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Lembram-se do Marques Mendes?

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Apostei em Marques Mendes. Era o rosto da contestação a Santana quando Santana era a carantonha da indigência. Ser baixo não lhe afectava a eventual grandeza, possibilidade que residia no capital de prestígio acumulado enquanto serventuário do cavaquismo. Junto de Aníbal, ele era mais um M&M na embalagem, mas a solo prometia aplicar as lições do professor. E quais eram elas?

A novidade de Cavaco Silva só se entende no contraste com Mário Soares. Este era o fala-barato, aquele o esfíngico. Um era obsceno na sua gula pelo poder, o outro encriptava o poder da sua gula. Cavaco aparecia para acabar à direita com a confusão resultante da morte de Sá Carneiro, um líder carismático por muitas e boas razões, e também para selar o esgotamento das capacidades executivas de Soares, as quais se adequavam a períodos de transição mas não aos de consolidação. O primeiro Governo do cavaquismo criou-lhe o mito: o País tinha, finalmente, alguém que estava mais preocupado em pôr as contas na ordem do que em fazer política; ou seja, Salazar voltava a sentar-se na cadeira. É que o século XX português, do princípio ao fim, procurou sempre uma qualquer variante do salazarismo como matriz da estabilidade, fenómeno cujas raízes vão dar ao pombalismo — e cuja fonte foi, e ainda é, o desprezo a que o poder político e económico votou o saber. O preço era a estagnação, mas a estagnação tem encantos e benesses.

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Cineterapia

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Mondovino_Jonathan Nossiter

Ao contrário do que se ouve dizer em todo o lado, a realidade é simples e viver é fácil. 200.000 anos de evolução criaram dois grupos de seres humanos: os Homo sapiens sapiens, que são uns tontinhos e nada de meritório têm para mostrar em seu abono; e os Homo sapiens sapiens bem mais sapiens do que os outros sapiens sapiens, os quais apresentam como marca antropologicamente distintiva o facto de já terem visto o documentário Mondovino. É a este segundo grupo que me dirijo, o único com as mutações neuronais adequadas ao pensamento superior, e para lhes dizer: ide comprar 3 DVD’s da obra. Guardem um e ofereçam os restantes. A opção de comprar mais de 3 é legítima, e até bem-vista, mas em caso algum se pode comprar menos. Porque seria dilacerante ficar só com um para oferecer. É maldade que não se deseja a ninguém, ter de revelar segredos do coração na exclusividade da escolha. Comprar um único exemplar seria uma vergonha, equivalendo à assunção da misantropia. E nem um comprar é ignóbil crime. Isto é simples de entender e fácil de fazer.

Jonathan Nossiter luta contra a globalização porque é um cosmopolita. Nasceu nos EUA, filho de um jornalista reputado e especialista em economia, e cresceu em França, Inglaterra, Itália, Grécia e Índia. Estava quase educado, mas ainda lhe faltava um dos mais universalistas pilares da sabedoria, a portugalidade. Alcançou-o quando conheceu Paula Prandini, uma brasileira linda com quem casou e vive no Brasil. Pelo meio, estudou pintura, grego clássico, teatro e vinho. E descobriu que queria fazer cinema, para nossa sorte. Olhe-se para as suas recomendações cinéfilas (no final da página); impossível não ser amigo do homem, mesmo que nunca venhamos a falar com ele. Beleza, vinho e cinema — eis um destino de fazer inveja no Olimpo.

Há 135 razões principais para se ver Mondovino, aparecendo elas aos nossos olhos e ouvidos à cadência de uma por minuto. Destaco as seguintes: conhecer Battista Columbu, um velho adorável e sábio; conhecer Aimé Guibert, um velho teso e sábio; conhecer Hubert de Montille, um velho livre e sábio; descobrir que havia judeus portugueses produtores de vinho em Bordéus antes de 39; constatar que o fascismo italiano é igual ao português e que ambos estão de saúde; reparar que o momento mais interessante da entrevista a Robert Parker é quando um dos seus cães se peida, facto que os presentes celebram com genuino entusiasmo; surpreendermo-nos com o começo de uma das mais esquecidas canções de Amália, Trepa no Coqueiro.

Embriagai-vos, como recomendou um bêbado.

Há muita fé no Reino da Dinamarca – II

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Quando celebrei o protesto na imprensa dinamarquesa contra o plano de assassinato de Kurt Westergaard, previ que seria um post consensual. Responder à espada com a pena, à violência com a lei, à loucura com a coragem, parecia-me terreno comum. Felizmente, a nossa amiga zazie veio mostrar-me o quão errado eu estava. A sua feérica e entrópica participação explica parte da anormal quantidade de comentários e a prolongada recreação, residindo na complexidade e melindre do tema o resto da causalidade do fenómeno. Também não ajuda estarmos em Portugal, num ciclo histórico onde não se cultivam modos de discussão pública, nem se estuda a dialógica cultura clássica, e onde a demissão cívica é uma epidemia. Muitos são os que se negam a discutir política e religião, sendo incapazes de prestar atenção a esses assuntos por completa falta de preparação básica: do básico domínio dos conceitos básicos à básica elaboração de básicos raciocínios. Como sempre, a enorme maioria rejeita o que não entende, e raros são os que têm a generosidade de partilhar o saber (actividade bem distinta de exibir a informação). A herança salazarenta faz gala da sua aversão ao pensamento, inércia que continua a moldar o espaço público. Isso leva a dificuldades acrescidas para todos nós que merdamos nesse ambiente, aumentando o risco de perversões emocionais.

As caricaturas de Mafoma juntam o pior de dois infernos, o religioso e o político. Combustível e rastilho aceso para uma flame war, a qual teve o seu lado patético, como todas, mas também o revelador, como algumas. Para lá do registo de capacidades, ou falta delas, para lidar com conflitos de natureza intelectual, algo de muito mais importante estava a acontecer: todos os participantes se obrigavam a pensar num medo que oprime as suas vidas; e ainda mais opressor, embora de outro modo, quando não verbalizado. Num dos seus comentários, o nosso amigo shark fundeou o episódio:

Este tipo de conversa não é supérfluo nem dispensável, pois estamos em face de uma ameaça real ao único valor em que julgo sermos unânimes: a paz entre todas as pessoas e a capacidade de conseguirmos conter a evolução deste cenário para o tal conflito de civilizações (outra questão sem consenso possível) que alguns defendem e outros apenas profetizam.

Não é supérfluo nem dispensável contribuir para a diminuição do perigo terrorista e para o aumento da secularidade. Como se descobriu na antiga Grécia, faz já algum tempo, é a fala que substantiva o acto político, pois reconhece uma comunidade de seres que se definem e realizam pela racionalidade. Seja numa qualquer assembleia, TV, caixa de comentários ou mesa de café, aquilo que mais importa pode estar no meio de nós, dependente das nossas palavras. Neste trinta-e-um que começa a 2.500 km para nordeste e se vem esparramar num blogue português, constatar ser o Estado de direito, para ilustres convivas de paleio, uma realidade passível de abolição, transformou-se no meu casus belli. E também num casus foederis, como são todos os casos de amor.

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Os bombistas

Pacheco Pereira juntou-se a Garcia Leandro e Manuel Alegre. Também ele ouve vozes que anunciam uma explosão. Para mais, aconteceu num supermercado. Ou seja, a informação veio de um consumidor, seres que para interromperem a sua obsessiva actividade recolectora têm de ter algo de importância catastrófica para transmitir. Pacheco diz que são sinais. E são: sinalizam que o general já não está só na ala dos que sentem a sua resistência psicológica a diminuir. Vai daí, o nosso publicista favorito nem se apercebe do disparate no raciocínio: não é a crise económica e social grave que gera uma peculiar sensibilidade a questões como a corrupção, é a corrupção que gera a crise económica e social grave. Enfim, mas de que espera para se apresentar como alternativa? Que impede Pacheco Pereira de substituir Menezes?

A única coisa que está para explodir é o medo de pensar e de agir, de voltar à política. Mas não serão estes bombistas de Carnaval a acender o rastilho.

Não vire as costas à disfunção eréctil

Oferta do nosso amigo Renato C., numa altura em que se virou para esta matéria pendente:

Na impossibilidade de atiçar o repto em molde mais apropriado, e fazendo jus ao epíteto de “capacidade ironico-fodilhona” que o amigo rvn me dedica, gostava de aqui lançar uma questiúncula para reflexão de todos aqueles que se preocupam com as grandes questões nacionais.

Acabo de reescutar na TSF o spot que alerta para a impotência sexual. Isto nada terá que ver com o nosso patrimonial Sócrates, ou não atestassem os pregões noticiosos que o rapaz tem erguido maravilhas por este belo País fora, e todos sabemos que a sua pílula é rosa, e não outra. Todavia, poderia ser obra de uma ingenuidade dúplice que assenta como uma luva na mão com que o Zé Manel Fernandes gosta de embalar o berço da Nação.

Então manda assim o dito, em investidura de slogan: “Não vire as costas à disfunção eréctil”. Eu não sou gajo que se abispe com tão pouco, mas tão-pouco sou gajo para deixar murchar um contra-senso deste tamanho sem lhe deitar as garras. “Não vire as costas à disfunção eréctil” é não apenas de mau-gosto como também um conselho de duvidosa eficácia. Vejamos: o virar de costas pode, e deve, integrar-se numa estratégia deliberada de um sistema de incentivo à dita-dura. Por que não?

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A merda atinge, finalmente, o Belmiro

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José Manuel Fernandes conseguiu conspurcar o nome de Belmiro de Azevedo, aquilo que seria a última intenção do empresário que faz da convencionalidade uma religião. Quando António Costa se permite dizer o que a populaça gritou na algazarra provocada pelas notícias do Público sobre os casos dos projectos na Guarda e da exclusividade, temos uma porcaria que vai exigir lixívia muito forte para limpar as nódoas que o tonto do Zé Manel mandou para cima da, até agora, resplandecente camisa branca do seu patrão.

Esta situação, apesar da poeira emocional, tem a beleza da simplicidade: o jornal fez bem em noticiar o que noticiou e, em concomitância, o jornal fez mal em noticiar como noticiou. Porque o estilo faz o homem, e o estilo do Zé Manel só tem um nome: filha-da-putice. Ao se arrogar a pose moralista, optando pelo ataque, estamos perante jornalismo de má-referência. Porque seguir a pista que o corrupto Abílio Curto deixou até um jornal de escola poderia ter feito. Os documentos estão à disposição, não foram queimados — possibilidade que o jornalista Cerejo referiu acintosamente, naquela que foi mais uma provocação sintomática da atitude. O que se espera de uma investigação é a revelação do que esteja escondido. E nada de nadinha de nada o Público conseguiu desencantar que estivesse escondido. Esquecido, estava; oculto, não. Se há alguma coisa que entre no campo da ilegalidade, onde está? Venha ela, claro, e sem demoras! Porque, a haver, é a única matéria que legitima a importância mediática dada ao que foi publicado. Considerações sobre ambiguidades profissionais e práticas relativas a contextos que não da actividade governativa ou partidária, são argumentos ad hominem. Têm interesse, não têm relevância. E foi isso que milhares, ou milhões, de portugueses sentiram e pensaram das notícias.

Creio que se bateram todos os recordes de comentários numa só notícia, mais de 1000 neste momento. Isto é, em si, um acontecimento de importância jornalística, por ser de importância social e política. Mas o Público nada referiu. E quanto à secção Cartas ao Director, limitou-se a publicar num mesmo dia 3 cartas, uma para cada posição na contenda: a favor do jornal, contra, e conciliatória. Não mais apareceram testemunhos dos leitores. O mesmo para a secção Sobe e desce, a qual nunca fez referência ao episódio. Tudo isto revela o carácter de excepção que o confronto assumiu na equipa. De facto, ir chafurdar no passado profissional de Sócrates para trazer uma fotografia onde ele foi apanhado a meter o dedo no nariz não é jornalismo, muito menos de investigação. É estar a bater merda com dois paus.

Velhos jarretas

Conheço velhos que ainda não chegaram aos 20 anos de idade; votei em Manuel Alegre para as presidenciais — e voltaria a votar, perante elenco de candidatos igual ao de 2006. Feita a declaração prévia, passo para a urgência: temos de pôr os políticos velhos no lar da Terceira República. Quando se admite que o pateta Alegre imponha uma remodelação no Governo ou se aceita vê-lo a fundar um partido concorrente ao PS, não está mais em causa reconhecer uma doença, trata-se antes de validar a hipótese de já estarmos a ser enterrados. Porque deveria ser óbvio, para quem tenha a antiga 4ª Classe, que Manuel Alegre caducou faz tempo e ainda ninguém o avisou. Se mais provas fossem precisas, a leitura da entrevista conduzida por São José Almeida, que nunca o questiona nas perguntas que faz, exibe um homem ingénuo, ignorante e deslumbrado. Nada disso anula o seu passado, deveria ir sem menção, mas o seu passado não incomoda. É no presente que Alegre é um triste. É triste ler as suas declarações e procurar ligá-las com os acontecimentos da nossa vida profissional, social e pessoal, só para se concluir nada nos dizerem. Não conseguiria verter duas frases dignas de captar a atenção das gerações nascidas nos anos 90, 80, 70 ou 60. O seu olhar está ofuscado com o que viveu in illo tempore, cego para o futuro. Por isso não consegue apresentar uma única proposta que dê que pensar, sequer que falar, sobre qualquer um dos grandes e pequenos temas da actualidade. Por isso nunca soube o que fazer aos votos que recebeu, pois não tinha qualquer outro plano para além da soberba de ocupar o Palácio de Belém. E agora, atingido por uns Blocos que lhe exigiam votos contra o Governo no Parlamento, deu em vociferar por soluções alternativas, mas o coitado barafusta sem fazer a menor ideia de qual seja o processo para as obter; como um esfomeado, numa cozinha repleta de víveres e instrumentos, a berrar para que lhe façam o caldinho. Socialismo? Mas alguém, no século XXI, estará interessado em saber onde é que se escondeu o socialismo ou de que se travestiu? PS? Mas há quem tenha dúvidas do que seja o PS? É a organização a que preside José Sócrates, eis a resposta. Só os atarantados, que deliram partidos angélicos, se esquecem que o poder tem sempre corpo, sexo e vontade de nos foder.

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Impressões

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QUIDNOVI, 2006

A elite portuguesa não gosta da saudade. Considera-a apenas uma trivialidade folclórica e turística. Dos de intelecto mais capaz, como Eduardo Lourenço, passando pelos cínicos, que dominam a comunicação social, até aos imbecis, os que desprezam a nossa História, há uma crescente unanimidade. A saudade seria cliché do fado, ideologia nacionalista, retórica literária, provincianismo popular. É com um esgar de prazer que dizem não ser a ideia de saudade um exclusivo português, pois se encontrariam variantes lexicais em todas as línguas para a nomear analogamente. A saudade, para esta gente desta lata, é concebida como uma emoção que se esgota na psicologia, a mera consciência de um passado, pessoa e/ou lugar, que se deseja recuperar ou que se lamenta não voltar a fruir. Logo, será uma experiência universal, garantem. O que os leva à pose paternalista, simultaneamente desprezo e afago envolto em sorriso soberbo, congratulando-se a si mesmos por explicarem às crianças que o Pai Natal não existe. Contudo, o que não existe é conhecimento, nesses palonços que exibem ignaros a sua falta de identidade, seu vazio. O que não admira, pois não é de hoje a coincidência entre o poder e a perdição. Há sempre quem se deixe ofuscar pela luz que cega e queima, cumprindo o destino dos invertebrados esvoaçantes. O belo é difícil, avisa Platão.

Quem gosta da saudade é o escol português. E nele encontramos António Braz Teixeira, académico, ensaísta, político e ponte entre Portugal e o Brasil. Tal como muitos outros portugueses, faz o seu valioso e patriótico trabalho longe dos holofotes da fama mediática. Não que tal discrição seja critério, mas é decisivo sinal que apela a procurarmos outros como ele, por agora desconhecidos de quase todos nós. É uma chamada para se partir à descoberta da civilização Portugal.
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OFFF vem para Lisboa

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Se não trabalhas em webdesign, é altamente provável que não saibas o que é o OFFF. Este festival tem levado os profissionais e artistas portugueses, interessados na comunicação digital, a sonhar com uma edição nacional, ou algo similar, logo desde o seu início, 2001. No ano passado, um destes portugueses foi a Nova Iorque e conseguiu convencer a organização a escolher Lisboa para a edição de 2008. Agora, anda a tentar convencer directores de marketing que o dinheiro gasto com um qualquer filme TV (somando o custo da criação, produção e espaço) seria muito melhor aplicado no patrocínio da edição lisboeta. Porquê? Porque o OFFF vai reunir a nata dos criativos portugueses, aqueles que trabalham todos os dias em condições de exigência máxima, em tudo iguais às dos seus colegas internacionais — e ainda com o mérito acrescido de o fazerem em piores condições salariais e de gestão. É uma gente que já nada tem a ver com a imagem típica do português, esse português que ainda influencia a sociologia e a cultura pela sua idade e falta de educação. A classe dos criativos profissionais portugueses está plenamente globalizada, e qualquer deles não levaria 1 minuto a adaptar-se a qualquer ambiente profissional internacional onde calhasse aterrar. Porque o seu dia-a-dia é feito na permanente relação com o que se cria e produz em todo o Mundo, de Nova Iorque a Tóquio, de Londres a S. Paulo. São eles que dominam a linguagem digital, tanto na forma como no conteúdo. Quem os ignorar ainda não se apercebeu de que o século XX já acabou.

Lisboa é linda, e não há como a admiração estrangeira para o celebrar. E Portugal é um dos países mais simpáticos e eclécticos da Via Láctea, podendo ser um dos centros criativos da Nova Economia. Porque esta faz-se com computadores, electricidade e inteligência. De computadores e electricidade, parece não haver carência. Da inteligência, compete a cada um apresentar provas. E contribuir com a sua, mesmo que a julgue coisa pouca. Porque a inteligência tem isso de maravilha, só é pouca quando é nenhuma.

OFFF em Lisboa vai ser uma festa da inteligência de vanguarda. Traz a tua.

So SICk

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Correia de Campos pediu a demissão por causa das declarações do Presidente da República no discurso de Ano Novo. Essa atitude é rara, e é a que se espera de quem entende a política como serviço aos concidadãos. Sócrates recusou a demissão, e é a atitude que se espera de quem entende a política como combate pelo maior bem. As forças da reacção concentraram esforços, à direita e à esquerda, até no PS, e apontaram para a zona mais frágil, e fracturante, da reforma: as Urgências. Isso levou a uma maior exposição do ministro nas televisões, ao longo do mês de Janeiro, onde repetiu ideias, objectivos, factos e evidências. E talvez se tivesse aguentado no cargo não fora a diabólica exibição da conversa entre uma operadora do CODU e os bombeiros do concelho de Alijó. Nada mais havia a fazer ou a dizer, a divulgação dessas interacções tornava impossível a sua continuidade no Governo. Mas porquê?

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O caso José Manuel Fernandes – II

Saber se Sócrates assinou projectos de que não foi autor, e/ou se não os conferiu tecnicamente antes de assinar, é relevante. Identificar caligrafias diferentes é suficiente para descobrir parcerias, no mínimo. Interrogar os proprietários dos imóveis em causa acrescenta dados importantes, mesmo que não decisivos. E o Público faz bem em dar a notícia.

Entretanto, Sócrates defende a sua verdade. O jornal voltará à carga. Os comentadores irão perorar. Menezes é capaz de se sair com alguma tonteira engraçada. Os cães espumarão de raiva. Que está aqui a faltar? O Zé Manel. Falta explicar duas coisas:

– Vai o Público mandar os seus jornalistas fazer o levantamento, e a investigação, dos casos similares que envolvam outras pessoas?
– Qual é a posição do Público, enquanto instituição cuja missão é a de exercer um jornalismo independente do poder político, face às irregularidades do poder autárquico? E quanto à temática da corrupção? Quais são as investigações que o Público levou a cabo sobre qualquer um dos grandes casos de corrupção ocorridos desde 74?

Porque é simples. Sócrates faz parte de um sistema, cultural e geracional, que convive simbioticamente com a corrupção desde as juventudes partidárias. Para além disso, conhece os modos pelos quais se fintam regularmente as leis no Poder Local, zona de ambiguidade que tanto pode ser ocasião de aproveitamento ilícito como de proveito público, ou ambos. E domina a lógica da confluência de interesses entre os grandes empresários e os políticos com capacidade para moldar legislações, regulamentos e directivas, entregar empreitadas e serviços, viabilizar negócios. Isto não faz dele um corrupto, atenção, mas deixa-o diminuído eticamente até ao fim da sua vida ou até ao fim do seu silêncio. Silêncio que é, afinal, o de todos. Acaso alguém ignora que é impossível a Mário Soares ou a Cavaco, só para dar os mais notáveis exemplos, alegar desconhecimento em matérias da grande, da média e da pequena corrupção? Contudo, nenhum deles a denunciou. Mais, nenhum deles a perseguiu ou diminuiu; e juntos somam um quarto de século com o poder máximo nas bem lavadas mãos. Não é por acaso que os processos de corrupção são ínfimos face ao clamor popular e aos indícios na comunicação social — é porque, neste 34 anos de democracia, as elites políticas nunca quiseram combater a corrupção. Todas as pessoas que exerceram cargos públicos são coniventes, seja de que forma for. Só se salva o João Cravinho, figura mal-amada pelo povo, talvez por ser o único português sério e a sério no problema. Povo que é, por sua vez, o caótico responsável final pela democracia gangrenada que temos.

O que é complicado, mesmo confuso, é o Zé Manel. Está danado para provar que Sócrates não poderá ser canonizado, não perdendo uma oportunidade para lançar suspeitas sobre situações simultaneamente ambíguas e ridículas. Porque é ridículo querer matar a mosca pousada na testa do guarda com um tiro nos cornos. A não ser que haja vantagens em acabar com o guarda. Seguramente, o pior que poderia acontecer a Portugal, e neste momento, era Sócrates pedir a demissão por causa de uma questão moral e hipócrita. Talvez até o Zé Manel consiga perceber isso.

Abertura Judicial

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Ontem reuniram-se, na mesma sala, cinco dos seis principais responsáveis pela Justiça em Portugal. Foi celebrada a abertura do Ano Judicial com discursos. Que passou para o cidadão dessas elocuções? Que fica dessas ideias? Nada, arrisco impaciente. E, no entanto, não há dimensão política mais importante do que a da Justiça. É mais importante do que a Saúde, a Economia ou a Segurança, porque condição e garante de todas elas. Um Estado que tenha falhas na Justiça não cria riqueza nem educa. E se não educa, nunca criará riqueza. A impunidade do poderoso promove a corrupção do medíocre, desvia os recursos monetários e desvitaliza os recursos intelectuais. A Justiça é um permanente fluxo de racionalidade, ligada a montante à ética e a jusante à moral — se o caudal baixa, a terra seca, o deserto avança. E os seus agentes e tutela, que acabam por ser todos os órgãos de soberania, partidos e eleitores, sabem-no e sofrem-no. Porquê este adiamento do investimento num sistema que se arrasta pejado de disfuncionalidades? Para quê? O para quê até que não é difícil desvelar: aos agentes económicos e financeiros mais poderosos não interessa uma Justiça eficaz, nem lá perto. E estes compram os políticos. Resta o porquê, o qual fica a olhar para os eleitores e para os cidadãos. É curioso ainda não ter surgido um movimento político que se proponha colocar a Justiça no centro do projecto, talvez por se continuar vítima do dualismo esquerda-direita. À esquerda, ou à direita, nunca se procurará a justiça na Justiça, pois cada uma dessa posições é parcial. Só num paradigma vertical, numa nova monarquia cujo rei seja a coragem e a rainha a inteligência, se poderá começar a pensar a questão da Justiça a partir da cidadania.

Entretanto, o ano judicial conheceu uma verdadeira abertura 24 horas antes do protocolo. Na segunda-feira, o Tribunal de Instrução Criminal de Lisboa pronunciou o despacho onde arquivava a queixa-crime da RTP contra Eduardo Cintra Torres. O juiz contextualiza a referência à censura de uma forma que vem contribuir para a sanidade do debate público, independentemente de se considerar certa ou errada, do ponto de vista argumentativo ou ético, a atitude do Cintra Torres.

Eis o que deve ser a Justiça: abertura à liberdade. E eis o que deve ser a liberdade: confiança na Justiça.