Todos os artigos de Valupi

É o Rosas, senhores


Toca na imagem para ler melhor as sensatas palavras dos leitores do Público digital

As declarações de Fernando Rosas despertaram a fúria da turbamulta, a mesma que o Bloco diz representar: as vítimas do Poder. Acontece que os oprimidos andam é à nora com os algozes do contrapoder: os ladrões, violadores e assassinos que medram na arraia-miúda. Num fenómeno que espero esteja a ser estudado academicamente, a edição digital do Público tornou-se o poiso preferido dos analfabrutos. Gente que nunca passou muito tempo na escola, que odeia livros, que não lê semanários nem diários genéricos, e que a ler nunca escolheria o jornal do Zé Manel, ei-los a encher as caixas de comentários da entidade que se delira como referência do jornalismo. Estes novos comentadores, febris, não perdem uma notícia contra o Governo, contra algum elemento do Governo e, em alucinação e orgasmo, contra Sócrates. E se esta maralha tem enchido a pança e lambuzado as beiças com os gordurosos pratos anti-Sócrates confeccionados pelo Zé Manel, olá se tem. É com este material espasmódico, que dantes não chegava aos jornais em papel porque era deitado para o lixo, que se fazem diagnósticos para entreter SEDES e fomes várias.

Mas voltemos aos espinhos. A reacção às declarações de Rosas é um hino à racionalidade das multidões. Muitos dos votos do Bloco têm vindo desta mesma zona do eleitorado onde só há cegueira e ressentimento, frustração e impotência. É o chamado voto de protesto, mas devia antes chamar-se voto que não presta. A adesão deste eleitorado ao populismo e demagogia que o Bloco, CDS e PCP continuamente promovem explica-se por não lhes ser pedido esforço cognitivo, só descodificação emocional. Eis porque os dirigentes e representantes desses partidos aparecem invariavelmente zangados, mesmo muito zangadinhos coitadinhos, quando fazem declarações. Eles sabem que o conteúdo da mensagem nem irá ser entendido, muito menos dará origem a qualquer reflexão, mas que os tontos irão perceber, pelo rosto macerado e admoestações veterotestamentárias dos profetas da desgraça, que a luta continua e recomenda-se.

Os partidos adoram estes rebanhos dóceis, mantidos a palha e ordenhados nas eleições. Perante um Governo que surpreendeu por cumprir o desígnio reformista, os irresponsáveis à frente dos partidos da oposição, mais os comentaristas engajados ou despeitados, e ainda os adeptos da josémanuelfernandização, juntos têm estado, desde o Verão de 2006, a atiçar a barbárie que o anonimato e pulsão dos comentários na Internet permite expressar. Por isso — e perante um caso de actuação policial que pede investigação interna e pesar para todos os envolvidos — ter um responsável político a arrogar-se o conhecimento técnico do episódio, pretendendo tirar dele ilações sistémicas, é o grau zero de credibilidade para uma geração que merecia melhor memória. Não há milagre que o esconda.

Jogos no Olimpo

Na fauna dos publicistas oficiais — esses que frequentam jornais, rádios e TV, trocando opiniões por dinheiro e/ou fama — há uns que se prestam com genuíno entusiasmo ao ridículo gabarola. São todos aqueles que botam faladura sobre política internacional. Dividem-se em dois grupos, e dois grupos apenas: os omniscientes e os lorpas. Os primeiros transmitem a ideia de estarem melhor informados do que os próprios agentes da situação em análise e conseguem antecipar o desfecho de qualquer berbicacho que lhes apareça à frente. Se discorrerem sobre o actual conflito na Geórgia, por exemplo, ficamos a acreditar que os EUA e a Rússia andam ali aos papéis e à espera do seu urgente conselho. Para o mesmo caso, os lorpas preferem citar enciclopédias e concluir pela impossibilidade da conclusão através de conclusões múltiplas. Ambos os grupos comungam de uma atitude nefelibata, condescendendo em lançar migalhas de superior intelecção para cima das audiências pasmadas.

Não tem mal, aborrece.

Cineterapia


Picnic_Joshua Logan

No meio da década de 50 fez-se um filme que alguns têm a sorte de amar. Não é o caso deste cromo, mas é o meu, e o de muitas alminhas boas como a minha. Convém lembrar que a década de 50 contém os melhores 12 anos da História do Ocidente (década de 50: 1949 a 1961, pelas minhas contas). Havia transportes rápidos e combustível quase dado, toda a gama de electrodomésticos, casas de dois andares com quintal e cão, Invernos invernosos, miúdas giras e honestas com algum peso a mais nas partes mais à mão, e ainda completa ausência de grafitos nas cidades e vilas. Pelo menos é isto que tenho visto em filmes americanos, e não acho que logo os americanos fossem gastar tanto dinheiro com actores careiros e película nada barata só para mentir ao pessoal. Portanto, acredito nestas cenas até filme em contrário.

Joshua Logan é um ser do teatro. Talvez por isso, ou talvez por se filiar na longa tradição cinéfila que começa em Homero, encosta a câmara ao coração das personagens. E os actores fazem bater forte esses músculos abrutalhados. Foi assim que Rosalind Russel terá sacado a melhor representação da sua carreira, tendo recusado concorrer ao Oscar de actriz secundária para assim nos conquistar desvairada admiração. Foi assim que Kim Novak passou pelo fio da navalha, equilibrando passividade exterior e ebulição interior como em raras ocasiões terá sido alcançado. Foi assim que William Holden errou ao aceitar o papel para que erradamente o convidaram — e só esse duplo erro conseguiu dar corpo à errância da personagem.

De repente, fugazmente, passa uma imagem gloriosa com dezenas de melancias; imagem cuja existência e conservação é uma credível justificação para a criação do Universo. Estamos num piquenique. E depois, lá para a noite, há uma dança onde se aprende a dançar. First, you’ve got to set the rhythm. Ele marca o ritmo. A menina não dança porque ainda não tem idade, só tempo. Mas a rapariga está na idade e no tempo. Entra no ritmo, descompassado. Surpresa. E nova surpresa. Estar no mesmo ritmo com alguém é surpreendente, mas muito mais surpreendente é estar na mesma falta de ritmo. Na mesma falta de ritmo. A mesma, o mesmo. Então, aproximam-se. Porque há para onde ir. Um centro, um vazio. Ele não tem nada a ganhar. Ela o que mais quer é perder. Luzeiros de papel. Aren’t they graceful?… You used to dance like that, Flo.

Flo, vem dançar.

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Dependência ou morte!

Toda a gente exultou com a morte e abate dos assaltantes à dependência bancária do BES, incluindo aqueles que fingiram estar preocupados com a sua morte e abate. Fizeram-se alarves piadas e piadinhas nos blogues; assinadas, ainda por cima. Declarações dementes e alucinadas — com origem nos computadores de dois reformados em Abrantes e de um alcoólico filiado no PNR — encheram as caixas de comentários do Público. Enfim, houve uma descompressão geral por contraponto aos pavores securitários quotidianos, o que revela o quanto gostámos da limpeza da acção policial: desde a rapidez do desenlace até aos felizes resultados (só se partiu um vidro), passando pelo filmezinho bacana dos bacanos. O facto de os bandidos serem brasileiros é secundário, pois também iríamos curtir se fossem facínoras portugueses a pagar um juro demasiado alto pelo empréstimo de reféns — embora nesta versão curtíssemos menos, claro, até porque haveria família a chorar nos telejornais, vindo logo o PCP e o BE acusar Sócrates de violência policial salazarista sobre duas vítimas do imperialismo americano e do novo Código Laboral, e as coisas acabariam por ser um bocadinho chatas derivado da portugalidade inibir as chalaças mais espontâneas do povoléu. O ideal era que os meliantes fossem pretos de segunda ou terceira geração, à volta dos 20 anos. Isso teria um gostinho especial. Só que pretos de segunda ou terceira geração, à volta dos 20 anos, é muito provável que não sejam tão imbecis como estes sambistas. Aliás, o ideal absoluto consistiria num duo constituído por um preto e um cigano, ambos da Quinta da Fonte. Par mais lindo e sociologicamente consensual não é possível imaginar. Terem saído na rifa brasileiros desperados é muito bom, impecável mesmo, sendo até melhores do que os robustos ucranianos ou manhosos romenos. Isto não se resumiu a ter as armas apontadas e já está, não não, também tivemos sorte com a raça dos alvos.

Só o CDS é que acaba por ter azar, pois desta vez não pode meter requerimento para que o ministro da Administração Interna vá ao Parlamento passar uma tarde na brincadeira. Pode é queixar-se informalmente de dano económico para o Estado, relativo às despesas hospitalares causadas pela sobrevivência do pistoleiro. E Portas terá ocasião para fazer mais um dos seus brilhantes brilharetes, vindo airoso falar-nos da pontariajacking.

Cantar a tesão – III

O nosso amigo Rui teve a gentileza, e o supino bom-gosto, de nos oferecer novo espancamento, frementes carícias:


NERVOS D’OIRO

Meus nervos, guizos de oiro a tilintar
Cantam-me n’alma a estranha sinfonia
Da volúpia, da mágoa e da alegria,
Que me faz rir e que me faz chorar!

Em meu corpo fremente, sem cessar,
Agito os guizos de oiro da folia!
A Quimera, a Loucura, a Fantasia,
Num rubro turbilhão sinto-As passar!

O coração, numa imperial oferta.
Ergo-o ao alto! E, sobre a minha mão,
É uma rosa de púrpura, entreaberta!

E em mim, dentro de mim, vibram dispersos,
Meus nervos de oiro, esplêndidos, que são
Toda a Arte suprema dos meus versos!

Cantar a tesão – II

De Florbela Espanca disse Pessoa ser sua alma gémea. O que poderá assinalar um Pessoa por descobrir, mesmo que esteja à vista de todos, nas alfombras dos caminhos selvagens e escuros onde se beija a unidade.

PASSEIO NO CAMPO

Meu amor! Meu amante! Meu amigo!
Colhe a hora que passa, hora divina,
Bebe-a dentro de mim, bebe-a comigo!
Sinto-me alegre e forte! Sou menina!

Eu tenho, Amor, a cinta esbelta e fina…
Pele doirada de alabastro antigo…
Frágeis mãos de madona florentina…
– Vamos correr e rir por entre o trigo! –

Há rendas de gramíneas pelos montes…
Papoilas rubras nos trigais maduros…
Água azulada a cintilar nas fontes…

E à volta, Amor… tornemos, nas alfombras
Dos caminhos selvagens e escuros,
Num astro só as nossas duas sombras…

Cantar a tesão

Quem, até agora, melhor cantou a tesão na poesia portuguesa foi Florbela Espanca. O que faz todo o santo sentido.


SE TU VIESSES VER-ME…

Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços…

Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca… o eco dos teus passos…
O teu riso de fonte… os teus abraços…
Os teus beijos… a tua mão na minha…

Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri

E é como um cravo ao sol a minha boca…
Quando os olhos se me cerram de desejo…
E os meus braços se estendem para ti…

A indústria da paisagem

Os portugueses não são estúpidos, precisam é que alguém lhes explique as coisas. Qualquer português emigrante é um estandarte da asserção anterior, juntamente com os sortudos empregados da Autoeuropa. Faltando quem explique, os nativos comportam-se como imbecis. É o caso com a paisagem. Ninguém nos anos 60 e 70 teve visão para proteger o Algarve da boçalidade dos patos-bravos. Nos anos 80 já estava tudo escavacado e as escavadoras começavam a virar-se para a Costa Alentejana. Ainda hoje, se deixados à solta, construtores e autarcas começam em Tróia a criar um novo Portimão e só param na pontinha de Sagres. Que filhos da puta. Mas que filhos da puta. Alteram ou desrespeitam os PDM, compram fiscais e amanuenses às sacadas para levantar tijolo onde quiserem e como quiserem para as suas casas e quintas, mais as da família, amigos e de quem lhes der uns trocos. E por nenhuma outra razão que não seja o dinheiro, constroem em cima do litoral marítimo e margens fluviais, envenenam santuários biológicos, destroem cenários prístinos, aviltam memórias de séculos, extinguem heranças ainda vivas da génese do povo e da cultura. A costa alterada depois dos anos 50, as urbes do interior a partir dos anos 70, e os edifícios da classe média desde sempre, são exercícios de fealdade. Portugal é feio porque é pobre, e é pobre porque não pensa.

Mas os locais de beleza natural abundam, claro, e outros poderiam ficar belos sem grande esforço ou custo. E abundam as pessoas que querem beleza, e que precisam dela com urgência e sempre. Porque é isso que a beleza faz, dá saúde e alegria. Tanto para crianças, como para criançolas, a paisagem é um assunto de coração, fazendo com que ele dure mais tempo e nos dê um tempo melhor.

Os portugueses não são estúpidos. Mas comportam-se como imbecis quando deixam que alguns pulhas façam 30 dinheiros com a destruição da paisagem. Ironicamente, é a paisagem — tanto a natural como a cultivada, se preservada e restituída à sua memória ancestral — que mais riqueza pode criar para indivíduos, populações e Estado. Há uma indústria da paisagem que consiste em a salvar e aumentar. Até quando durará a estupidez colectiva?

in-tempestivos_Julho

Toda a gente sabe quando começaram estas conversas, mas ninguém sabe quando vão acabar:

Será que os pedintes lêem blogues?30 de Novembro de 2005, 6 comentáriosJosé Mário Silva

Uma excelente ideia6 de Fevereiro de 2006, 50 comentáriosRui Tavares

Contas do Embaixador do Irão15 de Fevereiro de 2006, 35 comentáriosNuno Ramos de Almeida

Portugal: queremos ‘isto’?19 de Abril de 2006, 150 comentáriosFernando Venâncio

Ibéricos e levianos27 de Abril de 2006, 37 comentáriosFernando Venâncio

Campo pequeno
18 de Maio de 2006, 36 comentáriosFernando Venâncio

Um new look para o empresário português
9 de Agosto de 2006, 49 comentáriosLuis Rainha

AU REVOIR, MONSIEUR PASTEUR
31 de Dezembro de 2006, 18 comentáriosTT

Coisas infelizes numa revista chamada Happy
10 de Março de 2007, 27 comentáriosJosé do Carmo Francisco

UM JORNALISTA DESASTRADO12 de Maio de 2007, 29 comentáriosSoledade Martinho Costa

Tomb Raider: Underworld_trailer

Foi preciso esperar dois anos para surgir quem superasse Gears of War_Cinematic; o qual já vinha com o balanço de outro clássico, tendo-se ido lá roubar a canção e o lirismo. A singular fama do trailer Gears of War até deu origem a paródia pela concorrência, no Bad World do jogo Battlefield: Bad Company. Pois, este é o feérico, e cada vez mais valioso, reino dos joguinhos de computador (uma consola também é um computador, tá?). Tão valioso e criativo que o melhor talento do cinema, vídeo e televisão está a entrar nesta indústria aos magotes e aos pinotes.

E de fazer o pino, e começar a bater palmas, é a primeira mini-curta de promoção ao jogo Tomb Raider: Underworld (ver em HD, não esquecer). Estamos perante um exercício de pura geometria que nos apresenta dois finais concomitantes, separados pela acção que os revela como dois pontos de vista do mesmo acontecimento. Dessa forma, cria-se uma circularidade onde o tempo é desdobrado para se constituir como eterno retorno: no começo está o final, no final está o começo — e a energia deste movimento vem de uma mulher, a qual se retira de cena deixando tudo em chamas. É pouco? Então, toma lá a Lacrimosa, do Requiem de Mozart. Ninguém terá feito tanto pela promoção da música clássica junto de centenas de milhões de adolescentes como o cabrão que se lembrou de escolher essa peça para o filme.

Brilhante. E nunca visto antes.

Temos azar com eles

Temos azar com os Presidentes da República. Ainda não apareceu algum que deixe saudades, quanto mais ser exemplo de sabedoria; ou sequer que tenha uma qualquer ideia de Portugal que faça um qualquer sentido para os portugueses. Fingimos, até ao ponto de acreditar, que não faz mal estarmos pauperrimamente servidos lá por Belém — mas continuamos a dispensar a parvoeira em tão importante função.

A hipótese mais votada neste país de taralhoucos, e de hipocondríacos, era a da doença. Cavaco estaria gravemente doente e iria anunciar o abandono. Só isso justificaria o funesto silêncio quanto à alocução das oito da noite. Ou, então, Sócrates tinha sido apanhado a trocar armas por droga, na Quinta da Fonte, e o Governo teria de ir abaixo. De facto, a sua comunicação resumiu-se a uma queixa ressabiada contra todos os partidos com representação na Assembleia da República, a propósito de questões consideradas legítimas pelo Tribunal Constitucional. Isto confirma o acerto da previsão: o tipo está doente da cachimónia e qualquer semelhança com a responsabilidade presidencial é pura coincidência.

O trágico do episódio, porém, estava guardado para as 10 da noite: observei-me, como em sonho, a concordar com o Luís Delgado. Ainda não tenho uma estimativa dos prejuízos causados por tal catástrofe, nem sei como irei recuperar da vergonha. Apenas juro, Cavaco, que jamais te perdoarei.

E tu, sabes como começa uma massagem?


Toca na imagem se a quiseres ver maior ou se não tiveres alguém a quem dar, ou de quem receber, massagens.

Hoje em dia, e mesmo no dia de hoje, é sinal exterior de cultura afirmar em restaurantes, enquanto se encharca o coto de pão no pires de azeite, que foi Al Gore quem inventou a Internet, dando assim o melhor uso ao tempo livre que lhe caia nas mãos nas diversas, e sobejas, ocasiões em que não conseguia reunir-se com Bill Clinton; por estar este na labuta, coitado, deixando uma parte indelevelmente íntima e substancial de si no exercício da presidência, o que o impelia a ficar na Sala Oral até ao mais indisfarçável e pungente definhamento, contando para o efeito apenas com os préstimos de uma jovem estagiária, e recorrendo à duvidosa ajuda de alguns charutos dominicanos, os quais nunca conseguiu acender convenientemente, apesar das sucessivas tentativas, nalguns casos frenéticas, que até lhe pelaram a barriga do polegar como resultado do friccionar intenso da derme não calejada na rodinha dentada (é o nome técnico da peça) de um isqueiro Bic, dos pequenos, em cor azul-marinho. Ora, quem sabe da génese da Internet, sabe igualmente que a sua principal função, estes anos todos depois, ainda se resume à repetição ad nauseam de notícias idiotas tão ao agrado dos imbecis que sobre elas escrevem. É o que vou fazer já de seguida.

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Um partido sem colhões

Nunca ninguém no PSD teve coragem para denunciar a corrupção e se demarcar dos vómitos de Jardim. Nunca, ninguém. Jaime Ramos será o continuador deste sistema que chantageia uma população ignorante, isolada e pervertida. O que acontece na Madeira é uma vergonha nacional, mas não é caso único, nem sequer o mais grave. Grave será pertencer a um partido sem colhões.

Veremos se a Manela de Ferro os tem, como se andou a prometer. Quem quer governar a casa tem de conseguir desinfectar a despensa.

Partido Nacional Renovador — Um exemplo para todos nós

O PNR comemorou o 10 de Junho com a melhor manifestação política de que tenho memória. Não sei o que foi dito pelos oradores, apenas tomei conhecimento das mensagens exibidas em cartazes; no que é uma redução ao essencial desse evento, devia ir sem explicação. Apesar da simpatia que frases como Viemos todos a pé! Não há €uros para combustível, Querem mais jovens na política? Não nos prendam!, O Multiculturalismo destrói a identidade nacional, Mais desemprego? Porreiro pá!, Bobos e lacaios de Bruxelas?, ASAE encerra o Parlamento e Nós não invadimos esquadras imediatamente despertam, foram as peças onomásticas a conquistar o meu coração. Ver apoiantes de um partido político, seja ele qual for, a erguerem cartazes com os nomes Viriato, D. Afonso Henriques, Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa é lindo. É lindo porque a associação política a Viriato pressupõe vastos conhecimentos de etnologia celta e das historiografias romana e grega, por exemplo, já para não falar na faraónica engenharia de teses arqueológicas para ligar a Lusitânia a Portugal. É belo ver a assunção pública da figura de Camões, por implicar apaixonada estima pela sua lírica, quiçá por todo o classicismo, seguramente por algum neoplatonismo. Encanta saber do transporte do nome Eça de Queiroz desde o Largo Camões até aos Restauradores, constituindo-se como tour de force daquilo que será o queirosiano e chiadístico realismo da ficção; onde se começa por cumprimentar Carlos da Maia e se acaba abraçado à Luísa ou à Juliana, é escolher. E temos todos, todos sem excepção — portanto, mesmo todos — de nos render ao iluminado dirigente, ou brilhante militante, que se lembrou de ir buscar o Fernando Pessoa ao baú das psicoses ainda não diagnosticadas, visto ter conseguido introduzir no seio de incautos pró-nazis uma criatura que se alimentou da mais densa mística judaica. Agora — e à medida que o opus pessoano for descoberto, estudado e digerido pelos quadros e apoiantes do partido, como será de esperar que aconteça na sequência do apoio público — poderemos assistir a radicais alterações estratégicas no PNR, e até a fenómenos de histerismo colectivo junto de elementos com mais dificuldade para gerir a mudança.

Por todas estas razões, acrescidas do facto indesmentível de nunca nenhum outro partido, em 34 anos de democracia, ter feito um mísero cartaz que fosse para promover estas figuras da nossa história e cultura, vejo no PNR um exemplo a seguir. A política pede este cabedal científico, académico, intelectual e artístico que os manifestantes manifestaram possuir. Esta gente que ergue acima da sua cabeça cartazes onde se inscreve um nome como Eça de Queiroz, numa postura a um tempo popular e fidalga, desafiando a ubíqua apatia do restante eleitorado, poderá em breve sair à rua com faixas onde se tenham impresso os nomes Jorge de Sena, António Botto, Maria Teresa Horta e Wenceslau de Moraes. Não? Sim, é apenas uma questão de tempo. As sementes já foram lançadas.

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Nota: também vi um cartaz com a imagem de uma caravela e outro com a de um lobo-ibérico, os quais não me atrevo a comentar, aceitando resignado não ser capaz de entender todos os núcleos ideológicos do PNR.

Os cérebros, os ratos e a rata

Há várias formas de cobardia. E uma das piores, para o meu palato, é a da violência para com as mulheres. Entretanto, como ontem me lembraram, e nem sequer tinha ainda jantado apesar do já de si vanguardista adiantado da hora, há senhoras que legitimam o preceito de se recomendar ao homem para bater na sua mulher assim que entre em casa — mesmo que ele não saiba porquê, ela lá saberá. Ou assim pensam que pensam algumas delas, que nunca se sabe bem no que as mulheres pensam realmente ou se realmente pensam. É disto que nos fala um artigo que tem a elegância de se deixar ler em 3 minutos e 33 segundos. Acabada a leitura, é difícil lidar com a ilusão colectiva que defende estarmos em 2008. O desconchavo de, afinal, a maior violência sobre as mulheres ainda vir da ciência — continuando a não haver suficiente investigação do corpo feminino, o que leva a piores terapias cardíacas, oncológicas, neurológicas, sexuais, psicológicas, e podes continuar a somar disciplinas médicas enquanto eu acabo de escrever o resto — é um TAC à imbecilidade dos machos. Mas por mais que soubéssemos quão imbecis os machos conseguem ser, atinge-se um novo máximo com isto de se pretender conhecer o cérebro feminino sem o estudo da rata.

O Verão como nunca mais o verão

Só pela abolição das maiúsculas iniciais nas estações do ano e nos meses, já se justificava defenestrar o Acordo Ortográfico. Nunca escreverei Fevereiro e Outono e Abril e Primavera de cabeça baixa. Jamais me conformarei à vergonha que políticos e académicos minúsculos aprovaram. O meu desacordo é capital.