“Posso roubar o seu par”, pergunto, em plena pista de dança, ao homem de aspecto jovem que dança com uma beldade espampanante. “Claro que pode”, diz-me ele, liberal e com um ar descontraído nos gestos. “Obrigado”, respondo. E começo, perante o olhar estranhamente surpreendido dele, a arrancar o fio de ouro e os brincos de diamante da mulher.
(Confúcio Costa)
O homem de aspecto jovem abriu a boca de espanto, enquanto perdia a descontração e o ar liberal. Como era demasiado cobarde para enfrentar o ladrão de jóias, pensou em gritar. Foi então que a companheira lhe colocou a mão na boca e disse: «não te preocupes, o ouro é meu.», sem sequer fingir que estava a adorar aquelas mãos suaves que lhe tateavam o pescoço e as primeiras curvas do peito firme, acompanhadas de palavras proibidas ditas quase em segredo, junto às suas orelhas bonitas. Coisas que não se dizem a mulheres comprometidas…
Antes de o deixar partir, beijou-lhe o rosto e entregou-lhe um pequeno papel com o número de telemóvel que trazia sempre escondido na pulseira, para qualquer boa surpresa que lhe surgisse. Quase em simultâneo, o homem jovem, agora completamente contraído, num gesto irreflectido, esfregou a testa, ao perceber que o ladrão de jóias naquele interminável minuto levara mais que o fio, a pulseira ou os brincos de ouro e diamantes.
(Luís Eme)
Não conseguia deixar de pensar naquilo. Revia os gestos, passo a passo, desacelerando a memória, tentando encontrar o pequeno detalhe que faria tudo mais razoável. Nada. Forçava as mãos ao correr do dia, obrigava-se a ter em mente as coisas que tinha que fazer normalmente sem pensar. Essa tensão provocava uma estranha explosão interior. Agora mais nada parecia normal: as árvores faziam-se sentir mais verdes, os cheiros das ruas mais intensos e todas as pessoas observáveis.
Desistiu. Não valia a pena lutar contra esta vontade de se misturar nas coisas. Tinha de aceitar que algo de importante acabara de acontecer. Não era por acaso que tinha memorizado o número depois de o olhar uma só vez.
Dina
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Continua, na caixa de comentários, o concurso para a continuação deste emocionante folhetim. Até quando? Só Deus – eu próprio – saberá.


Foi quando sentiu um arrepio da cabeça aos pés!
Estava explicada uma parte daquela obsessão. Era um sinal divino! Só tinha que descobrir o que queria dizer aquela sensação que lhe dava uma comichão imensa na unha do dedo grande do pé. Seria um sinal para deixar o submundo do crime? Seria um sinal de Amor á primeira vista?
Não queria pensar mais nisso. Era sexta feira. Tinha um fim de semana para curtir a vida e afiambrar-se a mais pescoços femininos ornamentados de objectos valiosos. Lembrou-se então que ainda não tinha metido o Euromilhões. Todas as semanas usava numero diferentes embora fosse um jogador assíduo. Nunca lhe tinha saído nada, mas tinha fé. Quer dizer: tinha mesmo fezada de que um dia ía ser milionário, daí ter enveredado pela prometedora carreira de Grande Amigo do Alheio.
Pegou num boletim que tinha na gaveta onde guardava a sua colecção de esferográficas provenientes dos muitos bolsos que costumava profanar. Não conseguia deixar de pensar nela, no numero de telefone dela. E ía fazendo cruzes sobre os numeros. E pensava nela. E mais uma cruz. E ao pensamento chegava-lhe a textura da pele do pescoço dela. Lembrou-se do sinal. Do sinal que tinha na mão e que inexplicavelmente costumava ter uns pêlos manhosos que lhe costumavam dar uma comichão tremenda. E mais uma cruz. Tinha de cortar aqueles malditos pêlos. E pensava nela, não conseguia deixar de pensar nela. Saíu para a rua como que em transe, entrou na tabacaria do costume e meteu o Euromilhões, carregou o telemóvel e pagou a electricidade que estava prestes a ser cortada. Lembrou-se da Marisa Cruz. Lembrou-se novamente da Marisa Cruz, lembrou-se do tamanho dela e pensou: “Porra a gaija está mesmo grande!” Lembrou-se que a gaija nunca lhe tinha dado sorte nenhuma, nunca lhe tinha saído sequer 1 centimo no Euromilhões. Pensou que a puta da vida é madrasta, e ele o enteado rejeitado. Pensou novamente no pescoço daquela mulher… apeteceu-lhe sangue…