Carta a Marina por causa do galego – 6 (e última)

Cara Marina,

Disse-lhe eu, na última carta, que muito nos restava a fazer, tanto na Galiza como em Portugal. Esta é a parte menos festiva da minha carta. Começo por nós.

Aqui no país, entre os linguistas, o interesse pelo galego como idioma anda a roçar o zero absoluto. Nos últimos trinta anos, nenhum autor português produziu qualquer obra de divulgação, ou sequer um artigo, sobre a situação do galego na actualidade. E o único estudo comparativo sobre português e galego actuais é, ainda, o de Maria Helena Mira Mateus, sobre fonologia, de 1984. Quanto ao idioma, é tudo.

Acerca das concepções vigentes em Portugal sobre a problemática do galego, há mais alguma coisa. Temos um opúsculo de Ivo Castro, Galegos e Mouros, de 2002, e um de Clarinda de Azevedo Maia, O galego visto pelos filólogos e linguistas portugueses, do mesmo ano.

Sobre a Galiza e sua relação com Portugal, existem a importante obra do antropólogo António Medeiros, Rio de memórias e de esquecimentos. Nacionalismos e antropologias na Galiza e em Portugal, de 2002, e uma tese de mestrado de José Paulo Raposo de Sousa, Discurso literário e identidade nacional – O caso de Portugal e da Galiza, de 1999.

Dos estudiosos portugueses, os únicos que algum dia afirmaram a identidade de galego e português foram Manuel Rodrigues Lapa († 1989) e Luís Lindley Cintra († 1991). Os outros linguistas, até hoje, sempre consideraram que português e galego – a partir de 1400, o mais tardar – se tornaram idiomas diferentes. Como demonstração, aduzem, contudo, diferenças que, mesmo forçando, mal dariam para identificar ‘dialectos’. Sejamos sucintos: o tema nunca os interessou nem um bocadinho.

*

Pode crer: nos últimos 40 anos, nunca a própria proximidade linguística entre Portugal e a Galiza foi, entre nós, tema de qualquer tipo de debate, e nada faz prever que tão cedo o seja. Não existe, a respeito da língua da Galiza, a mais ténue tomada de posição institucional (Ministérios, Universidades, Academia). Saliente-se, só, um facto, mais largamente cultural, com algum significado: o de o único ‘Centro Português’ do Instituto Camões em território espanhol se encontrar em Vigo.

Há, portanto, ainda tudo a fazer em matéria de sensibilização da opinião pública portuguesa. Eu não começaria pelas questões de contiguidade, menos ainda da identidade linguística entre Portugal e Galiza. Isso está muitas pontes lá para diante, e seria, de momento, contraprodutivo. Deveria começar-se pela simples e básica proximidade cultural. De modo a que a Galiza fizesse parte dum interesse e, em seguida, dum imaginário português. É sobre isso que podem construir-se, depois, as contiguidades e o mais.

Entretanto, na Galiza…

O panorama não é entusiasmante. O galego perde falantes em todo o espectro social e etário, perde (ou não consegue ganhar) visibilidade na vida diária, não é tomado a sério por um governo autónomo que deveria fazer dele idioma normal, e por fim nacional, da Galiza. (Este ‘nacional’, lembro-o ao leitor português, não implica, como entre nós, independência, e sim uma forma avançada de soberania).

Deste recuo do idioma dão culpa os reintregracionistas aos ‘isolatas’, por imporem um tipo de galego em órbita espanhola, com detrimento do carácter internacional do idioma. E dão culpa os autonomistas aos ‘reintregratas’, por sabotarem a recuperação do galego com exigências irrealistas, cuja implementação concreta se recusam a esclarecer. Andam nisto há quase trinta anos.

Para um observador, é absolutamente nítido que toda a imensa questão gira em redor desta essencial pergunta: é o galego, sim ou não, a mesma língua que o português. Isto não tem, em si, nada de transcendente. Mundo afora, mesmo na Europa, esta pergunta vale para inúmeros pares de idiomas. Simplesmente, quando o caso é nosso, as coisas doem mais, doem a sério.

Sobre este tema centralíssimo nunca foi realizado na Galiza um só simpósio, mesmo um só dia de discussão. Sobre ele não existe um livro, um ensaio, um único artigo. Nada, nada de nada. Estamos, aqui, no terreno do inefável, da mais pura fé.

E, contudo, há, do lado autonomista, quem, admitindo publicamente a identidade linguística, mas conferindo peso à opção política de não reconhecê-lo, pressione o interior do establishment rumo a posições mais matizadas. E há, do lado reintegracionista, quem, afirmando publicamente a identidade linguística, não desista da possibilidade de, com as actuais regras do jogo, forçar uma ruptura.

Estas duas inteligentes formas de rebeldia não são, há-de concordar, nem de longe as mais frequentes. O que mais encontramos é gente barricada em posições estanques a qualquer dúvida, a qualquer matização, a qualquer abordagem racional. E assim se manterão, não duvide, pelos trinta anos que aí vêm, para maior desmoralização e desmotivação dos utentes do idioma.

Esta conversa de surdos frusta qualquer entendimento. Decerto já reparou – vou dar um exemplo banal – que, em todos os grupos de discussão, em todas as caixas de comentários de interessantes artigos culturais ou sociais, tudo descarrila sistematicamente para discussões linguísticas, e destas para polémicas personalizadas. Eu, que acompanho isto há uns bons anos, não descortino qualquer avanço, menos ainda um fim à coisa.

Ora, no meio desta incomensurável e já longeva polémica, há um facto de estarrecer. E é que, até hoje, nunca nenhum reintegracionista forneceu (ou arranjou quem lha fornecesse) a demonstração de que sim, de que português e galego são a mesma língua. De igual modo, jamais autonomista algum forneceu (ou arranjou quem lha fornecesse) a demonstração de que não, de que português e galego não são o mesmo idioma. Digamos que, na Galiza, se vive sobretudo de fé e de desconfiança na gramática. E que se prefere arrastar uma história de ódios e suspeições, de heróis e de mártires, a exigir um mínimo de racionalidade.

Poderei eu ser um espírito assim para o simples. Mas quer-me parecer que estes trinta longos anos de desgastante conflito linguístico teriam sido poupados aos galegos, caso alguém tivesse lançado, um dia, este repto público, ao qual exigisse resposta nítida e sem reservas mentais: Demonstra-me tu que galego e português são (ou não são) a mesma língua, e eu acatarei, e defenderei, o que demonstrares. Ainda se está a tempo de lançar o repto. Mas, enquanto ele não for lançado, e aceite, do que se fizer demonstração é de sobranceria e de insegurança. 

Claro: não esquecemos, nisto, que a decisão do que é uma ‘língua’, ou uma ‘língua diferente’, é quase sempre uma decisão política, e mais exactamente nacionalista. E sabemos que os linguistas preferem raciocinar em termos de variedades, não de línguas ou de dialectos. Isto dá um espaço imenso aos cínicos, sempre alerta para os humanos condicionamentos. Mas as afirmações estruturais são possíveis. Isto, porque os próprios linguistas tratam variações e registos no interior duma língua diferentemente de interferências e ‘code switches’ entre línguas.

Dito isto, importa não subavaliar a tarefa aqui proposta. Uma vez decidida a questão da língua, ficará ainda outra, e também nada simples: a da norma. O grande exercício de demonstração, qualquer que seja o resultado, terá posto a crua luz as coincidências e as descoincidências estruturais de galego e português, e essas terão que ser sempre respeitadas. Já vê: isto não são questões para deixar em mãos simplistas e fanáticas.

Quem sabe, Marina, um dia destes chegam-nos novidades da Galiza. Sejam elas quais forem, Portugal há-de saber-se sempre visado. E então poderemos começar, finalmente, a falar uns com os outros.

Fique bem.

14 comentários a “Carta a Marina por causa do galego – 6 (e última)”

  1. Fernando
    Isto nem parece um “blog” cultural. Escreves uma peça destas, importantíssima como as outras cinco da série, e ninguém apareceu ainda a concordar ou não contigo, a dizer ao menos que leu. Metesses aí um “coño” em português, pelo menos, e terias público.
    Creio que te tem faltado a abordagem da história próxima em relação ao galego, para justificar a pouca percentagem de falantes. No tempo de Franco, ele era rigorosamente proibido, e a Guarda Nacional chegou a matar gente só porque o ensinava. Mas não sou tão pessimista quanto ao seu pouco uso. A TV Galicia, que vejo com frequência, tem uma programação de fazer inveja às outras televisões peninsulares, e nela o que quase só se ouve é o galego, e falado por gente de todas as idades.

  2. O PORTAL GALEGO DA LÍNGUA disponibiliza esta série na íntegra. AQUI.

    Sublinhe-se o excelente tratamento jornalístico da notícia.

    Estamos muito honrados. O Aspirina e eu próprio.

  3. faço coro contigo, fernando. fica-se como o daniel, numa sensação de desperdício, quando um tema tão caro parece ficar na prateleira. coisa boa da net, não é?, facilita a vida a quem é generoso.

  4. Há também quem leia, que gosta do que leu porque sentiu que esteve a aprender, mas normalmente não se manifesta.

    Como o reparo do Daniel de Sá me atingiu certeiro, hoje digo: muito obrigada, Fernando Venâncio, por estas cartas a Marina

  5. Não me importo com o tal de zero absoluto. Há muita gente que ama o galego como eu , o primeiro deles , aquele que escreveu “O lapiz do carpinteiro” ou a ” Lingua das mariposas” , que reflecte a alma dos galegos. Somos ceibes e meigos( em galego) e mais nada. Não posso competir convosco em sapiência , reconheço. Mas lá que não me levam a palma em amor , não levam. E, no fim , é só isso que importa.
    E , Fernando , sabendo que eu não fui o objectivo , mas bem o meio de expor o seu pensamento , agradeço na mesma ,pois aprendi “bué”.

  6. “até hoje, nunca nenhum reintegracionista forneceu (ou arranjou quem lha fornecesse) a demonstração de que sim, de que português e galego são a mesma língua”
    Não o quero crer. Aquí vai uma, a minha pessoal: falei galego sempre, como os meus pais e avos. Não som lingüísta. Tenho 28 anos. Fai algo menos dum ano atopei-me com esta campanha da Mesa pola Normalización Lingüística:
    http://www.amesanl.org/fotosimprensa/feb07/reverso e anverso marcapaxinas.jpg
    [à qual, mais dum galego reintegracionista já converso, lhe tem dedicado algúm post: http://odemo.blogaliza.org/2007/02/06/nova-campanha-do-concelho-de-santiago%5D

    E assim foi. Em 25 segundos aprendim a ler português. Manda caralho!
    E como me chamou tanto a atenção o assunto, poucos meses depois convertin-me em sócio da Agal. A cousa não quedou aí já que, primeiro com o YouTube, e agora com o satélite, de vez em cando tambem escuto as televisões portuguesas. Sem dificuldades de comprensão. Mais “familiar” ainda me resulta o brasileiro.
    Eis a prova! Como alguém ‘de ciências’, que como a mairoia dos galegos, viveu de costas a Portugal e ao portugês; é quem, num curto espazo de tempo, de manejar-se numa língua “nova”. Ou é que não é tão “nova”. Bom, devo admitir que na escrita cometo (vocês poderão certifica-lo) muitas gralhas [o cámbio do “x” por “g”, “j” ou “x” máta-me], já que nunca estudei a norma portuguesa e apenas lim a Agal. Nisso, pretendo agora aperfeiçoar-me com o estudo na Escola de Idiomas.
    Certamente, as minhas expressões tampouco som as próprias dum lisboeta, suponho. Mas não desexo que o sejam. Opino a este respeito, que existe uma terceira via entre o ‘reintegracionismo radical’ do que fala Fvm (que eu não considero tal) e o não esquezer os nossos próprios giros, vocabulário, etc, substituíndo-os por outros ‘mais portugueses’. Advogo pela ‘radicalidade normativa’, que se traduz na práctica na adopção dos ‘ão’, identidade na acentuação, etc. compatível com o uso do galego com normalidade. Tudo isto, dito por um profano (já se sabe que a ignorância é moi atrevida).

    Concordo com autor do post a respeito de que a aproximação cultural é o primeiro passo. A recepção das televisões portuguesas na Galiza penso que será um shock para muitos galegofalantes que se passarão às filas do reintegracionismo ‘ao direito’. O mesmo se pode dizer de que o português passe a ser 2ª língua “estrangeira” no ensino.

    A Tárique: Sim, bonita língua (como a “túa”). Sim, alguém ainda a fala. E os meus filh@s tambem a falarão.

    Saúdos.

  7. Vaia! Parece que não é culpa minha. A ligação é a darriba, só que nos 3 ocos em branco de “reverso e anverso marcapáginas.jpg” devería aparecer o símbolo de porcentagem seguido de 20 ( ). Sínto-o.

  8. Caro Fernando,

    Tocante a línguas distintas vs. a mesma língua, acho que este é um bo resumo:

    http://www.redesescarlata.org/index.php?art=26

    http://www.redesescarlata.org/index.php?art=27

    O que é dizer, a distáncia objectiva entre os códigos nom chega para considera-las linguas independentes. Porém, som consideradas linguas distintas porque hai processos normalizadores paralelos e um desconhecemento mútuo entre as culturas.

    Concordando no dos processos e no da fenda cultural, eu nom acredito que essas razons abondem para falar de duas línguas. Por essa mesma conta haveria que dizir que agora na Galiza hai duas línguas, o Ilgragiano e o Agaliano, pois na comunidade reintegracionista si há, geralmente, umha maior conciencia da literatura e a música portuguesa e brasileira como próprias.

    Eu nom concordo com que o desconhecemento actual seja raçom para fazer diferenças arbitrárias com o galego de além dos oceanos Atlântico e Mínhico. E certamente, nom o é para entregar a língua a umha grafia espanholizante que perpetue os complexos e a dependência cultural de Castela.

    Mas acho que afinal, esta é apenas umha discussom sobre o sexo dos anjos, e nom é precisso agardar a resolve-la para concordar numha norma. Agás, por suposto, se o que se quere é adoptar sem mais o português padrom, mas os que querem isso nom tenhem problema, porque o “seu” galego sempre vai existir.

    Eu acho que a norma ILG-RAG, sem ser mesmo tam terrível, nom é satisfactória nem considerando o galego língua `a parte. Mesmo acreditando que o português é apenas umha forma de galego, eu acho que é precisso, neste momento, o galego de Minho-para-riba ter umha norma de seu, porque nom espero de Lisboa mais sensibilidade com nós que a que tém com as falas de entre-Minho-e-Douro. E seja lingua ou nom o que temos, quero conserva-lo. Ainda mais, sabendo que a Gallaecia romano-sueva (com o substrato celta e sabe Deus que mais) é o berce do que lá chamam de lusofonia.

    Mas acho que essa norma deve ser solidária com a portuguesa, lá até onde for razoável sem trair as particularidades de nosso. Isso por razons de proximidade, filológicas, prácticas, de autoestima (excepto em algúm lusista extremo, nom existe o complexo de inferioridade com Portugal; antes bem o contrário) e de fomento de intercámbio cultural. Nem adianta ter umha escrita castelhanizante quando os castelhanos antes quererám deprender “portugués” que “gallego”, e quando toda a povoaçom galega já tém o castelhano como lingua imposta no ensino.

    Tárique: se nom ouviu ningúm moço a falar galego em Santiago, tivo bem mala sorte. Na Corunha ou Vigo, nom admira.

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