Um infindável Sporting-Benfica na minha vida

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Esta confissão tinha que sair um dia. Sim, foi uma pulhice, essa minha, foi uma gratuita safadeza, foi uma criancice em todos os sentidos.

Teria eu sete, no máximo oito anos. E era um sábado. Seria pedir muito que fosse, como hoje, também dia de ‘derby’ (vejam-me esta linguagem), tanto mais que, então, raramente se jogava fora do domingo. Ao sábado, trabalhava-se.

Terá sido, pois, um fim de tarde de sábado, esse em que a minha mãe regressou a casa com um enorme embrulho. Nós éramos pobres, sem sermos miseráveis (isto passa-se na Rua Pedro Dias, em Lisboa, «ali às Cortes», como dizíamos), e um embrulho assim não era visão comum. A minha mãe trazia um retalho para um casaco de inverno. Isso já ela andava anunciando havia meses. Seria um retalho de ‘papa’, já o sabíamos, quentinho, para aqueles invernos bons de antigamente.

Aberto o embrulho, ali em cima da cama dos meus pais, vem o meu espanto, vem a minha fúria. O retalho era verde. Verde. Dum verde leve, quase alegre. Poderia eu perdoar aquilo à minha mãe?

Eu era – e aqui começa a confissão – era do Benfica. Não pelo Benfica, que não me interessava nem um niquinhas, mas pela razão mais simples e devastadora: o meu pai era (e, para felicidade nossa, é ainda) um sportinguista. Eu era um Édipo em calções.

A partir daqui, estou filmando um miúdo de sete, oito anos no máximo, nuns calções efectivamente muito curtos, que sai do quarto, vai desencantar algures uma tesoura, das grandes, das de costurar, e que volta ao quarto, agarra no tecido e faz nele um valente rasgão. Ouço, e gravo, gritos, duma mãe, duma maninha mais nova, dumas tias, dumas vagas primas. Volto a ver, e a filmar, correrias, desvairos.

A fita de gravação salta, a película de filme solta-se. Dias depois, o rasgão há-de ficar resolvido, elegantemente camuflado como bolso.

Mas a vergonha, essa que ninguém jamais conseguiu filmar, perscrutar sequer, continua a projectar-se. No escuro, no vazio. Até hoje.

16 comentários a “Um infindável Sporting-Benfica na minha vida”

  1. por aqui também se é do benfica por complexos de édipo, deixa lá. aliás, uma das escolhas é edipiana, a outra é por seguidismo (fraterno) e preferência cromática, com absoluta indiferença pelo futebol.

  2. Dom Antunes,

    A aversão acabou. Verdes são os prados, etc.

    *

    Carmo da Rosa

    Que bom ser qualquer coisa avant la lettre!

    *

    Susana,

    Não fui castigado. A minha mãe, que é como é, escondeu o caso ao meu pai. Não, a expiação será sempre íntima. (Bom, agora – estás a ver – nem tanto assim…)

  3. hehehe, eras então um édipo correspondido…
    o comentário do carmo da rosa foi especialmente feliz no trocadilho, é verdade. e, ali do senhor antunes, não só é verde o aristocrático coração de leão, são também verdes os olhos, que já vi de perto.

  4. Ganda barraca. Descobri que me adiantei um dia ao grande evento, e que a divisão dos espíritos só ocorrerá amanhã. Aproveitem este instante de paz.

  5. Parabéns pelo texto magnífico, o pormenor da data não tem a mínima importância. Importante é terem festejado anteontem o falso 104º aniversário do Clube fundado em Setembro de 1908. Mas uma mentira dita muitas vezes passa a ser verdade.

  6. José do Carmo Francisco, importa-se que faça minhas as suas palavras? Algum dia havia de estar de acordo consigo, caramba!

  7. âncio,
    Já por aqui passei dez vezes e a cada uma não sei que te diga. Porque se cruzam, nestas tuas, memórias da minha própria clubite de calções, mas toda ela por solidariedade paterna. Até hoje, de resto. Mas com cores distintas nas respectivas devoções das nossas raizes: o meu pai era do Benfica e eu, que nunca me entusiasmei com ‘a bola’ e só sou Édipo do lado da minha mãe, sou benfiquista até hoje apenas por esse misto de tradição e secreta homenagem. E gosto, da águia e dos golos, acreditas?
    Abraço-te em calções.

  8. Este texto fez-me lembrar como foi que fiquei benfiquista apesar de nessa altura saber lá que coisa era essa.
    Nem bem sete anos tinha eu mas já tinha um melhor amigo aqui por Lisboa (que nessas alturas era para voltar para Luanda mas depois a ilusão desfez-se) e com ele partilhava muitas horas porque o mano que era pequenino precisava de muita atenção e eu precisava de muita brincadeira.
    Um dia o meu amiguinho, o Filipe, diz-me com ar muito sério que o Benfica é que era bom. Que era lá aquilo do Benfica eu não sabia mas se ele o dizia, eu acreditava.
    Assim, percorrendo a vida a gostar cada vez menos “de bola”, continuo do Benfica. E a pensar que terá sido feito do meu amiguinho de palmo e meio.

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