nossa sociedade.
    A isto chama-se preconceito.
    Se eu soubesse desenhar, fazia um boneco em 3D…
    Qual é a dificuldade de entender isto?
    Nenhuma, digo eu, mas outros há (e nesta caixa de comentários são bastantes…) que não conseguiram apanhar a onda: cairam à água.
    Bem feito.
    Mas, ele há um – que precisa mesmo de tratamento psiquiátrico.
    Esse “Kali mata-nos”.
    Só por respeito pelo hinduismo não o semelho à deusa Kali, mas que merecia uma pira fúnebre…lá isso merecia.
    Vamos isolar uma critica, uma só, que perpassa na tal entrevista/pretexto (Pedro Mexia, homem de uma cultura invejável, dos grandes especialistas em Portugal do meu belga muito estimado, René Magritte, cinéfilo do mais requintado, escritor com obra publicada, mas conservador até ao tutano…): um anticatoliscismo, suposto, da Isabel Moreira.
    Esta “categoria” que o Pedro Mexia lhe colou é um profundo, diria mesmo, profundíssimo disparate.
    Como é que ele chega lá? A partir de um debate em que esteve presente um padre diocesano da Igreja Católica em Portugal! De bradar aos céus.
    Desde quando 1 padre faz uma igreja? Desde quando 1 padre faz uma fé?
    Depreendo que, esse padre, defendeu as teses mais velhacas, hipócritas e fora de moda da actual cleresia católica.
    Certo? Mais que certo.
    Portanto, a Isabel Moreira discordou, em concreto, das teses defendidas por um padre em concreto.
    Mas, aqui faço uma pausa.
    Fui rever o debate dos prós e contra sobre o tema, onde estiveram presentes, nomeadamente, a Isabel Moreira e o Padre Vaz Pinto ( ao que sei assistente espiritual de Maria Barroso e familiar da mulher de António Guterres…homem que esteve ligado à luta contra a droga…).
    Surpresa minha.
    O padre Vaz Pinto nem foi muito trauliteiro. Defendeu o que já não era possível defender e, a Isabel, cordata, argumentativa, explicou a diferença entre casamento e procriação, ou acasalamento para a procriação e isto na ordem juridica.
    Portanto, quanto ao anticatolicismo da Isabel, estamos conversados: népia.
    Quanto ao empolgamento da Isabel nos debates…
    Nesse, em concreto, só se entusiasmou quando teve, pedagogicamente, incisiva, assertiva, de invectivar uns quantos assistentes ruidosos e malcriados.

    NB – Aconselho, vivamente, a compulsarem as posições de algumas figuras de proa da nossa Igreja Católica, de uma qualidade cultural e ética irrepreensíveis: Frei Fernando Gustavo Ventura, Pe. Anselmo Borges, Frei Carreira das Neves, D. Manuel Clemente e Pe. José Tolentino de Mendonça, nomeadamente.
    Depois, bem, depois há a posição da Conferência Episcopal, instituto mais politico, mais interventivo nas coisas profanas da religião, mais preocupados com a industria e com o negócio da fé…sem coração, hipócritas, próceres da esperança adiada.

  16. «Conferência Episcopal [Portuguesa], instituto mais político, mais interventivo nas coisas profanas da religião, mais preocupados com a indústria e com o negócio da fé»… e também com a baixa Política…

  17. Falou, com muito eco, o fidalgo das comidas e dormidas de Albergaria, que ainda anda à espera, presumo, de confirmação por escrito das Índias sobre se um seu antepassado teria sido, ou não, Vice-Rei naquelas naquelas patagónias.

    Daí a sua alusão a Kali e às piras queimantes que mereço – revelando o tal liberalismo incendiário que trata de esconder quase sempre debaixo da capa ou entre os tomates quando aqui vem aqui bater palminhas ao Valupi, sem nunca se esquecer de deixar umas reticências com pretensões a argumento no caso da moeda baixar ou o bicho começar a entrar nisto.

    Pois, filho da minha alma com brocados e peruca seiscentista, nem tudo o que luze é deusa. Devias saber isso, e porque não sabes decido que está um dia fantástico para te dizer que tens tanto de sabichão como de parlapatão. Faz uma calda disso, toma um banho nela e talvez saias um homem normal e equilibrado por força da osmose.

    E sei que conheces gente bonita e importante, mas isso não deveria ser desculpa para vires aqui largá-las só quando o teu blogue anda às moscas.

  18. Senhor “Kali mata-nos”,
    Ou devo dizer senhora? Ou devo, antes, dizer idiota?
    Sabiamos, antes do seu arroto, que o insulto era o argumento dos fracos.
    Sabemos, agora, que o insulto é o argumento dos néscios.
    Você lembra-me aqueles paspalhos a quem se pergunta mil vezes a mais elementar questão e “aos costumes dizem nada”.
    Pois, esotérico orientalista, conceda-me a mercê, uma única, de responder a um argumento meu.
    Um só, para que possámos perceber se tem neurónios na piolheira ou, tal Américo Tomaz renascido, depois de pombo bravo lhe borrar a luzidia careca, socorrendo-se da mão, exclamou enérgico: – Gertrudes, tive um derrame cerebral.
    Passe mal.

  19. Podes chamar-me senhora idiota, se quizeres, porque tanto faz, ou, alternativamente, produzir um pensamento da tua autoria para quebrares a monotonia e entrares na área proibida da originalidade.

    Fora isso, mete pela glândula pineal dentro, sem te aleijares, que foste tu que recorreste primeiro ao insulto. E estou a fazer-te um favor, pendor para a caridade que herdei de meu avô, V. Paroulos.

    Essa do Tomaz é peixe podre. Já circulava no tempo do Carmona. E é o que eu sempre pensei a teu respeito, desde que chegaste aqui depois daquela célebre facada nas costas do C. Santos: para zebra só te faltam as riscas, no resto és perfeitinho.

    Passa bem.

  20. Cara Isabel Moreira,

    Bom, eu procuro escrever sempre, para quem quer que seja, de forma acessivel (caso contrario, porque escreveria ?). Admito que nem sempre o consigo.

    Discordo do que v. diz acerca do “liberalismo” (na sua acepção moderna) : penso que ele se acomoda muito bem com a tolerância e que isto lhe é mesmo consubstancial.

    Noto também que existe uma diferença importante – ética e talvez também juridicamente – entre tolerância e respeito.

    Quanto ao resto tudo bem.

    PS : De facto percebo que o seu post era mais sobre o programa e as pessoas que nele intervieram. O meu comentario não era sobre isso. Alias, nem sequer ouvi a entrevista. Peço desculpa se com isso gerei alguma confusão.

    Abraços a todos

  21. não, não.. o meu post parte do programa (aproveita-o, portanto) para explicar uma questão geral. ela já lá estava antes do programa.

  22. não vi ea entrevista mas quanto ao fundo: a igualdade, em abstrato, igualdade perante a lei, a igualdade de oportunidades, a igualdade de direitos de género, etc., é uma questão da esquerda, não? Não vejo volta a dar-lhe, que depois vira como semente de liberalismo é uma inevitabilidade dialéctica, dessas que nos dá a volta à vida,

  23. Caro ф,

    Bom, o problema reside exactamente no “em abstrato” e no “perante a lei”.

    A exigência de uma igualdade efectiva, que me parece ser a raiz da esquerda, não se satisfaz com a primeira, e julgo que estamos progressivamente a compreender que a segunda também não chega.

    No caso em apreço, muito significativo a este respeito, os conservadores (pelo menos os mais astutos) opunham-se à revisão dizendo que não existia nenhuma desigualdade perante a lei, na medida em que o instituto casamento era o mesmo para todos. Diziam eles : “o instituto, assente na tradição, contempla o caso da união de sexos diferentes por razões historicas que merecem ser respeitadas como folclore ; afinal de contas, o vira do Minho é uma coisa, o Antonio Variações é outra”. No limite, argumentavam dizendo : “mas ninguém impede os homosexuais de casarem, desde que o façam com alguém de sexo oposto” ! Ou seja, eram impermeaveis à ideia que existia uma discriminação em razão da orientação sexual e escudavam-se com uma posição de tolerância dizendo “mas ninguém impede os homosexuais de fazerem entre si as porcarias que bem entenderem, desde que não lhes chamem casamento”.

    Penso que hoje em dia, e curiosamente em grande parte por causa da evolução do direito nos paises liberais, a noção de discriminação, toda ela construida a partir da exigência de uma igualdade efectiva, e não apenas no papel, permite-nos destrinçar as duas posições e identificar o problema com um sistema que se satisfaz da igualdade abstrata. Nesse aspecto, não estamos apenas perante uma evolução das mentalidades (“mais tolerantes” ou “mais abertas”), mas perante uma (importante) evolução do direito.

    Ou seja, podemos hoje dizer, mesmo juridicamente : de uma certa maneira, o Antonio Variações também é vira do Minho.

    Se formos à raiz do problema, vamos descobrir que ele nasce logo na altura em que se separam as aguas entre os que se sentam à direita e os que se sentam à esquerda da assembleia.

    Uns dizem (insisto neste ponto, que me parece esquecido pela Isabel Moreira) : a igualdade esta bem desde que seja abstrata, formal, no papel. Outros dizem : a igualdade não é nada se não passa do papel para a realidade.

    A separação das aguas faz-se na exigência de EFECTIVIDADE (mais propriamente, de igualdade efectiva, porque os liberais vivem muito bem com a efectividade noutros dominios, por exemplo com a propriedade efectiva).

    Os liberais conservadores não têm nada contra a declaração de 1789, reinvindicam-na mesmo. O que lhes causa transtorno é que se procure dar ao principio de igualdade um conteudo real.

    Voltando ao problema, não tenho duvidas nenhumas que muitos liberais se identificam facilmente com a ideia de tolerância em relação aos homosexuais. Esses viriam sem qualquer hesitação defender as liberdades dos homosexuais se elas estivessem ameaçadas. Por isso reagem mal quando são caracterizados como moralistas conservadores, que não são. Agora ja lhes faz muito mais espécie que uma união homosexual seja A MESMA COISA que um casamento. A questão ja não é uma pura questão de liberdade, nem sequer é principalmente uma questão de igualdade perante a lei (tudo dependendo da forma como a lei é interpretada), mas sim uma questão de igualdade efectiva.

    Para finalizar, se eu comentei o post foi em eco a um comentario que fiz uma vez à Isabel Moreira acerca da teoria da “reserva do possivel”, comentario de que ela provavelmente ja nem se lembra.

    Pois o problema é o mesmo. Um jurista de esquerda concebe o direito como um instrumento de realização da igualdade efectiva. Isto implica que ele deve ir até ao fim e dizer : os créditos comprados com o suor do trabalhador não são diferentes, em si, do que os direitos adquiridos pelo proprietario. Devemos proteger uns como os outros, ou então deixar de lhes chamar direitos…

    Acho isto importante porque, como sabemos, a esquerda deu também lugar a outra clivagem, entre aqueles que acreditam que o sistema pode ser modificado do interior (os reformistas) e os que julgam que ele so pode ser modificado à força. Uns acreditam no direito, outros, nem tanto.

    E, como sempre, nenhuns têm a razão absoluta do seu lado (isso, so o Valupi, que decididamente, esta semana, não responde a provocações).

    Abraços

  24. Caro JV, eloquente comentário!

    O meu discernimento anda um bocado obliterado na ressaca de uma guerra de cotonetes – que ainda não percebi quem ganhou -, embora zumba um zephiro promissor no oriente, e a minha identificação com olifantes levou mais um impulso; ainda assim, parece que as diferentes formas de discriminação humana e a sua negação dialética, são mecanismos reguladores dos compromissos entre cidadania e ecologia, talvez mensuráveis em pegada ecológica, e subtendem formas e cenários de futuro, porque são como vectores. Quanto a casamento estamos a falar de casamento civil, um contrato público entre quem visa constituir vida em comum com um horizonte largo, presumivelmente. De facto introduz uma ruptura radical com a tradição católica e outras, mas estamos bem acompanhados: Suécia, Noruega, Bélgica, Holanda, Espanha, África do Sul, Canadá, Argentina e Nepal e deve-me faltar uma por certo, quanto mais não seja alguns estados dos EUA. Agora vou passar a escrever estado, não me apetece mais invocar caixa alta.

    Acredito, dantes era: ‘Um jurista de esquerda concebe o direito como um instrumento de realização da igualdade efectiva’., fico contente de saber que ainda há quem coloque assim a enunciação.

  25. “Ainda ha” ? Como “ainda” ?

    Não exerço em Portugal, mas fique sabendo que aqui por terras gaulesas somos felizmente alguns a pensar assim, e que nos organizamos em consequência. E, tanto quanto julgo saber, também existem magistrados com a mesma sensibilidade, e altos funcionarios, etc…

    Não vejo porque havia de ser diferente em Portugal (ou alias em qualquer parte do mundo, ou como é que v. acha que aparecem os equal rights, não caem do céu, pois não) !

    Abraço

  26. meu caro, desculpe-me, mas hoje em dia para mim tudo cai do céu, o problema é se estou com cesto ou capacete, mais propriamente um gorrinho.

  27. Caro ф,

    Realizo agora que, com as maiores probabilidades, és o zê, e o delta, e o kapa, etc. Não tinha percebido à primeira porque o que tu dizes, se me permites, não é de esquerda.

    Como sabes das minhas conversas com o Valupi, admito que ha coisas que caem do céu, mas penso que so valem mesmo a pena aquelas que podemos ajudar a precipitar de la de cima.

    Não foi O. Wilde que disse que devemos ter sonhos suficientemente grandes para não os perder de vista quando os procuramos alcançar ?

  28. oh diabos, só agora vi. Isto do Aspirina dá um part-time para ser bem feito.

    olha lá que eu não sou esses, pelo menos alguns, em particular o K., que não quero que seja arrastado no meio do meu functor 2011.

    Bom, mas eu sou a favor de atitudes próactivas, seja dança da chuva ou outras coisas, que amplifiquem ou induzam os dons do céu. Agora que não acredito na bondade actual do sistema ‘estado de direito’ não, no conceito sim, claro, mas estava a falar da praxis do sistema, no sistema de facto.

  29. OK, realmente, do k não tinha a certeza, que eu também so sigo isto a tempo muito parcial.

    Eu também desconfio do sistema (e julgo fazê-lo com conhecimento de causa). Por isso mesmo disse que, entre as duas grandes tendências da esquerda, julgo que nenhuma tem a razão absoluta do seu lado. So que esta desconfiança não pode ser total, até porque senão devemos abandonar por completo a ideia de lutar por direitos…

    Como estou numa de Sancho Pança, ca vai mais um rifão, que me parece conter a chave da nossa discussão :

    Fidarsi é bene, non fidarsi é meglio…

  30. hum, só vi 10 seg porque o meu computa soluça pá, e eu chateio. Deixa pra lá, ainda por cima cá está nevoeiro mesmo e eu ali na paisagem.

    Estou a relêr à noite a história de Beatriz de Luna, Gracia Nasi, o terceiro nome não digo, a Senhora. Incrível, e no entanto foi verdade.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.