O túnel do Rossio já não cheira a fumo

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Uma das nostalgias da minha meninice é o cheiro a fumo do túnel do Rossio. Nostalgias, e entendam-se não aquelas que nos chegam depois, mas as que não esperam e logo nos dão na altura. Eu passava meses lembrando-me do cheiro desse fumo bem real, o que a máquina ia lançando lá à frente, e penetrava pela menor frincha. Suspirava por Sintra, pelo outro comboio, que levava à Praia das Maçãs.

Hoje, o túnel está iluminado – e mais respirável. Aspiro fundo, e nada. Nem uma lembrança, nem uma impressão. A minha infância está, ali, agora iluminada. Se mais respirável, não sei.

7 comentários a “O túnel do Rossio já não cheira a fumo”

  1. Gostei muito mas um pequeno pormenor: para a Praia das Maçãs é o electrico; não o comboio. Há um texto belíssimo do Dinis Machado que se chama «dissertação sobre a mais velha estação de comboios do Mundo» que ficava bem ao lado do teu texto com esta belíssima fotografia. Nela o poeta/cronista refere a memória do seu (e nosso) país dos tios «gente de poucas palavras, calos nas mãos e um amor silencioso e sábio, só para nós. A tia Henriqueta a despedir-se com sacos da nossa comida com lágrimas no rosto e mãos engelhadas, vestida de preto, numa noite sem luz».

  2. Zé do Carmo,

    Tens razão. Era um eléctrico. Desculpa minha: foi há muito tempo, e as memórias distorcem-se, distorcem-nos, como «transformers».

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    Daniel,

    Saudades daquele tempo, talvez. Do modo tranquilo (mesmo se iludido) de ver o mundo.

    Mas da idade, não. Que chatice ter que viver outra vez tantos anos! Não me queixo, se queres saber. Não me apetece nada ser eterno.

  3. E essas locomotivas duvido que sejam as mesmas que puxavam os comboios que te levavam a Sintra, quando eras menino. Eu é que me lembro de vê-las do quintal da minha avó a irem lá para esses lados…

  4. Bom, Chico, folgo em que me faças tão juvenil…

    As locomotivas seriam, talvez, menos idade-da-pedra que as da foto. Mas deitavam uma fumarada (e um cheiro, lá está) nada século vinte.

  5. Claro que tenho saudades de ter 21 anos e de ter a minha avó e o meu avô à minha espera para um jantar de domingo à noite antes de apanhar a «carreira» da noite e entrar no Quartel até à meia noite. Ainda não tinha morrido ninguém e éramos quase felizes…

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