«As mulheres são todas parvas» ou a apoteose do equívoco

Ter graça, cair em graça ou ser engraçado – não é para quem quer, mas sim para quem pode. E nem todos podem. Há tempos corria uma tarde amena e, perante três mulheres (de 22, 30 e 57 anos de idade) que folheavam um tratado de Botânica, julguei oportuno atirar para o ar uma frase irónica e disse com o ar mais sério que me foi possível arranjar: «As mulheres são todas parvas».

Julguei então que o facto de a palavra latina ‘parva’ aparecer com frequência nos nomes científicos das plantas, dos arbustos e das árvores ajudaria a abrir as portas para um sorriso cúmplice e, já agora, em triplicado.

Equívoco total o meu. As duas mulheres mais novas sorriram, mas a mais velha fez beicinho e advertiu de imediato: «São todas parvas se forem como eu. Eu sou parva porque penso mais no outros do que em mim».

A partir daqui estava tudo explicado. A brincadeira só existe se for compartilhada. Até lá, até à sintonia de ideias, é um equívoco prolongado com cada um no seu papel e a puxar para o seu lado. Neste caso, eu estava na ironia e a terceira senhora estava num registo (digamos) sério e olhando apenas ao óbvio.

Um dia o grande escritor Santos Fernando (autor do belíssimo «Os grilos não cantam ao domingo») escreveu que o «humor não passa de uma lágrima entre parêntesis». Pelos vistos a ironia também. Ele tinha todas as razões para escrever esta magoada constatação: eram seus amigos de peito os escritores Luiz Pacheco e Ferro Rodrigues. Eles também sabiam que ter graça, cair em graça ou ser engraçado não é para quem quer.

33 comentários a “«As mulheres são todas parvas» ou a apoteose do equívoco”

  1. gostei muito deste texto. oportuno e de graça singela.
    acrescento que a terceira senhora (ou seria ela a primeira?), estando a olhar para o óbvio, estava era a pensar nela própria. mesmo sem saber do contexto na botânica, parece-me líquido que em cada um de nós alterna um parvo e um parvalhão.

  2. Não quero pôr defeitos na sua renda, JCF. Mas, caraças!, acho gente a mais para folhear um tratado de botânica ao mesmo tempo. Por outro lado, deixe-me divergir noutro ponto. À sua estudada ironia chamo eu, só para chatear, repentes levemente provocatórios sem algia nem maldade na intenção. Mas nunca se sabe, quem fala no bote…

    Fez a sua experiência e deu-nos parte. Porreiro. Mas não se queixe, porque a resposta da senhora de 57 até revela filosofia popular adequadíssima à gravidade do momento – a de quem, por outras palavras, não vai agora parar de descascar ervilhas só para responder com uma gargalhada de boa entendedora de ironia ao senhor que a interrompe com fingido desabrimento.

    Volte com mais apontamentos tipo “Memórias do casebre familiar”. Com os nervos que ando agora, não há refrigério melhor, além de me fazerem esquecer quase completamente a obsessão que tenho com o Valupi.

  3. JCF, desculpa usar este teu texto para uma coisa que não tem nada a ver,

    esta é a citação que está hoje no Público on-line, do Barreto:

    «”Talvez tudo fosse diferente se os políticos tivessem de responder, com os seus bens, pelas dívidas de que são responsáveis”»

    ora eu só queria chamar a atenção dos aspirínicos que tal coisa existe, chama-se ‘Direito de Regresso’ e é aplicável se se provar que ocorreu negligência ou dolo, por exemplo.

    Só que ocorre um silêncio de betão a este propósito e claro que nunca nenhum político respondeu por tal, sendo todos nós cúmplices, por acção ou omissão, no medo de abrir tal caixa de pandora.

    Fica a chamada de atenção para o futuro.

  4. Direito de Regresso, z? ai que o menino anda a baralhar as mãos… tu até sabes o que queres, não sabes é por onde ir. Ou vir. Que essa do regresso parece é saudade disfarçada. Volta. Nós também temos.

    Mas olha, tenho muita pena mas essa não se aplica aqui. E o Álvaro Barreto também anda a sonhar alto. Sejam eles responsáveis pelos actos ilícitos, que a mim já me chega,. E as contas equilibram-se, garanto..

  5. não percebo Ernesta, mas amanhã explicas que só vim aqui fumar um cigarro, que isto agora é mansão com colibris e tudo. Não é o Álvaro mas o António, e o DR aplica-se a situações em que o estado seja lesado por incúria dos políticos, de acordo com um parecer que li um dia de um juiz desembargador.

    Eu não quero grande coisa, chega-me andar bem disposto e meio confortável.

    Daqui a um mês estou aí mas agora com isto da blogosesfera que é globoesfera é como se não tivesse saído, em termos de Aspirina, bem vistas as coisas

    mas levo um montinho de receitas inspiradoras, essa do puré de abóbora com carne de charque é muito boa, mas como aí não há vai torresmos.

    beijo

  6. Pois… no caso do Bagão Félix parece que o Estado (a que isto chegou) devia sacar-lhe a quinta no Alentejo para ajudar a pagar as indemnizações dos tipos que ele despediu sem justa causa. Curioso… parece que não mas tem a ver: o Bagão é pequenino, logo a piada sobre a palavra «parva» aplica-se também… A Ernesta cometeu um pequeno lapso parecido com o apresentador de uma festa de poesia que anunciou Joaquim Pessoa e José Jorge Letria como Fernando Pessoa e Joaquim Letria…

  7. Zé do Carmo,

    Que é que a estatura física de Bagão Félix tem a ver com a piada?

    Eu creio entender, mas recuso-me a entender. Essa do «isto anda tudo ligado» (e faço figas para não voltares a lembrar que “já o poeta Eduardo Guerra Carneiro o dizia…”), essa, repito, é um tanto pataroca, não achas?

  8. mais ou menos, porque não percebo a tua reserva em relação à aplicação do Direito de Regresso…

    de facto creio que nunca foi aplicado aos políticos

    há muito autarca e respectivos directores, com competências delegadas e subdelegadas, que bem mereciam ser mordidos à conta de tudo o que comeram

    não?

    e eu lancei uma maldição

  9. z.
    para teres o regresso tens de ter antes o direito. isso é que será difícil de conseguir. tens direito de regresso se, por alguma razão, fizeste um pagamento que não era responsabilidade tua – porque contratualmente não estavas obrigado ou porque havia devedores solidários.

    no caso da responsabilidade civil dos políticos por dívidas teriamos antes de conseguir que ela existisse. é claro que faria todo o sentido que o estado pagasse de imediato a quem, de boa-fé, vendeu ,e depois viesse exercer o direito de regresso, mas acho que só se houver um acto ilícito é que esse direito de regresso deve existir, ou corremos o risco de ninguém se arriscar a comprar uma resma de papel.
    não te esqueças que até nas sociedades a responsabilidade dos sócios pode ser limitada, que de outra maneira seria difícil alguém arriscar num negócio. e se isso é assim quando se busca o lucro, o el contado, como não seria se a única recompensa fosse um hipotético nome de rua…

    josé,
    desculpa o abandalhar do post…

    ah, mudei o nome. continuo com um nome importante e cabra de serviço, mas passei a teresa, que é o meu…

  10. Teresa, tive de dormir uma noite sobre o teu nome,

    anda para aqui uma conversa meio descabelada,

    pensavas que eu estava a falar do meu despedimento inconstitucional? não era nada disso, o que eu tinha em mente por acaso foi outro caso com que lidei de perto, mas também eu aí fugi dos procedimentos persecutórios e parece que enm foi preciso, embora agora me interrogo se não ando a ser cúmplice por omissão de algo…

    aí onde moro, no concelho de Cascais, no meu sítio, o Judas deixou uma urbanização aprovada com alvará de construção emitido e até começou a obra, mas foi embargada e demolida e reposta a situação original porque aquilo violava o alvará de loteamento e o próprio PDM

    entretanto o promotor teria direito a uma indemnização enorme, diziam que de milhões de contos, que no caso de o Estado ter de pagar, aqui a CMC, podia pedir depois ao Judas e aos directores o regresso desse dinheiro, porque aquilo foi inacreditável

    foi aí que fiquei a conhecer o Direito de Regresso explanado pelo desembargador

    por acaso por lá foi-se concertando uma solução equilibrada que dispensava o confronto, só que entretanto apareceu uma bela história romana e não sei como vai ser, vá lá que o António Capucho é homem inteligente, culto e com sentido de humor.

    Um dragoeiro centenário é o paizão lá do sítio, mas agora apareceu não sei se uma ninfa ou nereide

    felizmente já não sou o pm lá do sítio, que isto é preciso saber ir passando as bolas

    mas vou deixar tudo salvaguardado prós filhotes do pessoal

  11. bem me parecia que o meu nome estava todo engelhado… pensei que era falta de uso, mas afinal foste tu que dormiste em cima dele…

    olha, na sê cá nada do teu despedimento inconstitucional, mas arre homem que não fazes por menos… uma insconstitucionalidade!

    já percebi as terras da verinha cruz – afinal és um foragido e coisa e tal que isso de omissões e cumplicidades é do canecão..

    olha, descabelando a conversa – o exemplo da urbanização e da indemnização é um bom exemplo para o direito de regresso. se foi cometida uma, ou várias, ilegalidades o estado tem mais é de pagar – os contratos ou os actos administrativos foram dele – mas depois pode e deve pedir o regresso de tudo o que pagou a quem cometeu as ilegalidades. isto está certíssimo, mas parece que o que o AB queria, ou assim entendi no que disseste, era uma responsabilidade mais alargada dos políticos pelas dívidas do estado, ou seja uma avaliação qualitativa a posteriori. isso, reconheçamos, era o acabar de vez com a coisa pública, que ninguém se arriscaria a tomar decusões.

    essas soluções equilibradas por vezes ficam muito caras, mas se dizes que não é desquilibradinha assim, eu acredito… com ninfetas metidas ao barulho é que pode ser complicado e então se for lolita lá se vai o centenário paizão….

  12. quem fez a inconstitucionalidade não fui eu, foram os outros, o ‘sistema dos fogos e escalitral’, e se não a reparam aquilo desaba, não faço por menos não, senão fica aberta uma brecha fiduciária que pode sobrar para muitos, eu ainda tinha (e tenho) um bom daimon

    sou foragido coisa nenhuma, sou livre como um pássaro

    pois já estive a dizer ao drago que era preciso cuidado com isso, mas ele anda todo em flor, deixa pra lá

    quando eu falava de Direito de Regresso era no concreto, nunca no abstracto, que seria uma manobra justicialista e aliás nem funceminava e como tu dizes dava cabo da coisa pública num ápice

  13. eu percebi que a inconstitucionalidade não era tua, que és de poucas letras ó simples z…. eheh

    sabes, quanto à responsabilidade dos políticos, ou de quem quer que seja, acho que deve ser tratada dando mais poderes e não aumentando o controle. quanto maior e mais pesada é a máquina mais as decisões ficam espalhadas e a responsabilidade é diluída. E é muito mais difícil perceber quem fez porcaria, que é um bocadinho aqui, outro ali, todos chutam a água para o capote do vizinho e no fim ninguém se molha.
    (sim, claro que o fim último disto seria a ditadura, mas sejamos razoáveis – mais poderes, mas democraticamente controlados e sempre sujeitos ao princípio da legalidade.)
    De há uns tempos para cá, pelo menos na minha profissão, foram retirados inúmeros mecanismos de controle e desaparecerem muitos papelinhos e selos brancos e coisa e tal. Tem resultado, que deixar as pessoas sozinhas com a responsabilidade dá-lhes um apertão tal nos coisos que poucas se arriscam a improvisar.

  14. desculpe a minha ignorancia mas desconheço algumas palavras, o português é o mesmo, mas sou da cidade de São Paulo, conhecem? nem queiram, o trânsito é um absurdo, mas recomendo o Rio, Salvador, Fortaleza, são lindos.

    O que significa parva? estou curiosa, só pra mim entender melhor o texto…adoro este blog

  15. eu também concordo que a maior responsabilização das pessoas com mecanismos democráticos de controlo e maior transparência e simplicidade é o melhor caminho, por razões positivas (as pessoas mais responsabilizadas sentem-se mais responsáveis e participantes) quer por negativas (receio, medo).

    é ‘parva’ aqui não tem não

    em latim quer dizer ‘pequena’ mas é usado no sentido de mente pequena, portanto: ‘idiota’, ‘burra’, filha de uma rapariga :-))

    (sem ofensa)

  16. pois, mas se calhar uns casos de DR só fariam bem ao país. Noutro dia soube que em 30 anos não houve um único político acusado de corrupção. Queres maior sintoma de uma corrupção corrompida e corruptora até onde?

  17. bem, eu diria mais, o poder judicial não pode ser muito melhor, que é a ele que compete controlar.
    e, todos nós, também temos andado a assobiar para o ar…

  18. TESTE
    [Bom, saiu…]

    Karin,
    O nosso «parvo», como o z já explicou, corresponde a «pateta», a «palerma», ao vosso «bobo» (de bobagem). Percebe-se agora?

  19. Pronto Fernando tudo nos conformes. Não te esqueças que o Bagão ele mesmo tem um azulejo à porta do «monte» que diz: CUIDADO COM O BAGÃO…

  20. Obrigada pela tradução, aqui nunca se foi citado, nossas tolices talvez não tenha por aí também.
    Muito acontece com quem apanha do marido, essas sim são realmente parvas! e os parvos, onde estão? são aqueles que nada tem:

    “the lights are on but there is nobody home” (autor desconhecido)

    essa frase diz tudo, “as luzes estão acesas mas não tem ninguém em casa”. Cabeça oca, vazia. Parvos! (inventei agora)

    um relance que me veio num instante: “Meu pai sempre dizia que as carroças quando andam vazias fazem sempre muito barulho ao andar pela estrada. Podemos sim concluir que as pessoas que falam alto, são inoportunas, interrompem conversas, não passam de tremendas carroças vazias” (autor desconhecido também)

  21. Caros Senhores,
    já venho um bocado tarde para esta conversa, mas li que tres mulheres leram um tratado de Botânica e fiquei logo a matutar se seria o meu. Assim, posso aumentar o meu número de leitoras para 253. E digo leitoras, porque a minha Botânica apesar de ser parva, também convive com o Magnífico (sem, no entanto lhe tocar). E sim, a minha Botânica é feminista.

    Groetjes

    Joana Serrado

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