Todos os artigos de susana

poesia esférica

Já lhe chamam, no éter, o poeta do futebol. O nosso José do Carmo Francisco é uma espécie de arquivo falante do futebol português e faz gala disso. Autor de um livro com um título maravilhoso, Os Guarda-redes Morrem ao Domingo, jornalista desportivo, peca por uma certíssima parcialidade no respeito ao amor clubístico: o Sporting.
Aqui no Aspirina tem-nos deliciado com os seus poemas: insólitos na métrica e na temática. Cobre, sem dúvida, um nicho de mercado com muita cache e cachet. Ali abaixo o entusiasmo foi grande. Compareceram machos fadistas e a desgarrada é viciante. Contagia, e não fiquei imune. Deixo agora, aqui, o meu agradecimento pela animação que tem gerado.

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com bola vermelha

Se um dos elementos da rapaziada aspirínica tivesse colocado aqui um post com uma vulva exposta na maior descontracção, teria sido um malandreco. Como fui eu, devassidão. Não admira; apesar do andar dos tempos, à mulher continua a ser consignada uma dicotomia entre a santa e a flausina. Mulheres-putas só no uso privado.
A intrusão da temática é tão poderosa que se impuseram as discussões em torno da eventual carga erótica da imagem, como se o erotismo, ou o estímulo sexual, fossem os propósitos quer da pintura quer do post. Outro aspecto curioso foi cada um ter presumido na pintura um objectivo correlativo à provocação exercida: o de chocar, o de seduzir, o de vender, o de banalizar o sexo numa corrupção dos costumes. Com a evidência de se tratar de um sujeito de interpretação individual articula-se o contra-senso: quanto mais a temática interfere com as nossas dificuldades, mais difícil se torna separar representação e realidade representada.
Mas já não é politicamente correcto ser-se moralista nas temáticas sexuais e, por mais que esticasse a corda, os defensores e as defensoras dos bons costumes femininos foram escudando as suas posições por detrás da esquiva definição do artístico–ou não. Foi preciso dizer-se «cona» para se dar o salto para a verdade, pela mão de um comentador: as boquinhas das senhoras sérias não devem conspurcar-se com vernáculo, nem os seus olhos com visões perniciosas das suas próprias anatomias. Todavia a palavra não me saiu da boca, chegou sem voz. Eu posso nem ser uma mulher. Quem sabe a Susana é apenas o João Pedro, ou o José do Carmo Francisco, mas com bigode. Que importava aqui – a autoria, ou o conteúdo? Para mim, sem dúvida alguma, contou a discussão e o seu subtexto.
Por isso, irei voltar ao tema. Para já, no entanto, faço uma concessão às retinas sensíveis no que respeita à exibição de alegadas cruezas. Agora, quem quiser ver a imagem terá que se sujeitar à ignomínia perversa do peep-show, e clicar no link abaixo. Assim, passamos a obedecer às leis da pornografia, escondendo o distrito vermelho suave e felpudo debaixo do lençol.

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Fala do roupeiro Vítor Sério em 1997

Sou eu que tenho a chave deste espaço
Onde guardo os sonhos mais fagueiros
De quem faz desta equipa um abraço
Num mundo de caminhos traiçoeiros

Nas vitórias o vendaval é de euforia
Nas derrotas chuva de palavras feias
Custam como o duche de água fria
Ao lado das camisolas e das meias

Pela minha parte tenho a psicologia
Do resgate da sua tristeza neste lugar
Lembrando que amanhã é outro dia
E no sábado há outro jogo para jogar

Depois é um quadrado de marmelada
À espera que ele vá activar a insulina
Para que a equipa não fique cansada
E viva os sonhos fechados na cabina

favas com chouriço

Ontem um comentador que tudo faz para vir para a nossa montra, e por tanto fazer merece-o, escreveu que são os comentadores quem comanda o aspirina. Diz que nós ainda não o percebemos. Mas engana-se: nós sabemos dessa grande verdade. É o povo quem comanda os elevados desígnios do aspirina e nós somos apenas os agentes eleitos (por boletim divino) para intermediar essa vontade.
Por ser verdade, e em sinal de reconhecimento, proponho um slogan abrilino: o Aspirina a quem o trabalha. Faz todo o sentido uma reforma. Se for como a nossa agrária, comentadores como este são valiosos, porque dão grande ajuda no enchimento de chouriços. Juntando a amabilidade gastronómica de nos mandarem à fava.
A culpa é da liberdade e suas sequelas. Porque, convenhamos, se não fosse o 25 de Abril, nunca teríamos chegado ao 26. É sempre do 26 que se faz balanços.

leve a Sete à Colômbia

As nossas amigas 8 e coisa 9 e tal precisam de levar uma das suas personalidades à Colômbia, para que possa defender tese de mestrado. Como não tem dinheiro para a viagem, as outras faces lembraram-se de dar uma ajudinha e pediram-me que colaborasse na divulgação da campanha. Um pouco de lirismo fica sempre bem e a boa-vontade nada custa. O tema da tese é nobre, o que ajuda à motivação. Tarde, mas ainda a tempo, aqui fica o apelo e toda a informação.

o poente do meu girassol

As churinas têm pétalas finas e compridas, rosa vivo, que abrem ao sol, expondo anteras carregadas de pólen. Em tufos baixos formam um tapete refulgente, verdadeira ode à primavera. No choupal, até à beira do riacho, a vegetação está densa. É bom levantar os pés acima das ervas que chegam, algumas, à cintura, e deixá-los cair no desconhecido emaranhado. Há três ruídos nos passos: o som amortecido da terra forrada de verde, o crepitar das folhas secas e o requebro de galhos partidos. Acima, o rumor das copas e o ritmado piar dos pássaros, em que um cuco marca o ponto. Os choupos, em noites de luar convidativo, desenham traços claros para orientarem os nossos movimentos na escuridão.
Por todas estas razões, o fim-de-semana passado ficará marcado em mim por três acontecimentos, competindo entre si em importância ou gravidade. Primeiro, as notícias da nova crise alimentar, determinada pela escassez de cereais, e que ditam a urgência de novas políticas agrícolas mundiais. A este propósito, lembro que temos um ministro da agricultura, embora nestes três anos ninguém tenha dado por ele. Segundo, o verão instalou-se repentinamente, com grande transtorno daqueles que não sabem onde arrumaram os fatos-de-banho. Finalmente, Daniel de Sá, o meu girassol, abandonou o Aspirina B.
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de fazer parar o trânsito

A rua é sossegada e o sentido único. Desisti de atravessar, na passadeira, ao ver que o automóvel vinha demasiado depressa. À última hora estacou. Seguiu-se ruidosa travagem de quem vinha atrás. Enquanto atravessava, o velhinho ao volante do primeiro carro dirigiu-me um sorriso apologético e baixou os olhos, envergonhado. Devolvi-lho, acenei que não, encolhi os ombros.
Atrás dele, de janela aberta, o homem novo meneia a cabeça, não e não, reprovador. Duas pregas fundas encimam-lhe a cana do nariz quando explode em direcção a mim:
A promover acidentes!

luxuriante

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No momento em que todos se roem porque não irão ver o filme do último sopro de Marylin, diverte-me o estatuto atingido pela pornografia. Retirada dos confins de cotão entre colchão e estrado de machos com muito a esconder, a exposição dos genitais passou ao trívio da trivialidade. Do hábito saudável de damas que ostensivamente não usam cuecas, por um bom arejamento (já dizia a minha madrinha que as pombinhas deviam andar ao léu sempre que possível), ao atestado de vulgaridade de herdeiras milionárias, o leitmotif do sexo está em tudo, especialmente na arte.
A artificação do sexo rebate o conceito de pornografia, como os orientais provaramalguns séculos. John Currin, capa da última Art Review,* mete no chinelo qualquer prosápia de um Jeff Koons na dessacralização do sexo. Pegando em clássicos da arte ocidental, e com evidente referência à sofisticação dos enquadramentos das gravuras orientais, Currin* seduziu o mercado com uma pintura opulenta de temas eróticos. O sexo vende e, no caso, a preços de seis algarismos. Quando há quem compare um felácio com um beijo com muita língua em números desta envergadura, e os nivele, já não podemos estar a falar de pornografia: o objecto perde relevância para o modo como é representado. Todavia é feito o aproveitamento da experiência comum da pornografia, a da atracção pelo voyeurismo. Aqui, sátira executada com rigor kitsch biedermeier.
Currin recicla o imaginário da idade de ouro da pintura figurativa, recorrendo à época dourada da pornografia, os anos 70, altura em que ainda deixavam pessoas feias, ou de aparência normal, fazerem-no. Nesta dupla apropriação, Currin mostra que sabe pintar, embora o recurso ao suporte fotográfico possa explicar eventuais dificuldades no escorço, aqui e além. Representa a textura da carne e embutidos de composição, como panejamentos e detalhes de natureza-morta, com mestria conservadora. Apesar do apelo das vanguardas e da suposta morte da pintura, o virtuosismo tende à legitimação pública.
Há, no entanto, um problema constante com a exibição do sexo. Pouco importando quão abertos possamos ser em relação à causa e suas causas, ao grau artístico da cena e seu carácter majestático, prevalece um mas. Um pudor relacional, resguardo que Currin explicita. Lamenta ter que proibir os filhos de entrarem no seu estúdio, e não poder discutir o trabalho apresentado com os pais, no clima apoteótico que inaugura as suas exposições. Mas o embaraço não o tolhe. E as imagens são uma delícia de dolce vita. Mesmo se não atingem a modernidade que encontrei em Lequeu. Descoberto aqui, em plena Aspirina.

*Links obtidos por cortesia da comentadora Marcel Duchamp.

purpurinas científicas

Uma senhora foi à escola falar sobre ciência. A Ciência Brilhante, contou-me o meu filho, valeu bem os dois euros que paguei, porque aprenderam muitas coisas. Aprenderam, por exemplo, que não é a poluição o que destrói a camada do outono; antes torna-a mais espessa. E depois é mau, porque a luz do sol vem e dobra para ali. Mas também não se sabe tudo sobre a camada do outono, porque ela não se vê. Parece que só se consegue ver por dentro a partir de um foguetão. O pior é se o foguetão acerta num sítio onde ela está muito grossa e forte, e faz barreira invisível e tau, o foguetão bate e cai para trás. O foguetão, filho, o foguetão não passa?! Ai, não ligues, pois, os aviões é que não conseguem passar, não é?
Conheço uma criança da idade do meu pequeno cuja mãe tinha um excelente método. O miúdo tinha dois anos e fazia muitas perguntas. Ela respondia o que é que achas que é? ou não sei, diz-me tu porquê. E ele congeminava qualquer coisa, quase sempre efabulações com sentido lógico.
Uma das coisas boas da aprendizagem é tudo ser ainda possível. Aviões a embater nas camadas do outono e a fazerem ricochete. Ou a descoberta de um intestino doce e outro salgado, pela filha de uma amiga. Do filho de outra chegou-me a poesia da água com gás, num sabor a pés dormentes. Quando lhes falta, completam os espaços em branco. A imaginação permite atribuição de sentido e, nela, o encontro de metáforas. A minha mãe sempre me disse, e com toda a razão: filha, quando não souberes, não fiques calada. Inventa.

a pequena altruísta

Há um ano foi o Gigante Egoísta, numa altura em que ainda liam por socalcos. Hoje, um cadavre exquis, jogo que entusiasma os meus filhos na escrita como no desenho. Folhas de papel já preparadas, divididas em doze faixas horizontais e com as dobras vincadas, asseguraram número igual de participações. Não conheciam o exercício, o que potenciou galhofa e catarse.
Surpreendeu-me o drama em crescendo próximo do momento da leitura. Todos queriam, zangavam-se, asseguravam o melhor desempenho. Alguém chorou porque o resto do grupo foi peremptório na recusa da distinção. Na mesa do meu filho discutia-se estratégias. Para as meninas deveria ser uma delas, pois todas eram fluentes, e tinham maior facilidade em reconhecer a escrita na caligrafia alheia. Dois rapazes ignoravam-nas e disputavam entre si o privilégio. O meu filho, a sentir-se anfitrião ou por temperamento, fazia cerimónia. E a menina de branco teve uma ideia.
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nota: nunca fazer as coisas à pressa sob pena de se ser obrigado a adendas e correcções

Os menos distraídos terão assinalado uma alteração ocorrida, ontem, na barra lateral do blog, secção Autores. Aparecem, agora, os nomes dos participantes sem qualquer distinção hierárquica. Isto aconteceu na sequência do pedido que o Fernando me dirigiu: que retirasse o seu nome e o do Jorge Carvalheira da coluna dos activos. Com este gesto caiu-me definitivamente a moedinha. Desde o anúncio da sua saída, surgido no blog, até aqui, e apesar de o Fernando, posteriormente, ter respondido à minha incredulidade reiterando a irreversibilidade da sua decisão, tudo me pareceu tão improvável que mantive alguma esperança; era apenas um capricho transitório, coisa de artista. Enganei-me.
Ao mexer nos arquivos aproveitei para efectivar outra mudança, já por nós decidida antes da saída do Fernando. O Daniel e o José tinham permanecido nesta condição, anterior à mudança de plataforma, por serem seus convidados. A Isabel tinha obedecido à mesma ordem de ideias. Mas não tinha sentido. Independentemente de quem administra, na página oferecida aos leitores os contributos equivalem-se. Todos concorrem para a diversidade que nos faz e que apela a quem nos lê, numa relação simétrica de heterogeneidade. O Fernando saiu, os seus convidados ficaram, mostrando a vontade de continuarem connosco. À medida dos desejos e do estar bem de cada um, um blog vai acontecendo. Uns saem, outros ficam. Outros ainda, por agora insuspeitos, poderão cá chegar. Um blog é egoísta e narcisico: antes do vosso, existe para nosso prazer.

quando a escola nos dá lições

O dia das meninas já tinha acontecido. As crianças agruparam-se de acordo com as amizades e o interesse pelos temas, e ninguém as obrigou ao conceito unissexo. Havia, então, grupos de meninas e grupos de meninos.
Nas cadeiras, dispostas em C ao fundo da sala, acomodaram-se os pais, e os meninos no chão, ao meio. Um painel de pequenos professores ordenou-se em frente do quadro. O primeiro contou que iam apresentar os seus projectos. À vez, foram avançando na explicação da metodologia, mostrando páginas A4 com campos detalhados onde iam organizando os objectivos, a informação obtida, os critérios a considerar, as apreciações sucessivas e faseadas, as dificuldades e soluções encontradas.
Depois, cada grupo apresentou o seu tema, iniciando-se sempre o título, pelos autores, num coro impecável. Cada grupo tinha um cartaz, com colagens de imagem e texto. Explicaram-nos diferentes funções do corpo humano. O aparelho digestivo foi complementado com uma representação “transparente” do tronco. Sobre esta iam colando fichas rectangulares, com massa adesiva, primeiro com a legenda das partes e, retiradas estas, com os nomes das várias triturações que vão acontecendo desde a comida às fezes. O aparelho respiratório foi ilustrado com uma experiência, utilizando alguidares e garrafas de litro e meio, cheios de água, e palhinhas. As mães participantes revelaram excelente capacidade respiratória. O sistema sanguíneo e o excretório foram outros projectos.
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