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Passos e os concursos de ideias

Quero propor-vos a introdução do debate, da crítica, do escrutínio, da participação, como princípios fundadores da reforma do Estado, incluindo do Estado social”, afirmou Pedro Passos Coelho, no encerramento das jornadas parlamentares do PSD, no Fundão.

Segundo o primeiro-ministro, “daqui para a frente, o nível de exigência e de vigilância da sociedade portuguesa sobre o modo como é gasto o dinheiro dos seus impostos e como é prosseguido o interesse público pelas instituições do Estado terá de ser muito maior”, e por isso é decisiva a participação dos cidadãos “num debate colectivo sobre as melhores soluções para ultrapassar este momento“.

Fonte

Lembram-se da abertura do PSD a propostas dos cidadãos para cortes na despesa pública? E lembram-se dos milhares de propostas recebidas? Então devem também lembrar-se do quão úteis foram para a rapidez de execução desses cortes, de tal maneira rápida que nos escapou completamente… Até sermos finalmente informados pelo ministro das Finanças de que são muito difíceis e devem ser bem pensados.
Pois, animado com o êxito da anterior iniciativa, Passos lança agora um novo convite à apresentação de sugestões de reforma do Estado social. Temos, portanto, a garantia i) de que a reforma será rápida e bem feita (ordem para rir) e ii) que o homem não tem a mínima ideia sobre o assunto e que não sabe o que há-de fazer sob a pressão dos seus correligionários, que lhe apontam o facto de os cortes não se inserirem em qualquer plano de reforma do Estado (tão matraqueada na campanha eleitoral). Pretende, por isso, ganhar tempo, lançando um diálogo fictício. E poeira, claro.

Comentadores

Agora que o governo patina, dando um trambolhão a cada duas piruetas, tendo já perdido a nota artística, os comentadores televisivos do PSD entenderam já ser tempo de mandar às malvas o princípio de não atribuir culpas ao governo anterior e de recomeçarem os ataques, agora em retroactividade (inclusive ad hominem).

As frases preferidas são já conhecidas: “Sócrates levou o país à bancarrota!” e “O estado em que o governo anterior deixou o país”, ou ainda “A dívida astronómica que herdámos” (Marcelo, Mota Pinto, José Eduardo Martins são alguns dos que ouvi estes dias). A cada três frases, lá metem o estribilho. Se dúvidas houvesse, esta é mais uma prova de que as coisas não lhes correm de feição, pelo que abandonaram as luvas e regressam, com algum prazer, diga-se, à técnica mais rústica.
A esses charlatões tenho apenas a dizer o seguinte: o governo anterior tinha sido o primeiro em décadas a baixar o défice para 2,8% do PIB. A redução da dívida seguir-se-ia, a par da redução da despesa e do aumento da actividade económica, como aliás se estava a verificar. Ninguém no governo andou a enriquecer à pala do endividamento. A crise de 2008, que levou inúmeras empresas a fechar por falta de encomendas, lançando milhares de trabalhadores no desemprego, obrigou a aumentar a dívida pública, sim senhor, e o défice, pois claro, como aliás em todos os países europeus, devido ao reforço dos apoios sociais e aos estímulos às empresas (lembram-se ou não?). A Parque Escolar foi mais uma das iniciativas para dinamizar a economia, com benefícios óbvios para os cidadãos.
Esta é a primeira parte.
Na segunda parte entram vocês, os grandes responsáveis pela espiral que nos levou ao precipício: Finais de 2009, eleições. Por razões que se prenderam com o desemprego e sobretudo as sucessivas campanhas de intoxicação da opinião pública, as calúnias e os ataques de carácter por vós perpetrados, Sócrates não obteve maioria absoluta. Para o exterior, a falta de uma maioria e de acordo político transmitia sinais de instabilidade. Juros começaram a subir perigosamente. O PSD, já com Passos e Relvas, salivava a cada subida (era, porém, preciso esperar até o Cavaco ser eleito). Na Assembleia, confirmavam-se os receios de instabilidade: todas as medidas de contenção da despesa – em matérias tão distintas como o ensino (carreira docente), as transferências para a Madeira, o aumento do IVA para produtos não essenciais como os refrigerantes e o leite achocolatado, etc., etc., etc. – contaram sistematicamente com obstáculos quando não mesmo com o bloqueio de vossas mercês e dos comparsas da extrema esquerda. Ainda este ano, o vosso avô amigo apregoava que “havia limites para o que o comum dos cidadãos pode suportar”. E agora têm a distinta lata de andar a dizer que o anterior governo não quis cortar nas despesas e que deixou descontrolar a dívida? Pois o certo é que, apesar da guerra movida, a despesa estava mesmo a baixar consideravelmente no primeiro semestre deste ano! A partir de agora é tudo a piorar!
Basta de mentiras. Afinal não foi o vosso ministro Gaspar que reconheceu, há dias, em entrevista, que o grosso dos cortes na despesa constava do orçamento de 2011? O exasperante disto tudo não é o Gaspar, pobre diabo – tem a sua visão do mundo a partir de bibliotecas e de uma poltrona dourada, que esperará por ele – é os jornalistas no estúdio nem ousarem interromper com o óbvio quem tão javardamente assim fala.

A Idade Média revisitada – os municípios e os principados

Segundo noticia o correspondente da BBC em Roma, as medidas de austeridade que determinam a fusão de municípios em Itália levaram já a que um deles, uma pequena localidade com 550 habitantes, na iminência da fusão com Trevi, declarasse a independência, cunhasse a sua própria moeda e estabelecesse um brasão. Possivelmente, se existirem muralhas, será fácil cobrar taxas aduaneiras…
Loucura, promoção turística ou desespero do autarca “deposto”, o facto é que a notícia corre mundo, neste momento.

Em Portugal, há municípios a mais, alguns ridiculamente próximos (5 ou 10 km), como Almeirim e Alpiarça, ou Mangualde e Penalva do Castelo (porquê estes? Ora, porque passei por lá há pouco tempo). Intervir neste domínio para cortar despesa é questão delicada em que este governo parece não querer entrar, apesar de tais medidas constarem do Memorando da Troika. A razão é ser o poder local quem alimenta a base eleitoral dos principais partidos políticos, temendo-se, por isso, conflitos intra- e interpartidários insanáveis, ou mesmo uma guerra civil, altamente inconveniente nesta altura. Mas não devia ser impossível.

Ainda e outra vez

Bom, assim vai a coisa:
Bastou o facto de se saber que Sócrates está vivo, activo, bem de saúde e com contactos políticos, ainda que mínimos, para se soltarem os tigres.

Ontem, fomos brindados com a “bosta” do director do jornal i.
Hoje, temos o Daniel Oliveira com a tradicional demagogia, cegueira radical e ataque ao principal adversário,
Como dantes. Nem falta o nome do bicho.

Partindo de uma triste frase do ainda mais triste António J. Seguro (“ficaria triste se o primeiro ministro do meu país fosse receber ordens da senhora Merkel ou do senhor Sarkozy“, snif), Daniel Oliveira decide investir contra o PS, começando, ora pois não, por Sócrates (carências!): “Mas o que raio fez José Sócrates, nos dois últimos anos, senão receber ordens de Berlim? Quem impôs as regras do PEC IV? Não foi a senhora Merkel? O que é o memorando da troika senão a institucionalização dessas ordens? O que tem feito o PS, nas últimas duas décadas, senão abdicar de qualquer discurso autónomo sobre a construção europeia e assumir uma postura umas vezes euroentusiástica, outras euroconformada?”

Há pessoas que têm de acordar: em primeiro lugar, hoje em dia (mas a história da Alemanha nem sempre foi gloriosa), toda a gente na Europa “recebe ordens” de Berlim. Até a França. Por outro lado, parece-me que há quem queira construir a Europa fora dela. Acontece que os países que a compõem, representados nas maiorias que os governam, são os interlocutores com quem temos de lidar. Não há outros. Em segundo lugar, nas últimas duas décadas, a Europa nem sempre tem seguido o mesmo rumo. A influência inglesa, as alterações do contexto internacional e os líderes têm sido factores determinantes no andamento desta “obra”. Daí as oscilações. Da Europa, dos socialistas, dos conservadores, da China, dos Estados Unidos, de toda a gente. Só quem faz da vida uma contestação e um berreiro permanentes é que não oscila. Está sempre bem e a salvo. Comprometido com coisa nenhuma. Apenas sujeito ao risco de extinção após breve fulgor.

Mas adiante: a alternativa de sair da Europa tem sido sempre pior, muito pior, do que a de ficar. E a força de Portugal para impor seja o que for num Conselho em que predominam dirigentes de direita, ou que fossem de esquerda, é bastante reduzida. Isto não é conformismo. É outra coisa e depende dos protagonistas. Sócrates, por exemplo. Este homem gostava do seu país. Não o entregava sem luta, ou ardis/salvaguardas, à Alemanha ou à Espanha, conformado com a nossa triste sina de pobrezinhos, ignorantes e obedientes (veja-se o que agora faz a dupla PPC/Gaspar às empresas públicas estratégicas, com entusiamo e convicação tudo vendendo ao desbarato, prestando autêntica vassalagem, estando-lhe a conjugação de salazarismo com neoliberalismo no subconsciente e Cavaco em Belém). Pelo contrário, Sócrates tudo fez para transformar o país, modernizá-lo, dar-lhe ambição e distingui-lo no contexto europeu e internacional. Por isso, merece o meu aplauso. Enquanto isso, o Bloco protestava.
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Pérola do jornal i

Este artigo não é inacreditável? Ora leiam.

Não é pela notícia de que José Sócrates se encontrou com Zapatero e a seguir com Angela Merkel. Por mim, é um prazer saber. Já tardava. Em andanças pela Europa? Boa!
São antes as apreciações, deduções, especulações, insinuações, associações que pontuam a notícia. Abjecto.

Mais transparente não há, de facto

De Espanha, como já vem sendo hábito, o primeiro-ministro informou-nos hoje que

«os problemas detectados na Madeira entraram “no desvio de dois mil milhões” identificado pelo Executivo.

“Não existe nenhuma notícia nova. Portanto, no processo que foi detectado de desvio de cerca de 2.000 mil milhões de euros no primeiro semestre conta-se cerca de 500 milhões de euros com origem em duas operações na Madeira”»

Fonte
Lê-se ainda que

mal esse desvio foi detectado foi colmatado por medidas de reforço do programa português”. “Na sequência desse exercício, a troika mostrou-se satisfeita pela transparência com que o processo ocorreu e pelas medidas que visam colmatá-lo”.

Fonte

Ou seja, o desvio era conhecido há muito, lançou-se um imposto extraordinário para, em grande parte, pagar as dívidas da Madeira, sem nunca as mencionar, deixando-se no ar a ideia – falsa, como se comprova – de que se tratava de prevenir. Sinceridade e transparência total, portanto.

E mais: “pela transparência com que o processo ocorreu?” Só pode estar a brincar. A Troika disse mesmo isso?
Apenas hoje foi tornado público este desvio “colossal” nas contas madeirenses! O governo andou a encobrir Alberto João, ao mesmo tempo que lançava suspeitas sobre o governo anterior. Se a Troika considera este processo transparente, o que quererá dizer transparência na Europa central?

Método altamente científico no Ministério da Educação

Se bem me lembro, as ideias de Nuno Crato para a educação, antes de ser ministro, assentavam em três pilares: fazer implodir o Ministério da Educação, ou seja, eliminar (ou seria substituir?) a maior parte dos seus funcionários, reduzindo-lhes a influência perniciosa (sendo verdade que o PCP tomou de assalto despudoradamente este ministério depois do 25 de Abril), rever de alto a baixo os programas de ensino e impor maior rigor na avaliação dos alunos.

Para já, o que me é dado observar é um ministro aos zigue-zagues, que traçou como estratégia inicial a conquista das boas graças dos sindicatos, convencido de que havia que ultrapassar esse “obstáculo”, mostrando-se demasiado temente e receoso da contestação, com isso aparentando ter perdido o Norte, acreditando nós que o tinha. Se exceptuarmos, como medidas tomadas, o aumento de horas lectivas para o português e a matemática e a reintrodução de mais alguns exames, o que se vê é a ausência de qualquer referência a conteúdos programáticos e o esquecimento total do aumento de rigor.

Na avaliação dos docentes, matéria por excelência (na cabeça do ministro) para vencer o dito obstáculo sindical, tem sido grande a desorientação. Se, há duas semanas, ficavam de fora os docentes dos escalões mais elevados, medida muito contestada por oportunista, hoje lê-se que afinal vão ser avaliados. Tratar-se-á de uma reviravolta que teve em conta as críticas, denotando grande insegurança e falta de rumo, ou de uma manobra estudada?

Aguardo com expectativa os desenvolvimentos. O anúncio da exclusão da avaliação de um terço dos docentes e as subsequentes críticas podem ter servido para permitir a alguns virem para os jornais e televisões dizer que não, não concordam com facilitismos, e que sim, gostariam imenso de ser avaliados… O que é meio caminho andado para a ausência de contestação.

Seja como for, com a excessiva reverência aos sindicatos, anda-se a perder tempo na educação e a não consolidar, ou mesmo a desbaratar, o muito que já foi feito, quando os resultados das recentes eleições poderiam servir de âncora a medidas positivas, como a continuidade de uma avaliação séria dos docentes e uma maior autonomia das escolas. Ora, esta opção de Crato surpreende, porque, se há coisa para que os resultados eleitorais têm servido é, aliás, para o governo acelerar todo um rol de medidas, essas sim gravosas, altamente contestáveis ou simplesmente erradas.

Acabar com o passe social??

Se isto for verdade, não está na hora da revolução? De uma qualquer. Este governo passou-se.

Duvido muito que haja algum país no mundo onde existam transportes colectivos em que não seja possível a um cidadão qualquer, rico, pobre ou remediado, comprar um título de transporte válido por um mês, com vantagem em relação a quem compra um bilhete por viagem.

O desvio. Mas que desvio? O desvio.

O PSD adoptou, como estratégia geral para a justificação das medidas mais duras de pendor puramente ideológico e até experimentalista, a menção da existência de um desvio nas contas públicas, da responsabilidade do anterior governo, ao qual alude sistematicamente em termos nebulosos, e, como estratégia particular para a Assembleia da República, a invocação desse desvio, adjectivado ou não, sempre que pretende calar as críticas da bancada do PS (enfim, as até agora “elegantes” objecções, salvo raras excepções – João Galamba, Basílio Horta e poucos mais).
Se o PS questiona o imposto extraordinário, atira-se-lhe com o desvio. Se questiona a descida da TSU, lá vem o desvio. O aumento do IVA? Desvio. Qual desvio? O que vem nos jornais. Mas qual? O que engloba as dívidas da Madeira e a capitalização do BPN? “O desvio que nós decidimos, não chateiem”, parecem dizer. E não há direito a perguntas em conferências de imprensa. Ora, a execução orçamental do primeiro semestre não mostra qualquer desvio, muito pelo contrário. Isto é sabujice descarada.

O nojo de estratégia seguida pelo PSD, e também pelo CDS, nos últimos seis anos prossegue. Está-lhes na massa do sangue. Mentem sem quaisquer escrúpulos, inventam, fingem que são muito dignos, muito transparentes, mas insinuam, acusam indirectamente, não olham a meios, manobram nos bastidores. Agora que têm a maioria depois de um autêntico golpe de Estado assente na intoxicação da opinião pública, entendem que tudo lhes é permitido. Veremos até quando. Entretanto, o país vai-se afundando, o que é trágico.
O “desvio” invocado a propósito de tudo e de nada apenas pretende desviar, sim, mas as atenções do autêntico “assalto à diligência” do Estado a que todos os dias assistimos pelos filiados, amigos e colaboradores no festim do assassinato de Sócrates.

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Diz agora o Relvas que descobriu numa sala do IDP facturas no valor de mais de 6 milhões de euros não contabilizados. O que é isto? É verdade? Falou com os responsáveis anteriores? Ou é só mais lama?
Tenho a impressão de que o governo se despachou a deixar-nos zonzos com o saque aos nossos bolsos para poder ir de férias (e o Passos, ainda é primeiro-ministro?) e deixar o Relvas a traficar (Crespo e sabe-se lá que mais manobras) e a escrever guiões de filmes classe B…, como o da sala assombrada.

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Alguém viu por aí a ministra da Justiça?

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O ministro da Educação mostra-se tão tão receptivo, afíbrico mesmo, que até os sindicatos já perceberam que a porta está completamente escancarada e é só ir entrando… O ensino vai voltar à cepa torta de antes de 2005. Uma tristeza.

Radicalismos alentejanos

“Não trabalhamos com arroz”. O que pode retorquir uma pessoa que se senta esfomeada num restaurante de Évora para saborear a sua feijoada quadrimestral ao obter esta resposta inesperada do empregado a quem sugere que se terá esquecido do arroz? Ups?

Faço parte dos 50% de portugueses (estimativa muito conservadora) para quem o molho da feijoada com o arroz branco vale 80% do prazer e para quem, quando a carne propriamente dita não abunda, aquelas partes gordurosas do animal que por lá se apresentam no prato são meros condimentos (para mim, uma espécie de males necessários).

Conformada com a minha sorte e engolindo os feijões guisados ao som da marcha fúnebre mental “sim, mas não é a mesma coisa”, dei por mim a pensar qual seria a razão da adopção de tal princípio gastronómico. É certo que da ementa apenas constavam pratos como sopa de cação, pezinhos de coentrada, migas e outras coisas ligeiras, como febras com batatas fritas e sericaia. Seria a fidelidade radical aos produtos tradicionais da região? Mas a zona de Alcácer e a Comporta e os seus arrozais não ficam assim tão distantes! Será o proprietário alérgico?
E o feijão, já agora? Poder-se-á afirmar com segurança que é produto muito típico da região? Em que escala de tipicidade? Consultando rapidamente as enciclopédias, aprende-se que a leguminosa Phaseolus vulgaris, importada da América do Sul há poucos séculos, “prefere solos de texturas ligeiras a medianas, bem drenados, leves, ricos” e que “é uma espécie exigente em água”. Será o caso do Alentejo?

Os fundamentalismos desiludem-me e este por maioria de razão, tendo em conta o estado de faminta expectativa. Atendendo a que, na mesa ao lado, alguém português que pedira febras manifestou igualmente o desejo de arroz, obtendo a mesma resposta, não seria aconselhável fazer encabeçar a ementa com o aviso de que o restaurante não “co-labora” com este tipo de gramínea em nenhum dos conjuntos de ingredientes confeccionados? E acrescentar que, ali, ama-se o porco até à loucura?
Já a cidade de Évora valeu o desvio.

Último voo para Madrid

A deslocação do novo ministro Álvaro à capital espanhola foi a primeira etapa do procedimento que conduzirá, finalmente, à adjudicação da construção dos troços em falta da ligação de alta velocidade a Madrid. Para grande indignação deste promissor deputado laranja. Vale a aposta?
Sendo a construção da linha inevitável perante a perda de fundos europeus, as indemnizações aos consórcios já seleccionados e o imbróglio jurídico com os espanhóis caso os portugueses desistam, o Álvaro foi tratar de preparar a opinião pública para mais uma quebra de promessas/ propósitos eleitorais. E que promessa! O verdadeiro casus belli da penúltima campanha eleitoral. O que provocava apoplexias à doutora Manuela.

Para continuarmos a rir, a segunda etapa do procedimento, anunciada para Setembro (mas pode também ser em Novembro, sabe-se lá), consistirá em decidir que a obra avança e que a culpa é da irredutibilidade dos espanhóis, da irreversibilidade do processo e, como não podia deixar de ser, do Sócrates, aquele teimoso irresponsável que decidiu cumprir um acordo internacional no âmbito das redes transeuropeias com claras vantagens para o país e que implica, forçosamente, um destino final relevante para os comboios que partam de Madrid.

Mas, no ar, atenção que há nuances, Álvaro deixou a pairar a ideia do transporte exclusivo de mercadorias a partir de Sines. Duvido muito que os espanhóis aceitem. E nós, potenciais passageiros? Quereremos ver-nos na situação humilhante de, apeados, assistir à passagem das mercadorias todas larocas a caminho de Madrid e da Europa, obrigando-nos a acenar por um lugarzinho naqueles contentores? Nã. Até Setembro, o Álvaro ainda voltará a confirmar com os espanhóis (bastará por telefone) que “no es no” para a exclusividade das mercadorias.

Em breve, pois, iremos ver o Álvaro a despachar este assunto em altíssima velocidade, frisando embora que o faz “em articulação com as autoridades espanholas”.
E assim o tema pode ter feito a última viagem aérea para Castela.

Europa, carteira e 112

Eu sei que já cheira mal falar da Europa, mas não há como escapar do facto de a União Europeia estar a chegar à sua última encruzilhada nesta crise. A Espanha e a Itália entraram no processo irreversível de subida das taxas de juros, não havendo medidas de contenção da despesa que lhes valham. Em Espanha não sei até se ainda sobram algumas. O ministro das Finanças alemão e a líder do FMI começaram ontem a dizer o que sempre têm dito de cada vez que um país se abeira do precipício, ou seja, “não está prevista, nem será necessária qualquer ajuda a Espanha ou a Itália”. Começamos a estar cansados destas afirmações, destinadas a acalmar mercados que não têm a mínima intenção de se acalmar.

Segundo Paul de Grauwe, economista belga ultimamente muito citado, a UE tem de reformular-se de alto a baixo, revendo os tratados, e o BCE funcionar como a FED norte-americana, com poderes para imprimir moeda. De outra maneira, o problema dos juros não se resolve.
Pergunto-me se os alemães não estão apenas a protelar qualquer decisão mais drástica – nomeadamente o fim da moeda única – para que os seus bancos consigam recuperar o máximo que emprestaram, antes de se fecharem na sua resplandecente galáxia, de onde dirigem os seus súbditos europeus, e reintroduzirem o marco com o mínimo de perdas possível.

Com estas perspectivas negras e agitadas, os cerebrozinhos que nos governam e que continuam a acreditar que assim é que é, só exangues veremos a luz do crescimento, deviam deixar de parasitar a carteira das classes média e média-baixa portuguesas e ter, eles sim, alguma contenção no entusiasmo do saque. Aumentar os transportes públicos daquela maneira e, ao mesmo tempo, não em alternativa, cobrar taxas à entrada das grandes cidades é ir verdadeiramente depressa demais no seu mandato como comissão liquidatária.

Por outro lado, efectuar uma chamada falsa para o 112, ocupando assim a linha, para comprovar a existência de 5 ou 6 segundos, repito segundos, de espera a mais no atendimento de uma chamada (aquela, claro está) em plena Assembleia da República, transformando isso numa estatística nacional instantânea, com direito a televisão e tudo, demonstra grande estupidez.

Perguntinhas a granel

1. Este governo apregoou que não ia desculpar-se com o anterior para justificar medidas duras. Mesmo assim, já fez algumas tentativas e continua (ver aqui e aqui). Não resultaram. Não tem nada a apontar, não foram descobertos quaisquer esqueletos nos armários.
Não se está mesmo a ver que a ideia é mostrarem-se os campeões dos bons princípios, ou seja, levar o povinho a pensar que muito haveria a apontar (embora seja mentira) e que só não o fazem porque assumiram um princípio e o respeitam?

2. A propósito das diferenças (para o triplo) entre os salários dos motoristas ao serviço de Passos e dos motoristas ao serviço de Francisco J. Viegas, lê-se no DN: “Fonte oficial da Cultura classificou o cenário como “normal”, de acordo com “uma uniformidade de critérios”, que pode não ter sido seguida pelas restantes pastas quando forneceram os dados”. Ler notícia aqui

Que critérios? Quer isto dizer, se bem entendo, que os motoristas de Passos ganham mais e que a informação publicada sobre os seus salários é falsa?

3. O papa resolveu puxar as orelhas a D. Policarpo chamando-o ao Vaticano, por ter ousado afirmar que “não há obstáculos teológicos à odenação de mulheres”. Ler aqui
Parece que já não é a primeira vez que o cardeal-patriarca se manifesta nesse sentido. A questão só me interessa do ponto de vista sociológico e cultural, note-se. Mas mesmo assim gostaria de saber o que lhe aconteceria se tivesse mantido a sua opinião?

O sempre escandaloso BPN…

Ontem, apercebi-me de que Mira Amaral percorreu quase todos os canais televisivos para cantar em tom falsamente humilde (mais do que explicar) a sua gloriosa aquisição do tristemente famoso banco. À cabeça, o BIC paga 40 milhões de euros, mas o Estado pagará as indemnizações aos 750 funcionários dispensados. O argumento do senhor era que não podíamos esquecer que a alternativa era o banco fechar portas e toda a gente ir para a rua (repetia isto até à exaustão) e que, quem sabe?, talvez as entrevistas com os potenciais dispensáveis afinal os transformassem em indispensáveis (!), reduzindo o número de dispensados (canta bem, mas não alegra). Ora, há aqui umas coisas que me parecem estranhas: primeiro falou-se no BIC, depois falou-se na desistência do BIC. Depois houve notícia de um grupo de investidores portugueses interessados (e também o Montepio), que pagavam, no mínimo, 100 milhões de euros e não despediam. Por que razão não foi aceite esta proposta bastante mais interessante? Não sabemos. Só sabemos que, de repente, o BIC voltou e com o negócio fantástico fechado. Os 40 milhões nem chegam a sê-lo quando descontadas as indemnizações.
Atendendo às ligações deste senhor com o cavaquismo, é de desconfiar. É possível que não tenha havido melhor oferta mesmo, que os outros se tenham retirado, etc., mas gostaríamos de saber, não era?

Pobrezinhos mas honrados (cheira a mofo por aqui)

O jogo sujo de caça ao poder do último ano e meio produziu os frutos desejados, levando ao poder quem irresponsavelmente tudo fez para lá chegar. Foram eleitos com ampla maioria. Têm legitimidade para governar. Mas, penso eu, nem todos os portugueses que alinharam no jogo e cujo desfecho aplaudiram tinham uma ideia clara do que verdadeiramente os esperava.
Estes últimos meses têm sido como se rolássemos quase tranquilamente num comboio Eurostar rumo a Calais e à travessia. Neste momento, porém, com as medidas anunciadas a nível laboral e da função pública, já podemos ver uma imagem mais nítida do túnel a aproximar-se. Apesar das viajens sob a Mancha decorrerem presentemente sem problemas, cumprindo-se rigorosamente os 20 minutos debaixo de água até à luz, nem sempre foi assim. No princípio, eu própria por duas vezes fiquei “submersa” a centenas de metros de profundidade mais de quarenta minutos devido a avarias imprevistas.
Assim está Portugal. Ou pior. À beira de um túnel totalmente desconhecido e sem quaisquer garantias de segurança. À escala correspondente, se cada 5 minutos valerem um ano, sem contar com imprevistos, tão depressa não emergiremos. Com a agravante de tais imprevistos, atendendo às incertezas várias que pairam sobre a evolução da UE, poderem ser considerados duras provações e mais que prováveis, passe a incongruência. A receita da Troika, consonante com a prática do FMI em qualquer parte do mundo em que exista risco de incumprimento, implica austeridade, cortes, despedimentos e redução de salários e de direitos para os trabalhadores. Tem resultados conhecidos – recessão económica, instabilidade social, desmotivação, desespero, venda do país ao desbarato. E de tal maneira esses resultados são conhecidos (Irlanda, Grécia, mas também Argentina e muitos outros, que, apesar de tudo, tinham moeda própria) que não se compreende como gente que estudou economia e finanças em boas universidades e sobretudo observa a situação política actual defenda convictamente esta via, que sendo desastrosa, apelidam de necessária para o crescimento. Como? Questiono-me se amam o seu país. Haveria que ter evitado isto. Custasse o que custasse, nem que o preço fosse um adiamento da chegada ao poder. Continuar a lerPobrezinhos mas honrados (cheira a mofo por aqui)

Quando é que sabemos que o governo do PSD/CDS está em apuros?

Quando o presidente da República dá uma entrevista a um jornal a criticar o directório franco-alemão, acusando os dois países de se substituirem às instituições europeias e afirmando que existe na Europa uma deriva intergovernamental. Foi ao Expresso. Não tenho link.
Tem graça que não lhe ouvimos nada de semelhante nos últimos dois anos e, no entanto, o problema já era conhecido e as suas consequências já se sentiam em Portugal.

Pois…

“”Debates com Passos não serão de vida ou de morte

Depois da primeira reunião com a bancada socialista como secretário- geral do partido, António José Seguro, declarou aos jornalistas que os futuros debates parlamentares com Passos Coelho não serão de “vida ou morte” ou para “marcar pontos”, afirmando que deseja que sejam produtivos e esclarecedores.
Sobre o debate parlamentar da próxima sexta-feira com o primeiro-ministro, Seguro disse aguardá-lo “com muita serenidade”, afirmando que está “convencido de que decorrerá com elevação e com elegância”, onde irá afirmar quais são as posições do PS sobre temas lançados por Passos Coelho.
Para Seguro, os debates quinzenais que terá no Parlamento com Pedro Passos Coelho, serão esclarecedores: “Os portugueses esperam que os seus mais altos representantes estejam à altura de um debate digno e que falem sobre os seus problemas concretos
.”

Fonte

Bom, pela parte que me toca, elegância seria o último desígnio em que apostaria para um debate com o governo neste momento. Sobretudo perante a catadupa de atropelos, desrespeito de promessas (falo da sobretaxa, mas também da propalada transparência nas nomeações), decisões erradas (como o aumento exorbitante dos transportes públicos, em detrimento de desincentivos ao uso do automóvel (como taxas à entrada das cidades, que reverteriam para os transportes públicos, por exemplo)) contradições e insinuações (o desvio) desta fase inicial do mandato. Seguro está a pôr-se já à defesa e faz muito mal. Tanta coisa que podia dizer aos jornalistas, como, por exemplo, «Vamos ver, há muita matéria com que confrontar este governo, como os senhores bem sabem», ou «Vamos lá a ver, este governo tomou posse apenas há um mês, mas muitos portugueses já se questionam sobre a forma e o conteúdo de algumas medidas», ou ainda «Seremos dignos e construtivos, mas a prestação de contas é parte fundamental da democracia». E preparava-se para o combate verbal. Note-se que estas alternativas de resposta aos jornalistas não deixam de ser todas suaves, ou serenas, como Seguro gosta. Ah, e elegantes. Agora, dizer que os debates, não é este em concreto, é não serão (nunca? até quando? até daqui a 4 anos?) uma questão de vida ou de morte demonstra acanhamento, pouco empenho e falta de ambição, deixando o protagonismo para outros partidos, que bem o aproveitarão, e só não é meio caminho andado para o enxovalho porque do lado de lá está um PM muito pouco brilhante.

Quando o desnível também ofende

Ontem, ao ver estas cenas, pensei que alguém se ia levantar e ir embora do estúdio. Tal não aconteceu. Mas foi uma oportunidade para Mário Crespo usar e abusar do tom seboso, pretensamente conciliador (tantas vezes bajulador), com que dirige aqueles debates e que nos faz desejar que aqueles minutos de serpenteio viscoso passem depressinha (isto quando o entrevistado merece a nossa paragem naquela estação).

Se Alfredo Barroso, apesar da argumentação certeira e pertinente, se deixou exaltar demasiado sem necessidade, Teresa Caeiro mostrou-se em todo o seu esplendor: de uma vacuidade confrangedora, “tia” até dizer chega, incapaz de se olhar politicamente ao espelho e, no geral, mal-criada e com observações despropositadas, como a do “chafurdar na lama” (!).

Tanta mansidão

O que se está a passar com a reestruturação da administração da Caixa Geral de Depósitos, já devidamente criticada por Pedro Santos Guerreiro, que lhe chama um Albergue Espanhol, e outros comentadores da imprensa, devia merecer a mais contundente crítica da oposição, PS incluído. Mas não ouvi até agora uma única palavra partidária oficial sobre isso. Ontem, com a polémica já instalada na imprensa, no Telejornal ouvi zero sobre o assunto. Ocorreu-me até que o princípio do “respeitinho” que a privatização da RTP está à porta é o que agora dita os alinhamentos.
De acordo com o que tenho lido, todos os quadrantes do governo designaram um seu representante para a nova administração da CGD, o Presidente da República também e os interesses privados ligados ao PSD idem. Conflitos de interesses parece haver vários – desde escritórios de advogados de que são clientes grandes grupos económicos até administradores de empresas da área da saúde. Trata-se de um assalto ao tacho demasiado ostensivo para se deixar passar em claro. A Caixa é um banco público e os seus dirigentes são pagos com dinheiro dos contribuintes. Passos Coelho, que apregoou extrema contenção e combate às clientelas, não se ensaiou duas vezes para aumentar com elementos da sua confiança política, a que nunca chamará “boys”, o número de membros do Conselho de Administração do banco do Estado. Irão estes gestores/administradores preparar o terreno para a privatização? Colher os últimos frutos enquanto é tempo?

Gostaria de ver o governo confrontado com as perguntas incómodas que se impõem. Seria fundamental para começo de “conversa”. A táctica deste governo parece ser a do silêncio até onde for possível. Nunca mais se ouviram Álvaro ou Assunção. Gaspar só interveio mais uma vez depois da célebre conferência de imprensa que anunciou a sobretaxa do IRS. E outra vez, com a solenidade de uma leitura. O ministro da Saúde anda desaparecido, em retiro certamente. Passos não se ouve. Dir-se-ia que toda esta gente teme ser confrontada com perguntas. Mas lá vão cumprindo a praxis habitual. Uma oposição forte precisa-se. Seguro acaba de ser eleito Secretário-Geral do PS e, no seu jeito manso, declarou-se em público amigo pessoal de Passos. Amigo, amigo, portanto. A parte do provérbio que reza “negócios à parte” não convence. Tenho as mais fundamentadas dúvidas sobre a sua capacidade para confrontar este governo com a devida acutilância e desde já.