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Santa Joana faz o pleno entre a sua gente

PNR também agradece a Joana Marques Vidal o trabalho de equipa:

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«O PNR gostaria de ter visto a actual Procuradora Geral da República, Dra. Joana Marques Vidal, reconduzida no cargo, já que foi uma pedra no charco em que se encontrava a nossa Justiça. Como se costuma dizer, “em equipa vencedora não se mexe” e, como tal, não aceitamos a falácia do argumento pouco transparente de um só mandato. Quem dá provas de um bom trabalho deve ser reconduzido, porque nestes casos o que tem sido “costume” não pode prevalecer sobre a eficácia.

Sabemos que Joana Marques Vidal mexeu com muitos lóbis, teve a coragem de enfrentar os poderosos habituados à impunidade e que essas forças de pressão tudo fizeram para a afastar. Também sabemos que este caso serviu para que os políticos do sistema se digladiassem entre si, não porque estivessem preocupados com a nobre função da nossa Justiça, mas apenas para representarem a habitual guerrinha do faz-de-conta de pluralidade e contraditório.

O PNR agradece à Dra. Joana Marques Vidal pelo bom trabalho desempenhado e por ter conseguido, corajosamente, que a Justiça começasse a funcionar, libertando-a das teias dos interesses e influências de poder político.»

Como a Cofina conseguiu mais um triunfo

«Em equipa que ganha não se costuma mexer, e portanto eu acho que não se deve mexer numa equipa que claramente está a ganhar, que é a equipa do Ministério Público e da procuradora-geral da República»


Paulo Rangel

«Do lado do CDS continuaremos a reforçar a recondução de Joana Marques Vidal. Se temos aqui um valor seguro, não nos faz sentido estar a trocar por outra pessoa. Em equipa que ganha não se mexe.»


Assunção Cristas

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A exploração à outrance do final do mandato de Joana Marques Vidal começou no Verão de 2017 na Cofina. Os editoriais do CM e da Sábado, repetidos e espectacularizados na CMTV, começaram a juntar lenha para um incêndio por fogo posto marcado para a entrevista à Ministra da Justiça em Janeiro deste ano. Nesses editoriais, de forma maníaca e hiperbólica, o PS é tratado como uma organização criminosa. Donde, a leitura de qualquer acto ou omissão de dirigentes e governantes socialistas oferece diariamente à Cofina sistemáticas oportunidades para se divertir e para degradar o regime envenenando o espaço público ao carimbar todos os socialistas como ladrões do povo. Acontece que a Cofina é um dos mais importantes braços armados da oligarquia portuguesa, tendo uma relação simbiótica com outros órgãos de comunicação social cuja agenda política é exactamente a mesma. A sua importância sociológica, e também antropológica, merecia estudos profundos. No Expresso, no Observador e no Público não é raro lerem-se rasgadíssimos elogios ao esgoto a céu aberto, pintado como baluarte da liberdade graças à sua perseguição a Sócrates.

A Cofina sabia o que o PSD e o CDS também sabiam, e que acaba de se confirmar. Sabiam que o mandato da PGR não seria renovado pois tal ia contra a interpretação da lei – e contra a prática institucional recente – que convinha à autoridade do sistema de Justiça. Sabiam que tanto Costa como Marcelo, a que se juntava a própria Vidal e o sindicato do MP, estavam unidos nessa intenção de prepararem uma transição sem qualquer alarido para descontaminar politicamente a normalidade de um mandato único. Essa certeza abria uma imperdível oportunidade: fazer da saída da PGR que tinha prendido Sócrates uma tempestade que pudesse ser alimentada durante anos e anos. Os materiais para tal já estavam disponíveis na opinião pública graças ao culto de personalidade que a Cofina desenvolveu com Joana Marques Vidal, Rosário Teixeira e Carlos Alexandre, promovidos a super-heróis de um Ministério Público implacável contra os socialistas corruptos (os restantes casos judiciais a envolverem laranjas e laranjitas, mais o Benfica, servindo paralelamente para blindar o seu estatuto de caça-xuxas). Culto esse nunca repudiado pelos magistrados vedetizados, muito pelo contrário. Carlos Alexandre, embriagado pela fama e pela sua real impunidade, chegou a ir para a TV achincalhar um cidadão cujos direitos o Estado obrigava não só a respeitar como a defender. A santa Joana tendo aparecido a reclamar os louros por uma herança histórica que ia deixar aos vindouros. O clima, portanto, era o ideal para mais uma campanha terrorista de politização da Justiça e de judicialização da política.

O plano implicou a mais escabrosa hipocrisia. Se esta direita violentadora que apoiou Santana contra Rio, e que Cristas também representa, quisesse mesmo tentar obter a recondução da JMV, então teria feito trabalho de bastidores pela calada, procurando uma aclamação popular sem contágio partidário. Como sabiam que tal era impossível, havia que partidarizar ao máximo a questão para se chegar ao momento da saída da santa Joana e recolher os ganhos. A lógica era similar à do Brexit e de Trump, onde o objectivo nunca foi o de ganhar por tal se considerar altamente improvável. Queria-se era perder pela margem mínima para a partir dai garantir uma fonte inesgotável de retórica bélica. O texto calunioso de Passos Coelho, saído minutos depois da notícia da substituição da PGR ter começado a correr, é paradigmático da estratégia em causa. Ele não vai precisar de mudar uma linha ao libelo nos próximos 20 anos, assim tenha saúde, porque tudo se resume à repetição da fórmula Cofina: um socialista bom é um socialista preso. É isto a decadência em política, um deserto de ideias construtivas e aliciantes para o eleitorado, a redução da prática política ao ódio e à pulhice.

Essa hipocrisia talvez tenha conseguido ser ainda mais intensa nos jornalistas e comentadores que fizeram campanha para a entronização da santa Joana. É que um cenário em que o próximo procurador-geral da República fosse alguém plebiscitado pela direita partidária e pelo tabloidismo de direita geraria uma situação única em todo o Mundo e arredores. Qualquer acto do MP não só podia como devia passar a ser entendido como o cumprimento de um mandato político oriundo dos partidos, políticos e órgãos de imprensa que declararam o seu apoio à senhora. Houve guerras civis que começaram por muito menos. E a irracionalidade desse cenário, onde o primeiro-ministro e o Presidente da República aceitavam ficar reféns das chantagens de uma súcia político-mediática fanática e delirantemente facciosa, expõe a chave interpretativa do que aconteceu: um jogo de espelhos, onde esta direita apostou tudo na saída da JMV para poder usar a sua regular e bondosa substituição como matéria caluniosa daqui em diante. Em que estado fica a honestidade intelectual desses jornalistas depois das figuras sectárias e idiotas a que se prestaram? Enfim, talvez a sua honestidade intelectual acabe por se manter intacta dado já não existir à partida nesta cruzada.

Para esta direita intelectualmente paupérrima e moralmente dissoluta, Joana Marques Vidal era o rosto do seu maior triunfo: o abate de Sócrates, a sua prisão e o linchamento público imparável e sem qualquer piedade da sua pessoa e de quem mais fosse possível apanhar. Daí sentirem-se a ganhar, sabem que tinham uma equipa dos seus ao seu serviço no Ministério Público. E é assim que pretendem continuar, agora fazendo da santa Joana um sebastianismo abjecto onde se irão afogar em rancor e paranóia.

Maravilhas do regresso da impunidade

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Joana Marques Vidal já disse a Marcelo que aceita ficar. Os bastidores do processo

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No fim-de-semana passado, duas fortalezas da direita mediática nacional, Expresso e Observador, garantiram ao País que Joana Marques Vidal iria ser reconduzida como PGR graças à intervenção do Presidente da República e à anuência do primeiro-ministro. Em ambos os casos, não se limitaram a lançar um boato nebuloso, antes detalharam os acontecimentos que teriam levado a esse desfecho, atribuindo a fontes ligadas a Marcelo a origem das informações. O silêncio de Belém que se seguiu levou a que (quase) ninguém duvidasse da veracidade do que aparecia publicado. Nesta terça-feira, saiu uma nota da Presidência onde se pode ler um curtíssimo texto de arrebimbomalho:

«o Presidente da República nunca manifestou, nem pública nem privadamente, qualquer posição sobre a matéria respeitante à nomeação do Procurador-Geral da República. Pelo contrário, sempre afirmou que essa matéria seria apenas objeto de apreciação uma vez apresentada a proposta pelo Primeiro-ministro

Estamos num caso de terceiro excluído. Ou os ex-líbris da direita mediática mentiram com quantos caracteres usaram, ou o actual Presidente da República é não só mentiroso como estouvado. Estouvado porque, se a versão publicada for verdadeira, então Marcelo estará também a envolver na sua mentira Joana Marques Vidal e um número indeterminado de pessoas que terá tido conhecimento do teor das duas reuniões onde, afinal, havia mergulhado de cabeça na manifestação da sua “posição sobre a matéria respeitante à nomeação do Procurador-Geral da República”.

Este episódio é análogo, em mais do que um aspecto e sentido, à “Inventona de Belém”. Então como agora, um Presidente da República de direita vê-se usado por órgãos de imprensa afectos às suas preferências partidárias, económicas e ideológicas como munição de altíssimo calibre contra um Governo socialista. Então como agora, a intriga gerada envolve dimensões do Estado melindrosas e opacas, onde o nevoeiro de guerra pode ser cerrado. Então como agora, estamos em contexto eleitoral para umas eleições legislativas. Finalmente, então como agora, o fedor da decadência de uma certa direita golpista, infelizmente poderosa e dominante facticamente, é agoniante.

Como é que Observador e Expresso reagiram ao desmentido presidencial? Com censura. Na madraça, notícia de rodapé. Nenhum dos fogosos combatentes do antisocratismo botando faladura. No semipasquim do militante nº 1 do PSD, idem. Pedro Santos Guerreiro, na rubrica da manhã onde cada editor à vez aproveita para fazer graçolas e mandar recados, ou aliviar a bílis, nem no espaço entre as letras se referiu ao curioso fenómeno de ter mandado publicar uma certa parangona que põe em causa ou a honra de Marcelo ou a sua deontologia. Mas talvez o Guerreiro não tenha falado nisso por ignorar o que o seu jornal fez no sábado passado, é uma hipótese. A outra é a de ele se estar a cagar porque o seu campeonato é o das capas sensacionalistas destinadas a serem desmentidas pelas autoridades, como se tem visto em relação a Tancos e quejandos que sirvam para atacar os malandros dos socialistas, não o do respeito pelo Estatuto e Carteira profissional dos jornalistas. Não me ocorre mais nenhuma explicação de momento.

Entretanto, vai ser maravilhoso ver esta corja de profissionais da baixa política a explorarem o afastamento da santa Joana.

Os lumpencaluniadores

Que se passa com a Joana Amaral Dias? Com um percurso político a lembrar Zita Seabra (esta saltando do PCP para o PSD e aquela do BE para o que calhar) e com uma alteração radical no seu simbolismo público também analogamente simétrico (a comunista retinta e heróica é agora uma devota de Fátima e a psicóloga assertiva e defensora de uma esquerda avançada é agora uma estrelita do Instagram para poder vender erotismo apolitizado e convencionalmente machista à indústria cor-de-rosa, a que junta o papel de vedeta na indústria da calúnia) a nova fase da sua carreira como celebridade deixa-nos confusos e alarmados. Andam a pôr algo marado na água dos ícones femininos da esquerda.

Veja-se este número circense abaixo. Um completo taralhouco entrevista a senhora e, a propósito de Vara, faz um pedido para que se exerça violência física sobre um dado cidadão pela simples razão de ainda continuar a desfrutar do seu estatuto de inocente e respectiva liberdade. Como reage a ex-deputada? Como se não tivesse ouvido o apelo ao linchamento, até alimentando o intoxicação emocional do taralhouco ao validar a sua pulsão criminosa. Acontece que o taralhouco não percebe nada de nadinha de nada do que se passou e está a passar com Vara, a começar pelo que esteve na origem da sua condenação e a terminar no modo como em Portugal se faz cumprir a Constituição e o Código Penal. Não admira, portanto, que o taralhouco seja um apaixonado fã de Joana Marques Vidal, estando em campanha para a sua recondução no cargo. Ele imagina que só assim conseguirá assistir ao definhamento de Vara na choça durante décadas à pala das migalhas supostas num crime de “tráfico de influência” com um sucateiro que o Ministério Público alega ter sido cometido sem ter disso prova directa.

O que se exibe no vídeo abaixo apenas difere em grau de obscenidade e grunhice do que vemos diariamente na “comunicação social de prestígio” e no “jornalismo de referência”. Quanto ao efeito pretendido, este taralhouco apoiado pela Amaral Dias e os caluniadores profissionais apoiados pelas respectivas direcções de imprensa onde calhem ganhar o pão (sejam jornais, televisões ou rádios) procuram exactamente o mesmo: audiências cívica e intelectualmente miseráveis, onde o sensacionalismo, a demagogia e o populismo mediático antipolíticos, antibanqueiros e anti-elites lhes continuem a garantir mercado para as suas marcas. E por que é que isto nos faz mal como comunidade? Se não conseguirmos responder, eles agradecem.

NÓS E A JOANA

NÓS E A JOANA Com Joana Amaral Dias Temas para apresentação e debate com a comunidade: 1. Governo esconde lista de Políticos a quem foram atribuídas Subvenções Vitalícias 2. Caso Vara, e seus correligionários de crime (Ricardo Salgado, Oliveira e Costa, entre outros) 3. O que motivará o governo na não recondução de Joana Marques Vidal Tema surpresa, caso haja tempo. Data: Quarta-feira dia 12 de Setembro de 2018 Hora de Início: 21H30 de Lisboa Hora de Fim: 22H15 de Lisboa NÃO PERCA! :) PARTILHE!

Publicado por queroemigrar.com em Quarta-feira, 12 de Setembro de 2018

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Exactissimamente

«De acordo com os relatos feitos pelo FMI e pela CE, o governo português pretende prosseguir uma estratégia orçamental baseada: na moderação (e não em cortes) de salários e contratações na função pública; numa maior eficiência do Estado (e não na redução dos serviços coletivos prestados); e na redução dos juros, por via da credibilidade dos objetivos orçamentais (e não da redução da despesa). Afirmam ainda as instituições internacionais que as autoridades nacionais pretendem promover a competitividade da economia através de fatores não custo (qualificações, inovação, orientação exportadora) e não da redução dos custos salariais ou fiscais. E que pretendem assegurar a sustentabilidade da Segurança Social através da diversificação de fontes de financiamento (e não da redução de direitos). Ao contrário de outros tempos, as instituições internacionais não contestam estas orientações centrais da atual política económica do país.

Podemos encontrar diferentes razões para a anuência do FMI e da CE face às opções nacionais, mas uma coisa é evidente: no momento atual, a oposição de direita não pode contar com estes aliados tradicionais. Até que a maré mude, a tradição já não é o que era.»


O FMI, a Comissão Europeia e a direita portuguesa

Felizmente, ainda há João Araújo e o Marinho

A direita decadente não tem ideias nem talento mas tem Sócrates. Preferem afundar-se em mais uma legislatura na oposição a largarem esse troféu de caça. São como macaquinhos apanhados na armadilha do amendoim (ou da banana, há para todos os gostos), onde a pulsão para conservar o alimento impede que a mão fechada saia do receptáculo por onde entrou aberta. Ao mesmo tempo, a frustração por estarem na bancada a ver passar a procissão do poder governativo, juntamente com a consciência silenciada de serem canalhas por vocação e vício, leva-os a esticar a corda da violência política até ao máximo que for possível sem ter de usar armas. Eis porque nada mais conseguem fazer do que gastar os dias a berrar e patear, emporcalhando o regime sem qualquer pudor nem limite imaginável.

A tese de que Joana Marques Vidal “acabou com a impunidade” no Ministério Público é extraordinária de estupidez, mas ainda mais extraordinário é ver a complacência, nalguns casos aberta cumplicidade, com que as instituições visadas na sua responsabilidade lidam com essa calúnia. Tiremos o corolário para uma experiência mental. Em que consistiu a impunidade anterior a JMV? Foi só obra de Pinto Monteiro ou de outros PGR? Aceitemos Pinto Monteiro como o único bandido. Que é que ele fez de ilegal? Não há ninguém, sequer no esgoto a céu aberto, que consiga nomear a metade da metade de um acto do anterior PGR que possa ser considerado ilegal. Passemos para o último recurso: que é que Pinto Monteiro não fez que devia ter feito para acabar com a impunidade? A única resposta que os decadentes dão é esta: “Devia ter prendido Sócrates, como a Joana conseguiu fazer.” Ora, seria possível que Pinto Monteiro conseguisse tal façanha de proteger socialistas corruptos apanhados com provas válidas tendo contra si os procuradores valentes que capturaram as presas e a corporação dos magistrados do Ministério Público na figura do seu sindicato, a que ainda se junta a autoridade do Conselho Superior do Ministério Público e toda a direita partidária, mediática e presidencial? Se sim, por que razão não tivemos então, nem temos agora, acesso a essa demonstração? Por que razão Cavaco Silva, Passos Coelho e Joana Marques Vidal, logo a partir de 2012, já com o hiper-ultra-mega-vilão afastado, não expuseram à Nação as ignóbeis e históricas violações da Lei, da Constituição e/ou da moral que Pinto Monteiro protagonizou na era da impunidade? Por que razão Pinto Monteiro acabou por ser condecorado por Cavaco graças ao seu mandato como procurador-geral da República? Cavaco também promovia a impunidade?

Esta direita decadente cuja decência é medida pela forma e conteúdo do Correio da Manhã, e cuja defesa do Estado de direito e da liberdade é medida pelo fanatismo e rancor do Observador, trata as suas audiências como broncos a quem basta atirar um osso para os ter com os dentes de fora a ladrar e a babarem-se raivosos. Razões de sobra para ver o último Expresso da Meia Noite – o qual ainda oferece o supino prazer de ouvir o João Araújo (mesmo que pareça um pouco fragilizado por questões de saúde).

Os pulhas do PS


Ligação

Henrique Manuel Bento Fialho, escritor. O seu livro mais recente saiu em Abril deste ano, A Festa dos Caçadores. Para consumo imediato do seu talento artístico e do seu universo idiossincrático, é visitar a antologia do esquecimento, uma casa com serviço regular de inteligência, humor e amor à liberdade.

O nosso amigo hmbf passeia-se pelo Aspirina B desde os primórdios. Lamento pela sua década+3 perdida, mas aviso já que ainda não chegámos à América pelo que não nos poderá meter em tribunal, apesar da montanha de provas a seu favor para tal. Posso é tentar responder à simpática questão levantada, a qual me permite meter uma cassete que não ponho a tocar faz tempo. Cá vai alho.

Não sou dirigente, militante, simpatizante, sequer votante do PS em eleições legislativas (mas tenho sido votante nas autárquicas). Não votei PS em 2005, 2009 e 2015. Votei em 2011 pela primeira vez, e pela simples razão de estarmos perante uma colossal golpada que afundou o País para meter no poleiro Passos-Relvas e Portas, os carrascos dos fanáticos do FMI à época. As ameaças à democracia eram reais, como se confirmou nos quatro anos seguintes, e a melhor forma de proteger o bem comum seria reforçar o grupo parlamentar socialista, na minha humilde e nada modesta opinião. Não voto PS, por princípio, porque acho que esse partido não tem estado à altura das suas responsabilidades na área da Justiça. Foi exactamente recorrendo a este argumento que justifiquei, em 2009, a recusa a participar na plataforma SIMplex ao ser convidado por um dos responsáveis. É o que continuo a pensar na actualidade, achando inconcebível que o maior partido português, o principal pilar do regime democrático e a organização política que mais confiança oferece ao maior número de cidadãos dado optar invariavelmente por uma governação ao centro, aceite deixar a Justiça sem os recursos necessários para ser o mais eficiente e célere que humana e orçamentalmente seja possível. Fim da fita na cassete biográfica.

– O que tem de socialismo o PS? Mano, de que socialismo estás a falar? Esclarece, se tiveres ideias e pachorra, e a conversa poderá continuar. Mas não irá muito longe, né?

– O que têm de socialistas os pulhas do PS espalhados pelos cargos de decisão nas empresas deste país? Mais uma vez, não ajuda ignorar o que ou a quem te referes. Vou optar pelo argumento probabilístico e admitir que uma percentagem dos administradores e directores das “empresas deste país” estão ligados, seja de que forma for, ao PS, e que, dentro deste grupo, uma percentagem (50%? Mais?) pode ser identificada recorrendo ao epíteto “pulha”. Bom, aqui na minha terra um pulha não tem nada de socialista. Tal como não tem nada de nada a não ser de ruindade. Um pulha é alguém que se serve violentamente da comunidade para obter vantagens que apenas favorecem os seus interesses individuais e particulares. Essa violência pode assumir a forma criminosa ou ficar-se no seu limiar através de uma miríade de acções indecentes e cobardes que exploram deficiências e desigualdades na sociedade sem que estejam a violar a lei. Escuso de te e me maçar com exemplos.

Quanto a ver o hmbf a considerar-me o mais engraçado dos bloggers portugueses, e subjectividades do gosto à parte (ou ironia), o que tal evoca é um sentimento nostálgico acerca do que foi a blogosfera, uma festa de criatividade e aventuras relacionais, e o deserto em que se transformou ao ficar anacrónica perante o aparecimento do Facebook, Twitter e Instagram, para só nomear os gigantes. Dito isto, é inegável que existem oásis onde continua a ser possível encontrar água, fruta e sombra fresquíssimas.

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A regra infirma a excepção

Na verdade, o processo "Marquês" nunca foi distribuído nem sorteado. A escolha do juiz, que deveria ter acontecido em 9 de setembro de 2014, não resultou de uma operação de distribuição que deveria ter sido por sorteio ou, como diz a lei, "realizada por meios electrónicos, os quais devem garantir aleatoriedade no resultado". Em conclusão: desde 9 de Setembro de 2014 que o processo "Marquês" não teve um juiz legal ou juiz natural. O Tribunal já comunicou também que nenhum juiz presidiu à dita "atribuição manual" e que tal intervenção terá ficado a cargo da escrivã de direito, Senhora Maria Teresa Santos. Espero que nos poupem ao debate sobre a responsabilidade da senhora escrivã, porque o que se passou com a denominada "atribuição manual" não foi uma falha, um descuido burocrático que se possa atribuir a um funcionário. Pelo contrário, o que se passou consistiu num ato intencional de escolha de um juiz, ludibriando a lei. Estamos para ver exatamente quem deu essas instruções, mas é importante que nada fique por dizer: o mais provável é que o processo tenha sido ilegalmente "avocado" e o principal suspeito é o Juiz Carlos Alexandre.


Sócrates

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As únicas pessoas a quem reconheço o direito a não mexerem uma palha na defesa pública do inocente cidadão Sócrates, inclusive o direito a julgarem-no moralmente sem piedade, são aquelas que se consideram lesadas com a “Operação Marquês” devido ao teor das suas relações privadas com Sócrates até então e as consequências que os actos do actual acusado vieram a ter para estes terceiros do círculo íntimo ou próximo (fosse política, pessoal e/ou socialmente). Há razões psicológicas que se sobrepõem à postura cívica dado estarmos perante acontecimentos traumáticos. Os restantes, se ficarem calados estarão a ser cúmplices de quem está a fazer deste processo uma homérica guerra política que implica a planeada e sistemática violação do Estado de direito, onde tal possa ser levado a cabo sem consequências para os responsáveis, de forma a montar um julgamento excepcional. Excepcional nisso de colectivamente se aceitar que Sócrates deva ser condenado antes de ser julgado, e julgado sem respeito absoluto pela Lei – assim obtendo o supremo troféu de impor o maior castigo possível a um estupendo e aterrorizador inimigo político e a quem ouse defendê-lo.

O Correio da Manhã, para usar aqui o arquivo mais extenso e fiel em Portugal a respeito da matéria, publicitou ao longo dos anos as suspeitas acusatórias maximalistas dos procuradores. Que acontece se juntarmos todas as capas produzidas pelo esgoto a céu aberto sobre a “Operação Marquês”? Acontece que não vamos encontrar uma única prova de corrupção. Ninguém sabe, no Ministério Público, como provar que uma certa quantidade de dinheiro na posse de Carlos Santos Silva tenha tido origem em actos governativos ilegais. Como não sabem, e como não podiam deixar de acusar Sócrates fosse do que fosse depois de terem posto a gigantesca máquina acusatória a funcionar, juntaram as teses todas e criaram um megaprocesso que, só para ser dilucidado em tribunal, já corresponde a uma forma de impor uma pena aos acusados mesmo que depois venham a ser ilibados parcial ou totalmente. Isto em si mesmo pode não ser uma violação do Estado de direito, embora tal dependa da interpretação que cada um faça desse edifício jurídico-político, mas quando se cola à evidência de termos tido um juiz de instrução que não se comportou como juiz dos direitos e garantias dos arguidos, antes como duplo e carrasco do MP, então a constatação de que o Estado de direito é neste processo uma fantochada tem de ser retirada por qualquer um que não abdique da sua decência como cidadão, como eleitor, como pagador de impostos, como mero anónimo que não admita ver a Justiça a ser usada para vinganças e perseguições políticas.

Aquando da condenação de Vara à pala do sucateiro, o próprio Marcelo Rebelo de Sousa considerou que a pena era muito exagerada face ao suposto delito em causa (delito esse também sem provas directas). Porém, ele não estava escandalizado, sequer preocupado. O fenómeno nascia, explicou, da maior importância que esse tipo de crimes estava a ter na comunicação social, logo os juízes iam atrás do que aparecia na imprensa e julgavam de acordo com o sentimento popular. A sua placidez opinativa compreende-se sem dificuldade dado estar na berlinda um socialista, ainda por cima já tendo anos como alvo de calúnias por conta do seu passado maculado por suspeitas graves e pela sua amizade com Sócrates. Não sabemos o que diria se a vítima da justiça jornaleira fosse alguém da sua cor política, amigo ou familiar. O que sabemos é que Marcelo sabe perfeitamente bem que uma campanha de assassinato de carácter, de suspeições, de difamações e de calúnias pode ter, com alto grau de probabilidade, influência nos juízes na altura de usarem o seu arbítrio para carimbarem um dado cidadão como inocente ou culpado, com esta pena ou com aquela. À luz do que temos visto, e continuamos a ver, acontecer no processo que envolve Sócrates, só por milagre se fará justiça na Justiça onde a parte mais importante do seu futuro será decidido.

A regra que enche por estes dias a retórica dos justiceiros é a de que todos são iguais perante a lei, que ninguém está acima da lei. A “Operação Marquês” revelou que a Justiça, a Assembleia da República, o Governo e o Presidente da República se podem aliar numa passividade cúmplice com aqueles que fizeram da excepcionalidade deste caso uma regra conhecida de antanho: os mais fortes são a lei.

Bute dar dinheiro à Netflix

Mesmo para quem papa documentários científicos desde que a televisão ainda era a preto e branco, ou se calhar por causa disso, o filme The Most Unkown consegue surpreender e seduzir. É um documentário onde vemos breves encontros de cientistas nos locais onde fazem a sua investigação. Cada encontro reúne dois cientistas de disciplinas diferentes, hospedeiro e hóspede. Pelo meio, somos brindados com belas imagens relativas aos locais visitados ou à tecnologia usada nos laboratórios. Nas conversas capta-se a espontânea novidade que os cientistas experienciam ao ter de descrever o objecto da sua investigação, e a motivação para continuar a investigar, a um colega que trabalha noutras áreas científicas.

Para quem ainda não descobriu os encantos ilimitados que a ciência espalha gratuitamente à sua volta, esta hora e meia de espectáculo pode despertar vocações. Ao contrário do cliché, não nos aparecem à frente seres vaidosos, professorais ou crípticos (mesmo que fascinantes). O elenco foi antes escolhido por ser maioritariamente exuberante de vitalidade e paixão, simpatia e descontracção, sendo essa a mensagem principal que se está a passar: os cientistas como os vizinhos do lado, de calções, chinelas e servidos por uma inteligência maravilhada com os enigmas que nos rodeiam e constituem. Daí as conversas serem banais, fragmentárias, apenas ilustrações sociológicas sem qualquer relevo científico para um espectador minimamente culto em cada um dos tópicos abordados.

Partindo de um esgalhanço criativo que estruturou o guião (e da colaboração do gigante Werner Herzog), o resultado é um documentário autenticamente transdisciplinar. As artes da comunicação são aqui aplicadas para nos levar a invejar aquelas pessoas, invejar a sua alegria. E a alegria, logo a seguir ao espanto, tem sido desde os pitagóricos a energia erótica que nos faz voar, ou rastejar, em direcção a essa verdade que para sempre será a linha do nosso horizonte ontológico.

A Joana é a nova TINA

Não temos notícia de à esquerda se judicializar a política e de se politizar a Justiça, a caminho dos 45 anos depois do 25 de Abril. À direita, sim. Se esquecermos o período exótico e tão-só mediático de O Independente, em que uma direita instalada e omnipotente se viu beliscada por uma direita de franja e vanguardista, tal fenómeno começou de forma estratégica em 2004, com a invenção do caso Freeport, e não mais deixou de ser a principal arma da direita decadente contra o PS – tendo chegado ao ponto em que se espiou ilegalmente um primeiro-ministro em funções, com a intenção tentada de o abater judicialmente, e em que um Presidente da República lançou, ou assumiu, uma golpada mediática que alimentava esse clima de perseguição judicial a um Governo em cima de umas eleições legislativas.

Agora, com o alvoroço dessa mesma direita para explorar o final de mandato da procuradora-geral da República, estamos a assistir a uma jogada em que os pulhas acham que vão sempre sair a ganhar. Se Joana Marques Vidal for substituída, farão uma festa e mergulharão de cabeça na calúnia mais torpe e rancorosa. Se a senhora ficar mais 6 anos a mandar na PGR e a mandar recados para a Cofina, farão uma festa e, fatalmente, mergulharão de cabeça na calúnia mais torpe e rancorosa. Neste último cenário, porque tal lhes possibilitará dizer que tinham razão ao ter acusado o PS de ser um partido essencialmente corrupto que dominou criminosamente a Justiça portuguesa na era pré-Vidal. Last but not least, igualmente virão repetir que foi essa corrupção socialista em auto-estradas, aeroportos, linhas de TGV e, não esquecer, as faraónicas fundações, que levaram Portugal à bancarrota. Em qualquer dos cenários, a festança da calúnia está garantida aconteça o que acontecer.

Há uma direita conservadora que prefere as instituições do Estado ao tribalismo e que sai a terreiro em defesa da lei. Há uma direita liberal que faz do Estado de direito o seu primeiro e principal tesouro civilizacional. E depois há a pulharia. A pulharia não suporta Rui Rio pois este resiste a ceder o palco aos videirinhos, aos hipócritas, aos broncos. Dizer que Joana Marques Vidal é insubstituível porque, no seu mandato, houve razões legítimas para investigar Sócrates e Salgado já seria absurdo o suficiente para não ligar mais a essas vozes. Mas fazer de Pinto Monteiro – escolhido por Cavaco e condecorado por Cavaco precisamente por causa do seu mandato como PGR, o que o deve ter enchido de azia – um alvo para acusações que ofendem a sua honra e a nossa inteligência é relevante pelo grau de indecência com que esta direita trata a República. O à-vontade com que responsáveis políticos e os impérios mediáticos da direita se permitem cobrir de infâmia um número indeterminado de magistrados expõe a violência que os anima e consome. Uma violência contra a liberdade.

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People Who Embrace Traditional Masculinity Beliefs Less Likely to Report Rape to Authorities
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Research Finds Troubling Disadvantages, Including Bias, Against Women in Business
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Simple Nerve Stimulation May Improve Sexual Response in Women
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Study: A responsive partner can mean a longer life
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Why we stick to false beliefs: Feedback trumps hard evidence
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Psychopathy: Murder, Myths, and the Media
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The Digital Age Requires a New Way of Working
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Observador protege o Ocidente dos tentáculos da Global Media

O nosso amigo Eremita deu-nos recentemente o prazer da sua presença para batermos bolas displicentes à volta da problemática da imprensa, em geral, e do Observador, em especial. Chegou a deixar este desafio:

«Dá-me um exemplo em que o Observador tenha violado as boas práticas do jornalismo. O resto é conversa, Valupi. Venham os factos.»

Fonte

Apesar de o Eremita se contentar com a ausência de erros ou mentiras factuais para considerar cumpridas “as boas práticas do jornalismo” – daí, uma discussão com ele nesta matéria não levar a um acrescento de inteligência para qualquer das partes – vou aproveitar a deixa e molhar a sopa numa peça deliciosa publicada no Observador, de Carlos Guimarães Pinto, que ainda está fresca e que versa precisamente sobre parte da conversa tida neste pardieiro aspirínico: A imprensa pode ser novamente sustentável?

A coisa é apresentada como um ensaio. E não há a menor dúvida de que o autor se ensaia. Começa logo pela promessa: «Como podem os jornais portugueses sobreviver à crise e manter-se independentes? Com subsídios do Estado? Com cedências ao entretenimento? Com assinantes que paguem?» Quem chegar ao fim da leitura vai descobrir que este Pinto não sabe responder às perguntas que levanta, e isso apesar do tempo perdido a recolher tabelas e gráficos repletos de palavras e números. Todavia, há um leitmotiv que não larga, uma mensagem que repete de alto a baixo na página recorrendo a diferentes vestimentas para o patego não estranhar a sanfonina. Esta: “Aqueles tipos da Global Media são uns perigosos socráticos que vão dar cabo da democracia e da liberdade no Ocidente”. Vejamos o modus faciendi deste arremedo de jornalismo.

i)

«A pergunta, sobre a qual se debruça este ensaio, ultrapassa as margens de uma análise estritamente económica: sem uma imprensa livre, a qualidade da democracia deteriora-se.»

E o que é isso de uma “imprensa livre” para o autor? Não está definido no texto. Talvez porque ele esteja a escrever só para quem já possua a hermenêutica a aplicar. Mesmo assim, arrisco concluir que por “imprensa livre” este Pinto se está a referir ao conjunto dos órgãos de comunicação social que não possam ser identificados por terem qualquer relação accionista com a Global Media. É o que o resto do lençol comprova.

ii)

«Apenas as injeções de capital da até então desconhecida sociedade macaense KNJ Global mantiveram o grupo [Global Media] à tona. Desconhecem-se as motivações da sociedade em causa para o investimento mas, olhando para os recentes resultados do grupo e para o volume insustentável de prejuízos, só por ingenuidade se poderá assumir que as motivações se prendem com a obtenção de retorno financeiro.»

O argumento reza assim: se um qualquer negócio regista prejuízos e continua a ter quem pague as contas, ficamos com carta branca para caluniar. Apliquemos essa lógica à Amazon, uma empresa cujo modelo de negócio passa por assumir décadas de prejuízos e lucros marginais. Este Pinto diria que só por ingenuidade não víamos o que ele via, que o Jeff Bezos é um desprezível socialista disfarçado de genial empresário. De registar, ainda, as suspeitas que este Pinto, o qual se pinta como liberal, lança contra sociedades de investimento que alega desconhecer. Ficamos nós, igualmente, com a suspeita de que a sua concepção de mercado livre se confunde ao nanómetro com o modelo da economia planificada dos sovietes. Só aí ele atingiria o descanso de tudo controlar, deixando de ter medo da iniciativa privada e do direito desta a meter o seu dinheiro onde lhe der na gana achem os Pintos deste mundo o que acharem.

iii)

«[...] o Público apenas sobrevive graças às permanentes injeções de capital do acionista de referência (a Sonae), sem as quais já teria cessado de operar há vários anos.»

Hã?! Mas, bá lá ber, então o Público também tem prejuízos e só se aguenta por haver quem pague as contas?… Bom, o que vale é que, como explica este Pinto por omissão, aqui não temos de nos preocupar com eventuais ingenuidades. Está tudo bem, é a Sonae a meter o dinheiro. E a Sonae é fixe, é bué conhecida, o Público é bacano. Já lá estiveram a fazer das suas o Zé Manel e David Dinis, tudo malta observável, paradigmas do “jornalismo” que este Pinto admira. Donde, no pasa nada.

iv)

«Em 2015, o jornal diário i, que vinha acumulando perdas acabou fundido com o semanário Sol na Newsplex, resultando no despedimento de cerca de metade da redação dos dois jornais. De acordo com o maior acionista, Mário Ramires, o grupo Newsplex está hoje no “limiar da sustentabilidade”, mas, apesar do caminho percorrido, estes ainda são jornais com uma reduzida presença no mercado nacional.»

Quê?! Mas, caralho, então o i e o Sol também andam a ser levados ao colo pelos accionistas?… Isto seria grave se tivéssemos algum risco de ser ingénuos ao tentar perceber a situação desses jornais. Felizmente, este Pinto repete a fórmula usada com o Público, não dando o menor sinal de alarme. Creio que tal se deve à sua profunda convicção de que nesses dois casos as motivações dos accionistas são estritamente relativas à esperança, à certeza, de estarem no caminho do retorno financeiro. A única dúvida que persiste é a de saber se tal acontecerá antes ou depois do Olímpico do Montijo ganhar a Champions.

v)

«Entre os grupos de comunicação social que se focam na imprensa escrita em papel, apenas a Cofina se mantém numa situação financeira relativamente saudável. Esta saúde financeira é obtida, em boa parte, graças às vendas do Correio da Manhã, um jornal que revolucionou a forma de fazer notícias em Portugal e que é hoje o mais vendido do país, alimentando ainda um canal televisivo de notícias. Com um jornalismo agressivo, muitas vezes na zona cinzenta da ética jornalística, e com tendência a misturar informação e entretenimento, o Correio da Manhã consegue ter uma tiragem maior, por exemplo, do que todos os jornais do grupo Global Media juntos.»

Parece que a Cofina se encontra num estado interessante, descrito como “situação financeira relativamente saudável”, a acreditar no ensaio. Ora, desde o Einstein que é tudo relativo (excepção para a velocidade máxima da luz, ou nem isso segundo alguns malucos), pelo que não ficamos a saber o que se passa nas finanças da Cofina apenas recorrendo aos caracteres exibidos. Já quanto ao entusiasmo deste Pinto com o Correio da Manhã, aí ficamos logo com a informação completa. O tabloidismo foi uma revolução, declara triunfal, e as torrenciais violações do Estatuto e Código Deontológico dos Jornalistas, a que se somam os crimes da violação sistemática do segredo de justiça para certos alvos e seus danos nas vítimas, são coloridos a cinzento segundo os pardos critérios éticos deste Pinto. Eis o cenário onde volta a ir buscar a Global Media, agora para a espezinhar na comparação: se és decente, vais à falência; se és pulha, tens o povinho aos teus pés. Toma e embrulha, Global Media!

vi)

«Finalmente, existem dois grandes grupos de comunicação social que juntam imprensa escrita, rádio e televisão: a Impresa e a Media Capital. [blá, blá, blá] Ainda recentemente, o grupo liderado por Francisco Balsemão viu-se forçado a vender todas as suas publicações, com exceção do semanário Expresso, o que inclui as revistas Visão, Exame, Courrier Internacional, Caras, entre muitas outras. O grupo comprador, Trust in News, liderado pelo jornalista Luís Delgado, adquiriu estas publicações por 10 milhões de euros. Acresce a esta situação o facto de a Media Capital acabar de sair de um processo de venda que não foi bem-sucedido, tudo indicando que o acionista Prisa continua à procura de comprador.»

What?! Mas, ó deuses e santos nos acudam, o Balsemão também não sabe como vender papéis pintados com tinta e cenas parecidas? E continua a meter dinheiro no Expresso apesar dos pesares?… Hum… naaa… É o Balsemão, gente séria. Ele até tem um cartão laranja para apresentar se alguém duvidar da sua seriedade. Aliás, se houvesse algum perigo para a “qualidade da democracia”, com isto de o accionista estar a suportar um projecto mediático falido, este Pinto seria o primeiro a avisar. E ele aqui nem pia. O mesmo para a Media Capital e a Prisa acerca das suas peripécias financeiras, tudo bons rapazes (à mistura com boníssimas raparigas, como a saudosa Manuela Moura Guedes e o seu cristalino “jornalismo”).

vii)

«as empresas cujo foco de negócio é maioritariamente a imprensa escrita apenas sobrevivem graças a injeções de capital de acionistas, cuja boa-vontade pode não ser sustentável no tempo ou pode até ter motivos que interfiram com a independência dos seus jornalistas.»

Cá está a tese na sua formulação sintética. Tem a graça da simplicidade. Este Pinto faz a papinha toda aos seus leitores. Ou os accionistas que investem na imprensa escrita vão perder dinheiro por boa-vontade, ou os accionistas são os da Global Media, e isso implica interferências na independência dos seus jornalistas. É simples. Tem graça. É uma papinha caluniosa para alimentar borregos.

viii)

«No caso do Observador tem sido difícil atingir um saldo positivo em termos operacionais, o que é expectável nos primeiros anos de existência. Apesar de não ter a estrutura pesada de jornais mais antigos, também acumulou perdas nos primeiros quatro anos de existência. Por forma a cobrir o investimento inicial e as perdas dos primeiros quatro anos, os acionistas já injetaram cerca de 5,2 milhões de euros no jornal. A expectativa do Conselho de Administração é que o jornal atinja o break-even no próximo ano, o que seria um bom indicador de sucesso do modelo.»

O Observador está munido de directores, gestores e administradores que não brincam em serviço e que, acima e antes de tudo, são alérgicos a socialistas. É por isso que, como explica este Pinto, se podem dar ao luxo de acumular perdas nos primeiros quatro anos porque o El dorado está à vista, é já para o ano. Faz lembrar o Passos Coelho, et por cause, quando a cada novo empobrecimento fanático do País vinha cantarolar que a “recuperação” começava no ano a seguir. São optimistas, claro. Mas, convém repetir, o que eles não são é socialistas que interferem na independência dos seus jornalistas. Eles seguem outra estratégia, só contratam jornalistas com quem não seja preciso fazer essas porcarias socráticas, já chegam prontos para todo o serviço.

ix)

«Como foi escrito acima, há dois grandes grupos de comunicação social, Media Capital e Impresa, que têm como principal fonte de receitas os seus canais de televisão, que beneficiam de um subsídio indireto do Estado sob a forma de acesso exclusivo à televisão digital terrestre. Este acesso exclusivo vale dezenas de milhões de euros. É graças à vantagem competitiva trazida por esse acesso exclusivo que esses canais podem manter grandes audiências e alimentar todo o grupo. Outra forma de subsidiação pública é através de contratos de publicidade com entidades públicas ou empresas privadas próximas dos centros de decisão políticos. De uma forma ou de outra, os decisores políticos mantêm assim os dois grupos de comunicação social na sua dependência. Ou seja, o financiamento público já existe de forma encapotada, mas tem como único efeito a restrição da concorrência e não o oposto. Dificilmente aumentar esse financiamento traria mais independência e qualidade na informação.»

Ui, a Media Capital e a Impresa mamam subsídios do Estado que lhes permitem suportar os custos dos seus impérios mediáticos falidos… Escândalo para um puro liberal antixuxas como este Pinto? Que nada, pá. Como tem a misericórdia de explicar, o único problema nesta situação diz respeito à “restrição da concorrência”. De resto, como essas empresas estão na posse da gente séria, a sua independência mantém-se intocável face ao Estado e respectivas pressões malignas. Claro, se o mesmo acontecesse com a Global Media seria o fim do mundo em cuecas, porque nesse grupo só há bandidos socráticos e mafiosos chineses.

x)

«Se a alternativa do financiamento público parece ser má, uma segunda alternativa seria aceitar que a imprensa escrita terá sempre que depender de financiamento de acionistas com variados interesses (que podem ir do puro altruísmo à vontade de controlar a informação) – restando regular para que esse financiamento e motivações sejam transparentes para os leitores. Em boa parte, isto pode ocorrer por autorregulação. Por exemplo, recentemente, num artigo no Público, João Miguel Tavares levantou questões e suspeitas sobre o interesse do grupo macaense KNJ em investir na Global Media. Já o Correio da Manhã, do grupo Cofina, revelou escutas sobre esse mesmo grupo, ligando-o a José Sócrates e à sua rede de influências. Os consumidores que tenham tido acesso a estas notícias certamente saberão interpretar aquilo que é escrito nos órgãos da Global Media à luz daquilo que leram.»

Há accionistas que perdem dinheiro por altruísmo, um refinado e esterilizado angelismo capitalista. E depois há a Global Media que pretende controlar a informação, defenestrar a Joana Marques Vidal e impor mil anos de terror. Ocasião em que este Pinto vai buscar uma reputadíssima autoridade em matérias económicas, financeiras, mediáticas e judiciais cá do burgo, o famigerado caluniador profissional João Miguel Tavares. Pois parece que esse senhor levantou suspeitas sobre os macaenses, talvez por não ter gostado do cheiro dessa rapaziada. Igualmente, o distinto e admirável Correio da Manhã é convocado para se ampliar uma das suas especialidades, isso de conseguirem ligar diariamente José Sócrates à origem, volume e dinâmica da criminalidade mundial. Como diz do alto da sua honestidade intelectual, trata-se apenas de um “exemplo” que ocorreu ao autor. Podiam ter sido outros os exemplos, óbvio, mas calhou ser este onde volta a avisar a malta para os perigos que a “rede de influências” de Sócrates aliada às máfias chinesas representa para a segurança e identidade da Grei. Pelo que, conclui impante de razão, calhando os “consumidores” consumirem desta droga, certamente conseguirão tripar com mais facilidade ao lerem “aquilo que é escrito nos órgãos da Global Media”. E quão mais marada for a droga, mais delirante será a interpretação, fica a promessa.

xi)

«Também recentemente, a propósito do caso de poluição ligado à Celtejo, vários órgãos de comunicação social chamaram a atenção para o facto de a Celtejo e o Correio da Manhã partilharem um grande acionista, o que, tal como no caso anterior, fará com que os leitores tenham um cuidado especial ao ler as notícias sobre a Celtejo que saiam no Correio da Manhã.»

Cá está, este Pinto não é caluniador, sectário, sequer preconceituoso. Aqui o vemos a atacar o Correio da Manhã a propósito da Celtejo, avisando-nos para ter o maior cuidado ao lermos alguma coisa no pasquim a respeito desse exclusivo assunto que não deixa dormir os portugueses e ameaça os pilares do regime. Apesar da sua boa vontade, talvez estejamos perante um caso de excesso de zelo. É que o Correio da Manhã tem feito um esforço sobre-humano para quase nada noticiar a respeito da Celtejo. Pelo que se torna inglório estar sempre com cautelas quando a autocensura dessa rapaziada nos resolve o problema. O esgoto a céu aberto na comunicação social abafa o esgoto a céu aberto no Tejo. Uma pulhice lava a outra. Abre a pestana, Pinto.

xii)

«O Observador também se expos a esse escrutínio tornando pública a lista de acionistas desde a sua fundação. Ou seja, se os grupos de comunicação social forem independentes uns dos outros, o próprio processo de concorrência levará à autorregulação e à descoberta dos interesses dos financiadores – desde que os acionistas sejam conhecidos. Havendo diversidade suficiente, os leitores poderão sempre filtrar aquilo que leem. O ideal seria que esses interesses fossem declarados à partida, mas num país onde até é raro os órgãos de comunicação social identificarem a sua tendência ideológica (apesar de, em muitos casos, ser bastante evidente), dificilmente se esperaria que isso acontecesse.»

Pelos vistos, temos de descobrir os “interesses dos financiadores” se quisermos tomar um pequeno-almoço descansado na companhia de umas notícias matinais. Infelizmente, este Pinto não consegue revelar quais sejam os interesses dos accionistas do Observador. O que torna mais difícil descobrir quais os filtros a aplicar calhando lermos e ouvirmos o que se publica com a sua chancela. Uma coisa parece certa: o Observador tem uma tendência ideológica. Será o antisocratismo?

xiii)

«O Correio da Manhã utiliza essas sinergias de tal forma que por vezes se torna difícil perceber onde está a fronteira entre o entretenimento e a informação. Mas é também graças a essa estratégia que preserva a sua independência económica e editorial, algo de que poucos órgãos de comunicação social de relevo se podem orgulhar.»

Não há qualquer dúvida para este Pinto, o Correio da Manhã é um caso de orgulho nacional. Eles difamam, caluniam, mentem, perseguem, cometem crimes, objetificam as mulheres, vendem voyeurismo, espectacularizam a violência, acicatam os mais baixos instintos da populaça mas… fónix… resistem independentes cercados por socráticos e chineses mafiosos. Que orgulho, que inspiração, para a indústria da calúnia!

xiv)

«O valor económico da imprensa vai muito para além daquilo que o consumidor está disposto a pagar. Parte desse valor económico resulta das externalidades positivas para a sociedade como um todo e para a saúde de uma democracia. Mas, ao contrário de outros bens com as mesmas características, a imprensa perderia essas externalidades se fosse financiada pelo Estado. Percebe-se rapidamente porquê: a imprensa também tem valor económico para quem procura controlar aquilo que é publicado. Empresas, partidos políticos e grupos de pressão têm um grande interesse em controlar aquilo que é publicado na imprensa. A forma mais simples de o fazerem é ter na sua dependência (direta ou indireta) um conjunto de órgãos de comunicação social, permitindo controlar aquilo é ou não divulgado.»

Este é o argumento mais interessante que o ensaio oferece para a posteridade. Carece é de uma rápida descodificação que vou oferecer aos incautos. Será mais ou menos isto: a “saúde da democracia”, e a “sociedade como um todo”, tem a ganhar quando “empresas, partidos políticos e grupos de pressão” dominam “aquilo que é publicado na imprensa”, daí termos de impedir o Estado de estragar esses negócios onde os privados passam a “controlar aquilo que é ou não é divulgado”. Percebido? Talvez não, pelo que faço nova tentativa: este Pinto acha que a imprensa deve ser controlada pelos seus amigos políticos, e só pelos seus amigos políticos. Se ainda existirem dúvidas, o ponto seguinte vai desfazê-las.

xv)

«À medida que as fontes de financiamento passam de quem tem interesse em consumir informação para quem tem interesse em controlá-la, a quantidade, qualidade e diversidade da informação tenderá inevitavelmente a diminuir. A existência de concorrência interessada aliviará em parte o problema de conflitos de interesses, mas dificilmente será suficiente para garantir uma comunicação plural como aquela que é essencial existir em democracia.»

Os incautos tenderão a achar que o autor está realmente preocupado em garantir “uma comunicação plural” por causa do seu supino cuidado com a democracia. Acontece que ele escreveu um pretenso ensaio onde de forma maníaca explora o medo dos ignaros, diabolizando um grupo de comunicação social que lhe aparece como um alvo fácil para espalhar o seu ódio ao PS. É daqui, desta intenção, que vem também a defesa do Correio da Manhã e seus métodos degradantes e criminosos para obter notoriedade e audiências. Este Pinto chama a essa estratégia que emporcalha o espaço público e atrofia a comunidade de “concorrência interessada” embora não nos diga em quê. O que, realmente, dá que pensar: em que estará interessado quem faz do sensacionalismo, da demagogia, do populismo, dos assassinatos de carácter e da violação da lei um império mediático?

Resta só esclarecer que não espero ter convencido o Eremita acerca da qualidade do “jornalismo” do Observador. Ele que arraste esse madeiro às costas se tem gosto nisso. O ponto é outro, é o de que não nos devemos furtar à discussão com os sectários. Precisamente por causa da democracia – isto é, por causa daqueles que precisam de ouvir e ler quem defende a liberdade.