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O adepto não é bento

Após o jogo com o Basileia, onde ao intervalo o Sporting foi assobiado pelos adeptos, Paulo Bento disse o seguinte:

Não me parece normal. Uma equipa com um troféu conquistado, que está em primeiro lugar no campeonato e que à segunda jornada da Liga dos Campeões não está a jogar mal… não me parece normal aquilo que aconteceu. Valeu-nos, hoje, o carácter e a personalidade dos jogadores para dar a volta a esta situação. Ao contrário de outras situações, em que foi o público que nos levou, hoje penso que foi ao contrário: foram os jogadores que levaram o público.

Paulo Bento tem qualidades de chefia que lhe garantem uma carreira tranquila, e já provou ser um bom táctico. Falta-lhe, agora, levantar os olhos do umbigo. Primeiro, o seu salário é pago pelos adeptos. Segundo, o seu emprego é mantido pelos adeptos. Terceiro, a equipa foi comprada pelos adeptos. Quarto, o estádio existe para os adeptos. Estes pressupostos são indiscutíveis, levando a três corolários:

– Paulo Bento está tonto.
– Paulo Bento está parvo.
– Paulo Bento está tonto e parvo.

Já chega de falar do carácter e da personalidade dos jogadores porque os adeptos não pagam aos jogadores para terem personalidade e carácter. A personalidade falha golos feitos e o carácter é frangueiro. O que verdadeiramente não é normal, e faz do Paulo Bento um anormal, é vir dizer que o público leva (??) os jogadores. Nunca assim foi e nunca assim será, senão ganhavam invariavelmente os da casa. É o emblema e a equipa que puxam pelo público, aqui como na China, hoje como há 100 anos ou daqui a 1000. E é a equipa que leva o público para o estádio, para a rádio, para a televisão, para os jornais, para as lojas e para a rua. Estas declarações de Paulo Bento revelam que ele está a confundir o futebol profissional com os Jogos Sem Fronteiras ou com algum torneio de malha no concelho de Abrantes. Isso faz prever o pior para a sua relação com o Vukcevic, apenas o melhor jogador em Portugal, pois indiciam completa falta de lucidez. Ó Paulo, olha para aqui: o adepto não quer psicologia, quer raça.

Quando um adepto assobia a sua equipa, está a emitir um sinal que o cérebro do jogador assimila como estimulante do instinto de sobrevivência. Isso leva a que o jogador fique concentrado e desenvolva um sentimento de culpa pró-activo que melhora o seu posicionamento defensivo e aumenta a sua capacidade aeróbica em 33% (acabo de inventar; pelo que, mesmo que não esteja certo, tem a vantagem de ser uma informação recente). Vir fazer queixinhas dos assobios devia ser algo proibido pelos estatutos do Sporting. Os únicos assobios ridículos para um adepto que se preze são aqueles contra as equipas contrárias – porque conferem importância ao adversário, denunciam receio. Devia ser questão de honra leonina aplaudir a equipa visitante à chegada e à partida, independentemente do resultado e das voltas da sorte.

Se não queres ouvir assobios, Paulo, trata então de reinventar os treinos. Nem reunindo todo o poder dos deuses se conseguiria que algum adepto assobiasse a sua equipa quando ela está a jogar bem. E para jogar bem, Bento, basta correr na direcção da baliza adversária com a bola nos pés. É tudo tão simples no futebol, ai.

Bela-Bosta

O que escreve Baptista-Bastos no DN não me esclarece quanto à legitimidade, ou lisura, da sua situação de arrendatário municipal, mas confirma que o homem é um buraco negro narcísico, onde a realidade se afunda infinitamente na sua fome de protagonismo.

Olha lá, ó Armando, para chover no interior de uma casa basta ter a janela aberta, e sobre os perigos vários é ter mais atenção às quinas dos móveis e aos patins no corredor. Se achas que esta conversa a teu respeito é uma conversa que te falta ao respeito, tenho de perguntar: em que gaveta meteste o 25 de Abril?

A culpa é da testosterona

É a mais convincente explicação para a crise financeira americana: testosterona. Óbvio. Os homens erram sempre que pensam só com os túbaros, é fatal. Desta vez conseguiram dar cabo da economia mundial, naquela que ficará como a real fuck of the century. Mas onde está o problema, está a solução. No artigo aventa-se a possibilidade de as mulheres fazerem investimentos mais cuidadosos, ou de menor risco. Uma Wall Street maioritariamente feminina não teria chegado a este buraco, é a tese. Ora cá está outra vantagem do estrogénio, surpresa. O mesmo se diz, já agora, de qualquer papel de liderança: onde há mulheres a mandar, há melhor ambiente de trabalho e, consequentemente, mais produtividade.

Tudo isto é probabilístico, entenda-se. E requer níveis de educação, espírito competitivo e mobilidade social à americana. A Manuela Ferreira Leite não me deixaria mentir.

A casa da democracia

Quanto ao que se tem passado com as casas da Câmara de Lisboa, e que Ana Sara Brito exemplarmente subsume, o que mais incomoda são as reacções dos que se dizem chocados ou surpreendidos. Não consigo imaginar que tipo de vida será a sua, como conseguiram tirar a carta de condução ou meramente levar um garfo à boca. Se nos pretendem convencer da sua ignorância e probidade em matéria de corrupção política, para mais autárquica, deveriam ser imediatamente riscados do mapa da honestidade.

O caso das casas é perfeito, pois nem o PCP escapa. A Câmara de Lisboa, por maioria de razão, é o microcosmo da política nacional. E o que se vê são comportamentos universais: quem tem poder, usa-o para seu benefício, para benefício dos familiares e amigos e para a manutenção desse mesmo poder. Dada a complexidade legal e regulamentar da prática governativa, administrativa e gestora, há sempre – mas sempre, sempre, sempre – espaço para cirandar por entre as gotas da chuva. Foi o que Ana Sara Brito resolveu fazer, clamando inocência pelo lado da legalidade alcançada. E ignorando com cegueira desoladora a dimensão ética (pelo menos) da sua situação. Ora, não há qualquer diferença entre a sua praxis e a dos partidos que têm sido coniventes uns com os outros no assalto ao tesouro público. É nisto que temos a sorte de poder sentar o PCP no banco de réus, para que não fique um só tijolo de pé neste edifício da traição a Portugal. O PCP, mesmo que nenhum dos seus representantes na Câmara tenha sido agente de injustiça, tinha a obrigação de denunciar o caso. Não só nunca o fez, como não o faz em tantas outras situações. E quando o PCP não o faz, não se deve esperar que o PS, PSD e CDS o venham a fazer; escuso de explicar para não ofender a tua inteligência. E aqui é meu o espanto: com tanta oportunidade para revelar os esquemas e meandros da corrupção em Portugal, porque não nasce um partido com essa missão ou estratégia? É espanto de muito curta duração, sim.

Desde os anos 90 que não voto em nenhum partido que tenha tido presença parlamentar. Não quero ser cúmplice de ogres e imbecis. Semana sim, semana não, Vasco Pulido Valente (honra lhe seja) diz-nos o mesmo: são todos iguais, e todos irrecuperáveis. Que fazer? Fazer política, ora. A casa da democracia, que é a da justiça e da liberdade, constrói-se com esse romantismo grego que começa em Homero – onde o herói pode até ficar assustado, mas jamais virará as costas ao inimigo. E quando entra no combate, que se faz com espada ou palavra, vai alegre à conquista da honra.

O inimigo de que falo sou eu. E tu.

O homem da meia-maratona


Imagem relativa à edição de 2007

Sócrates voltou a suar a camisola ao lado do povo na Meia-Maratona de Lisboa. Das muitas razões para se invejar o nosso primeiro-ministro, tenho cá uma fezada que a sua saúde e vigor físico, exibidos nas corridas, é das que mais secretamente deixa os pançudos desvairados. E depois eles atiram-se às canelas da RTP, esse antro emissor de hipnose colectiva, e ao aventureiro Magalhães, o qual, calhando ter sido iniciativa do PSD, mereceria dos mesmos pançudos as mais encomiásticas declarações. É esta a miséria de oposição que temos, sem dúvida para mal dos nossos incontáveis pecados.

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Cineterapia


Tian Bian Yi Duo Yun_Tsai Ming-Liang

Se não sabes porque escorre a lágrima, olha para estas imagens. Fica por lá um bocado, analisa as pistas e desenvolve uma primeira explicação, depois volta – enquanto eu fico aqui abrindo a melancia. Para tal, começo pelo pêssego. Há muito que o pêssego é o meu fruto preferido. É o mais sensual e saboroso, desde a pele de veludo ao perfume simultaneamente suave e complexo, passando pela fibra tenra, polposa, suculenta. A sua degustação provoca embriaguez sinestésica, ouvindo-se imagens, apalpando-se sons, contemplando-se odores – ou assim li algures. Esta descrição desafia a erosão do tempo e as actuais definições do que se considera ser a saúde mental. Porém, que fazer com a melancia? Cedo neste planeta me dispus a coleccionar recordações de homéricas talhadas, repetidamente associadas a momentos de alegria familiar. Não tinha como o negar: a melancia era um fruto que, embora não ameaçasse o pêssego na corrida ao grande prémio, concorria para os prémios especiais do júri e do público. Porém, havia um desprezo declarado pela melancia junto da opinião corrente, tanto a falada como a escrita, dizendo-se que o seu valor nutritivo seria reduzido, quase nulo, dado ser pouco mais do que água. Para mim, especialista em generalidades nutritivas, algo não batia certo. Juntando a fome à vontade de saber, fui investigar. A primeira descoberta foi a do licopeno. Ora, já tinha sido apresentado ao licopeno por causa dos tomates, pelo que conhecia a importância dessa novíssima vedeta da literatura mágico-nutricional. Pois bem, a investigação revelava que a melancia tinha ainda mais e melhor licopeno do que os tomates, era uma coisa do caralho. E continuava a ser do caralho por uma eréctil descoberta: a melancia tinha poderes análogos aos do Viagra. De repente, aquela bola de água traidora, sportinguista por fora e benfiquista por dentro, mais famosa pelo milagre fatal da transformação do vinho em cortiça do que por qualquer promessa curativa, surgia associada à protecção contra o cancro, contra problemas cardiovasculares, contra o envelhecimento dos tecidos e ainda contra a impotência – ou seja, a favor da potência. Estava encontrado o fruto que dava a provar a metafísica aristotélica: a mais saudável passagem da potência ao acto disponível fora das farmácias. E resulta, afianço. Estas descobertas aconteciam no Verão de 2007, a poucas semanas da estreia em Portugal do pevidesco filme de Ming-Liang.

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Jornalismo esquizóide

Não tenho memória de ter lido algo que se pareça com isto. Vem assinado por Ricardo Lourenço, jornalista do Expresso. É revelador do desnorte completo por que passa a nossa imprensa, outrora com alguma vergonha na carteira. Vejamos:

O senador John McCain tinha uma bigorna presa a cada perna. De um lado a maior crise financeira desde o crash de 1929 (ambos candidatos concordam com a classificação). Do outro, oito anos de política externa republicana (tema do debate), coroados com duas guerras – Afeganistão e Iraque – sem um fim à vista. As expectativas quanto à sua prestação eram, portanto, muito baixas.

É assim que começa a peça, invertendo na perfeição a realidade. Todos sabiam que as temáticas da Defesa e Relações Internacionais eram aquelas onde McCain poderia ter melhor prestação. É ele que não se cansa de falar em heroísmo, experiência e maturidade, puxando o lustro ao currículo e valorizando a vetusta idade. As temáticas da economia eram aquelas onde McCain não teria qualquer possibilidade de escapar ao ataque mais feroz e consequente de Obama. Assim, ter a oportunidade de marcar pontos passando ao lado do descalabro financeiro, e isto quando a sua vice voltou ao estado de besta após uns dias a iludir os otários que a acharam bestial, eis algo que não se podia falhar. Pois o responsável editorial do Expresso para os assuntos internacionais não sabia disto.

O resto do texto segue pelo mesmo delirante caminho, chegando ao ponto de usar expressões subjectivistas palermas. Há aqui um aspecto enigmático, tamanha é a distorção. Veja-se este passo:

No fim do debate, alguns comentadores norte-americanos parodiavam com o facto do senador afro-americano ter perdido, a partir de certa altura, a compostura, passando a tratar o adversário, simplesmente, como… John.

O jornalista nem se deu ao trabalho de identificar o canal onde estavam os citados comentadores, mas é muito provável que estivesse a referir-se à CNN. De facto, uma comentadora, pró-McCain, fez esse reparo, o qual deu origem a risos vários. Só que os risos não eram para Obama, antes para a hipótese da comentadora. Na verdade, o que Obama conseguiu com esse simples truque foi demonstrar que não se atemorizava com o rival, antes o tratava com proximidade e afecto. E mais: foi Obama quem correspondeu ao pedido do moderador para que os candidatos falassem directamente um com o outro, enquanto McCain nunca conseguiu falar directamente para Obama e foi de uma rudeza e embaraço surpreendentes.

Mas há aqui um grande enigma. Este Ricardo Lourenço, se teve tempo para deturpar o que os olhinhos lhe serviam no cérebro na fase dos comentários, também teve oportunidade de ver os resultados das sondagens aparecidos poucos minutos depois do debate terminar; onde todas elas – todas! – davam a vitória a Obama em qualquer dos segmentos etários (incluindo os velhinhos). Como é que, então, se consegue escrever tamanha aberração no Expresso neste nível de responsabilidade jornalística?

Não temos imprensa de referência, isso é indubitável. Resta saber se temos jornalistas verdadeiros que cheguem para criar um projecto novo, ou renovar uma marca antiga. Faz tanta falta uma imprensa inteligente e corajosa como um sistema partidário livre e activo. E sempre fará.

Vi um preto a bater num velhinho branquinho

Terminou o 1º debate entre Obama e McCain e fica a pergunta: quem é que aceita trocar a sua inteligência pelo apoio ao candidato Republicano? McCain foi primário, tacanho, egotista, provinciano, soberbo, paternalista, manipulador e caduco – e isto nas temáticas onde se diz ser mais forte, defesa e relações internacionais. Entende-se agora muito melhor a inacreditável escolha de Palin. Esta gente é a continuação de Bush, preparada para cometer os mesmos erros com a mesma irresponsabilidade.

Haveria um exercício a fazer, para memória futura, que seria o de recolher as opiniões dos que apoiam a candidatura Republicana, fosse lá pelo que fosse que eles invocassem na justificação. Pelo menos, essa lista serviria para ficarmos a conhecer aqueles que não se devem convidar para sócios num negócio ou, no caso de nos perdermos no meio do centro comercial Colombo, não deixar que eles escolhessem o caminho até ao carro sem primeiro estarem munidos de GPS, mapa, bússola, esfera armilar e uma senhora simpática por perto disposta a servir de guia.

Blogpower

Exemplos do reconhecimento e crescente institucionalização da blogosfera como legítimo canal de exercício político, com acrescidas vantagens face aos espaços da comunicação social profissional quanto à publicação, extensão, organização e expressão dos conteúdos:

Abrupto – Pacheco Pereira continua a sua patética cruzada contra a propaganda do Governo – sem definir os critérios de aferição, sem ter currículo na matéria, sem convencer nem interessar – e atinge níveis inacreditáveis de fragilidade argumentativa. Azeredo Lopes responde-lhe com amor, num misto de raspanete para com as grosseiras faltas de honestidade intelectual e de ternura e santa paciência para com a genica do puto. Claro que o nosso Pacheco está-se já a marimbar para as figuras que faz, a sua viatura há muito que perdeu os travões. Só lhe resta aproveitar o tempo para fingir ser um louco ao volante, antes do choque com a realidade.

Blasfémias – Estrela Serrano escreveu a Gabriel Silva como se ele fosse uma entidade jornalística, ou política, de referência. O seu texto tem o mérito de ter sido escarrapachado à pressa e de forma emocionada. Isso resulta em passagens hilariantes, que se agradecem. Mas o que mais importa realçar é a ingenuidade de uma figura como a Estrela Serrano, notoriamente a cometer erros de principiante na relação com as putas velhas dos blogues. Isso, para mim, é um excelente sinal: assinala a disponibilidade para o diálogo e para a democracia. Foste o céu na terra, Estrela.

Câmara Corporativa – Eduardo Cintra Torres é um caso clínico, na melhor das hipóteses. O que se pode ler na sua correspondência com Miguel Abrantes assusta, tal a distância com a sensatez. Não se imaginaria tanta arrogância bronca a alguém com o seu trajecto mediático. Veja-se um exemplo:

O artigo de António Ribeiro Ferreira no Correio da Manhã referia factos que não foram desmentidos. Este governo tem repetidamente desmentido factos em artigos na imprensa, sejam eles de informação ou de opinião. Mas neste caso não houve qualquer desmentido, pelo que tomo os factos referidos como verdadeiros.

Deve ser isto, suspeito, a tão falada lógica da batata: se ninguém desmentiu, é verdadeiro. E depois é só cortar às rodelas ou em palitos.

A crise só te faz é bem

Em relação ao entendimento das problemáticas económicas, há três grupos possíveis, e não mais do que três. O primeiro é o dos que não pescam nada do assunto. Aqui se encontram os analfabetos, analfabrutos, iletrados, ignorantes, preguiçosos, confusos, disfuncionais, neuróticos, empregados públicos, velhinhos marotos, aparvalhados, bêbados, clientes da Caixa Geral de Depósitos por opção e sócios do Benfica com as quotas em dia. O segundo é o dos que entendem alguma coisa do assunto. Aqui se encontram licenciados, jornalistas, políticos, trafulhas, ciganos, traficantes, mafiosos, indivíduos com um tio no Corpo Diplomático, vendedores de relógios chineses, empresários que fogem aos impostos, patos-bravos, participantes regulares no Fórum da TSF, taxistas e médicos. O terceiro é o dos que sabem tanto que sabem nada saber. Aqui se encontram eruditos, académicos, anacoretas e alguns pastores do triângulo Covilhã, Nelas e Celorico da Beira.

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Os meninos da mamã são uns espertalhões

Ao ler esta notícia, lembrei-me de algo que nunca esqueci. Estava no quarto, ocupado a tratar dos assuntos mais importantes do meu mundo com 8 anos de eternidade, aquilo que os adultos ignorantes diziam ser estar a brincar, e fiz um raciocínio que me deslumbrou. A visão da sua complexa geometria, e profundas implicações, tinha uma natureza sacra e pedia urgente partilha. Era valioso demais para ficar só comigo. Dirigi-me à cozinha, onde a minha mãe preparava o jantar. E disse-lhe Mãe, quando nós não entendemos aqueles que falam uma outra língua, eles também não nos conseguem entender a nós, têm o mesmo problema. A minha mãe olhou-me com surpresa complacente, talvez lamentando a desgraça ocorrida na maternidade que lhe teria levado o filho legítimo por troca com aquela coisa que lhe apareceu ali. Continuou a lavar os legumes e depois riu, disse-me Está bem, percebo. Eu ainda esperei uns segundos por alguma consequência verbal ou simbólica da minha declaração. Algum reconhecimento do génio tão generosamente revelado, mas nada. Aceitei ter cumprido assim a missão, cônscio da excelência da descoberta, e retirei-me daquele espaço. À noite, ouvi a minha mãe contar ao meu pai, com muitos risos à mistura de ambos, o episódio da cozinha. Tive alguma pena deles, que infantis.

No país dos comentadores

Particularmente para José António Saraiva, a hora mais escura da noite foi a que antecedeu o nascer do Sol. Há seis anos, publicou um texto que te convido a ler, ou a reler – e a comparar com o que os comentadores profissionais e reputados, ou amadores e desconhecidos, têm dito nos últimos dois e quatro anos. As coincidências são assustadoras, nem falta uma variante televisiva do Big Brother a despertar os enésimos e bacocos protestos. Tudo se repete: as mesmas personagens, as mesmas misérias, as mesmas queixas. Parece que só em Portugal vigora a lei de Fukuyama, com os comentadores numa amnésia nascida do desleixo intelectual e da promiscuidade com os omnipotentes poderes fácticos.

José António Saraiva é uma figura patusca, geneticamente predisposta para a hipérbole, e tinha idade para ter juízo quando chegou a 21 de Setembro de 2002 com 54 anos. Está ligado à época de ouro do Expresso, assim como ao declínio da sua relevância. Todas as semanas, pelo menos, publica qualquer coisa. Como já o faz há mais de 40 anos, é uma vítima da prolixidade. Ter de escrever por obrigação é tramado, ainda mais se for preciso elaborar opinião. Inevitavelmente, há opiniões que serão apenas a expressão ciclotímica da subjectividade. Os comentadores políticos estão condenados ao adultério: afirmam-se casados com a amada Sr.ª Verdade, mas há muito tempo que perderam o desejo por ela, preferem escapulir-se para o quarto da criada, a úbere serigaita Vaidade. Este flirt é fonte de folia nocturna, embriaguez recuperadora da eterna e irresponsável juventude. Eis uma condição psicológica propícia à megalomania, ao melodrama. Não espanta, então, que os comentadores políticos se descuidem com a cristalização do hábito e se dispam à nossa frente de vez em quando. E lá saltam as vergonhas tão humanas, tão vulgares. É o caso neste caso.

Antes de ter prometido superar as vendas do Expresso em poucos meses, e de jurar por escrito nunca vir a oferecer brindes (jura entretanto apagada), o arquitecto auto-nobelizável teve um dia menos optimista, mas igualmente delirante, e deu nisto, mais isto, mais aquilo e aqueloutro. Paradoxalmente, ler esta jeremiada depressiva – e simultaneamente exacta na sua lúcida acusação, mas estatelando-se ao comprido por ser superficial e ilusionista – funciona como acto de higiene. É um aviso, para quem dele precisar, de que nenhum comentador se substitui ao cidadão, não importando o meio onde escreva ou bote faladura.

A blogosfera aumentou exponencialmente esta lógica da lamúria como intervenção social preferida, por razões evidentes decorrentes do próprio meio. O resultado? Os intervenientes em blogues, e em caixas de comentários da comunicação social digital, juntam-se aos profissionais da opinião e tornam-se parte da política-espectáculo, da indústria da opinião, sendo totalmente ineficazes como força de construção cultural ou profilaxia cívica.

Estão por inventar as novas formas de pensar, e de agir, que saibam o que fazer com a liberdade de expressão e sua ubiquidade. A salvação nunca foi e nunca será individual – o que for individual, e não mais do que individual, chama-se loucura, inferno. É esse o país dos comentadores de opereta.

Paulo Portas é gay

A manchete do Correio da Manhã, acima exibida, não é um exemplo de sensacionalismo, porque a noção de sensacionalismo não chega para descrever o acto. Sensacionalismo seria ter feito um título como este: Grupo de jovens quer imitar PCC. Isto já seria exagerado e incorrecto o suficiente para despertar os instintos selvagens. Mas o que lemos é uma afirmação que junta os termos máfia, favelas e Portugal de forma assertiva. A notícia fala em centenas de brasileiros, estabelecidos na Margem Sul, organizados em bandos criminosos e apresentando perfis psicológicos de psicopatas sem recuperação. Estamos, então, perante um acto de terrorismo cívico, onde os responsáveis pelo jornal intencionalmente exploram as insuficiências educativas e disfunções cognitivas de largas faixas da sociedade. É triste, e jamais deixarei de me surpreender: constatar que há quem tire proveito da miséria.

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Perder os três no quarto

Está tudo bem nesta iniciativa: os 3 da opinião airada, o convidado de peso (literalmente), o título eficaz, o excelente grafismo do anúncio (sim, também conta, porque tudo conta). Não se vai descobrir a pólvora na próxima terça-feira, mas poderá ser mais um rastilho para a titânica operação de terraplanagem da imbecilidade nacional. Pelo caminho, aproveita-se para conhecer uma nova livraria (caso não se conheça já, pois tem 1 ano), o que não irá fazer mal a ninguém.

Parabéns à Tinta da China e aos protagonistas. E votos de sucesso comercial para todos, pois.

O segredo da longevidade

Sinto cansaço, apenas. De fazer a barba todos os dias, de levantar, vestir, tomar banho, pequeno-almoço, comer, mastigar, engolir. Tudo isso, essas coisinhas fáceis e corriqueiras, mas que são sempre as mesmas. É sempre a mesma coisa, a mesma ordem, ver a televisão. Tudo isso é uma chatice.


A única coisa que me consola e onde eu posso descansar, verdadeiramente descansar, é quando estou a realizar um filme. Nem quando estou a escrever fico animado. Se vem a ideia, tudo bem, mas se não vem, fico muito inquieto. Depois, quando vem a ideia, é-se feliz e escreve-se. Mas é enquanto realizo que sinto a paz e o sossego. Esqueço que tenho de me levantar cedo, esqueço-me de comer, esquece-me tudo. E estou ali.

Faço filmes, são as minhas verdadeiras férias.

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Manoel de Oliveira, em entrevista.

Eis um homem que só descansa quando está a trabalhar. E que explodiu criativamente aos 70 anos, entrando num ritmo alucinante que já regista 35 projectos desde 1979, ano do Amor de Perdição. É um exemplo de como, e de quanto, a nossa relação com o trabalho e com a idade está completamente errada. O mais comum é tropeçarmos nos que se queixam por terem de trabalhar (no que são mentirosos ou burros, pois ninguém precisa de trabalhar), não sendo tampouco capazes de descansar nos períodos de descanso (no que são burros ou mentirosos, pois só não descansa quem tem mais o que fazer), mas este homem encontrou no ganha-pão o vinho da sabedoria. E foi aperfeiçoando a fórmula. Porque não há limite para a fruição e busca de sentido.

arrisca perder o medo — confia no infinito que te foi dado antes de nasceres — salta para cima da eternidade e brinca — viver muito tempo é viver muito o tempo

E ’tá feito, não mexe mais: é este o segredo da longevidade (ou quase). Só faltas tu para ficar completo.

Afinal, havia outro

Não sei o que se passa entre o Paulo Bento e o Vukcevic. Sei é que o montenegrino é um dos jogadores mais importantes de sempre a passar pelo Sporting. Pois ele é um Sá Pinto, e pensava-se que o molde já se tinha partido. Os adeptos amam este jogador, porque este jogador ama o futebol. Daí os golos que marca: improváveis, manhosos, repentinos, espectaculares, de ranço, à maluca. E o que faz em campo por fidelidade ao suor da camisola, as idiotices que quase lhe custaram a carreira: como aquela lesão no ombro nascida de um malabarismo despropositado, inútil, gratuito, circense, vaidoso, infantil. Mas teria de ser assim, pois é assim que ele é. É assim que ele nos dá lições de vida, ensinando que só vale a pena ir para o campo na disposição de voltar a inventar o futebol a cada jogada. Para ele, ser o melhor é libertar a intuição e querer muito, mas muito, marcar golo. Fácil demais, esta filosofia vukcevicaniana? Errado, demasiado difícil; tanto que são raros os que a praticam. O comum em Portugal é o jogador convencional, medroso, sem peito nem destino. Vukcevic exibe um desprezo pelo calculismo que devia ser a verdadeira marca dos jogadores formados no Sporting. Se depois se ganha ou se perde, isso já é com os deuses. Ao guerreiro, o coração de leão.

Paulo, resolve lá isso. E rápido.