Aviso aos pacientes: este blogue é antianalgésico, pirético e inflamatório. Em caso de agravamento dos sintomas, escreva aos enfermeiros de plantão. Apenas para administração interna; o fabricante não se responsabiliza por usos incorrectos deste fármaco.



 

 

 

 

“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.

(Confúcio Costa)

O homem de aspecto jovem abriu a boca de espanto, enquanto perdia a descontração e o ar liberal. Como era demasiado cobarde para enfrentar o ladrão de jóias, pensou em gritar. Foi então que a companheira lhe colocou a mão na boca e disse: «não te preocupes, o ouro é meu.», sem sequer fingir que estava a adorar aquelas mãos suaves que lhe tateavam o pescoço e as primeiras curvas do peito firme, acompanhadas de palavras proibidas ditas quase em segredo, junto às suas orelhas bonitas. Coisas que não se dizem a mulheres comprometidas…

Antes de o deixar partir, beijou-lhe o rosto e entregou-lhe um pequeno papel com o número de telemóvel que trazia sempre escondido na pulseira, para qualquer boa surpresa que lhe surgisse. Quase em simultâneo, o homem jovem, agora completamente contraído, num gesto irreflectido, esfregou a testa, ao perceber que o ladrão de jóias naquele interminável minuto levara mais que o fio, a pulseira ou os brincos de ouro e diamantes.

 

Luís Eme

 

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*Está aberto, na caixa de comentários, o concurso para a continuação desta, bem interessante, epopeia. Força, rapazes. E raparigas também.


  1. 1 Sinhã

    :-) isso é que é estimular o recurso aos dedos, CC.:-)

  2. 2 Jnascimento

    Ladrão, amigo.
    Não é que lhe deixou a pulseirita, se calhar de diamantes ?!
    jnascimento

  3. 3 Sinhã

    (não consigo resistir a um dedo de dança, que queres?):-)

    um devaneio de treze linhas. sim: um pequeno devaneio que o tinha – por breves instantes – assaltado trazia-o, agora, de volta à realidade: estavam a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da sua mulher.

    as jóias que miss sarah usava naquela noite eram, de facto, raras: tinham a capacidade de embelezar um rosto e busto tristes e amargurados pelo fado-carrossel da vida social que se lhe impunha – o que escapava aos olhos, apaixonados, de edgar. naquele momento – de gestos e palavras soltas – , entre um esgar descontraído e pensamentos fingidos, o ladrão – de olhar sereno e brilhante – parou. (e parou, não por receio ou irreflexão, porque viu. viu o olhar da mulher e viu, igualmente, o palpitar do marido – um palpitar de ciúme emoção.) e o cc, ladrão, cantava, sorrindo, assim:

    “foi por isto que cá vim
    não vim com intenção de roubar
    vim por vocês esposos
    vim p’ra vos fazer pensar
    que neste mundo inteirinho
    não existe riqueza igual
    à de um olhar profundo
    e despido de metal
    agora edgar pensa
    no sorriso da tua mulher
    que dispensa o pé de dança
    a ti só quer ela ter
    as joías levo-as comigo
    vou enterrá-las no quintal
    a ver se nasce uma árvore
    que dê flor, frutos e tal

    agora edgar, pensa
    no sorriso da tua mulher
    que dispensa o pé de dança
    a ti só quer ela ter (…)”

    o dia nasceu e miss sarah – despida de jóias e de protocolos, regressou a casa – com sorrisos limpos e olhos de amor por fazer – com edgar; o ladrão – de tristezas -, guardador de sonhos e esperanças, sorriu também. feliz e cumpridor do roubo do par pensava, agora, no próximo ataque.

  4. 4 dina

    “Não conseguia deixar de pensar naquilo. Revia os gestos, passo a passo, desacelerando a memória, tentando encontrar o pequeno detalhe que faria tudo mais razoável. Nada. Forçava as mãos ao correr do dia, obrigava-se a ter em mente as coisas que tinha que fazer normalmente sem pensar. Essa tensão provocava uma estranha explosão interior. Agora mais nada parecia normal: as árvores faziam-se sentir mais verdes, os cheiros das ruas mais intensos e todas as pessoas observáveis.
    Desistiu. Não valia a pena lutar contra esta vontade de se misturar nas coisas. Tinha de aceitar que algo de importante acabara de acontecer. Não era por acaso que tinha memorizado o número depois de o olhar uma só vez.”

    Dina

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