À noite logo se vê

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Não é provável que qualquer dos dois, PSOE ou PP, consiga a maioria absoluta. Não há espanhóis suficientes a reconhecerem-se quer num quer noutro. E, no entanto, uma maioria absoluta será sempre indispensável ao PP para ser governo. É que com Rajoy ninguém quer governar. E nem tanto por causa de Rajoy – na realidade, um fraco – mas porque ele não passa do homem-de-mão dum Aznar que, da sombra, ainda mexe tudo.

Como o espectro político espanhol não possui um partido de extrema-direita, nem no parlamento nem fora, toda a cambada nazi e fascista se juntou, e pesa muito, no PP. Aí está um partido que, inicialmente de vocação centrista, tem disponível gente muito sensata e capaz, mas hoje trucidada por cavaleiros de tristíssima figura. O aberto apoio episcopal torna a organização ainda mais sinistra. É o Valle de los Caídos em superprodução.

O PSOE, esse, tem reais chances de continuar governo. Todos os outros partidos, nacionais ou autonómicos, estão dispostos a apoiá-lo, pelo menos a tolerá-lo. Cada um deles procura, sem dúvida, o mais largo assento parlamentar em Madrid. Mas isso não ameaça a Zapatero, antes pelo contrário. Todo o voto que não for PP é voto útil.

Logo à noite saberemos mais, provavelmente saberemos tudo. A nós, resta-nos esperar. E ir pondo uma velinha à Senhora. Ela, melhor que ninguém, sabe quantos bispos há já no Inferno.

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P.S. Em vão se procurará, nos últimos dias, na «Opinião», e até nos «Editoriais», quer do Público quer do DN uma reflexão sobre estas eleições gerais espanholas. A malta não dá peso a estas coisas, se é que a malta entende sequer estas coisas. Qualquer baptizado principesco ocupa mais mentes portuguesas.

Ter-se-ão eles já instalado tão bem que não os vemos? Será a invisibilidade do «espanhol em nós» afinal um facto? 

22 comentários a “À noite logo se vê”

  1. Claro que já se instalaram e há quem veja! É por isso que o Saramago foi tão atacado.Ele vê bem as sombras visíveis que por aí pairam. Intraváveis! É que nem todos andam a ver baptizados principescos.

  2. Com a “cambada nazi e fascista” – tão reduzida em número que nem tem gente para formar um partido que se veja, ou fazer-se eleger, nem mesmo com a ajuda de bispos sinistros, até esta palavra é sugestiva – duvido que se torne necessário dedicar velinhas à senhora para se vaticinar sobre os resultados.

    De esperar, dedutivamente, no entanto, é que a extrema direita deve andar por aí algures a roçar o enorme rabo da sua influência. Um defeito que esse pessoal não tem, quase todos sabemos, é o de ser mandrião. Mas onde, meu Deus, se esconderá a magana? Estará ela amochada e quietinha sem fazer ondas no seio de partidos que em princípio seria de esperar serem seus adversários? É bem capaz, encostemo-nos à dúvida durante uns quinze ou 20 segundos..Do que precisamos para concluir que sim é da coragem de não termos dó de darmos um pouco de trato às nossas imaginações.

    Por exemplo: é crença entre certos amadores da política, especialmente da malta que se situa à esquerda do bacalhau à brás, que a Opus Dei é inimiga figadal e mortal da augusta, mais numerosa e antiga Maçonaria. Não queriam mais nada, esses senhores?! Nunca! Roncalli, o nosso João XXIII de há muitos anos, a quem comunistas e socialistas chamavam de “bom papa” tomava chá uns dias com Maurice Thorez, lendário comunista francês e outros, para desenjoar, com Escriva, célebre fundador da Obra de Deus. Não vou entrar nas particularidades das origens étnicas porque não tenho comigo os resultados das análises aos DNAs.

    Não nos precipitenmos, é o que eu quero dizer.. Anda por aí muito cristão clandestino que não engole certos rebuçados.

  3. Fernando te equivocas. Existem partidos de extrema direita em Espanha. Ou não sei então o que é a Falange Espanhola. Não há é no parlamento, isso não há.

  4. Rui,

    Há organizações, mas de facto sem expressão traduzível em lugares no parlamento.

    Simplesmente, acredita, hoje toda essa malta votou… útil.

  5. Não é maioria absoluta e nem se esperava tal coisa. Mas é particularmente de felicitar os péssimos resultados obtidos por todas as formações nacionalistas com excepção de CiU na Catalunha que manteve os seus resultados de 4 anos atrás correpondendo a 10 deputados. No entanto em todo lado e até mesmo na Catalunha o voto socialista feriu fortemente o voto nacionalista em geral. Os deputados de esquerra catalunya descem de 8 para 3 deputados!!! Os nacionalistas galegos seguram os seus dois deputados se bem que com algo menos de votos. Os nacionalistas bascos do PNV perdem em toda regra, deixando de ser a formação mais votada, agora são os socialistas que ganham em todas as províncias o que lhes dá metade de todos os lugares disponíveis para a comunidade basca, a outra metade dividem entre si nacionalistas bascos e o partido popular. E a outra formação nacionalista de esquerda basca EA já nem é capaz de eleger um único deputado como nas anteriores eleições.

    Só faltou relamente a maioria absoluta mas isso já era pedir demasiado. Foi uma grande vitória e em generosos e muitos aspectos.

  6. Madrid e os castelhanos continuam zangados com a esquerda: os socialistas venceram em Andaluzia, na Extremadura, nas Vascongadas, em Aragão, na Catalunha, nas Astúrias, em Leão, nas Canárias. Veja-se o mapa das províncias, as vitórias do PSOE estão espalhadas por quatro cachos, as vitórias do PP são uma mancha contínua. São ainda “as duas Espanhas”, expressão aliás inventada por um português e até hoje usada em Espanha. Os comunistas estão quase a desaparecer. É curioso que seja Portugal o país Europeu que mais deputados comunistas tem. Sinal do nosso atraso?

  7. Fernando, estas eleições espanholas não me entusiasmaram nada. Desencantado com o meu Portugal político, que será que poderia atrair-me do outro lado? Gostei de saber da pouca expressão dos nacionalismos, e não me admira que a Falange não tenha ninguém nas Cortes. Nem sequer em 1936 tinha, apesar de haver sido ela o símbolo do Franquismo. Mas Espanha é isso mesmo, as tais duas que com frequência nos desencantam. Como desencantam qualquer um que conheça bem a Guerra Civil, que foi um nojo de parte a parte. O que vale é que Espanha (tal como Portugal) desafia aquele princípio matematico que diz que o todo é igual à soma das partes. Na Península Ibérica não é assim. É maior. Felizmente.

  8. O Rui(Fernando te equivocas)Fernandes é um analista de resultados como poucos. Impressionante!

    Diga-me que marca é para eu o comprar já. É que ando a precisar dum novo computador. Tem que ser baratucho…

  9. Rui Fernandes,

    Não é verdade que os nacionalistas tenham perdido. Se o PNV diminuiu alguma coisa, facto é que o BNG se mantém como estava e a CiU até ganha um lugar.

    Se tiveres em conta que (aliás contra as minhas previsões) as Esquerdas votaram ‘útil’ em Zapatero, a prestação nacionalista até não é nada má. O que importava era travar Rajoy. E isso conseguiu-se.

    E Zapatero continuará a depender do voto nacionalista.

  10. 1 – ERC de 8 passou a 3… isto é uma derrota em toda regra
    2 – o PNV perdeu em todas as provincias bascas para o psoe, eles sabem que sofreram uma derrota dificil de recuperar
    3 – EA e Aralar já nao foram capazes de eleger ninguém
    4 – e CIU conseguiu 1, um mais que antes, estrategicamente estao bem posicionados, mas a verdade é que 10 ou 11 lugares é muito pouco para o que CiU estava acostumada na Catalunha, e se trata de mais resistencia que vitoria
    5 – o BNG manteve dois é verdade, de certa forma são os unicos junto com coligação canaria (que sao uns nacionalistas estranhos) que dirao mesmo eternamente que nao perderam ainda que ambicionassem mais

    A derrota nacionalista é óbvia, com a mesma participaçao que quatro anos atras, o PP aumentou votos a custa de algum voto socialista anterior, e o PSOE sugou votos a sua esquerda, minimizando os nacionalismos a sua volta. So nao ve quem nao quer.

  11. Rui,

    Falas em «derrota nacionalista», e eu falo-te em «voto útil» em Zapatero. Possivelmente estamos a falar do mesmo. Tu próprio admites que o PSOE «sugou» votos à sua Esquerda, «minimizando os nacionalismos à sua volta».

    Digamos que, nos nacionalismos, há muitos votos disponíveis para a Esquerda. O que dificilmente é novidade.

  12. Esqueci-me de salientar ontem que os quatro cachos socialistas (cinco, com as ilhas) são centrífugos, encostados às fronteiras, autonomistas, confederalistas; a mancha contínua da direita é centrípeta, espanhista, madrilista. “Duas Espanhas” no seu melhor – quase o mapa do início da guerra civil. Ninguém perguntou, ou ninguém me leu, mas revelo agora: foi Fidelino de Figueiredo que inventou a expressão, título de um belo livro seu de 1932, premonitor.

  13. A expressão “as duas Espanhas” foi “inventada” por Fidelino de Figueiredo??

    É verdade que ele escreveu um excelente ensaio sobre o tema em 1932, mas pelo menos o Ortega y Gasset já tinha utilizado a mesma expressão numa célebre conferência pública em Março de 1914, a conferencia “Vieja y nueva política”, onde diz, por exemplo, o seguinte:

    “Dos Españas que viven juntas y que son perfectamente extrañas: una España oficial que se obstina en prolongar los gestos de una edad fenecida, y otra España aspirante, germinal, una España vital, tal vez no muy fuerte, pero viviente, sincera, honrada, la cual estorbada por la otra, no acierta a entrar de lleno en la historia”

    E segundo o historiador Santos Julià, no seu livro “Historias de las dos españas”, a expressão já tinha sido utilizada anteriormente por Mariano José de Larra e Menéndez Pelayo, entre outros. Uma recensão do livro está disponível em

    http://www.fundanin.org/iglesias13.htm

  14. As duas espanhas é uma caricatura que ajuda para explicar rápido mas atrapalha para explicar bem. Por isso no nacionalismo não há só votos para esquerda mas também para a direita. Por isso há o exemplo do nacionalismo basco que historicamente e na origem é senão nazista pelo menos bastante reaccionário e ultra-católico. As duas espanhas: a direita e esquerda, a católica e a jacobina, a centralista e a regionalista, se sobrepõem constantemente, e desde antes da guerra civil. Por isso Espanha é imprevisível, já que até a sua pouca homogeneidade é desregrada e dificíl de definir. (Até a sua inquisição era imprevisível segundo certos sábios ingleses….) Talvez precisamente pela falta de regra até mesmo na sua falta de homogeneidade é que Espanha existe e, pelo menos na arte, podemos ver que é essa ausência de regra o estranho pilar que muitas vezes se assume como elemento comum de identidade. Espanha complica a vida de quem a queira entender. Já dizia o ministério de turismo de Franco: spain is different.

  15. Aleph, eu li a afirmação sobre a autoria de Fidelino num livro espanhol sobre as Duas Espanhas – e acreditei. Acho que estou perdoado. Realmente, nunca se deve acreditar em nada de lisongeiro para os tugas. Não sei se foi num livro de um tal Garcia Escudero que li isso, um historiador ex-falangista e pai do gajo do PP que ontem estava a comentar os resultados na TVE. Agora, fazendo uma busca na BN espanhola, pelo menos confirmei que não há nenhum livro anterior ao de Fidelino com as Dos Españas no título. Já é uma consolação para o orgulho naxional…

  16. Nik,

    Sendo o dito senhor (que eu também vi na TVE, por sinal bastante pouco telegénico – por ali só a Acebes tem pinta televisiva), sendo o senhor, dizia eu, García Escudero, é de supor que seja «Escudero» pela mãe.

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    Rui Fernandes,

    Essas tentativas de definir «o espanhol» não levam a lado nenhum. Nem sou eu que o digo, mas um sujeito de nome Simon Barton no artigo «The roots of the national question in Spain» (Mikuláš Teich e Roy Porter (eds.), The national question in historical context, Cambridge University Press, 1993), um artigo luminoso. A tese central é esta: o espanhol grita aos quatro ventos a sua identidade porque, no íntimo, sabe que não tem nenhuma.

    Já reparaste que, quando actualmente em Espanha se fala em ‘nacionalismo’, nunca é o nacionalismo espanhol o visado? Eu sei, o nacionalismo espanhol ficou, com Franco, um conceito contaminado. Mas é esse mesmo tabu que é usado para tornar pejorativo, suspeito, detestável, os nacionalismos catalão, basco e galego.

    A Espanha, meu caro, é desde há séculos… o que se pôde arranjar. E, pior, a malta lá até sabe isso.

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