Quando ensinar (e gostar) é suspeito

Isto não entra pelos olhos? Pois não, não entra. Daí que possa ajudar ouvi-lo dito por gente com tino. Por exemplo, Luís Campos e Cunha, hoje no Público. Destaque meu.

«É preciso acabar com a autogestão das escolas. A reforma das escolas vem sempre de fora para dentro. Meter na gestão da escola representantes das autarquias e dos pais é certamente uma ideia correcta. Vai nesse sentido o ministério e bem. Iria mesmo mais longe, os professores deveriam participar mas, eventualmente, sem direito a voto nalgumas matérias.

«Mais ainda e muito bem, o ministério defende a existência de um director. É fundamental que as instituições tenham uma cara e não um conselho, em que ninguém é verdadeiramente responsável.

«Com aquelas medidas acabava-se com as balelas propaladas pelos cursos de “ciências da educação” da gestão “democrática” das escolas e da avaliação contínua. São tudo conceitos em contradição com a ideia de Escola, em que quem sabe ensina e quem não sabe deve aprender. E na Escola, professores e alunos devem aprender de tudo, incluindo aprender a decidir, aprender a protestar e aprender a ser responsabilizado.»

Pois. Mas é tão incorrecto defendê-lo, não é? E não haverá maneira de torcer por uma vez o pescoço a essa gente para quem ter coisas para ensinar (e, escândalo, gostar também de fazê-lo) é imensamente suspeito?

Esta coisa parece certa: a máfia «pedagógica» – tão surpreendentemente autoritária, e tão supreendentemente elitista – que antigamente dominava o Ministério, e se ramificou pelas escolas, resiste ainda.

21 thoughts on “Quando ensinar (e gostar) é suspeito”

  1. E quem ensina, e gosta de ensinar, devia perceber que o ensinar também se faz de exemplos. O melhor professor da minha vida ensinou-me filosofia durante três anos e chama-se Alfredo Reis. Tinha 3 regras – trabalho, respeito, pontualidade. Se ele falhasse alguma, nós, alunos, eramos livres de falhar também. Nunca falhou e nós também não.
    Há uns dias atrás, e por mera curiosidade, resolvi perceber a guerra entre professores e ministério na questão do conselho geral. Parece que estavam afastados da sua presidência e isso era um problema inultrapassável. De tal forma que o ministério já cedeu e os professores deitaram foguetes. Devia ser uma coisa importante, para ter feito correr tanta tinta.
    Depois de ter lido o projecto de lei e percebido o que era isso de ser presidente, escrevi isto: http://cabradeservico.blogspot.com/2008/01/ns-que-queremos-ser-os-presidentes.html.
    Exemplos a seguir? Discutir um lugar meramente formal e sem conteúdo nenhum e aferir por aí o respeito que é devido à classe?

  2. Eu conheço outra. Quem sabe, faz, quem não sabe, ensina. Mas é piada.

    O director nomeado de fora, ou seja, pelo MNE, vem acabar com as águas turvas em que a Fenprof e o Sindep eram quem mandava nas escolas e na educação em Portugal. Por isso é que os sindicatos de professores andam verdes de raiva com a “ministra”, que lhes aparece em sonhos com caninos afiados, depois de ter feito regressar às escolas centenas de “sindicalistas” que andavam fugidos ao trabalho. Quando começar o novo sistema de avaliação, lá se acaba de vez mais um bastião sindical, a progressão automática por antiguidade. Tá difícil a vida prós sindicalistas. Vai um fadinho?

  3. fernando venâncio,
    com todo o respeito pela posição de Campos e Cunha e pela sua concordância com ela:

    pode explicar-me em que é que a, assim chamada, gestão democrática contradiz ‘a ideia de Escola em que quem sabe ensina e quem não sabe deve aprender’, e a figura do director, tal como formulada neste decreto-lei, não a contradiz?

    escapa-se-me por completo.

  4. Sem-se-ver

    Vou-te responder aqui e depois respondo também “lá” ao teu comentário.

    Não percebo porque as escolas terão de ser diferentes de, por exemplo, um hospital, onde tens Directores Clínicos e Administradores.
    O Conselho Directivo é uma herança directa do PREC e na minha experiência de aluna e de encarregada de educação funciona muito mal enquanto orgão colegial. Acaba por ser o presidente a dar a cara, mas as decisões não são só dele o que lhe torna muito difícil o trabalho.

    As minhas filhas estão numa das poucas escolas (22?) que já têm alguma autonomia. O Presidente do Conselho Directivo há muito que actua como Director e a escola funciona muítissimo bem. Dizes que os Directores passam a ter “super poderes” e que não são controlados. Já viste o projecto da lei? Eles são controlados pelo Conselho Geral, que os pode demitir.

    Acho que a tarefa do professor deve ser ensinar e não administrar e acho que atestado de menoridade à classe é dar aos professores funções para as quais não estão, ou não deviam estar, vocacionados. O Director da escola deve e tem de ser um professor, que tal como o Director Clínico do hospital tem uma sensibilidade diferente em relação à escola da que teria um gestor profissional. O Conselho Geral deve ter, tal como previsto, representantes da escola – professores e funcionários – rrepresentantes da autarquia e dos encarregados de educação. De memória, que não vou ver a lei outra vez, os professores têm de ter uma “quota” não inferior a 51% no conselho. Acho justo. Mas será que têm de ser os Presidentes? É um cargo oco e burocrata. Implica alguma disponibiliddade. Diz-me, os professores não têm já trabalhos de casa q.b.? Para quê esta guerra? E sim, foi uma guerra, que até agora o único ponto alterado na lei foi este e a classe já acalmou um pouco.

  5. Sem-se-ver,

    A Ernesta já lhe respondeu, e – sans blague – magistralmente. Acrescento, só, quanto ao início da sua pergunta.

    Uma gestão democrática quer ser uma gestão anti-autoritária. Podendo a intuição anti-autoritarista dos anos 60 provar algum mérito (sublinho algum) na gestão da escola, a relação professor-aluno, essa, deve ser uma sadiamente autoritária. Não para ‘pôr os alunos no seu lugar’, mas porque o seu lugar é esse exactamente: o de alunos.

    Seja banida, de vez, essa melíflua, lânguida, mas demissora, e preguiçosa, e, para dizer tudo, criminosa canção de «Na aula, estamos todos para aprender». Ela criou gerações de ignorantes, de incompetentes, de inadaptados sociais.

  6. (lá vou eu comprar uma guerra e em terreno hostil. devo ser masoquista)

    mas vamos a isto. com calma.

    cara ernesta,

    1. poder ser substituido pelo Conselho Geral pouco garante. o que mais me aborrece – e angustia – , quanto aos poderes do Director, são 2 aspectos: estar nele concentrado a nomeação das chamadas chefias intermédias (coordenadores de departamento, por ex, que agora ainda mais têm um papel crucial, inclusive na avaliação de desempenho), em lugar de, como até aqui, elas serem decididas em votação colegial no seio do grupo, o que garante maior independência perante o Director (não preciso explicar porquê, certo?); e estar nele quase exclusivamente concentrada a avaliação de desempenho de um professor, podendo dar-se lugar a todas as formas de abuso de poder, de pressão e perseguição, etc, etc, sem garantias de efectiva defesa por parte de um docente.

    2. não entendi. aqui não te contradisseste? «Acho que a tarefa do professor deve ser ensinar e não administrar e acho que atestado de menoridade à classe é dar aos professores funções para as quais não estão, ou não deviam estar, vocacionados.», logo seguido de «O Director da escola deve e tem de ser um professor, que tal como o Director Clínico do hospital tem uma sensibilidade diferente em relação à escola da que teria um gestor profissional.» Se achas que a tarefa de um professor deve ser ensinar e não gerir então não podes considerar que o director deve e tem de ser um professor, não é? Mas adiante: desde há muito que professores foram tendo formação em gestão escolar, e tal é obrigatório na análise das candidaturas – como até aqui, e como continuará a ser neste novo regime. Parece-me bem e líquido.

    3. a questão que te coloquei ‘lá’ tinha a ver com a redacção inicial da lei que não contemplava a possibilidade de um director ser um professor, algo incompreensível, injusto e marginalizador, sem razões para tal senão a de passar atestados de menoridade a elementos da minha classe que podem, sim senhora, ter competência para tal (vide ponto anterior).

    4. a classe não acalmou com coisa nenhuma, podes acreditar nisto que te digo.

    meu caro fernando,

    de novo lhe pergunto: e….?

    «a relação professor-aluno, essa, deve ser uma sadiamente autoritária» – e que tem isto a ver com o facto de a gestão ser democrática ou concentrada nas mãos de um director? estou em crer que o fernando mistura duas coisas absolutamente distintas: a gestão de uma escola, por um lado, com as catastróficas políticas educativas (com vários pares de aspas em cima) que, concordamos os dois nisso, se têm entretido a desvirtuar o espírito, a missão e a função da Escola e, por isso mesmo (de novo concordamos) em criar «gerações de ignorantes, de incompetentes, de inadaptados sociais.»

  7. Totalmente de acordo. Sei, por experiencia de 4 filhos que passaram sob eles, o dessatre que foram para o funcionamento das escolas. Ninguém mandava, ninguem decidia e os alunos ou os pais não sabiam a quem recorrer, se a queixa fosse contra um dos membros… Todos desistiamos porque qualquer processo era tão moroso, que não valia a pena espernear.
    Mário

  8. não, não está. :-)

    o conselho directivo, ou executivo, é um orgão colegial dirigido por um Presidente. sempre foi assim.

    donde, é fácil, sempre extraordinariamente fácil – se o recurso ao Director de Turma não for suficiente, dirijam-se os encarregados de edcuação, formal ou informalmente, ao Presidente do dito CE ou CD.

    ele é que tem a responsabilidade máxima na direcção de uma escola.

    onde está a dúvida?

  9. É necessário precisar que a representação do corpo docente e não docente no conselho geral não pode ultrapassar 50%.
    A gestão democrática das escolas vai acabar, é necessário que se afirme isso, porque o director será a figura central da gestão, dominando todos os órgãos de gestão e administração das escolas, incluindo o conselho geral, uma vez que ele deverá também aí estar presente, apesar de não ter direito a voto, o que, nestas circunstâncias, pode influenciar a discussão das matérias sujeitas a votação. Esse director será avaliador dos professores do conselho geral e do respectivo presidente, caso este seja um professor.
    Por isso, não estou a ver muitos professores com cultura democrática e coragem suficientes para fiscalizar seriamente a gestão do seu director/avaliador no conselho geral, na sua presença. Esta é uma das razões para os profs. ter medo, porque, apesar de prevalecerem os princípios da administração pública, considero que vai ser difícil desmontar uma eventual situação de abuso de poder por parte do director, uma vez que o silêncio e o medo irá moldar os comportamentos.
    Espero, sinceramente, estar muito enganada.

  10. Não, não, sem-se-ver. O modelo de gestão e administração da escola pública vai mudar, por decreto. Acredite! Estou dentro do sistema e sei do que estou a falar.

  11. Não compreendo, de todo, porque é que havendo um director, responsável máximo pela gestão da escola, se quebra a democracia. A democracia não pode ser entendida como diluição de competencias e responsabilidades, nos diversos patamares da administração pública. É algo de muito mais fundamental e, tentar avaliar a democratização de uma sociedade, pela existencia de directores ou conselhos directivos nas escolas… é ridicularizar a ideia de democracia. Dái, ser tão fácil ouvir-se coisas do genero: “nem no tempo de Salazar”, “nem a PIDE fazia isso” etc etc. Como se no tempo da PIDE houvesse ELEITOS democraticamente, seja do Presidente da Republica, seja do Governo. Fico espantado como se esquece tão facilmente e com tanto aplauso os mais elementares pressupostos da democracia. É fraca? Concordo. Vamos procurar uma alternativa melhor. Mas não dizer, demagogicamente, que voltamos ao facismo. Tenham dó!

  12. Mário,
    aqui ninguém disse tal.

    nikita
    «Não, não, sem-se-ver. O modelo de gestão e administração da escola pública vai mudar, por decreto. Acredite! Estou dentro do sistema e sei do que estou a falar.»

    eu também, cara colega. :-)

    pelo que não deve ter entendido o que eu quis expressar: que a escola, por acção deste governo, já está a mudar, e para pior – em vários campos, entre os quais este da gestão.

    referia-me em particular a presidentes como a minha, mais papista que o papa, que JÁ promove clima de intimidação e de perseguição a docentes, com as costas largas de saber que «vai ser difícil desmontar uma eventual situação de abuso de poder por parte do director, uma vez que o silêncio e o medo irá moldar os comportamentos», como afirmou a nik. ainda mais porque – espero que não… – conta que venha a ser ela a próxima directora (à luz do actual decreto) da escola…

    enfim: é domingo e apetece-me relaxar. ‘bora falar de bola, comida ou do tempo? aceitam-se outras sugestões. (todas menos as caricaturas de maomé, please, disso já temos – profusamente – aqui no aspirina)

  13. Meu caro Fernando

    Eu não disse que os comentarios referidos sobre fascimo ressuscitado, são de algum bloguista aspirina. Mas que os ouço quase todos dias ou leio,lá isso é verdade. E tu sabes, como eu, o que foi viver sob ditadura quem aspirava a alguma liberdade, fosse do que fosse.
    Tenho acompanhado, com alguma atenção, os comentários que se fazem acerca das reformas a introduzir na gestão das escolas e na avaliação dos professores. Fazendo um paralelo, o paralelo possivel, entre estes comentários e os que ouvi, no sector bancário (de onde provenho), na 2ª década de 80, parecem quase coincidentes: Será o despostismo dos directores, o apadrinhamento de simpatias ou cores politicas, a porta aberta a todas as arbitrariedades na valiação…E por aí fora, num clamor crescente, que os sindicalistas ampliavam em assembleias e comunicados constantes. Pela minha experiência, no sector bancário, nada fisso aconteceu. Pelo contrário: Corrigiram-se muitas injustiças e o rigor da gestão e da avaliação foram optimizados. Nem tudo foi perfeito. Pudera! Mas de modo nenhum foi a catástrofe anunciada por quem entende que as mudanças devem ser sempre, neste País, um faz de conta. Esquece-se deliberadamente? que o Director tem que responder pelos resultados da escola. Também é avaliado. Vai apadrinhar os que não prestam e depois arcar com as responsabilidades dos fracasso da escola que lhe foi confiada? Ele não estás mais exposto que um Conselho Directivo, onde a responsabilidade se dilui com toda a facilidade? A impressão que me fica é que criticam-se as reformas na gestão da escola e na avaliação dos docentes como se em ditadura vivêssemos. E já agora devo informar, para que não digam que este “leigo” do ensino vem para aqui mandar palpites, que durante três anos acumulei as funções de bancário com as de professor. E conheci, naturalmente, os Conselhos Directivos.

  14. “Deitar fora o bé-bé com a água do banho”.

    É isso que vai acontecer nas Escolas, não é?

    A pretexto de se melhorar o que está mal, piora-se o que está bem. Tão tipicamente português de Portugal…

  15. Agora mais a sério. Todos parecem concordar que o Ensino, em Portugal, está prestes a “bater no fundo”. Mas ninguém parece verdadeiramente interessado em melhorar seja o que for. Cada um está de pés fincados no chão apenas a defender os seus interesses particulares: Governo, Professores, Sindicatos.

    Não há, nem nunca houve, um debate a sério sobre Educação em Portugal. Debate público, não especializado e falado em “eduquês”. Agora que o Governo pretende mudar alguma coisa, a primeira reacção dos interessados não é FAZER PEDAGOGIA, criticando, se for o caso, mas construtivamente, mas apenas proteger a retirada.

    Ninguém espere que o Povo se levante a defender os Professores, nem a apoiar o Governo, enquanto os últimos trinta anos não forem muito, mas muito bem discutidinhos e explicados ao maranhal. O resto é palha, de quem não sabe a matéria…

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