Todos os artigos de Valupi

Derrelictos — Manuel Monteiro

blogmmlx.jpg

Uma nova democracia precisa de se conseguir distinguir completamente da velha democracia. Mas precisa ainda mais, muito mais, de se conseguir distinguir da recente democracia. Que fazer? O candidato tem mostrado possuir o segredo dessa alquimia. Sempre que pode, anuncia estar em ruptura com o sistema vigente. Este, intentava questionar, sugerir e debater. Os prejuízos para a democracia advindos de tais práticas velhas e recentes estão à vista. Com os neo-democratas acaba-se o forrobodó, vai-se directo à essência das coisas. Eleitor, Lisboa é Capital, ’tá?

No comments

O sistema em que o Aspirina habita está sujeito a caprichos. Desta vez, ficámos mais de 12 horas sem poder comentar. Com o tempo, descobrimos que as perturbações são como os tigres de Borges. Aparecem sem sabermos porquê, e acabam por se tornar parte do ritual.

Derrelictos — Telmo Correia

competencia.jpg

Se há algo de que Lisboa precisa, sem margens do Tejo para dúvida, é de competência. Porque a competência é aquela coisa que serve sempre para alguma coisa. A competência tanto pode ser discreta como espalhafatosa, mas é invariavelmente eficaz. A competência alcança, realiza, faz milagres. E a competência tem essa graça acrescida de ser imune à incompetência. Nem todos terão competência, diz-nos o candidato no acto de anunciar a sua posse. E agora é com o eleitor, e é tudo muito simples: acaso não seria útil ter na Câmara a equipa da competência?

A falta que elas fazem

Falo delas, o gajedo. Falhada a contratação da Ana Cristina Leonardo (a qual teve juízo, e supino bom gosto, preferindo criar a mui recomendável Meditação na Pastelaria), fomos aos despojos da feminina e feérica SOCA convencer uma das estrelas da companhia — cecília r. — a juntar-se a este grupo de tontos. Não foi fácil, pois esta casa não tem acomodações para senhoras, mas a sua generosidade (de mulher?) venceu montanhas de dúvidas. Ficam as certezas de o Aspirina B ficar um local muito mais bem frequentado.

Susana, instala-te onde quiseres.

Luís Graça & Rui Unas

O Show do Unas é uma coisa que falhou, não se tendo chegado a saber o que pretendia ser. Como já o amaldiçoei, estou à vontade para louvar o exercício supra. Um poeta de plurais qualidades encontrou um interprete que lhe fez jus. É acontecimento raro. E, ó Unas, que tal largares a pseudo-radicalidade adolescente e ocupares o lugar deixado vago pelo Mário Viegas?

Derrelictos — Carmona Rodrigues

O_meu_partido____Lisboa.jpg

Lisboa é um encanto, cantada por poetas, louvada por turistas e arruinada por presidentes da Câmara. Mas faltava-lhe o je ne sais quoi das grandes capitais do Mundo. Isto foi assim durante séculos. Uma apagada e vil tristeza no meio de tanta luz. Até que, em 2007, um candidato defenestrou os limites do bom-senso e fez de Lisboa o seu partido. Inovação internacional. Perguntarão: qual o projecto político de Lisboa? Que ideias defende Lisboa? Lisboa é de esquerda ou de direita? Perguntas asininas, escusado seria dizer. Como se ainda alguém perdesse tempo a ler o programa dos partidos.

Derrelictos — Fernando Negrão

outdoor.negrao.jpg

O Governo não manda em tudo. Muitos se queixam da arrogância do Governo, da prepotência do Governo, até da perseguição do Governo, mas ‘pera aí, alto! O Governo não manda ali. Ali, onde? Ali onde manda o Presidente. Esclarecidos? Avancemos. Então, e de que presidente estamos a falar? O da República? O da Junta? Algo pelo meio? Isso já não interessa ao candidato estar a detalhar. Interessa é saber que ali, algures, o Governo não bota faladura nem mete o nariz. Ali, é tudo nosso, é à brava. Ou seja, é do Presidente, desgovernado.

Derrelictos — Ruben de Carvalho

mini-mupijunho2.jpg

Quem é o senhor na fotografia? Será o senhor CDU? Ou o senhor PCP-PEV? Não é possível descobrir. Seja quem for, tem uma solução para Lisboa. Solução única? Ou a única solução? Não é possível saber. Seja como for, seja qual for, a solução existe, e é para Lisboa. Nesta informação, está outra: a de que Lisboa tem um problema. Lógico. Foi para garantir este grau de certeza na mensagem que se fez uma coligação. E não passará pela cabeça do eleitor pôr em causa o superior mérito desse esforço.

Desclicar

6672_large.jpg

Assim como se têm figuras públicas que causam espontânea alergia (no meu caso, o Jorge Gabriel, a Maria Elisa, o Carvalhas, os manos Portas, etc.), também existem certas palavras que me despertam ódios de odiação. No momento, a que encima a escala é este verbo: clicar. Como onomatopeia genérica, clique, já existia no Português muito antes do rato se ter tornado no melhor amigo dos informáticos. Como chavão inevitável na maioria da comunicação interactiva, clicar remete para o verbo inglês to click, significando neste contexto a representação da sonoridade resultante da pressão na patilha do comando do cursor. De modo que andamos constantemente a ser solicitados para clicar aqui e ali. Ambiente mental que considero pífio, um pequeno nada sintomático do pequeno nada a que alguns se reduzem.

A minha quixotesca reacção é legítima e recomenda-se. Porque a anuência face ao parasita inglês é perfídia linguística e lexical evitável. É um baixar de calças típico dos preguiçosos, dos desleixados, dos vendidos. E não só, nem especialmente, por causa da intrusão inglesa, antes por nos reduzir a um dedo mecanizado. Em vez de clicar usemos entrar, ver, saber, andar, saltar, abrir, o que nos der na real e interactiva gana. E já que se fala de verbos, ide curtir o instrumento que os irmãos brasileiros disponibilizam para gozo lusíada. É uma geringonça que não se corta perante nenhuma forma verbal, e a todas serve o cardápio completo das conjugações. É de hilariar.

EPUL si muove

Fernando Negrão é o pior candidato, seja a que cargo for, que me lembro de ter visto. A sua entrevista ao RCP ficará como o pináculo caricatural de um grupo de portugueses que não valem nada. Eis um homem que se propõe ser o chefe político da Capital pelo PSD e que não tem uma mísera ideia para apresentar. Mais, quem tivesse a infeliz ideia de o aceitar como guia turístico para uma visita a Lisboa, acabaria perdido algures em Setúbal.

Enormes desperdícios d’água podem ser testemunhados ao longo da entrevista, tantos que até o jornalista bebeu uns pirolitos, mas não é o lado patético que importa relevar. Acontece é ser esta pessoa alguém que o maior partido da oposição propõe como modelo de competência e visão política para o berbicacho autárquico (leia-se este texto delirante e tema-se o pior…). Não é de mais repetir: um PSD reduzido a figuras como Mendes, Menezes e Negrão, um PSD do Jardim e do Valentim, entre outros ainda mais sinistros ou trôpegos de ideias (se tal for possível), é uma perda grave para a democracia.

Telebarbaridade

Dua Khalil, 17 anos, foi morta com pedras e pontapés. Foi filmada em telemóveis por aqueles que a matavam. Os mesmos que a viram nascer, que eram da sua família, da sua tribo. O crime era o amor.

Têm razão os que se insurgem contra o suposto conflito de civilizações. Nunca houve um conflito de civilizações, nem tal poderá alguma vez existir. O que há é um conflito pela Civilização. E chegou o tempo de libertarmos as mulheres das garras dos bárbaros .

Profilaxia Zen

Stage2.gif

A propósito desta importante notícia, aproveito para contar aquela que se diz ser a história Zen favorita de Herberto Helder:

Um camponês chega a casa e encontra a mulher acocorada ao pé da porta, procurando algo no chão. Que se passa?, pergunta. Perdi o anel do nosso casamento, responde a mulher. Onde o perdeste?, pergunta o homem. Dentro de casa, diz a mulher. Mas, então, porque procuras cá fora?, pergunta o homem. Diz-lhe a mulher, Porque aqui há luz.

Sei que esta história contém uma verdade terrível. E não faço ideia qual seja.

World in Conflict – Trailer

Este jogo irá fazer as minhas delícias, e também as do Pacheco Pereira, porque é de estratégia. Os jogos de estratégia não são jogos de jogar: são jogos de brincar. Neste caso, com enredo que mistura os bons americanos, os pérfidos russos e ainda os bananas dos europeus em versão NATO. Vai ser lindo, até porque os cenários o são.

Gostava de conseguir chocar alguém, afirmando que neste vídeo de apresentação há um quadro que me parece inspirado neste quadro. É quando se vê um grande plano aéreo sobre a cidade para onde se lançam os pára-quedistas. O pintor, Altdorfer. A pintura, A Batalha de Alexandre, 1529. Gostava, mas não vou ter sorte nenhuma.

Aqui, versão em HD, e o jogo todo explicadinho.

Um Cravinho pela Revolução

Cravinho.jpg

Em 14 de Junho de 2006, o País estava contentinho da vida. A Selecção tinha entrado a ganhar no Mundial, três dias antes, e faltavam outros três para o jogo seguinte. Os políticos dos mais antagónicos quadrantes, duas semanas atrás, já tinham tratado do subido desígnio da alteração do horário do plenário, na Assembleia. Todos os nossos sofridos e sacrificados deputados iriam poder assistir ao jogo da bola, com o México. Inspiração latino-americana, unionista, a qual tinha motivado outro esplendoroso fenómeno de sinergias ideológico-partidárias, aquando do baldanço de 119 deputados a uma votação, exactos 2 meses antes. Não deixa de ser curioso verificar como este fervor de solidariedade institucional levanta voo se a motivação vier de 22 rapazes a correr em calções, e despenha-se catastrófico se estiver em causa a localização do mais importante aeroporto de Portugal. Adiante. Lembrar ainda que a tal votação de Abril, trocada por um fim-de-semana prolongado, tinha sido marcada, por deslize, para período já destinado a actividades lúdicas em conflito com a regular execução da ordem de trabalhos; o que levou ao mistério das assinaturas de presença em número superior ao das almas no Hemiciclo. Erro a não repetir, o relativo à data da votação, não à conduta dos do putedo (que nem erro foi, afinal, antes praxis consagrada na Casa — como alguns responsáveis partidários tiveram a bondade de nos explicar frente às câmaras, e sem se rirem). Reinava a normalidade, pois, quando a 14 de Junho li uma bem discreta notícia no Público. Ocupava a mísera coluna da esquerda da página da esquerda, ao baixo, e era a síntese do programa radiofónico Falar Claro, na Renascença, emitido dois dias antes.

Foi uma leitura extraordinária. Por causa desta passagem:

Para o socialista, o mundo do futebol é hoje um lugar estranho e promíscuo: “A sociedade foge a sete pés de querer saber o que se passa [no mundo do futebol]. Quando se dá uma bronca, há uma retracção geral e a intervenção é mínima, o que é uma negação do Estado de direito”, considerou. Exemplo disso é o caso Apito Dourado, afirmou: “Em qualquer país do mundo que não estivesse tolhido, levantava-se o Carmo e a Trindade para saber como foi possível” que os dirigentes da Judiciária que denunciaram o caso fossem afastados, “um para Cabo Verde e outro para o Brasil”, frisou.

Continuar a lerUm Cravinho pela Revolução

BioShock – X06 Trailer

Será um dos jogos mais bizarros até agora lançados, e só por causa do enredo: meninas púberes habitam numa cidade submersa, que parou no tempo em meados do século XX, tendo a protecção de mostrengos em escafandro quando andam à procura de cadáveres para lhes retirar o adam. O jogador será enviado para esse mundo sem saber quem é, nem o que fazer. Consta que o jogo terá uma dificuldade acrescida na resolução dos desafios, e até alguma erudição pop. Tudo ingredientes para um estupendo fracasso comercial, pois — mas, também, manifestação da maturidade do mercado; hoje, joga-se dos 7 aos 77 anos. Nesta apresentação, as imagens são digitais, o formato é vídeo, mas a gramática é toda ela cinema. Escorre cinema, nas entranhas e às golfadas.

Aqui, a versão em HD (e muitos mais vídeos, onde destaco os relativos ao trabalho do elemento água; neste jogo a merecer o estatuto de protagonista, tal a qualidade gráfica alcançada).

Antes do bem e do mal

Quem nunca ouviu Joel Costa não é bom chefe de família, nem patriota. O seu Questões de Moral, na Antena 2, é inqualificável e imprescindível. Eis um maduro que sabe de ciência certa da inutilidade de tentar mudar o mundo, da quimera dessa demanda; e que ainda assim, apesar de tudo e contra tudo, contra todos, especialmente contra todos, ousa pensar.

Num reino perfeito, os programas estariam disponíveis em ficheiros MP3 — exaustivamente disponíveis, listando os mais de 12 anos de serviço à inteligência e à cultura. E as escolas trocariam muitos dos professores-espantalhos pela audição do tonitruante e histrião Joel. E os meninos receberiam, finalmente, algumas lições para a vida. Uma vida amoral, como se quer.

Os críticos esquizofrénicos

Depois da oposição se ter suicidado por causa do marasmo partidário, é agora a vez da crítica mediática fenecer sem glória. O Portugal cantado pelos que vão buscar trocos e vaidade às colunas de opinião não existe para lá do corpo das suas letras. Sem nunca revelarem um qualquer vagido de auto-crítica, este rancho de instalados na megalomania escreve para os amigos, não para a comunidade. Porque é dos amigos que vêm os almoços e as sinecuras, a comunidade que se foda. O caso mais enxovalhante é o de José Manuel Fernandes, director do Público, o qual descobriu a sua vocação anti-Sócrates no dia em que a OPA da SONAE morreu na praia. Mas o resto da pandilha não faz melhor, despejando compulsivamente irrelevâncias e fel.

E então, foi assim: a CGTP planeia uma greve geral, e o único resultado visível é uma manifestação de apoio ao Governo. Para lá dos espectáculos circenses, decadência de uma geração de políticos decadentes, os empresários e os consumidores afirmam-se mais confiantes. O crescimento da economia é reconhecido por todos os institutos nacionais e internacionais. As reformas do Estado prosseguem. A promoção de um Portugal mais tecnológico e qualificado avança. A terraplanagem da endémica cultura de conformismo, irresponsabilidade e corrupção está apenas a começar.

Perante isto — que são factos — os críticos escolhem a miséria argumentativa, tanto derrapando no bacoco psicologismo, como mergulhando histéricos na demagogia escabrosa. Tanto reduzem as opções do Governo a essa entidade abstrusa denominada “teimosia do primeiro-ministro”, como berram que chegou a tirania, o Big Brother e o anticristo. E esta falência constata-se à esquerda e à direita. Ora, quem perde somos nós, pois o exercício do Poder carece da vigilância que só uma comunidade intelectualmente forte é capaz de garantir. Não com os actuais críticos, apre!, grupelho de cínicos moralmente barrigudos.

Precisamos de inteligência, mas daquela que é corajosa. E, neste tempo, a coragem está com quem rema para o mesmo lado.