Todos os artigos de Valupi

extra_o meu mandato

Votei Alegre, como poderia ter votado Louçã ou Jerónimo – mas nunca Cavaco ou Soares. Votei Alegre, apenas para bater Soares – mas talvez Alegre viesse a derrotar Cavaco numa 2ª volta, como os números permitem supor. Votei Alegre, só para não votar em branco – mas votaria em Freitas do Amaral, Adriano Moreira, Helena Roseta, Pacheco Pereira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, João Benard da Costa, Agustina Bessa Luís e Manuel João Vieira.

A pecha da república consiste em não se ter ainda assimilado que está em causa ter sucessivas, limitadas e sufragadas monarquias. A vantagem da monarquia está em transubstanciar a política em identidade. Os que insistem com a dicotomia Esquerda/Direita esquecem que o poder é sempre um eixo vertical.

Então, o Cavaco é agora o meu Presidente. Não o escolhi, fui escolhido pelos meus conterrâneos para o ter na presidência do meu país. Os meus conterrâneos, concidadãos maiores de idade e na posse das faculdades mentais mínimas para exercerem o direito de voto, votaram em mim para um mandato de 5 anos como súbdito do Presidente Cavaco. Aceito a vontade popular e espero cumprir o meu mandato com dignidade.

Mais uma vedeta internacional

Depois do mercado espanhol, fomos até à Holanda buscar nova estrela. Fernando Venâncio passa a exibir os seus exímios dotes literários no Aspirina B, para nosso deleite e aprendizagem. Já lho disse pessoalmente, mas anuncio-o ao mundo: lê-lo faz-me bem.

Fernando, estás em casa.

Cineterapia

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Mr. Smith Goes to Washington_Frank Capra

A vida é curta e cansa. Atingir a maturidade é ser atingido pelo cinismo. E o cinismo tem benefícios evidentes, não sendo o menor deles a narcótica desresponsabilização. Depois, acontece aos cínicos o mesmo que aos psittaciformes: repetem-se. O mundo do cínico é mais redondo, mais liso e mais iluminado. Lógico e asséptico, encara a esperança como erro de cálculo e o mistério como patologia. Quando a imaginação finalmente atrofia para lá do remissível, o cínico está em condições óptimas para se tornar num corrupto. É então que olha com interesse para os negócios e para a política.

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extra_plágios&contágios

A propósito das presas que não escapam à visão aquilina do Luis Rainha, este texto de Malcolm Gladwell apresenta-nos uma outra perspectiva do assunto. Não se trata de munição para a vexata quaestio da natureza do acto da Joana Amaral Dias, antes alimento para a disputatio sobre o estatuto do autor. E colhe recordar Agostinho da Silva, que recusava receber dividendos dos seus direitos autorais por não se considerar autor de coisa nenhuma. Ele dizia que as ideias pairavam algures acima das cabeças e que algumas lhe chegavam como chegam os sinais de rádio às antenas. De onde elas vinham, ele não sabia; e muito menos reclamava a sua posse. Claro, nada disto tem já a ver com o episódio que levou a Joana a tomar (pelo menos) uma Aspirina.

Para quem não conheça, a escrita de Gladwell é melíflua e servida em bandeja de prata.

Emmimmesmado

Tinhas 15 anos e a mãe na sala. Escrevi que ia gostar de ti para sempre. Azulejos esverdeados. Era mentira, não se pode gostar de alguém cuja mãe esteja na sala. Mas gostei de ti, para sempre, todo. Fui eu que ofereci o gato. Mesmo quando descobri que não gostavas de ninguém. Gostei das tuas bebedeiras, da tua promiscuidade, tuas traições, tua nulidade, misérias, desgraça. Natal? Gostei de nunca teres gostado de ti. Eras um pássaro cego e a mãe na sala.

Logoterapia

Arcaísmos para a retro-modernidade:

Sabes, tudo isto se teria resolvido com um buz, disse ela depois de quase hervilhar.

És um lecco, passas o tempo a deffengular, disse ela já a pensar na disnembrança.

Er, o que tu fizeste é um thraconismo, disse ela com sotilidade e olhar pação.

Constipation

Não consigo. O dia foi mesquinhamente reduzido a 24 horas, decisão tão arbitrária como essoutra que faz com que os rios corram para o mar. Que raio vai fazer um rio para o mar? Adiante. Só 24 horas, em que o homem comum passa dezasseis a dormir. A mulher incomum é diferente, duas vezes oito horas a sonhar. Por isso, não consigo. Há blogues a mais. Cada blogue tem posts a mais. Um post tem palavras a mais. As palavras têm silêncios a menos. Em soma, é-me igual. Porque não consigo. Preciso de tempo para ler a Odisseia traduzida pelo Frederico Lourenço. Em voz alta, devagar. Devagar não, quedo. Preciso de tempo para olhar o Bad Boy do Eric Fischl nos olhos, ele que está de costas. Quanto tempo se leva para descobrir o rosto de uma figura que está de costas? Pouco, nada. Mas o nada demora. Preciso de tempo para escrever a biografia de uma erva daninha, para ouvir o Carl Dreyer, para abraçar uma árvore, para chegar ao fim do Half-Life 2 e começar o Civilization IV, para arrumar os livros por ordem analfabética, para ajudar uma velhinha a atravessar a vida, para reencontrar os amigos que vejo todos os dias, para dançar ao som da Nona de Beethoven, para me fechar numa praia deserta em manhã fria de Inverno.

Há blogues a mais.

Cineterapia

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The Sun Shines Bright_John Ford

É um filme que mereceu, à data em que escrevo, seis comentários no IMDB. Se cruzarmos esse epifenómeno com a informação de estarmos perante o filme preferido de John Ford, percebemos que uma parte fundamental da História do cinema repousa esquecida nesta hora e meia de pretos e brancos.

Tinha 120 filmes de idade. 59 anos de casmurrice e insolência. Tratava mal todo e qualquer que deixasse entrar na sua intimidade. E por isso cuidava deles. Orson Welles declarava-se discípulo. Truffaut e Godard ainda só rabiscavam em cadernos. Onde grafavam a palavra “auteur”. O mundo vivia a única década feliz do século XX. Hollywood preparava-se para fechar a fábrica de estrelas. E Ford fez um fracasso comercial que não tem ponta por onde se lhe pegue, por ser um todo indivisível. Estamos em 1953.

O que é uma pessoa? É aquele agregado molecular que sobrepõe a comunidade à lei, que escolhe o ideal em vez da comunidade, que elege o sentimento em prejuízo do ideal. É inevitavelmente um ser paradoxal, cadinho de contradições, aberração da lógica binária. Porque a vida não é lógica, nem sensata, nem piedosa. A vida é uma merda, e são as pessoas que a limpam.

Este filme ensina-nos a nunca confiar na palavra de um cão. Só por isso, estava justificada a invenção do cinema.

Pneumáticos

The biggest paradox about the Church is that she is at the same time essentially traditional and essentially revolutionary. But that is not as much of a paradox as it seems, because Christian tradition, unlike all others, is a living and perpetual revolution.

Thomas Merton, New Seeds of Contemplation

A tradição mística do cristianismo é desconhecida de quase todos, crentes e descrentes. Os crentes passam bem sem ela, por ser trilho demasiado exigente e até perigoso. Os descrentes ficam sem compreender o espírito do Espírito, apenas julgando as aparências. Para complicar, o entendimento mediático da mística está contaminado pelo mercado da “espiritualidade”, onde entra qualquer trafulha ou manipulador de vigésima categoria. Para complicar? Para simplificar, que a mística sempre pediu silêncio e segredo. Para melhor se descobrir.

Uma das notas imprescindíveis no acesso à mística cristã diz respeito à sua importância política. Começa nas raízes judaicas, como tudo o que é cristão, onde o papel do profeta interfere directamente no rumo político da nação. E ainda antes, na primeva busca de um território para morrer. Mais tarde, já em regime católico, os místicos são vistos como ameaças à ortodoxia da doutrina (e por muitas, e excelentes, razões). Dar a César o que é de César não significa que César esgote a dimensão política, pode até ser precisamente ao contrário. Hoje, num Ocidente que se vai despedindo dos crucifixos, a experiência mística cristã continua igual a si mesma (ou seja, genesíaca) e cria bolsas onde se pode respirar a Tradição.

Qual tradição? A da liberdade. Qual liberdade? A da disciplina. Qual disciplina? A da obediência. Qual obediência? A da vocação. Qual vocação? A da virtude. Qual virtude?… Alto! Ou melhor, sursum corda.

Não precisamos de ser cristãos para sermos cristãos. Basta sermos rebeldes.