Todos os artigos de Valupi

Aposta

Pessoa amiga sugeriu-me publicar o seguinte excerto de uma conversa:

Nunca o irás amar porque nunca saberás se ele te ama. Quando escondemos a nossa verdade do outro, não podemos saber se somos amados. Jamais.

Disse-me que iria ter muitos comentários. Apostei que não.

Bute lá ajudar a oposição

Com a traição de Barroso, e a inanidade de Santana, o 25 de Abril consumou-se. Algo ali teve o seu desfecho, algo ali pode ter germinado. A Revolução não substituiu os paradigmas, apenas alterou os processos. O salazarismo foi um cometa gigante que se fragmentou em 10 milhões de pedaços. Criou-se a ilusão de ter desaparecido, mas o seu impacto na inteligência e na liberdade continuou; diminuindo aqui, impedindo ali, destruindo acolá. Partidos, empresariado, povo, cada camada social reproduziu, agora completamente ocultos, os constrangimentos e inércias que vigoraram ao longo de 48 anos: provincianismo, ignorância, mesquinhez, desconfiança e medo. Antes e acima de tudo, medo. Portugal é, há séculos, uma terra de cobardes.

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É que nem uma puta de uma entrevista lhe conseguem fazer, foda-se

A entrevista a Sócrates vale mais pelo que ele não disse. E ficaram ideias e questões decisivas por discutir devido à exclusiva responsabilidade dos jornalistas. Entre elas: quais os recursos económicos nacionais à espera de iniciativa privada para gerarem riqueza, quais as vantagens de estarmos na Comunidade Europeia e como esta pode ser aproveitada pelos cidadãos no dia-a-dia, quais as metas e objectivos do investimento na ciência e na tecnologia, quais as oportunidades culturais e económicas relativas à CPLP. A ocasião perdida de introduzir racionalidade pedagógica na sociedade não radica em algo acidental, nem conjuntural. É estrutural, é o resultado estéril de um complexo processo que ultrapassa a própria entrevista: Judite de Sousa e José Alberto Carvalho não passam de multiplicadores da banalidade, sequer dominando tecnicamente as matérias em questionário — o que levou Sócrates a exibir pasmo ou compaixão paternalista perante a pobreza e distorção de algumas perguntas e afirmações da dupla. Jornalistas em posições cimeiras da hierarquia da RTP, estação que tem peculiar responsabilidade na área da informação, deviam ser exemplos de cultura política. Mas a cultura política só de adquire quando aos dados jurídicos, económicos e sociológicos se junta a reflexão filosófica. Azarinho para a qualidade do debate político, pois Portugal é um arneiro anti-intelectual, onde se tropeça todos os dias em alimárias que se ufanam no desprezo do pensamento e daqueles que pensam. Por isso, professores, empresários, políticos e artistas são, por igual, profundamente incultos. Como poderiam os jornalistas escapar? Não podem, nem querem.

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in-tempestivos_Junho

Conversas que continuam, indiferentes às datas de publicação, e nalguns casos com derivas estrambólicas face ao texto:

Será que os pedintes lêem blogues?, 30 de Novembro de 2005, 5 comentáriosJosé Mário Silva

Polícia solícito e corajoso, 21 de Março de 2006, 19 comentáriosNuno Ramos de Almeida

Portugal: queremos ‘isto’?, 19 de Abril de 2006, 149 comentáriosFernando Venâncio

Campo Pequeno, 18 de Maio de 2006, 35 comentáriosFernando Venâncio

Not Obstante, 21 de Fevereiro de 2007, 6 comentáriosValupi

O ganda O’Neill, 28 de Fevereiro de 2007, 11 comentáriosFernando Venâncio

Coisas infelizes numa revista chamada Happy, 10 de Março de 2007, 26 comentáriosJosé do Carmo Francisco

O verso mais erótico em toda a língua portuguesa, 17 de Abril de 2007, 31 comentáriosValupi

UM JORNALISTA DESASTRADO, 12 de Maio de 2007, 28 comentáriosSoledade Martinho Costa

Cantar as velhas, 15 de Janeiro de 2008, 26 comentáriosDaniel de Sá

joaninha voadora, 13 de Março de 2008, 28 comentáriosSusana

Reconquista

As obras públicas financiaram os partidos e seus quadros, os quais ocuparam executivos e autarquias, e estas entidades desviaram, legal mas antipatrioticamente, o dinheiro dos contribuintes para as obras públicas. Ganharam os empresários e os políticos, fez-se a típica corrupção a coberto dos interesses de todos e que a todos envolve, que todos aceitam, incluindo as populações. Pelo meio, a política do betão e do alcatrão transformou a geografia das deslocações, acabando com o interior e aumentando a interioridade: 6% do território continental concentra 50% do seu poder de compra, 45% da população, 47% das empresas, 70% da facturação empresarial, 73% dos impostos do Estado e 78% do crédito bancário. É tempo, pois, de partir à reconquista.

As causas que levavam ao êxodo rural e provinciano acabaram. Já não há falta de meios de informação, de vias e transportes, serviços e comodidades. O que falta no outro lado do litoral são agentes económicos inovadores, empreendedores heróicos, pessoas decididas a criar riqueza para a comunidade. E está tudo pronto para eles chegarem e conquistarem as terras abandonadas ou profanadas, convertendo os locais à nova fé: a criatividade. Deverão ser os mais inteligentes a iniciar a reconquista, levando consigo os conhecimentos e a vontade para vencer a inércia e a descrença dos infiéis. Os mais inteligentes querem sair das cidades desoladamente opressivas, dos prédios promíscuos e feios, das relações humanas sem alma nem Graça. Os mais inteligentes sabem que têm de combater ou serão escravizados, destruídos. As armas serão os ideais de um novo urbanismo, nova ecologia, novo modelo de trabalho, nova forma de sustentação energética, novo espírito de comunhão com o mistério, uma integral e íntegra cidadania.

Viver em locais onde as deslocações são maioritariamente feitas a pé, ou em rede de transportes públicos eficaz e confortável. Trabalhar sem horário fixo em actividades de produção intelectual. Explorar os recursos da floresta, da agricultura e da paisagem de forma sustentada e multiplicadora dos bens naturais. Habitar em casas e escritórios que sejam mini-ecossistemas regeneradores e produtores de energia limpa. Ter um estilo de vida socialmente luxuriante e fisicamente activo em frequente, ou permanente, contacto com a Natureza. Recuperar a actualidade e perenidade do passado histórico e cultural dos locais e regiões. Educar para a confiança e para a partilha de recursos. Educar para a coragem. Ter a coragem de confiar no vizinho, no governante e no estranho. Lembrar que o tempo livre é o bem económico mais valioso, a perfeição da acção política. E ser a sempiterna procura de ti, amor que estás sempre a chegar. É isto que encontro quando olho para o interior.

Manela de Ferro 0 X Inteligência 10

O mais extraordinário aspecto da entrevista da Manela é a sua pobreza intelectual. Não atribuo responsabilidade especial à pessoa, que é mediana, mas ao grupo que ela representa: a Comissão Política do PSD. Tendo estado calados antes, durante e depois do congresso, e conhecendo a realidade nacional por dentro, aqueles figurões tiverem tempo para pensar. Porém, a entrevista revela que nada de nada de nadinha de nada foi pensado. Não duvido que as reuniões tenham sido preenchidas com milhares de opiniões, mas ninguém as transformou em pensamento. Só isso explica que a presidente do PSD, na primeira apresentação ao eleitorado em plenas funções de chefia e a 1 ano das eleições, não tenha propostas, nem sequer ideias — apenas conseguindo exibir uma profunda desorientação. E num lance inacreditável, mas tão neurótico que enternece, chegou ao ponto de repetir que o País está de tanga.

Nada me espanta mais do que a imbecilidade da actual oposição à direita. Em vários sentidos, é caso para terem vergonha. Que bostas.

Manela de Ferro 2 X Pacheco Pereira 0

Tenho de bater no Pacheco para ver se ele acorda. Talvez já não acorde, o zombinismo onde caiu por empurrão socrático seja irreversível, mas da minha parte não se poderá queixar de falta de interesse na sua recuperação. É o caso com a entrevista da Manela, ontem. A presidente do PSD disse que o Governo geriu brilhantemente a crise dos transportadores. Claro, não o disse assim, mas assado: Não se deve deitar gasolina na fogueira, situação muito complexa, tempo para estar calada. Ora, foi nesse episódio, num misto de oportunismo de feira com alarme pançudo, que Pacheco Pereira avançou com a patife acusação da falta de autoridade do Estado. Depois, assarapantado com a resolução do conflito, não quis perder a face e tomou a pior decisão: fuga para a frente. No encerramento do congresso do PSD, apareceu em registo Portas a largar bacoradas esquizóides sobre o Governo e o País. E continua, semanas depois, a chapinhar no ridículo. Obviamente, vai ficar caladinho quanto a esta posição da nova chefe da velha oposição.

Genial, e de génio, foi a declaração da Manela relativa aos casamentos homossexuais. De génio, porque se limita a exprimir uma opinião pessoal, sem qualquer interesse político. Mas genial, porque a chocante incapacidade de ler a cultura e sociologia do presente é, em paradoxo, uma estratégia vanguardista. Ninguém mais no PSD se lembraria de afirmar que os casamentos têm como finalidade principal a reprodução. E por esta cesária razão: tirando o Menezes, ninguém no PSD se arriscaria a ser gozado até pelos putos do 9º ano de escolaridade. As vantagens de se assumir um fundamentalismo religioso — o qual só existe como abstracção ideológica, atente-se — são, contudo, evidentes: comunicação lateral com o fundo salazarista que confere identidade a dois terços do eleitorado. Tendo em conta o actual estado de desamparo da direita e centro-direita, é alimento para esfomeados. Pois bem, e que dizer agora perante a aberração? Agora, o Pacheco Pereira vai ficar caladinho.

Afinal, para um artista da política-espectáculo, a verdade é um prato que se come frio. E nos bastidores.

E com esta declaração, Pacheco Pereira inaugura a silly season

Já o ouvi, já o disse e agora repito-o: se repararem bem, verão que Portugal nesta altura não tem governo. Não é sequer aquela pergunta cíclica dos jornais, onde é que está o governo, como se o governo fosse o Wally. O corpo físico do governo sei bem onde está, só que não exerce, não governa. Desde que os powerpoint e as sessões de casting começaram a ter efeitos contraproducentes; desde que o calendário de pau e cenoura, tão bem urdido pelo Primeiro-ministro para esta legislatura, encravou na crise internacional e nos erros nacionais; desde que a certeza de nova maioria absoluta se evaporou; desde que o PS percebeu que podia ter um PCP e BE com 20%, comendo-lhe a sua própria esquerda mais Manuel Alegre; desde que acabou a mistura de narcisismo e de turbulência psicótica que passava por ser oposição e apareceu oposição, o governo não sabe o que fazer e está em estado de estupor. Não há governo, está ali parado diante de uma parede, como no Blair Witch Project.

A maior vítima da josémanuelfernandização

O Público é, actualmente, um jornal para imbecis dirigido por um irresponsável (para me restringir aos eufemismos). Como se explicará o apagamento de um evento de inquestionável importância política como aquele que reuniu Primeiro-Ministro, Ministra da Educação, Ministro das Obras Públicas, Bastonário dos Engenheiros e Bastonário dos Arquitectos na sexta-feira passada? O que se pode ler no DN, Expresso, Sol, SIC, RTP e TSF, por exemplo, não existiu para o Público. Mas tal apagamento não se deveu a um menor interesse pela temática da Educação, bem pelo contrário.

Na edição de sábado, a manchete foi feita com este simulacro de notícia: DREN quer excluir da correcção dos exames os professores que se afastam da média. Nela se relata que um professor protestou contra uma frase dita pela directora regional de Educação do Norte, Margarida Moreira. A frase tem a peculiaridade de, mesmo fora de contexto, ter um sentido neutro e legítimo. Também se pode ler a resposta dada pelo director do GAVE, Carlos Pinto Ferreira, que participou na referida reunião, o qual oferece um esclarecimento óbvio para a interpretação da dita. Isto é, nem sequer faltaram contributos racionais para que os responsáveis do jornal pudessem avaliar com algum rigor a relevância do episódio.

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O segredo da felicidade

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[toca na imagem para aumentar a felicidade]

Sou inimigo da ideia de felicidade. Por isso, repito as palavras de Flaubert, carta a Louise Colet em 1846, que permanecem definitivas:

Etre bête, égoïste, et avoir une bonne santé, voilà les trois conditions voulues pour être heureux ; mais si la première nous manque, tout est perdu.

Quem tem um inimigo, está abençoado. Pode lutar com ele, desenvolver as forças, crescer extraordinariamente. Descobrir que o Diabo só faz o que Deus lhe permite, e que todo o mal que nos acontece é para nosso maior bem, aprende-se na arte da guerra; hoje raramente ensinada, pervertida pelas suas imitações, estando os mestres incógnitos nas catacumbas da sapiência. Este paleio de paragem de autocarro só para introduzir uma ruiva americana: Gretchen Rubin. Esta senhora teve o discernimento de querer viver da escrita, e está num país onde tal é possível sem dificuldades de maior. Tanto assim que já guarda no bornal uma besta célere, e anda danada a tentar meter mão noutra. A data prevista para a prova dos 9 são os finais de dois mil e ditos. Contudo, o livro já se vende sem existir e sem que alguém tenha ainda dado um tusto por ele. Ei-lo: The Happiness Project.

Como se pode ler logo no cabeçalho, Gretchen está a escrever uma obra que vai misturar Aristóteles, Santa Teresinha do Menino Jesus e Oprah, entre muitas, muitas e muitas outras fontes. O tema em estudo é o Everest da arrogância e cowboismo imperialista: a felicidade. Entenda-se por felicidade, pegando nos três exemplos históricos indicados, a realização, a santidade e o sucesso. Vale tudo, pois. Estamos em pleno bacanal semântico. E como se não bastasse, provando que ainda não há tecnologia que consiga introduzir juízo no sistema neuronal de um americano, a autora propõe-se identificar as regras para alcançar a felicidade. Identificadas, vai testá-las. A sua vida passa a ser o laboratório da eficácia dos ensinamentos recolhidos, mas só durante um ano. Isto obriga a um qualquer calendário fechado de testes. Se, por hipótese, reunir 12 conjuntos de regras, poderia ter 1 mês para cada exercício. Se forem 52, uma semana. Mas talvez sejam centenas, como ela ameaça no topo da sua loja, e com durações variáveis. Por exemplo, os ensinamentos de Buda a serem testados durante 3 meses, de preferência no Verão; a biografia de Bill Gates levando a um fim-de-semana passado na garagem; e o caminho místico de S. João da Cruz apenas tendo direito a umas horas de gasto depois de um filme maroto à meia-noite, procurando aplicar o despojamento radical da Noite Escura no tempo que restar até o Sol nascer, et pour cause.

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O que é um pessimista?

A notícia, de ser Portugal o pardieiro onde há maior percentagem de pessimistas, não surpreende. É que Portugal é também um dos países onde é mais difícil encontrar portugueses. Se o português fosse pessimista, teria sido capaz de ir até às especiarias montado em cascas de noz? Esses portugueses eram optimistas. Conseguiam dar a volta às coisas, mesmo às coisas muito grandes.

Desde que se expulsaram e esconderam os judeus que a terra ficou entregue ao pessimismo. E é na sabedoria judaica que se encontra a definição acabada do pessimista:

Um pessimista é alguém que, perante duas más opções, escolhe ambas.

Eis Portugal no seu pior.

A terceira força de oposição interna no PSD

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Para além de um Passos Coelho que está a fazer tudo bem para suceder sem espinhas à Manela, para azar da política nacional, e de um Santana que está a fazer tudo o que pode para se suceder a si próprio, para sorte da nacional-politiquice, há uma terceira força de oposição interna no PSD: o ódio às mulheres. O PSD é o partido que mais exuberantemente representa o homem português medíocre e bimbalhão. Claro, homens medíocres e bimbalhões encontram-se em todos os partidos, mas não na frequência com que eles ocupam funções de militantes e dirigentes sociais-democratas.

O traço que consagra a mediocridade e bimbalhice do homem português comum é a redução da mulher a veículo sexual e mão-de-obra escrava, e esse processo mantem-se hoje igual ao que era no passado. Não é um acaso que, 34 anos depois do 25 de Abril, não se conheça da intelligentsia social-democrata qualquer especial preocupação com a condição feminina. De Marcelo a Pulido Valente, passando por Pacheco Pereira, José Miguel Júdice, Miguel Sousa Tavares e qualquer outro nome de referência, o estado calamitoso em que vivem as mulheres portuguesas é ignorado. Desemprego, diferenças salariais, acesso a cargos directivos, representação política, violência doméstica e abandono social, eis um primeiro rol de indicadores que não tiram o sono à social-democracia publicada. Sim, falar de mulheres enquanto cidadãs não tem graça nenhuma, quão mais agradável é continuar a vê-las como bonecas disponíveis e infantilóides ou mães solícitas e sacrificadas. Assim, ter 109 mulheres em mais de mil congressistas, em Guimarães, não incomoda ninguém. Esta proporção, 10 para 1, é o exacto retrato da realidade nacional no que diz respeito à influência política e cultural das mulheres.

Muita coisa mudou nos últimos 25 anos, muita. Há muito mais mulheres com muito mais dinheiro, liberdade, opções. E, por causa disso mesmo, a sua inércia e demissão em face da responsabilidade política própria é trágica para todos, até para os medíocres e bimbos. É a calamidade das calamidades, isto das mulheres não ambicionarem a mais do que serem omnipotentes consumidoras.

O que ganhou Portugal com o fracasso no Euro 2008

Ganhou um cronista de referência, Ferreira Fernandes. As suas crónicas na TSF foram o feliz abraço entre uma cultura jornalista clássica, hoje em extinção acelerada, e uma elegante e apaixonada coragem de exprimir, a marca de autor. Para além de saber escrever, e de saber pensar, também sabe falar e contar. As rádios e televisões têm ali alguém que agarra audiências pelas melhores razões e com as melhores consequências. É aproveitar, porque desta estirpe não tem aparecido ninguém nas novas fornadas.

Pelo menos 97% está contra o aborto

A conclusão a tirar desta notícia é a de que, podendo, os mais interessados na questão do aborto votariam* contra o mesmo numa percentagem de 97%. Pelo menos.

Quando leio estas notícias, para mais com o retrato sociológico estampado onde se vê maturidade nas mulheres responsáveis, fico sempre esmagado pelo absurdo: qualquer pessoa acorreria ao choro de um recém-nascido abandonado, e tudo faria para o salvar, não precisando para nada de conhecer a sua mãe e pai, nem se inibindo de procurar dar-lhe calor, alimento e protecção por não saber como o sustentar nos anos seguintes. Pura e simplesmente, esses outros problemas nem sequer apareceriam no momento de agir a favor do bem maior. Perante um bebé, o melhor de nós torna-se força e vontade. Mas perante esse mesmo bebé 7 meses mais novo, muitos nem o estatuto de ser humano lhe reconhecem. Tratam-no como uma doença. Que, só por azar, lhes aconteceu no corpo e na vida.

Isto de se querer abortar porque apetece é uma animalidade que desapareceria em 7 meses — aliás, menos; muito menos.

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* Ou delegariam o seu voto em quem os representasse.

José Manuel Fernandes Challenge

Desafio-te a descobrir quantos preconceitos serôdios e primários se encontram neste parágrafo — retirado completamente ao calhas — do editorial do Público de hoje, e onde se fala da Ferreira:

A vantagem de ser mulher é sentir-se que é directa, terra a terra, que sabe quanto custa o pão, o leite ou um quilo de carne numa altura em que a distância entre os políticos que passam no interior de carros de vidros fumados e o cidadão comum se agravou. Ter idade, cabelos brancos, rugas é, até porque ninguém os deseja ter, um factor de autenticidade que aproxima a nova líder do PSD de um eleitorado que não é tão novo como se julga (sobretudo se pensarmos que os mais novos se abstêm mais do que os mais velhos).

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Sim, estamos em época de exames, também por cá.

Scolari, vai-te embora – V

Um treinador que descura, desaproveita e diminui um jogador como Quaresma, merece um prémio: o de treinador mais imbecil do Mundo. Quaresma bate bem a bola, como raros, mas bate mal da bola, como tantos. Vê-se que há ali um Dani em potência. Só que o Filipão Sargentão era também o auto-propalado rei da motivação, até a sua psicóloga aparecia a botar sentenças. Cadê? Como é possível que Quaresma, Nani e Hugo Almeida não tenham lugar na equipa do Petit, Nuno Gomes e actual Sabrosa? No Entroncamento nunca se viu nada tão estranho.

Quando Mourinho foi para Inglaterra, ninguém acreditou que ele viesse a ter sucesso. Agora, passa-se o mesmo com Scolari. Só que agora vai tudo ter razão, e o homem não vai conseguir aquecer o lugar até ao Natal.