«O império dos pardais» continua no Rossio

Depois de ter escrito a biografia do rei D. Manuel I, o historiador João Paulo Oliveira e Costa acaba de fazer um livro em tudo diferente. Chama-se O império dos pardais é uma edição Círculo de Leitores e faz do Rossio o palco privilegiado para as personagens se misturarem, se envolverem e se defrontarem. Este Rossio que ainda hoje continua a fervilhar de gente das mais desvairadas caras, raças, cores, credos e nomes.

Hoje, como no tempo do romance, os pardais continuam a aproveitar os bocadinhos de pão que sobejam da luta entre as gaivotas e os pombos. No romance as potências da Europa são a França, o Império Alemão e a Inglaterra. Como hoje, afinal.

Para além das descrições vivíssimas da zona portuária do Tejo, para além da importância decisiva da Irmandade de Moura, o grupo dos amigos do então duque de Beja, para além das peripécias dos serviços de espionagem e de contra-informação, a mim fascinou-me em particular a morte de um marinheiro, «mestre» Felício, em Beja. O rei D. Manuel I visita-o no leito de morte para garantir que está ali por gratidão e respeito para lhe agradecer as viagens de exploração pelo oceano que não foram registadas pelos cronistas nem tiveram direito a diário de bordo.

Na história continua a haver tempos nebulosos e personagens difíceis que nunca vão sair dos subterrâneos do esquecimento. São pessoas que deram tudo por uma causa mas não foi conveniente divulgar os seus nomes, os seus trabalhos e os seus dias.

Este livro deixa-me reconciliado com uma certa ideia de Portugal. E não falta um estrangeiro (um dinamarquês) para nos dizer lucidamente aquilo que nós não somos capazes de descobrir. Até nesse pormenor este é um livro profundamente português.

12 comentários a “«O império dos pardais» continua no Rossio”

  1. Essa do “dinamarquês” deve ser piada para os dois posts do Valupi sobre o eixo da Liberdade anticarapau mouro – Copenhagen, Telaviv e Washington – lubrificado com óleo de fígado de pargo podre de Sesimbra.

  2. JCF
    Não sei onde está o engano, se é que algum existe, mas gostei muito desta sinopse de um livro que sem dúvida vale a pena ler.
    Por puro acaso, acabo de publicar acima um texto em cujo título há “impérios”. Mas estes são outros impérios.

  3. Recém chegado da Casa dos Açores onde ouvi deliciado Dinarte Machado falando sobre os órgãos das igrejas dos Açores recebo este «naco» de bela prosa. Posso dormir em paz, reconciliado com a vida. E mais: ele ofereceu um disco a cada ouvinte com peças de Buxtehude e PACHELBEL. Uma maravilha.

  4. “Ouvi falando”, esta é mesmo à intelecquetual das letras vieirinas. E não é musicalmente culto o homem? Buxtehude e Pachelbel, negociantes de pescada violoncélica de Sesimbra? Continua assim e apanhas com um Nobel nas trombas como o Saramago que nem sabes para que lado é que fica a Espanha.

  5. Sei de que lado fica a Espanha e de que lado ficava a dedicatória do Saramago às pessoas que lhe contaram a história do «Levantado do Chão». Mas desde 1992 a dedicatória desapareceu. Mas o assunto principal aqui é «O império dos pardais». Lá por Sesimbra acabaram todos à bofetata: o velho, o rapaz e o burro. Paz à sua alma.

  6. Paz à alma de quem: do rapaz, do velho ou do burro. Não me digas que estavas a pensar no Saramago! Vê lá a tua raça: és capaz de deitar a mão às piores infâmias e calúnias para abarbatares o teu nobelzito. Não sendo tu da esquerda ou maço, duvido que o consigas. Vai tentando, nunca se sabe…

  7. Limitei-me a registar uma acto de brutal ingratidão: apagar os nomes de quem lhe contou as histórias sem as quais não haveria livro. Só isso. Atirou ao chão do esquecimento quem o tinha levantdo a ele: foi o seu primeiro livro que teve alguma importância e um prémio Cidade de Lisboa. Mas isso é outra história; interessa chamar a atenção para um belo livro que termina como começou – no Rossio, entre pardais, pombos e gaivotas, uma metáfora feliz para falar dos países e das pessoas, suas ambições e seus limites, seus sonhos e suas derrotas. Aqui fala-se de O IMPERIO DOS PARDAIS, noutro lugar posso discutir as atitudes do Saramago.

  8. Não te apoquentes, JCE. Estava a brincar. Tudo o que descobriste da moral do senhor através de apagamentos já eu sabia, usando apenas a intuição. Bom, e também graças ao excelente artigo dos “rebeldes” espanhóis que o Fernando pôs à nossa disposição.

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