Todos os artigos de Valupi

Pagar o galo a Asclépio

O tema do Holocausto Nazi é aquele que, desde o início da WWW, mais flame wars provoca. Ao ponto de ser seguro abandonar qualquer discussão onde ele apareça, pois o que virá a seguir é o cardápio da irracionalidade. O tema do terrorismo sob bandeira islâmica vai por igual caminho. Unindo os dois temas, uma mesma fulguração: a lógica da ausência de sentido. Para designar essa experiência paradoxal, em que assistimos à organização metódica do caos, temos um palavrão com muito pouco gasto: derrelicção. Mas a derrelicção é tramada, não dá para um gajo se sentar e fumar um cigarro, fazer uma mijinha. Por isso, o costume é a malta voltar para trás e ir abancar noutro lado qualquer ou nem sequer lá entrar.

Quando alguém (seguramente de boa-fé, bem intencionado, “boa pessoa”; isso nem se discute, dando-se já como provado) se permite falar do Holocausto Nazi com a facilidade com que fala de pilinhas e bananas, apresentando uma contabilidade macabra como critério de valor e substância de argumentos, eu reconheço-me incapaz de retorquir. Porque fico triste, e depois dá-me para o silêncio. É que o nazismo continua a desafiar-me, e cada uma das suas vítimas a tentar falar comigo. Imagino-me lá, nessa época, em qualquer um dos lados da barricada, mas especialmente represento-me como cidadão alemão. Que teria feito? Teria sido cúmplice activo? Cúmplice passivo? Cobarde? Mártir? Herói? E acabo sempre com a suspeita de que teria sido mais um esmagado pela máquina nazi, provavelmente um cobarde. A mesma agonia trágica para o nosso período salazarista: teria tido a coragem daqueles que lutaram pela liberdade em Portugal ou teria sido um filho-da-puta qualquer?…

Continuar a lerPagar o galo a Asclépio

Cineterapia

moviecamera.jpg
O Homem da Câmara de Filmar_ Dziga Vertov

Este filme mostra, entre muitas outras coisas, miúdas a jogar basquetebol, câmaras de filmar montadas em motociclos, senhoras obesas em ginásios, um chinês a fazer truques de magia para um grupo de crianças loirinhas, alguns sem-abrigo a dormir na rua, uma bicicleta para exercícios em casa, telefones de modelos variados, espectadores numa sala de cinema assistindo a efeitos especiais no ecrã, filmagens do quotidiano urbano a partir de um automóvel descapotável, um parto, montras cobertas de publicidade e topless em praias. Terá sido filmado algures na América, no ano passado? Quase. Foi filmado na Rússia comunista, em 1928.

Continuar a lerCineterapia

Constipation

Há uma idade para ter excelentes ideias. Todos passamos por ela. E depois há uma idade para ter boas ideias. Raros lá chegam. No resto do tempo, lidamos com as ideias dos outros.

Esta é uma das minhas excelentes ideias: reunir um grupo heterogéneo de pessoas dedicadas a ter ideias. Quais, pessoas e ideias? Pessoas com ideias, ideias para pessoas. Como se vê, é uma excelente ideia que muita gente com ideias tem.

Mas nunca num blogue. Reunir pessoas com ideias num blogue resulta sempre no afastamento das pessoas por causa das ideias, como se vê consecutiva e até sistematicamente. As pessoas teriam de ser reunidas numa sala e de lá só poderem sair com as tais ideias que viessem a dar ideias às pessoas que precisam e gostam de ideias. Esta última ideia, porém, é capaz de ser uma má ideia.

Pelo que está a faltar uma boa ideia.

extra_o meu mandato

Votei Alegre, como poderia ter votado Louçã ou Jerónimo – mas nunca Cavaco ou Soares. Votei Alegre, apenas para bater Soares – mas talvez Alegre viesse a derrotar Cavaco numa 2ª volta, como os números permitem supor. Votei Alegre, só para não votar em branco – mas votaria em Freitas do Amaral, Adriano Moreira, Helena Roseta, Pacheco Pereira, António Barreto, Vasco Pulido Valente, João Benard da Costa, Agustina Bessa Luís e Manuel João Vieira.

A pecha da república consiste em não se ter ainda assimilado que está em causa ter sucessivas, limitadas e sufragadas monarquias. A vantagem da monarquia está em transubstanciar a política em identidade. Os que insistem com a dicotomia Esquerda/Direita esquecem que o poder é sempre um eixo vertical.

Então, o Cavaco é agora o meu Presidente. Não o escolhi, fui escolhido pelos meus conterrâneos para o ter na presidência do meu país. Os meus conterrâneos, concidadãos maiores de idade e na posse das faculdades mentais mínimas para exercerem o direito de voto, votaram em mim para um mandato de 5 anos como súbdito do Presidente Cavaco. Aceito a vontade popular e espero cumprir o meu mandato com dignidade.

Mais uma vedeta internacional

Depois do mercado espanhol, fomos até à Holanda buscar nova estrela. Fernando Venâncio passa a exibir os seus exímios dotes literários no Aspirina B, para nosso deleite e aprendizagem. Já lho disse pessoalmente, mas anuncio-o ao mundo: lê-lo faz-me bem.

Fernando, estás em casa.

Cineterapia

JamesstewartSmith2.jpg

Mr. Smith Goes to Washington_Frank Capra

A vida é curta e cansa. Atingir a maturidade é ser atingido pelo cinismo. E o cinismo tem benefícios evidentes, não sendo o menor deles a narcótica desresponsabilização. Depois, acontece aos cínicos o mesmo que aos psittaciformes: repetem-se. O mundo do cínico é mais redondo, mais liso e mais iluminado. Lógico e asséptico, encara a esperança como erro de cálculo e o mistério como patologia. Quando a imaginação finalmente atrofia para lá do remissível, o cínico está em condições óptimas para se tornar num corrupto. É então que olha com interesse para os negócios e para a política.

Continuar a lerCineterapia

extra_plágios&contágios

A propósito das presas que não escapam à visão aquilina do Luis Rainha, este texto de Malcolm Gladwell apresenta-nos uma outra perspectiva do assunto. Não se trata de munição para a vexata quaestio da natureza do acto da Joana Amaral Dias, antes alimento para a disputatio sobre o estatuto do autor. E colhe recordar Agostinho da Silva, que recusava receber dividendos dos seus direitos autorais por não se considerar autor de coisa nenhuma. Ele dizia que as ideias pairavam algures acima das cabeças e que algumas lhe chegavam como chegam os sinais de rádio às antenas. De onde elas vinham, ele não sabia; e muito menos reclamava a sua posse. Claro, nada disto tem já a ver com o episódio que levou a Joana a tomar (pelo menos) uma Aspirina.

Para quem não conheça, a escrita de Gladwell é melíflua e servida em bandeja de prata.

Emmimmesmado

Tinhas 15 anos e a mãe na sala. Escrevi que ia gostar de ti para sempre. Azulejos esverdeados. Era mentira, não se pode gostar de alguém cuja mãe esteja na sala. Mas gostei de ti, para sempre, todo. Fui eu que ofereci o gato. Mesmo quando descobri que não gostavas de ninguém. Gostei das tuas bebedeiras, da tua promiscuidade, tuas traições, tua nulidade, misérias, desgraça. Natal? Gostei de nunca teres gostado de ti. Eras um pássaro cego e a mãe na sala.