Todos os artigos de Valupi

in-tempestivos_Julho

Toda a gente sabe quando começaram estas conversas, mas ninguém sabe quando vão acabar:

Será que os pedintes lêem blogues?30 de Novembro de 2005, 6 comentáriosJosé Mário Silva

Uma excelente ideia6 de Fevereiro de 2006, 50 comentáriosRui Tavares

Contas do Embaixador do Irão15 de Fevereiro de 2006, 35 comentáriosNuno Ramos de Almeida

Portugal: queremos ‘isto’?19 de Abril de 2006, 150 comentáriosFernando Venâncio

Ibéricos e levianos27 de Abril de 2006, 37 comentáriosFernando Venâncio

Campo pequeno
18 de Maio de 2006, 36 comentáriosFernando Venâncio

Um new look para o empresário português
9 de Agosto de 2006, 49 comentáriosLuis Rainha

AU REVOIR, MONSIEUR PASTEUR
31 de Dezembro de 2006, 18 comentáriosTT

Coisas infelizes numa revista chamada Happy
10 de Março de 2007, 27 comentáriosJosé do Carmo Francisco

UM JORNALISTA DESASTRADO12 de Maio de 2007, 29 comentáriosSoledade Martinho Costa

Tomb Raider: Underworld_trailer

Foi preciso esperar dois anos para surgir quem superasse Gears of War_Cinematic; o qual já vinha com o balanço de outro clássico, tendo-se ido lá roubar a canção e o lirismo. A singular fama do trailer Gears of War até deu origem a paródia pela concorrência, no Bad World do jogo Battlefield: Bad Company. Pois, este é o feérico, e cada vez mais valioso, reino dos joguinhos de computador (uma consola também é um computador, tá?). Tão valioso e criativo que o melhor talento do cinema, vídeo e televisão está a entrar nesta indústria aos magotes e aos pinotes.

E de fazer o pino, e começar a bater palmas, é a primeira mini-curta de promoção ao jogo Tomb Raider: Underworld (ver em HD, não esquecer). Estamos perante um exercício de pura geometria que nos apresenta dois finais concomitantes, separados pela acção que os revela como dois pontos de vista do mesmo acontecimento. Dessa forma, cria-se uma circularidade onde o tempo é desdobrado para se constituir como eterno retorno: no começo está o final, no final está o começo — e a energia deste movimento vem de uma mulher, a qual se retira de cena deixando tudo em chamas. É pouco? Então, toma lá a Lacrimosa, do Requiem de Mozart. Ninguém terá feito tanto pela promoção da música clássica junto de centenas de milhões de adolescentes como o cabrão que se lembrou de escolher essa peça para o filme.

Brilhante. E nunca visto antes.

Temos azar com eles

Temos azar com os Presidentes da República. Ainda não apareceu algum que deixe saudades, quanto mais ser exemplo de sabedoria; ou sequer que tenha uma qualquer ideia de Portugal que faça um qualquer sentido para os portugueses. Fingimos, até ao ponto de acreditar, que não faz mal estarmos pauperrimamente servidos lá por Belém — mas continuamos a dispensar a parvoeira em tão importante função.

A hipótese mais votada neste país de taralhoucos, e de hipocondríacos, era a da doença. Cavaco estaria gravemente doente e iria anunciar o abandono. Só isso justificaria o funesto silêncio quanto à alocução das oito da noite. Ou, então, Sócrates tinha sido apanhado a trocar armas por droga, na Quinta da Fonte, e o Governo teria de ir abaixo. De facto, a sua comunicação resumiu-se a uma queixa ressabiada contra todos os partidos com representação na Assembleia da República, a propósito de questões consideradas legítimas pelo Tribunal Constitucional. Isto confirma o acerto da previsão: o tipo está doente da cachimónia e qualquer semelhança com a responsabilidade presidencial é pura coincidência.

O trágico do episódio, porém, estava guardado para as 10 da noite: observei-me, como em sonho, a concordar com o Luís Delgado. Ainda não tenho uma estimativa dos prejuízos causados por tal catástrofe, nem sei como irei recuperar da vergonha. Apenas juro, Cavaco, que jamais te perdoarei.

E tu, sabes como começa uma massagem?


Toca na imagem se a quiseres ver maior ou se não tiveres alguém a quem dar, ou de quem receber, massagens.

Hoje em dia, e mesmo no dia de hoje, é sinal exterior de cultura afirmar em restaurantes, enquanto se encharca o coto de pão no pires de azeite, que foi Al Gore quem inventou a Internet, dando assim o melhor uso ao tempo livre que lhe caia nas mãos nas diversas, e sobejas, ocasiões em que não conseguia reunir-se com Bill Clinton; por estar este na labuta, coitado, deixando uma parte indelevelmente íntima e substancial de si no exercício da presidência, o que o impelia a ficar na Sala Oral até ao mais indisfarçável e pungente definhamento, contando para o efeito apenas com os préstimos de uma jovem estagiária, e recorrendo à duvidosa ajuda de alguns charutos dominicanos, os quais nunca conseguiu acender convenientemente, apesar das sucessivas tentativas, nalguns casos frenéticas, que até lhe pelaram a barriga do polegar como resultado do friccionar intenso da derme não calejada na rodinha dentada (é o nome técnico da peça) de um isqueiro Bic, dos pequenos, em cor azul-marinho. Ora, quem sabe da génese da Internet, sabe igualmente que a sua principal função, estes anos todos depois, ainda se resume à repetição ad nauseam de notícias idiotas tão ao agrado dos imbecis que sobre elas escrevem. É o que vou fazer já de seguida.

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Um partido sem colhões

Nunca ninguém no PSD teve coragem para denunciar a corrupção e se demarcar dos vómitos de Jardim. Nunca, ninguém. Jaime Ramos será o continuador deste sistema que chantageia uma população ignorante, isolada e pervertida. O que acontece na Madeira é uma vergonha nacional, mas não é caso único, nem sequer o mais grave. Grave será pertencer a um partido sem colhões.

Veremos se a Manela de Ferro os tem, como se andou a prometer. Quem quer governar a casa tem de conseguir desinfectar a despensa.

Partido Nacional Renovador — Um exemplo para todos nós

O PNR comemorou o 10 de Junho com a melhor manifestação política de que tenho memória. Não sei o que foi dito pelos oradores, apenas tomei conhecimento das mensagens exibidas em cartazes; no que é uma redução ao essencial desse evento, devia ir sem explicação. Apesar da simpatia que frases como Viemos todos a pé! Não há €uros para combustível, Querem mais jovens na política? Não nos prendam!, O Multiculturalismo destrói a identidade nacional, Mais desemprego? Porreiro pá!, Bobos e lacaios de Bruxelas?, ASAE encerra o Parlamento e Nós não invadimos esquadras imediatamente despertam, foram as peças onomásticas a conquistar o meu coração. Ver apoiantes de um partido político, seja ele qual for, a erguerem cartazes com os nomes Viriato, D. Afonso Henriques, Camões, Eça de Queiroz e Fernando Pessoa é lindo. É lindo porque a associação política a Viriato pressupõe vastos conhecimentos de etnologia celta e das historiografias romana e grega, por exemplo, já para não falar na faraónica engenharia de teses arqueológicas para ligar a Lusitânia a Portugal. É belo ver a assunção pública da figura de Camões, por implicar apaixonada estima pela sua lírica, quiçá por todo o classicismo, seguramente por algum neoplatonismo. Encanta saber do transporte do nome Eça de Queiroz desde o Largo Camões até aos Restauradores, constituindo-se como tour de force daquilo que será o queirosiano e chiadístico realismo da ficção; onde se começa por cumprimentar Carlos da Maia e se acaba abraçado à Luísa ou à Juliana, é escolher. E temos todos, todos sem excepção — portanto, mesmo todos — de nos render ao iluminado dirigente, ou brilhante militante, que se lembrou de ir buscar o Fernando Pessoa ao baú das psicoses ainda não diagnosticadas, visto ter conseguido introduzir no seio de incautos pró-nazis uma criatura que se alimentou da mais densa mística judaica. Agora — e à medida que o opus pessoano for descoberto, estudado e digerido pelos quadros e apoiantes do partido, como será de esperar que aconteça na sequência do apoio público — poderemos assistir a radicais alterações estratégicas no PNR, e até a fenómenos de histerismo colectivo junto de elementos com mais dificuldade para gerir a mudança.

Por todas estas razões, acrescidas do facto indesmentível de nunca nenhum outro partido, em 34 anos de democracia, ter feito um mísero cartaz que fosse para promover estas figuras da nossa história e cultura, vejo no PNR um exemplo a seguir. A política pede este cabedal científico, académico, intelectual e artístico que os manifestantes manifestaram possuir. Esta gente que ergue acima da sua cabeça cartazes onde se inscreve um nome como Eça de Queiroz, numa postura a um tempo popular e fidalga, desafiando a ubíqua apatia do restante eleitorado, poderá em breve sair à rua com faixas onde se tenham impresso os nomes Jorge de Sena, António Botto, Maria Teresa Horta e Wenceslau de Moraes. Não? Sim, é apenas uma questão de tempo. As sementes já foram lançadas.

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Nota: também vi um cartaz com a imagem de uma caravela e outro com a de um lobo-ibérico, os quais não me atrevo a comentar, aceitando resignado não ser capaz de entender todos os núcleos ideológicos do PNR.

Os cérebros, os ratos e a rata

Há várias formas de cobardia. E uma das piores, para o meu palato, é a da violência para com as mulheres. Entretanto, como ontem me lembraram, e nem sequer tinha ainda jantado apesar do já de si vanguardista adiantado da hora, há senhoras que legitimam o preceito de se recomendar ao homem para bater na sua mulher assim que entre em casa — mesmo que ele não saiba porquê, ela lá saberá. Ou assim pensam que pensam algumas delas, que nunca se sabe bem no que as mulheres pensam realmente ou se realmente pensam. É disto que nos fala um artigo que tem a elegância de se deixar ler em 3 minutos e 33 segundos. Acabada a leitura, é difícil lidar com a ilusão colectiva que defende estarmos em 2008. O desconchavo de, afinal, a maior violência sobre as mulheres ainda vir da ciência — continuando a não haver suficiente investigação do corpo feminino, o que leva a piores terapias cardíacas, oncológicas, neurológicas, sexuais, psicológicas, e podes continuar a somar disciplinas médicas enquanto eu acabo de escrever o resto — é um TAC à imbecilidade dos machos. Mas por mais que soubéssemos quão imbecis os machos conseguem ser, atinge-se um novo máximo com isto de se pretender conhecer o cérebro feminino sem o estudo da rata.

O Verão como nunca mais o verão

Só pela abolição das maiúsculas iniciais nas estações do ano e nos meses, já se justificava defenestrar o Acordo Ortográfico. Nunca escreverei Fevereiro e Outono e Abril e Primavera de cabeça baixa. Jamais me conformarei à vergonha que políticos e académicos minúsculos aprovaram. O meu desacordo é capital.

Aposta

Pessoa amiga sugeriu-me publicar o seguinte excerto de uma conversa:

Nunca o irás amar porque nunca saberás se ele te ama. Quando escondemos a nossa verdade do outro, não podemos saber se somos amados. Jamais.

Disse-me que iria ter muitos comentários. Apostei que não.

Bute lá ajudar a oposição

Com a traição de Barroso, e a inanidade de Santana, o 25 de Abril consumou-se. Algo ali teve o seu desfecho, algo ali pode ter germinado. A Revolução não substituiu os paradigmas, apenas alterou os processos. O salazarismo foi um cometa gigante que se fragmentou em 10 milhões de pedaços. Criou-se a ilusão de ter desaparecido, mas o seu impacto na inteligência e na liberdade continuou; diminuindo aqui, impedindo ali, destruindo acolá. Partidos, empresariado, povo, cada camada social reproduziu, agora completamente ocultos, os constrangimentos e inércias que vigoraram ao longo de 48 anos: provincianismo, ignorância, mesquinhez, desconfiança e medo. Antes e acima de tudo, medo. Portugal é, há séculos, uma terra de cobardes.

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É que nem uma puta de uma entrevista lhe conseguem fazer, foda-se

A entrevista a Sócrates vale mais pelo que ele não disse. E ficaram ideias e questões decisivas por discutir devido à exclusiva responsabilidade dos jornalistas. Entre elas: quais os recursos económicos nacionais à espera de iniciativa privada para gerarem riqueza, quais as vantagens de estarmos na Comunidade Europeia e como esta pode ser aproveitada pelos cidadãos no dia-a-dia, quais as metas e objectivos do investimento na ciência e na tecnologia, quais as oportunidades culturais e económicas relativas à CPLP. A ocasião perdida de introduzir racionalidade pedagógica na sociedade não radica em algo acidental, nem conjuntural. É estrutural, é o resultado estéril de um complexo processo que ultrapassa a própria entrevista: Judite de Sousa e José Alberto Carvalho não passam de multiplicadores da banalidade, sequer dominando tecnicamente as matérias em questionário — o que levou Sócrates a exibir pasmo ou compaixão paternalista perante a pobreza e distorção de algumas perguntas e afirmações da dupla. Jornalistas em posições cimeiras da hierarquia da RTP, estação que tem peculiar responsabilidade na área da informação, deviam ser exemplos de cultura política. Mas a cultura política só de adquire quando aos dados jurídicos, económicos e sociológicos se junta a reflexão filosófica. Azarinho para a qualidade do debate político, pois Portugal é um arneiro anti-intelectual, onde se tropeça todos os dias em alimárias que se ufanam no desprezo do pensamento e daqueles que pensam. Por isso, professores, empresários, políticos e artistas são, por igual, profundamente incultos. Como poderiam os jornalistas escapar? Não podem, nem querem.

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in-tempestivos_Junho

Conversas que continuam, indiferentes às datas de publicação, e nalguns casos com derivas estrambólicas face ao texto:

Será que os pedintes lêem blogues?, 30 de Novembro de 2005, 5 comentáriosJosé Mário Silva

Polícia solícito e corajoso, 21 de Março de 2006, 19 comentáriosNuno Ramos de Almeida

Portugal: queremos ‘isto’?, 19 de Abril de 2006, 149 comentáriosFernando Venâncio

Campo Pequeno, 18 de Maio de 2006, 35 comentáriosFernando Venâncio

Not Obstante, 21 de Fevereiro de 2007, 6 comentáriosValupi

O ganda O’Neill, 28 de Fevereiro de 2007, 11 comentáriosFernando Venâncio

Coisas infelizes numa revista chamada Happy, 10 de Março de 2007, 26 comentáriosJosé do Carmo Francisco

O verso mais erótico em toda a língua portuguesa, 17 de Abril de 2007, 31 comentáriosValupi

UM JORNALISTA DESASTRADO, 12 de Maio de 2007, 28 comentáriosSoledade Martinho Costa

Cantar as velhas, 15 de Janeiro de 2008, 26 comentáriosDaniel de Sá

joaninha voadora, 13 de Março de 2008, 28 comentáriosSusana

Reconquista

As obras públicas financiaram os partidos e seus quadros, os quais ocuparam executivos e autarquias, e estas entidades desviaram, legal mas antipatrioticamente, o dinheiro dos contribuintes para as obras públicas. Ganharam os empresários e os políticos, fez-se a típica corrupção a coberto dos interesses de todos e que a todos envolve, que todos aceitam, incluindo as populações. Pelo meio, a política do betão e do alcatrão transformou a geografia das deslocações, acabando com o interior e aumentando a interioridade: 6% do território continental concentra 50% do seu poder de compra, 45% da população, 47% das empresas, 70% da facturação empresarial, 73% dos impostos do Estado e 78% do crédito bancário. É tempo, pois, de partir à reconquista.

As causas que levavam ao êxodo rural e provinciano acabaram. Já não há falta de meios de informação, de vias e transportes, serviços e comodidades. O que falta no outro lado do litoral são agentes económicos inovadores, empreendedores heróicos, pessoas decididas a criar riqueza para a comunidade. E está tudo pronto para eles chegarem e conquistarem as terras abandonadas ou profanadas, convertendo os locais à nova fé: a criatividade. Deverão ser os mais inteligentes a iniciar a reconquista, levando consigo os conhecimentos e a vontade para vencer a inércia e a descrença dos infiéis. Os mais inteligentes querem sair das cidades desoladamente opressivas, dos prédios promíscuos e feios, das relações humanas sem alma nem Graça. Os mais inteligentes sabem que têm de combater ou serão escravizados, destruídos. As armas serão os ideais de um novo urbanismo, nova ecologia, novo modelo de trabalho, nova forma de sustentação energética, novo espírito de comunhão com o mistério, uma integral e íntegra cidadania.

Viver em locais onde as deslocações são maioritariamente feitas a pé, ou em rede de transportes públicos eficaz e confortável. Trabalhar sem horário fixo em actividades de produção intelectual. Explorar os recursos da floresta, da agricultura e da paisagem de forma sustentada e multiplicadora dos bens naturais. Habitar em casas e escritórios que sejam mini-ecossistemas regeneradores e produtores de energia limpa. Ter um estilo de vida socialmente luxuriante e fisicamente activo em frequente, ou permanente, contacto com a Natureza. Recuperar a actualidade e perenidade do passado histórico e cultural dos locais e regiões. Educar para a confiança e para a partilha de recursos. Educar para a coragem. Ter a coragem de confiar no vizinho, no governante e no estranho. Lembrar que o tempo livre é o bem económico mais valioso, a perfeição da acção política. E ser a sempiterna procura de ti, amor que estás sempre a chegar. É isto que encontro quando olho para o interior.

Manela de Ferro 0 X Inteligência 10

O mais extraordinário aspecto da entrevista da Manela é a sua pobreza intelectual. Não atribuo responsabilidade especial à pessoa, que é mediana, mas ao grupo que ela representa: a Comissão Política do PSD. Tendo estado calados antes, durante e depois do congresso, e conhecendo a realidade nacional por dentro, aqueles figurões tiverem tempo para pensar. Porém, a entrevista revela que nada de nada de nadinha de nada foi pensado. Não duvido que as reuniões tenham sido preenchidas com milhares de opiniões, mas ninguém as transformou em pensamento. Só isso explica que a presidente do PSD, na primeira apresentação ao eleitorado em plenas funções de chefia e a 1 ano das eleições, não tenha propostas, nem sequer ideias — apenas conseguindo exibir uma profunda desorientação. E num lance inacreditável, mas tão neurótico que enternece, chegou ao ponto de repetir que o País está de tanga.

Nada me espanta mais do que a imbecilidade da actual oposição à direita. Em vários sentidos, é caso para terem vergonha. Que bostas.

Manela de Ferro 2 X Pacheco Pereira 0

Tenho de bater no Pacheco para ver se ele acorda. Talvez já não acorde, o zombinismo onde caiu por empurrão socrático seja irreversível, mas da minha parte não se poderá queixar de falta de interesse na sua recuperação. É o caso com a entrevista da Manela, ontem. A presidente do PSD disse que o Governo geriu brilhantemente a crise dos transportadores. Claro, não o disse assim, mas assado: Não se deve deitar gasolina na fogueira, situação muito complexa, tempo para estar calada. Ora, foi nesse episódio, num misto de oportunismo de feira com alarme pançudo, que Pacheco Pereira avançou com a patife acusação da falta de autoridade do Estado. Depois, assarapantado com a resolução do conflito, não quis perder a face e tomou a pior decisão: fuga para a frente. No encerramento do congresso do PSD, apareceu em registo Portas a largar bacoradas esquizóides sobre o Governo e o País. E continua, semanas depois, a chapinhar no ridículo. Obviamente, vai ficar caladinho quanto a esta posição da nova chefe da velha oposição.

Genial, e de génio, foi a declaração da Manela relativa aos casamentos homossexuais. De génio, porque se limita a exprimir uma opinião pessoal, sem qualquer interesse político. Mas genial, porque a chocante incapacidade de ler a cultura e sociologia do presente é, em paradoxo, uma estratégia vanguardista. Ninguém mais no PSD se lembraria de afirmar que os casamentos têm como finalidade principal a reprodução. E por esta cesária razão: tirando o Menezes, ninguém no PSD se arriscaria a ser gozado até pelos putos do 9º ano de escolaridade. As vantagens de se assumir um fundamentalismo religioso — o qual só existe como abstracção ideológica, atente-se — são, contudo, evidentes: comunicação lateral com o fundo salazarista que confere identidade a dois terços do eleitorado. Tendo em conta o actual estado de desamparo da direita e centro-direita, é alimento para esfomeados. Pois bem, e que dizer agora perante a aberração? Agora, o Pacheco Pereira vai ficar caladinho.

Afinal, para um artista da política-espectáculo, a verdade é um prato que se come frio. E nos bastidores.