Todos os artigos de Valupi

Impressões

filosofia-saudade.jpg
QUIDNOVI, 2006

A elite portuguesa não gosta da saudade. Considera-a apenas uma trivialidade folclórica e turística. Dos de intelecto mais capaz, como Eduardo Lourenço, passando pelos cínicos, que dominam a comunicação social, até aos imbecis, os que desprezam a nossa História, há uma crescente unanimidade. A saudade seria cliché do fado, ideologia nacionalista, retórica literária, provincianismo popular. É com um esgar de prazer que dizem não ser a ideia de saudade um exclusivo português, pois se encontrariam variantes lexicais em todas as línguas para a nomear analogamente. A saudade, para esta gente desta lata, é concebida como uma emoção que se esgota na psicologia, a mera consciência de um passado, pessoa e/ou lugar, que se deseja recuperar ou que se lamenta não voltar a fruir. Logo, será uma experiência universal, garantem. O que os leva à pose paternalista, simultaneamente desprezo e afago envolto em sorriso soberbo, congratulando-se a si mesmos por explicarem às crianças que o Pai Natal não existe. Contudo, o que não existe é conhecimento, nesses palonços que exibem ignaros a sua falta de identidade, seu vazio. O que não admira, pois não é de hoje a coincidência entre o poder e a perdição. Há sempre quem se deixe ofuscar pela luz que cega e queima, cumprindo o destino dos invertebrados esvoaçantes. O belo é difícil, avisa Platão.

Quem gosta da saudade é o escol português. E nele encontramos António Braz Teixeira, académico, ensaísta, político e ponte entre Portugal e o Brasil. Tal como muitos outros portugueses, faz o seu valioso e patriótico trabalho longe dos holofotes da fama mediática. Não que tal discrição seja critério, mas é decisivo sinal que apela a procurarmos outros como ele, por agora desconhecidos de quase todos nós. É uma chamada para se partir à descoberta da civilização Portugal.
Continuar a lerImpressões

OFFF vem para Lisboa

offf-lisboa.jpg

Se não trabalhas em webdesign, é altamente provável que não saibas o que é o OFFF. Este festival tem levado os profissionais e artistas portugueses, interessados na comunicação digital, a sonhar com uma edição nacional, ou algo similar, logo desde o seu início, 2001. No ano passado, um destes portugueses foi a Nova Iorque e conseguiu convencer a organização a escolher Lisboa para a edição de 2008. Agora, anda a tentar convencer directores de marketing que o dinheiro gasto com um qualquer filme TV (somando o custo da criação, produção e espaço) seria muito melhor aplicado no patrocínio da edição lisboeta. Porquê? Porque o OFFF vai reunir a nata dos criativos portugueses, aqueles que trabalham todos os dias em condições de exigência máxima, em tudo iguais às dos seus colegas internacionais — e ainda com o mérito acrescido de o fazerem em piores condições salariais e de gestão. É uma gente que já nada tem a ver com a imagem típica do português, esse português que ainda influencia a sociologia e a cultura pela sua idade e falta de educação. A classe dos criativos profissionais portugueses está plenamente globalizada, e qualquer deles não levaria 1 minuto a adaptar-se a qualquer ambiente profissional internacional onde calhasse aterrar. Porque o seu dia-a-dia é feito na permanente relação com o que se cria e produz em todo o Mundo, de Nova Iorque a Tóquio, de Londres a S. Paulo. São eles que dominam a linguagem digital, tanto na forma como no conteúdo. Quem os ignorar ainda não se apercebeu de que o século XX já acabou.

Lisboa é linda, e não há como a admiração estrangeira para o celebrar. E Portugal é um dos países mais simpáticos e eclécticos da Via Láctea, podendo ser um dos centros criativos da Nova Economia. Porque esta faz-se com computadores, electricidade e inteligência. De computadores e electricidade, parece não haver carência. Da inteligência, compete a cada um apresentar provas. E contribuir com a sua, mesmo que a julgue coisa pouca. Porque a inteligência tem isso de maravilha, só é pouca quando é nenhuma.

OFFF em Lisboa vai ser uma festa da inteligência de vanguarda. Traz a tua.

So SICk

alijo.png

Correia de Campos pediu a demissão por causa das declarações do Presidente da República no discurso de Ano Novo. Essa atitude é rara, e é a que se espera de quem entende a política como serviço aos concidadãos. Sócrates recusou a demissão, e é a atitude que se espera de quem entende a política como combate pelo maior bem. As forças da reacção concentraram esforços, à direita e à esquerda, até no PS, e apontaram para a zona mais frágil, e fracturante, da reforma: as Urgências. Isso levou a uma maior exposição do ministro nas televisões, ao longo do mês de Janeiro, onde repetiu ideias, objectivos, factos e evidências. E talvez se tivesse aguentado no cargo não fora a diabólica exibição da conversa entre uma operadora do CODU e os bombeiros do concelho de Alijó. Nada mais havia a fazer ou a dizer, a divulgação dessas interacções tornava impossível a sua continuidade no Governo. Mas porquê?

Continuar a lerSo SICk

O caso José Manuel Fernandes – II

Saber se Sócrates assinou projectos de que não foi autor, e/ou se não os conferiu tecnicamente antes de assinar, é relevante. Identificar caligrafias diferentes é suficiente para descobrir parcerias, no mínimo. Interrogar os proprietários dos imóveis em causa acrescenta dados importantes, mesmo que não decisivos. E o Público faz bem em dar a notícia.

Entretanto, Sócrates defende a sua verdade. O jornal voltará à carga. Os comentadores irão perorar. Menezes é capaz de se sair com alguma tonteira engraçada. Os cães espumarão de raiva. Que está aqui a faltar? O Zé Manel. Falta explicar duas coisas:

– Vai o Público mandar os seus jornalistas fazer o levantamento, e a investigação, dos casos similares que envolvam outras pessoas?
– Qual é a posição do Público, enquanto instituição cuja missão é a de exercer um jornalismo independente do poder político, face às irregularidades do poder autárquico? E quanto à temática da corrupção? Quais são as investigações que o Público levou a cabo sobre qualquer um dos grandes casos de corrupção ocorridos desde 74?

Porque é simples. Sócrates faz parte de um sistema, cultural e geracional, que convive simbioticamente com a corrupção desde as juventudes partidárias. Para além disso, conhece os modos pelos quais se fintam regularmente as leis no Poder Local, zona de ambiguidade que tanto pode ser ocasião de aproveitamento ilícito como de proveito público, ou ambos. E domina a lógica da confluência de interesses entre os grandes empresários e os políticos com capacidade para moldar legislações, regulamentos e directivas, entregar empreitadas e serviços, viabilizar negócios. Isto não faz dele um corrupto, atenção, mas deixa-o diminuído eticamente até ao fim da sua vida ou até ao fim do seu silêncio. Silêncio que é, afinal, o de todos. Acaso alguém ignora que é impossível a Mário Soares ou a Cavaco, só para dar os mais notáveis exemplos, alegar desconhecimento em matérias da grande, da média e da pequena corrupção? Contudo, nenhum deles a denunciou. Mais, nenhum deles a perseguiu ou diminuiu; e juntos somam um quarto de século com o poder máximo nas bem lavadas mãos. Não é por acaso que os processos de corrupção são ínfimos face ao clamor popular e aos indícios na comunicação social — é porque, neste 34 anos de democracia, as elites políticas nunca quiseram combater a corrupção. Todas as pessoas que exerceram cargos públicos são coniventes, seja de que forma for. Só se salva o João Cravinho, figura mal-amada pelo povo, talvez por ser o único português sério e a sério no problema. Povo que é, por sua vez, o caótico responsável final pela democracia gangrenada que temos.

O que é complicado, mesmo confuso, é o Zé Manel. Está danado para provar que Sócrates não poderá ser canonizado, não perdendo uma oportunidade para lançar suspeitas sobre situações simultaneamente ambíguas e ridículas. Porque é ridículo querer matar a mosca pousada na testa do guarda com um tiro nos cornos. A não ser que haja vantagens em acabar com o guarda. Seguramente, o pior que poderia acontecer a Portugal, e neste momento, era Sócrates pedir a demissão por causa de uma questão moral e hipócrita. Talvez até o Zé Manel consiga perceber isso.

Abertura Judicial

juiz.jpg

Ontem reuniram-se, na mesma sala, cinco dos seis principais responsáveis pela Justiça em Portugal. Foi celebrada a abertura do Ano Judicial com discursos. Que passou para o cidadão dessas elocuções? Que fica dessas ideias? Nada, arrisco impaciente. E, no entanto, não há dimensão política mais importante do que a da Justiça. É mais importante do que a Saúde, a Economia ou a Segurança, porque condição e garante de todas elas. Um Estado que tenha falhas na Justiça não cria riqueza nem educa. E se não educa, nunca criará riqueza. A impunidade do poderoso promove a corrupção do medíocre, desvia os recursos monetários e desvitaliza os recursos intelectuais. A Justiça é um permanente fluxo de racionalidade, ligada a montante à ética e a jusante à moral — se o caudal baixa, a terra seca, o deserto avança. E os seus agentes e tutela, que acabam por ser todos os órgãos de soberania, partidos e eleitores, sabem-no e sofrem-no. Porquê este adiamento do investimento num sistema que se arrasta pejado de disfuncionalidades? Para quê? O para quê até que não é difícil desvelar: aos agentes económicos e financeiros mais poderosos não interessa uma Justiça eficaz, nem lá perto. E estes compram os políticos. Resta o porquê, o qual fica a olhar para os eleitores e para os cidadãos. É curioso ainda não ter surgido um movimento político que se proponha colocar a Justiça no centro do projecto, talvez por se continuar vítima do dualismo esquerda-direita. À esquerda, ou à direita, nunca se procurará a justiça na Justiça, pois cada uma dessa posições é parcial. Só num paradigma vertical, numa nova monarquia cujo rei seja a coragem e a rainha a inteligência, se poderá começar a pensar a questão da Justiça a partir da cidadania.

Entretanto, o ano judicial conheceu uma verdadeira abertura 24 horas antes do protocolo. Na segunda-feira, o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa pronunciou o despacho onde arquivava a queixa-crime da RTP contra Eduardo Cintra Torres. O juiz contextualiza a referência à censura de uma forma que vem contribuir para a sanidade do debate público, independentemente de se considerar certa ou errada, do ponto de vista argumentativo ou ético, a atitude do Cintra Torres.

Eis o que deve ser a Justiça: abertura à liberdade. E eis o que deve ser a liberdade: confiança na Justiça.

O caso José Manuel Fernandes

jose_manuel_fernandes.jpg

Quem lê o Público, e leu neste domingo, poderá ter feito o mesmo exercício que eu fiz: ligar o texto de António Barreto ao de Joaquim Vieira. Barreto despeja mais um alguidar de banalidades inconsequentes, mas desta vez ataca os jornalistas na figura das redacções. Ora, isto é o mesmo que atacar os directores dos jornais. E fica espaço suficiente entre os latidos para se imaginar que nem o jornal onde escreve escapa à sua raiva veterotestamentária. Logo a seguir, o Provedor do Leitor faz aquela que tem de ser a mais grave crítica que se pode fazer a um jornal: diz que as fontes não são credíveis, porque não identificadas em vários e fulcrais episódios; sendo os próprios princípios deontológicos do Público a suscitar todas as perversões, ao arrepio do que é a prática internacional de referência. Os exemplos apontados, por sua vez, ligam-se com a temática do vitupério barretino: a manipulação das redacções pelas agências e agentes de comunicação. Quer-se dizer, estes dois senhores, referências éticas assumidas e reconhecidas, podem ter estado — cônscia ou inconscientemente — a pôr a corda à volta do Zé Manel.

Continuar a lerO caso José Manuel Fernandes

Coisas que não se ouvem na Linha de Cascais por volta das 9.30 da manhã — I

cais_do_sodre.jpg

– 40 anos…
– Hã?…
– 1968. Foi há 40 anos…
– Ah…
– Revolta nas universidades, Primavera de Praga, Maio de 68…
– Olha, já estamos na Parede.
– Que tempo, que esperança!
– Pois, pois…
– Sabias que o Tariq Ali diz que 68 só acabou em 74, com a Revolução dos Cravos?
– Esse Tariq… pfff…
– E depois a volta que aquilo deu, os russos, o De Gaulle, Nixon…
– É. É fodido.
– Podíamos ter mudado o mundo… Podíamos, pá…
– Podes é passar-me A Bola.

O PSD e a insónia

insonia.jpg

Num jantar de Natal do PSD, a 21 de Dezembro, Menezes profetizou o martírio e a insónia de Sócrates, logo a partir do começo do ano. A imolação teria lugar no Parlamento, a vítima cairia pela ferocidade dos deputados sociais-democratas. Antecipando as festividades, dois dias depois Menezes exigia que Cadilhe fosse para a CGD em nome de uma concepção corrupta de democracia, a qual garantiu ter a chancela de Cavaco. 2007 ainda lhe ofereceu uma última ocasião para exibir o perfil de grande estadista, desta vez pretendendo condicionar as eleições no BCP. Estava o baile armado, e ainda nem se tinha aberto champanhe com sabor a 2008.

Continuar a lerO PSD e a insónia

Que pena ter deixado de fumar

cigarros.jpg

Sou um fumador que não fuma desde Abril de 2006. Aproveitei um estado gripal e gripei o consumo. O vício ficou, e para sempre. Por isso ainda levo um isqueiro no bolso, ao sair de casa, para nunca me esquecer que continuo fumador. E por isso deixei os maços abertos onde eles estavam, onde eles estão, para me recordar da facilidade com que se atraiçoa a vontade. Mas só voltei a pegar num cigarro há uns meses, quando sonhei que estava a fumar. No próprio sonho, experimentei a delícia de fumar e o arrependimento por ter estragado mais de um ano de abstinência e castidade pulmonar, seguido do alívio por me saber a sonhar. Tudo isto a dormir. Ou tudo isto para me acordar.

Os que se opõem às restrições da lei do tabaco são, sem excepção, mentirosos. Podemos até usar esta questão (como outras, esta no caso) à laia de estetoscópio para diagnosticar o carácter de alguém. Tendo em conta que não há uma única razão que torne bondosa a exposição involuntária ao fumo do tabaco, aqueles que não se importam de contaminar o empregado que lhes serve a bica, por exemplo, são uns trastes em quem não se deve confiar. Porque eles não querem saber das consequências, não se relacionam com o empregado enquanto pessoa, apenas como meio para o café lhes chegar aos beiços. Vai daí, quando se puxa do cigarro ao balcão, ou no interior do estabelecimento, cada fumador é um convicto representante do solipsismo. Para logo a seguir, se o seu carro tiver a saída barrada por um estacionamento à má-fila, se anunciar fogoso procurador do Estado de direito. E ao chegar ao emprego, calhando não poder fumar no espaço onde trabalha, o fumador assume-se anarco-sindicalista, maldizendo a democracia vendida ao fundamentalismo higienista e antecipando a extinção de todas as liberdades para daí a duas semanas. Sim, estamos a lidar com filhos da puta. E eu fui um deles.

Continuar a lerQue pena ter deixado de fumar

O que aprendi hoje com a SIC Notícias

Que Mário Crespo é o mais bacano de todos os jornalistas da televisão portuguesa. A coisa assume tal proporção que ele devia ser obrigado a aparecer também na TVI e na RTP. Eu quero que o Mário Crespo seja considerado o jornalista oficial de Portugal, representando a Nação sempre que estiver em causa noticiar algum assunto sério. Para as brincadeiras e servicinhos, o resto da maralha dá conta do recado. E também quero que ele forje uma nova geração de jornalistas, e que pelo menos um dessa fornada acredite que, apesar das evidências, vale a pena ter coragem. E quero que ele tenha uma estátua em Gondomar. Alguém está a tomar nota disto?…

Que o Correia de Campos é o meu ministro favorito. Mas isso já eu sabia.

Que o António Nunes foi ao Parlamento dizer que é português o bastante para atravessar uma rua fora da passadeira, mesmo com um fotógrafo do Correio da Manhã por perto. E que esta confissão marialva foi suficiente para apaziguar o CDS e PSD.

Que um frente-a-frente entre o Ângelo Correia e a Odete Santos é quase tão hilariante como o programa Serralves Fora d’Horas, na SIC Mulher, onde o patego do Machado Vaz e a boneca Ana Mesquita dão caloroso espectáculo. Só falta comerem-se um ao outro à nossa frente, e não vou ser eu a censurar o apetite do xaroposo professor. Já a Odete Santos estica os limites do burlesco; e o Ângelo entra na festa, soltando a franga e o galaró.

Que a mente brilhante responsável por ter juntado o Luís Delgado e o Rui Tavares, comentando a problemática da Saúde, prestou um serviço inestimável ao espectador. O Delgado personifica, hodiernamente, o conceito de mistério. Isto é, não há forma de justificar a razão pela qual alguém o convida para falar em público. A sua função é a de provar, na actual crise de epifanias com chancela da Igreja, que debaixo do Céu ainda há factos e pessoas que alcançam suspender a lógica e as Leis da Natureza. E isso não se explica: ou se adora (o meu caso), ou se foge apavorado (também o meu caso). Daí, a parelha com o Tavares foi um tremendo achado. Porque o Tavares conseguiu aquilo que talvez ainda não tenha nome, mas que consiste num desafio à própria noção de omnipotência. É conhecida a célebre armadilha para noviços, paradoxo sofístico, onde se pergunta se o Deus Todo-Poderoso conseguiria criar um abismo tão grande que nem Ele o fosse capaz de ultrapassar. Pois bem, comparado com o feito de se conseguir ter menos interesse do que o Delgado, qualquer abismo infinito se salta ao pé-coxinho. Os factos são os seguintes: o Rui Tavares abriu a boca e algo no espectador se perdeu para sempre, a sua noção de absoluto. Porque, até então, era absoluto o critério que o Delgado representava. Ele era o fim da linha, o vácuo, o zero — corrijo, o zerinho; que é ainda um zero, mas muito mais pequeno. Pois Tavares consegue criar um novo Delgado a partir do nada, o seu. Fica-se com a insustentável e dilacerante suspeita de que, se calhar, vai na volta, olha queres ver, o Delgado até terá dito alguma coisa. Porque ele era o inultrapassável boçal, agora relativizado na comparação. E Tavares obtém este triunfo com o simples poder do seu verbo. Deus que se cuide.

Que o Barreto conserva melhor a sanidade mental no registo oral do que no escrito. Que o Júdice é um ser feliz. E que o António José Teixeira também se deve estar a sentir bem.

Que o Presidente da República gozou com a ASAE. E que, acto contínuo, largou um oxímoro, também sobre o mesmo popular tópico. É Cavaco a dizer aos portugueses que isto do País não é para levar muito a sério. Se nunca foi, porque raio haveria de ser logo agora, com ele na Presidência, e quando há tantas outras coisas para fazer? Era um grande ASAE… perdão, azar…

Pináculo da sabedoria

hillary.jpg

Só os deuses saberão, porque eu não li tudo, mas há a forte probabilidade de o Público ter publicado no dia 15 de Janeiro, do corrente, o mais valioso texto dos últimos 12 meses. Na rubrica Escrito na Pedra (e nem de propósito), esta citação de Edmund Hillary:

As pessoas não decidem ser extraordinárias. Decidem fazer coisas extraordinárias.

Amenezes

Vasco Pulido Valente é a mais recente vítima da síndroma da amenezes ou amenézia, doença que varre o País desde o Outono de 2007, e que ameaça aspirar o PSD antes de 2008 chegar à Primavera. A doença recolhe o nome do seu inventor, Luís Filipe Menezes, o homem que já nos tinha brindado com outro faraónico projecto que ainda há-de meter muita água. A sintomatologia é difusa, mas apresenta um denominador comum: em todos os casos, está em causa superar o Almirante Américo Thomaz como referência mor do anedotário politico. Não espanta que o próprio Menezes esteja na frente, tendo até conquistado extraordinário avanço com a peregrina sugestão de uma nova grelha de comentadores — naquelas que são, já reconhecidas pela comunidade académica, e por alguns laboratórios estrangeiros habituados a fazer experiências com rãs, as mais patuscas declarações de um político desde que Valentim Loureiro, aos berros e arriscando enfarte, pediu num comício do PSD para se aclamar Guterres.

Pois o Vasco está contaminado. Na sua crónica de domingo, no Público, informa os leitores que a Quadratura do Círculo é um programa da RTP. O que estará na origem da idiossincrática consideração ainda não é do domínio público, mas há quem avance a hipótese de Pulido Valente nunca ter posto os olhinhos na coisa. Outros avançam a sugestão de a crónica ter sido escrita à pressa, sempre má conselheira e a deixar mazelas em vários sintagmas mal amanhados. A minha tese é outra, a da amenezes, onde a simples audição do Menezes pode causar distúrbio, confusão, fadiga, incapacidade de distinguir entre a RTP e a SIC e urticária (não necessariamente por esta ordem). O grau de virulência deve ser muito elevado, pois ninguém no jornal teve discernimento profissional para avisar o colunista. Pode também acontecer que no jornal do senhor Fernandes não se leia o que Pulido Valente envia, limitando-se o pessoal a paginar o texto como se fosse uma mancha, uma borra. Mas o que mais me inquieta é ter a prova de que VPV também não põe os olhinhos no Aspirina; e, isso, é muito grave como prognóstico de evolução da maleita.

Sexo, mentiras e chocolate (preto)

chocolate-sexo.jpg

Em Novembro de 2007, foi lançado um livro da autoria conjunta de um psicólogo cognitivo, Terry Horne, e de um bioquímico, Simon Wottoon: Teach Yourself: Training Your Brain. É mais um produto da úbere indústria da auto-ajuda, e, especificamente, de uma crescente moda editorial que vende a promessa do desenvolvimento da inteligência a partir de qualquer idade. E, se por mais nada, ficamos logo a saber que os autores são inteligentes porque estão a vender um livro que agrada por igual a homens e mulheres. Às mulheres, manda comer chocolate, preto de preferência, e fica resolvida a questão. Aos homens, receita fiambre e presunto ao pequeno-almoço, sexo com fartura e mentiras à fartazana*. Contudo, os autores arriscam provocar alguns dissabores no leitor lusitano, pois alertam contra as telenovelas, os copos, os charros e aquela malta que está sempre a queixar-se e a dizer mal de tudo e de todos, nefastos factores ambientais que diminuem a inteligência. Ou seja, os autores quiseram deliberadamente ofender 98% da população adulta portuguesa. E nisso estiveram mal, os cabrões. Voltam a estar bem ao recomendarem sessões de mimos a bebés, leitura em voz alta e um MBA. Excelentes conselhos, qual deles o melhor, e que juntos chegam para fundar uma civilização.

Do caleidoscópio de questões que surgem por associação perante estas contra-intuitivas e inusitadas recomendações para-científicas, agarro na temática religiosa. Porque muitas das recentes descobertas e hipóteses da neurologia, psicologia e dietética já faziam parte do legado milenar da experiência monástica. Os seres humanos que envelhecem com exercício físico regular, dieta frugal, vida social intensa e actividades intelectuais complexas, como acontece com os monges, vivem mais tempo e com mais saúde. E, hoje, tropeçamos nesses mesmos preceitos erigidos em última novidade da ciência e da medicina. Dir-se-ia que a religião judaico-cristã, fonte da moralidade ocidental, poderia capitalizar com este retorno às origens, aproveitando para dar a conhecer os tesouros antropológicos que guarda, mas não. Porque a religião não sabe o que fazer ao sexo, e tem andado a metê-lo nos buracos errados. Se não conseguir unir a sexualidade à espiritualidade, a religião vale menos do que uma boa tablete de chocolate preto. É científico.

__

* Estou a deturpar a coisa, mas os amigos podem ler os resumos aqui, ali e acolá. E onde bem vos apetecer, que os há em abundância.

Menezes e a Doxa

Gostava de ser amigo do Menezes. Daqueles amigos que se cruzam, mas não se procuram. Deve ser um fartote estar na rambóia com ele. A sua voz maviosa, o sorriso caloroso, o olhar de menino. Imagino-o simpático, talvez demasiado simpático. E também melancólico. E depois, o desfrute da sua matreirice ingénua, de provinciano a querer impressionar. Após um almoço bem regado, de cigarrilha na mão, os uísques a serem generosamente servidos, vejo-o a olhar para todos os lados da mesa, convocando os presentes. Mal se contendo para largar mais uma das suas chalaças, desta vez sobre os comentadores. Eles deviam era meter o maluco do Alegre na RTP, que esse é com cada bojarda que o Sócrates até se borra todo!… — risos alarves, barulheira na mesa. E depois ir buscar aquele puto, o… o… o Seguro!, e enfiá-lo na Quadratura só para foder o Pacheco! — apoiados, bocas contra o Pacheco, algazarra. Se o Marques Mendes… esse cagataco… os tivesse no sítio era o que estava a exigir às televisões. Mas ele não chega lá… não chega lá… Não chega láaaaaa… Hahahaha!… — gargalhadas monumentais, abraços, palmadas nas costas, brindes, o uísque de volta, generoso.

Continuar a lerMenezes e a Doxa

A crise do BCP contada às crianças

Era uma vez um Jardim à beira-mar abancado, nascido na ilha do outro Jardim. Embora terreno fértil, tanto que presidia ao Banco da Agricultura, dava-se mal com os Cravos. Fugiu para Madrid até lhe passar a alergia. Volta uns aninhos depois, convidado por peixes muito graúdos, validando a máxima de ser preciso que algo mude para que tudo fique na mesma. E a mesma chamava-se agora Banco Português do Atlântico. Foi então que alguns empresários quiseram ter um banco norteado pelos interesses do Norte. Nascia o BCP. E nascia o mito: Deus amava a todos, mas amava mais o Opus Dei. A prová-lo os sucessivos milagres da multiplicação do capital. Muito cresceu este divino enlace, até ao ponto de toda a Nação endeusar o engenheiro misógino, exemplo perfeito de que a humildade cristã não é incompatível com o uso de helicópteros para chegar a horas ao emprego. Depois aconteceu uma cena do caralho, chamada 2005. Nascia um Pinto no Jardim, e a ave-rara acreditou servirem as asas para voar. Só que Ulrichou-se passado muito pouco tempo, e o Jardim transformou-se numa selva. Durante meses ninguém sabia no que apostar, se no parricídio, se no gnaticídio, se no raticídio. Pareceu que uma planta carnívora tinha abocanhado o Pinto, mas o galináceo vingou-se recorrendo ao artista madeirense Joe, um palhaço rico. Este veio para a rua à procura do Procurador, agitando segredos relativos ao carinho de um pai pelo seu dilecto filho e outros números do musical My Love is Offshore. Foi só nessa altura que os accionistas deram razão a Nietzsche: Deus tinha morrido e ainda podia ir parar ao Torel. Grandes bancos, grandes remédios. E o maior remédio vinha dos Santos. Ao fim de umas semanas, Deus ressuscitava a 97,76 %.

Pelo meio, um tonto que dirige um jornal Público afirmou que o PS estava a lançar uma OPA sobre o BCP, e conseguiu não ser despedido. Outro ainda mais tonto, que simula dirigir o PSD, veio dizer que isto do BCP era uma Caixa para duas pegas, pelo que se havia mão esquerda num lado teria de haver mão direita no outro. Naturalmente, ninguém lhe prestou atenção, pois estavam todos a trabalhar e não podiam tomar conta do miúdo. Quando o Governo resolveu o que se Faria, o garoto não descansou e caprichou continuar com a brincadeira. Desta vez, apetecia-lhe que o Estado se abstivesse na escolha para o BCP. Isto porque, afinal, o que era fixe era ter duas mãos direitas, os canhotos podiam esperar. Entretanto, desconfia-se que há um tonto a governar o Banco de Portugal. Pelo menos, há motivo para tonturas.