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Descaramento total

Como evitar que Portugal se transforme num país de velhos sem esperança, quando o bronco número dois deste governo insiste em mandar lá para fora os mais novos e mais qualificados (deduzimos que com plena noção de que por lá assentarão arraiais e por lá se reproduzirão), elogiando-os até por tal serviço prestado?

Ao conversar com jovens portugueses, em Maputo, “tive grande orgulho naquilo que vi e ouvi”, perante um “outro tipo de emigração”, diferente da dos anos 60, com destino à Europa.

“Esta é uma emigração muito bem preparada. Nós investimos significativamente nos últimos 20 anos numa geração e hoje não lhes damos aquilo de que eles precisam, que é o emprego”, referiu.

Em Moçambique, com aqueles jovens, Miguel Relvas disse ter ficado “com a sensação de que pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão”.

Fonte

O charme improvável de Celeste

No pacote de seis premiados por este governo com um enorme tacho na EDP , figura a doutora Celeste Cardona. Esta senhora deve ser extremamente competente e versada, ou algo de muito meritório deve ter feito em prol do seu partido, o CDS, ou não seria tão encaminhada para os mais variados cargos nos últimos 10 anos. Ela própria se deve surpreender. E orgulhar. Não é qualquer um que é sistematicamente a escolha natural. Depois de ministra da Justiça no governo de coligação de Durão Barroso, saltou para a Administração da CGD e agora para o Conselho Geral e de Supervisão da EDP, a par de Catroga, Teixeira Pinto, Braga de Macedo e Ilídio Pinho, todos prestadores de altos serviços. Dir-se-ia que o CDS não tem mais ninguém a quem recompensar para preencher a sua quota-parte nos super-lugares partidários? Perguntar não ofende.

versa fiada

Júlio Magalhães tem uma relação especial com Marcelo e “a direcção não quer que o professor se vá embora da TVI”, explica ao JN uma fonte do canal de Queluz de Baixo

Já vi a expressão “uma relação especial” ser utilizada em muitos contextos (o amoroso é dominante), mas, neste, só pode significar uma coisa: Júlio Magalhães gosta de dedicar a parte final do seu telejornal a fazer de boneco, aceitando ser pago para isso. O professor é um palrador com ar simpático, não fora a política. Mas, de facto, todo o pivô que aceite sentá-lo à sua mesa na condição de abrir a boca duas ou três vezes, apenas para introduzir os temas da comentarice dominical, ouvindo passivamente e sem a mínima réplica (aparentemente como cláusula contratual) os frequentes dislates e basófias de Marcelo, está deliberadamente a deixar os seus créditos jornalísticos atravessar um troço arriscado. Foi o que aconteceu com Ana Sousa Dias e Maria Flor Pedroso (ainda que esta ensaiasse, de vez em quando, ligeiros contrapontos). Ambas recuperaram dessa travessia, mas lembrar-nos-emos sempre da figura que fizeram. Presumo que não haja na TVI quem mais se queira prestar a esse papel (?). Ou então a afabilidade de Júlio Magalhães ou a sua admiração por Marcelo casam tão bem com as pretensões deste último que lhe dão o direito de exigir a sua manutenção no papel. Sob pena (acabo aqui, recorrendo à técnica estilística do blogger Maradona).

(Nota: Vou passar a escrever segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Profissionalmente, estou obrigada a isso desde 1 de janeiro. Além disso, também na escrita pessoal, não me causa qualquer repulsa. No texto supra, nem foi necessário alterar nada.)

Inteligência: ou se tem ou não se tem

Neste miserável ano de 2011/2012, em que um governo sem qualquer outra estratégia para o país que não seja a dos cortes cegos e do empobrecimento com vista a uma mão-de-obra barata assumiu o poder, vale a pena ler esta entrevista dada ao jornal i por uma destacada cientista/matemática portuguesa a trabalhar nos Estados Unidos, Irene Fonseca. Entre outras coisas, diz ela:

Ir para o estrangeiro tem sido aliás um apelo dos nossos governantes para enfrentar esta crise. Para si é um apelo que faz sentido ou fica angustiada com a eventualidade de o melhor de Portugal sair de Portugal?

Desculpe, não percebi a pergunta. Os governantes aqui encorajam os nossos a saírem?”

(…)”Nos EUA, há uma grande preocupação nossa e também da administração vigente com a investigação científica. Entre os cortes que têm sido feitos, a Nacional Science Fundation, tem sido poupada. Ao contrário, o nosso orçamento está a ser aumentado.”

(…) “Dou-lhe mais um exemplo: o Google foi um projecto sem calendário nem prazo financiado pela National Science Foundation e o resultado desse projecto é um instrumento que toda a gente usa. Era um projecto de três indivíduos que fizeram uma proposta, obtiveram financiamento e apresentaram resultados. Isto exige uma aposta do Estado. Claro que há um risco, mas há sempre qualquer coisa de bom que sai da investigação”.

Sem ciência, não há desenvolvimento. O objectivo de competir com a China ou com a Índia no tipo e nos custos de produção revela uma estratégia demissionária, classista, insensível e, além do mais, condenada ao fracasso. Alguém tem ideia de quais as áreas da ciência em que este governo gostaria de apostar para que o país possa figurar no mapa de países civilizados, para que exista uma via alternativa ao marasmo e para que não se perca o avanço conseguido nos últimos anos? Um governante como Passos que não dá o mínimo sinal de gostar (muito menos de se orgulhar) do seu país e da sua gente nem tem a inteligência suficiente para incentivar (incluindo financeiramente) o que de melhor há e o que de melhor se faz ou poderá fazer por cá não merece o lugar que ocupa. Aldrabão sem pátria, foi para o governo para pôr a ganhar dinheiro a maioria de empresários patos-bravos que vota PSD e que nunca deixou de por aí andar.

O rendado aberto da lei das rendas

A demissão do Estado, ou a “democratização da economia”, parece ter começado em grande com as novas disposições em matéria de arrendamento, mas, estranhamente, numa lógica muito pouco liberal. Não existe o sacrossanto mercado neste caso concreto da actualização das rendas mais antigas. Senhorio e inquilino são encarregados de “democratizar a economia”, tendo o privilégio de dar aplicação ao novel conceito engendrado pelo governo.
O princípio subjacente ao que foi anunciado é o de que são os senhorios e os inquilinos quem deve regularizar, entre si, a actualização da renda. O valor de mercado do imóvel não entra em momento algum da peça, nem li ainda em lado nenhum o que se prevê para o problema muito presente, premente e concomitante das obras de renovação.
Caso concreto: um inquilino paga actualmente 50€ por uma habitação antiga, com boa área, mas degradada. O senhorio poderia propor-lhe, por achar justo para cobrir eventuais despesas com obras, 300€ mensais. Sabe, porém, que, se o inquilino não aceitar, ao pô-lo na rua, terá de pagar-lhe uma indemnização de 18 000€ (e por alminha de quem?). Muitos proprietários possuem não só um, mas vários fogos em situação semelhante, o que obrigaria a multiplicar 18 000 por X. Por isso, antes de propor 300, o proprietário pensa nas consequências e propõe apenas 150. Se o inquilino aceitar, duvido muito que o senhorio aceite fazer obras (e o que diz a lei quanto a isso?). Se não aceitar, o senhorio poupa umas coroas na indemnização e o inquilino vai à procura de outra casa, imaginamos que por 100€, ou pelos mesmos 50€, muito mais pequena ou muito mais longe. Mas nada disto continua a ter em conta o valor real de mercado da habitação em causa. Porquê?

Os que beneficiem de rendas antigas e não provarem a sua incapacidade financeira, vão ter em breve a sua renda atualizada“, lê-se no jornal. E os que provarem essa incapacidade? O senhorio mantém-lhes a renda? Aumenta, e o Estado paga a diferença? Ou o senhorio vai negociar a renda com o Estado?

Por que razão tem sido difícil, até agora, mexer na lei da actualização das rendas? Porque grande parte do ónus caberia ao Estado – pessoas idosas, com baixos rendimentos, são quem habita os prédios mais antigos e, em caso de aumento substancial das rendas, seria o Estado a sustentar o diferencial, ou o novo alojamento dos despejados, para não ser acusado de desumanidade e de práticas anti-constitucionais, uma vez que os proprietários, e bem, entendem não ser responsáveis pelo congelamento das rendas, sendo antes suas vítimas, sentindo-se até, na maioria dos casos, reféns dos inquilinos. Além disso, a denúncia do contrato por parte do senhorio, mesmo que fosse para requalificação do imóvel ou a sua venda, contra a vontade do inquilino, esbarrava sistematicamente com processos morosos e a tradicional lentidão da justiça.

Sem contestar que a lei do arrendamento urbano precisava de uma valente reforma, aliás já prevista pelo anterior governo, as novas disposições parecem-me algo bizarras, do tipo “entendam-se!”, que estamos com pressa. Estou curiosa quanto à sua aceitação pelos proprietários e prevejo uma avalanche de processos no novo Gabinete do Arrendamento.

Não me digam que também têm medo de pedir explicações ao alemão

Confesso que não sei se penso que as palavras do deputado do PS Pedro Nuno Santos sobre a utilização da “bomba atómica” contra os credores alemães são, de facto, exageradas e inaceitavelmente radicais. Depois de ouvir as proferidas pelo presidente do «Bundesbank» e também membro do Conselho do BCE, apelidando os países em dificuldades na Zona Euro de “alcoólicos” a quem aliviar o garrote é o equivalente a acreditar no pedido de um último trago de um ébrio incorrigível, a ideia de não pagar e de dizer aquilo e muito mais ganhou bastante pertinência.
Esteve bem a RTP ao alinhar as duas notícias em sequência, no Telejornal, embora, na altura em que discursou, Pedro Nuno desconhecesse as declarações de Weidmann. Que aliás permitiram olhar a “ousadia” do deputado com outros olhos.

Acho mesmo inadmissível que nenhuma autoridade portuguesa, e já agora de outros países do sul, exija um pedido de desculpas a Jens Weidmann, o ariano.

Neste jogo não vale tudo e sabemos perfeitamente que a hipótese de não pagamento ou de renegociação da dívida por parte de alguns países, ou mesmo a hipótese de abandono da moeda única, causa extrema apreensão, para não dizer pânico, aos países ricos do euro e aos seus banqueiros. Cada um joga com os trunfos que tem, ou não? Na realidade, a guerra foi-nos declarada na última cimeira e a ocupação está totalmente em curso.

Mas, ainda que sob ocupação ou por causa dela, não devemos ter medo de pôr tudo com clareza em cima da mesa, inclusivamente da mesa do Conselho Europeu. Os próprios irlandeses, pela voz do primeiro-ministro, já mostraram não considerar tabu a ideia de abandonar o euro por via de um referendo ao novo pacto de estabilidade, versão de Dezembro 2011.

Encontramo-nos neste momento, seguindo obedientemente a receita alemã, sem qualquer perspectiva de futuro, por mais défices que corrijamos e austeridade que imponhamos. Solidariedade, com declarações como as de Weidmann, não é vocábulo compatível com epítetos como “alcoólicos”. E solidariedade não é caridade. A criação do euro nos moldes em que foi feita foi um erro. De todos. Os desequilíbrios enormes entre as economias dos países já existiam e a moeda única não os apagou: disfarçou-os por uns tempos.

Assim sendo, parece-me que, esquecendo o tom irado e agressivo do deputado do PS, alguém tem de defender os interesses do país, começando por defini-los e equacioná-los face à conjuntura que se vive. O governo de Passos pensa que os interesses da economia portuguesa são exactamente os mesmos da alemã. Poderiam até ser, noutro tipo de Europa com outro tipo de gente, mas acontece que não são, e as palavras do presidente do Banco Central alemão são inaceitáveis.

Barreira dos 7%

Lembram-se de ouvir dizer que o governo Sócrates devia ter pedido “ajuda” antes, nomeadamente quando os juros da dívida pública a 10 anos atingiram os 7%, sendo a recusa a causa mais apontada pelos direitolas para o “estado a que chegámos”? (pobres demagogos)
O safado irresponsável não quis saber. Continuou “levianamente” a resistir, com o aval da UE.
Agora, o “safado irresponsável” do Mario Monti, numa altura em que a Itália já está obrigada a pagar 6,47% pelos empréstimos a 5 anos e mais de 7% a 10 anos, também não está a pedir a “ajuda” da Troika. Um criminoso, portanto. Um irresponsável. Não é? Se não, porque será?

“Os mercados accionistas abriram negativos, mas as quedas agravaram-se depois da emissão de dívida italiana, que, pelo prazo de cinco anos, teve de pagar 6,47%, – um nível de juros incomportável a longo prazo. Desde a cimeira Europeia da semana passada, os juros das dívidas soberanas não dão qualquer sinal de correcção.” (do Público)

Conforto não lhes falta – Passos fala estrangeiro

Vamos lá a saber. Como interpretará a grande maioria da população do nosso país as seguintes palavras do primeiro-ministro, ontem proferidas para as televisões:”o Governo está absolutamente confortado com a proposta” (feita pelo ministro da Saúde)?

Contexto: aumento das taxas moderadoras e “plafond” ainda não atingido.

«Questionado se os aumentos das taxas moderadoras que estão previstos não poderão deixar portugueses sem acesso à saúde, o primeiro-ministro respondeu que “não” e que “o Governo está absolutamente confortado com a proposta” feita pelo ministro da Saúde.» (ler no DN)

Lembramo-nos tão bem de quando Sócrates não queria pagar a dívida

Nem baixar o défice! Tudo começou a tornar-se claro por volta de 2007/2008, ia o governo com mais de dois anos de exercício e satisfeito da vida com o défice herdado, de 6,3%, quando, de repente, se deu conta de que o mesmo caíra para uns escandalosos 2,8%! Como fora possível? Sócrates não queria; achava que ter um défice elevado era bom, significava que Portugal poderia num dia glorioso avistar-se da Lua: as suas obras sumptuosas, douradas, faraónicas seriam o cartão de visita do planeta! E ele, o seu responsável.
Mas enfim, azar, aconteceu. O défice baixou. E que fez o nosso homem? Ouviu dizer que rebentara um escândalo em Wall Street, umas vigarices valentes, uns “subprime”, uma bolha imobiliária que rebentara e que, diziam-lhe, estava a causar um tsunami na Europa, com fecho de empresas e quebra acentuada das receitas. Viu ali então uma ocasião única para voltar a elevar o défice e aumentar a dívida para níveis mais compatíveis com o seu gosto e as suas teorias económicas extravagantes, que, sabe-se hoje, assentam no princípio de que quanto maiores as dívidas dos Estados melhor, e que as dívidas não são para pagar em nenhuma circunstância. Esta informação chegou-nos directamente de Poitiers, com o selo de garantia do Correio da Manhã. Não ouvimos o mesmo que o director do jornal nem o orador o confirmou, mas, se eles o dizem… vamos discordar porquê?

Foi assim que, apesar das ordens estritas da União Europeia para que nenhum Estado-Membro apoiasse a economia e que, nos diferentes países, se deixassem as empresas em dificuldades ir à falência – caso da Alemanha, que deixou imediatamente falir a Volkswagen -, Sócrates, teimoso, insistiu em aumentar os apoios aos desempregados e conceder incentivos à economia, prevendo, inclusivamente, investimento público para compensar a falta de investimentos privados e não deixar morrer a economia. Tudo, claro, contra as directrizes da Comissão que até nem tinha adoptado um pacote de medidas de estímulo intitulado “Plano de Relançamento da Economia Europeia”.

Contente por finalmente estar a conseguir aumentar a dívida e o défice para valores totalmente do seu gosto, e não vendo, não vendo mesmo, tão enebriado estava com os gastos sumptuosos, que os especuladores começavam a encontrar na zona euro um filão promissor e potencialmente inesgotável, começou a pedir à oposição que lhe desse todo o apoio possível ao aumento do endividamento. Foi isso, não foi? E aí, ironia!, constatou que a dita oposição, sim, lhe dava todo o apoio : não queria impostos, não queria sacrifícios, havia limites! Ele queria gastar mais e eles até alinhavam!
Só para contrariar, porém, e contra tudo o que pensava, até mesmo contra as novas directrizes da União Europeia, Sócrates começou a reduzir a despesa e a seguir uma via de maior austeridade, através dos PEC.

E a oposição? Uns, que não, que não podia ser, que havia direitos adquiridos. Outros, que não, que assim não, que havia maneiras simplicíssimas de cortar na despesa, que não se justificavam aumentos do IVA, nem cortes de 5% nos salários, nem suspensão das transferências para a Madeira, nem escalões no ensino. Que fariam melhor e mais rápido sem sacrifícios para os portugueses, que já se sentiam no limite.
Transpostos estes argumentos para o megafone do presidente da República e depois para o das televisões, tomaram o poder.

O resto da história e os limites da austeridade já são de todos conhecidos.

Mas aventesmas como esta ou Freitas ou Henrique Monteiro do Expresso e outros pulhas, que até admitem que a crise é sistémica e que a sua origem nacional é altamente discutível, continuam a debitar que Sócrates foi o responsável pelo estado a que chegámos, agora revigorados pela descoberta de que, para ele, as dívidas não se pagam (o que desde a primeira hora do seu governo se demonstra, não é?) e, portanto, os défices não se baixam. Até quando vamos ter de aturar estes vómitos?

Dissidentes do BE…

…chamam “institucionalizados e parlamentarizados” aos militantes da facção actualmente dominante no partido (Fonte). Sendo então os que lá estão os finos e acomodados, podemos esperar a formação de um partido de rua, à margem das instituições? É desta que vamos ter o nosso Outubro Vermelho, camaradas?

Folgo, no entanto, em saber que alguma coisa mexe no reino do Louçã ou pós-Louçã ou anti-Louçã. 200 são muitos!

Perguntas inocentes no rescaldo de dois assuntos

1. Havia ou não havia uma vontade imensa de entrevistar José Sócrates? A mini-entrevista de ontem foi quase nada, mas, apesar disso, ouvi o jornalista Carlos Daniel na RTP-I a dizer que, se soubesse que Sócrates dava entrevistas, ele e muitos outros jornalistas também gostariam de o ter entrevistado! Impossível de esconder a invejinha de Isabel Damásio, ah, ah!
Espantoso o fascínio de Sócrates e o interesse pelo que terá a dizer (apesar dos gritos histéricos, que Freud explica).

2. Back to Brussels: Será que a Alemanha e a França estão convencidas de que o reforço, a generalização e o maior controlo das medidas de austeridade vão mesmo convencer os “mercados” a acabarem com a especulação? Não é hoje que o euro explode, mas os mercados na segunda-feira vão dizer como é. No fundo, não quererá mesmo a Alemanha acabar com isto tudo?

Ia já longa a madrugada em Bruxelas quando, após nove horas de negociações intensas, os líderes dos 17 países do euro fizeram divulgar uma declaração conjunta em que se comprometem a seguir o essencial das propostas franco-alemãs de reforço da disciplina orçamental. Angela Merkel queria que as novas regras ficassem inscritas na “pedra”, ou seja no Tratado de Lisboa e no quadro jurídico da União Europeia e das suas instituições.

Ou, lido em inglês, no site da BBC:

“Even so, the main impact of these changes will be in the long term.

Last night’s historic agreement has little to say about debt, about the absence of growth, about the European economies that continue to grow apart.

The major test will be whether a commitment to budgetary discipline frees up the European Central Bank to act more aggressively in the markets and so lower the borrowing costs of troubled countries like Italy and Spain.

The head of the ECB, Mario Draghi, was circumspect last night, saying only that the agreement was “going to be the basis for a good fiscal compact and more discipline”.

Freitas: onde está a decência?

Freitas ontem à noite

Depois de várias reviravoltas políticas, que passaram pela criação do CDS após o 25 de Abril, pelo abandono do partido mais tarde, o que lhe grangeou o estatuto de persona non grata no Largo do Caldas e levou à cena caricata da retirada da sua fotografia das paredes, por uma candidatura à Presidência da República, uma passagem pela AG da ONU e pela participação em governos de diferentes cores, nomeadamente no primeiro de José Sócrates, do qual saiu, não em conflito (embora quem pudesse ter razões de queixa (políticas) fosse Sócrates), mas devido a problemas graves de saúde, Freitas do Amaral decidiu atacar o antigo primeiro-ministro com a mais descarada das ligeirezas e o mais descarado dos populismos e, direi eu, oportunismos. Este ataque já data de há uns meses, bem antes das últimas eleições. O tempo suficiente para que a cambada que agora nos governa o considere digno do lugar de presidente do conselho de administração da Galp. Pois é.

Freitas, como a direita rasca que nos calhou em sorte, tem proferido afirmações verdadeiramente incompreensíveis para quem deveria ter mais, muito mais do que dois dedos de testa. Freitas faz completa tábua rasa das circunstâncias em que Sócrates foi forçado a governar desde 2009, após uma campanha sem paralelo de ataques pessoais, da crise internacional do subprime, cujas consequências já então se sentiam fortemente aqui na Europa, da gravidade de uma eventual recusa de formar governo nessa altura crucial e da abertura de uma crise política, das directrizes da União Europeia no sentido de se incentivar a economia, da inversão brusca dessas mesmas directrizes mal a Alemanha resolveu o seu problema e mal começou a especulação em torno do euro, do comportamento velhaco das oposições.

Crespo, que não perde uma que alimente o ódio contra o ex-primeiro-ministro, convidou-o para o Jornal das 9. Claro que o pretexto foi o lançamento de um livro (estamos no Natal, afinal!).
Imagino que Portas não ache muita piada à nomeação de Freitas para a Galp, sendo por isso conveniente carregar os tons das acusações ao anterior governo. No balcão do Crespo, Freitas aproveitou o vídeo da palestra de Sócrates em Poitiers para desferir mais um golpe completamente oportunista, baseado numa deturpação propositada das afirmações de Sócrates, e ridículo, pois qualquer pessoa percebeu que o problema de que falava o conferencista era o do pagamento das dívidas de alguns países a um ritmo de mata-cavalos. Era o problema da necessidade de desenvolvimento dos países. Era o da diabolização das meras dívidas!
Freitas não é burro ao ponto de não o perceber. O problema dele, como resulta claro, é o que o move. E aí, não se vislumbra nunca nada de muito edificante. Um distinto catedrático que perdeu mais uma boa oportunidade de se distinguir da podridão.

Verniz intergovernamental

Segundo os planos mais ou menos conhecidos da chanceler alemã, os países que celebrem o novo pacto de estabilidade do euro vão ter de submeter-se a uma disciplina orçamental rigorosa (para nós, maior do que a actual), não autónoma, controlada a nível da Comissão (ou assim parece), e os desvios e incumprimentos serão punidos pelo Tribunal de Justiça Europeu. Estes planos baseiam-se, claro está, no princípio teutónico dos santos e pecadores, totalmente discutível, até por grandes sumidades internacionais, e que, aliás, já começa a perder consistência com a transformação dos primeiros dos santos, os Santos dos Santos, em pecadores como os outros, quiçá mortal e suicidariamente pecadores. Mas esse princípio foi plenamente abraçado e é repetidamente defendido pelo nosso actual primeiro-ministro, que precisa de justificar a falta de qualquer desígnio de desenvolvimento para o país com os “pecados” do seu antecessor que agora haverá que expiar e pagar. A senhora Merkel é tão-só o farol que o ilumina. Um triste, sem qualquer orgulho próprio (é certo que não tem motivos) nem nos cidadãos que governa.

No caso concreto do Portugal pecador (para perceber os nossos pecados, basta ler o post do Valupi intitulado “A culpa é dos faraós”), e no que toca a um possível desenvolvimento económico que nos tire dos infernos, exceptuando as migalhas que algumas empresas alemãs ou francesas benemeritamente aqui quiserem investir (digo benemeritamente, porque, bem mais perto das fronteiras alemãs, existem paraísos de mão-de-obra barata, como a Roménia, a Bulgária, a República Checa, futuramente a Croácia e a Sérvia, etc., bem mais barata do que a nossa e com melhores acessos ao núcleo duro da Europa), como não há crédito, as perspectivas são as de os nossos investimentos apenas poderem decorrer da riqueza gerada a nível interno. Ou seja, em plena recessão e a afundar-nos, nenhuns. Nas nossas circunstâncias, sem crédito para ideias luminosas devido às pobres perspectivas causadas pela recessão, e sem mercados europeus para onde exportar, dada a austeridade generalizada, restar-nos-á o quê?
O espartilho do euro vai condenar-nos à maior e mais longa miséria de que há memória. E em regime de subjugação política. Há uns tempos, falava-se que o abandono do euro por parte de um Estado poderia ter um efeito arrasador nos restantes sócios desta abstrusa empresa. A ser verdade, e se em vez de um (Grécia), forem dois a ameaçar sair (e porque não a Itália?), não estará aí uma poderosa arma de pressão a nosso favor? Iremos ser chantageados na próxima cimeira. Tens alguma na manga, Passos? Ou baixas as orelhas? É que o que nos propõem não acende a mínima luz ao fundo do túnel. Do que li, não há cenoura a acompanhar o chicote. E os nossos interesses não são os da Alemanha. Nem os dos eleitores da senhora Merkel, nos quais, como sabemos, não nos incluímos.

Só pode revoltar, por isso, o que lemos sobre as ideias do ministro das Finanças alemão, citado pelo Jornal de Negócios, e o “elogio” hipócrita e paternalista que dispensa a Portugal e à Irlanda.
Não percebe ou não quer perceber que o problema da zona euro é actualmente o seu fraco crescimento, impossível de inverter com políticas sacrificiais de empobrecimento.
Não será na sexta-feira, mas um dia o verniz estala.

Momentos altos de televisão

1. Ontem, na SIC-N, Mário Crespo conversava com Maria João Avillez sobre a entrevista de Passos. A conversa prosseguia amena, como não podia deixar de ser, com Maria João a controlar mais do que o habitual o tom laudatório com que comenta as intervenções deste filho de médico. Mesmo assim, às tantas, pergunta Crespo, não se contendo: “Estaremos perante um novo Sá Carneiro?”
Devo dizer que a resposta esteve muito longe, tão longe do Sim, que foi um enfático e repetido Não… Tontice nem sempre é sinónimo de burrice.

2. Também ontem, noutro canal, o deputado Carlos Abreu Amorim, que, devido à sua compleição física, tem riscos de enfarte, mostrou como se disciplina para preservar a saúde e a receita é muito simples: não pronuncia o nome de José Sócrates em nenhuma circunstância. Tendo jurado a si mesmo que não o faria, mesmo quando parece incontornável para efeitos de acusação, ontem cumpriu e não o fez. O resultado foi hilariante. Valha-nos Zeus, que o peso das superstições ligadas a Satanás ainda é grande.

O pior da fruta: um cerejo e Verde

Lemos há dias que o Público estava com dificuldades de ordem financeira e que até iria reduzir o salário dos colaboradores. Talvez para aliviar o sufoco vendendo uns exemplares valentes, encomendaram uma “investigação” ao jornalista Cerejo, o que tem como dossiês exclusivos ora Sócrates ora António Costa (mas, com tantas qualidades investigativas, não se percebe porque nunca lhe deram o caso BPN).
Hoje calha a vez a Sócrates, o grande objecto do seu ódio. E o que “investigou” o jornalista? O processo académico de Sócrates na Independente, aproveitando a saída de um livro. Grande ponto de interesse do artigo: O antigo administrador da Independente, e autor do livro, diz ter consigo os originais dos documentos que serviram de base à investigação do DCIAP.
Primeira pergunta de qualquer leitor: E são discrepantes em relação às cópias? Parece que não.
Segunda pergunta: E porque não os entregou na altura? “Ninguém mos pediu”, responde Verde.
Se continuar por esta via dos “scoops” ocos, o Público extingue-se, o que é de lamentar, porque ultimamente estava francamente parecido com um jornal decente.

Quem pode derrotar Obama para o ano? Angela Merkel.*

* Piada que circula nos EUA e referida neste artigo da BBC sobre a reunião de Obama, Barroso e Van Rompuy em Washington.

A irritação com a Alemanha já não se limita à Europa. Aguarda-se com grande expectativa o resultado dos “cozinhados” franco-alemães.

Apesar de o Ministério das Finanças alemão ter desmentido que a Alemanha tenha um plano para mutualizar a dívida dos países (ainda) com notação AAA (neste momento, seis), deixando os restantes na periferia (na pocilga?) a que pertencem, não custa muito imaginar que soluções desse tipo estejam a ser seriamente ponderadas pelo “Eixo”. O que nos leva, ou deveria levar, a pensar no nosso próximo destino.

Este governo que não mude de discurso, não (e, já agora, o Seguro). Um dia destes o país é atirado borda fora do euro e estas vénias humilhantes à senhora Merkel vão parecer ainda mais ridículas do que já são.

Eu até gostava de ser primeiro-ministro

Rui Rio considera que “não é possível termos um poder político forte e capaz quando na comunicação social as pessoas são denegridas permanentemente e são julgadas na praça pública de uma forma perfeitamente arbitrária”.

Notícia completa

Concordo. Mas o que leva Rui Rio a fazer estas afirmações agora? Se está a referir-se a casos como o de Duarte Lima (ou qualquer outro cidadão a braços com a justiça), evidentemente que o comportamento da comunicação social é infame, embora comercialmente compreensível, mas menos infame, por exemplo, do que o dos agentes da justiça que lhe fornecem as informações “preciosas” e que são as verdadeiras fontes da boataria e das meias verdades. O que Rui Rio não deixa de reconhecer. Mas Duarte Lima não é um político no activo. Há anos que não exerce qualquer cargo. Então?
Se está a referir-se a Sócrates, seja bem-vindo, mas já vem tarde. Na altura, como o próprio afirma, “até achava graça”, não era?

O facto de, ao ler a notícia, ter imediatamente imaginado na cabeça de Rui Rio estes dois casos deve-se claramente à proximidade do primeiro e ao exemplo flagrante e escandaloso de ataque insuportável que o segundo constituiu. Mas a amálgama é incompreensível. Confundir acusações de burlas de milhões e de homicídio com montagens de origem política, com um objectivo bem preciso de abater um adversário é não ajudar nada à desejável separação de águas.

Eu sei, dirá que não estava a referir-se a nenhum caso concreto, mas o problema é que, se houve político que foi denegrido e injuriado na comunicação social foi Sócrates, e com tal força que ainda hoje a mera menção do seu nome leva muita gente a afiar os punhais, pelo que, mesmo não aludindo a ele, é impossível não o incluirmos na nebulosa que emana das palavras de Rio. Rui Rio, embora pense que não, está assim também a contribuir para o “caldo” de que o seu próprio partido é corresponsável.
De fora da nebulosa estará, certamente, para Rui Rio, Cavaco Silva e o arranjinho com o Público pouco antes das eleições de 2009 com vista à propagação do boato de que a presidência andaria a ser ilegalmente escutada pelo anterior primeiro-ministro. Esse quadro, efectivamente, assusta e desmotiva.
As acusações genéricas, confundindo tudo, têm o efeito contrário ao pretendido por este, por vezes ingénuo, Rui Rio. E perpetuam a ineficácia da justiça ao cegar a opinião pública.

Obviamente que as discordâncias da ala não neo-liberal do PSD, na qual se inclui Rio, em relação à política impiedosa e experimentalista do actual governo levam o presidente da Câmara do Porto a pensar com os seus botões se não teria apoio suficiente para liderar o partido e correr com os estarolas. Homem, pense nisso. Mas olhe que uma coisa são insultos, insinuações e calúnias a políticos, luta política rasteira (não confundir com os casos de polícia – Duarte Lima e Oliveira Costa) e outra bem diferente são críticas. Estas terão toda a razão de existir numa sociedade democrática. Por vezes fica-se com a sensação de que Rio também não está preparado para críticas.

Céus, Portugal não é um laboratório

Vítor Gaspar estudou durante uns anos uns livros de economia e agora ofereceram-lhe um povo – nós – para poder aplicar, à letra, a título experimental, a matéria estudada.

“Questionado por Fernando Medina, do PS, sobre qual o impacto no crescimento económico das reformas estruturais, Gaspar respondeu que “é uma pergunta difícil” e continuou: “Não existe metodologia que permita quantificar com qualquer grau de rigor o impacto deste tipo de políticas no crescimento”.
Segundo o ministro das Finanças, “a evidência empírica sugere que os impactos podem variar muito fortemente de país para país”,
etc.

Fonte

Quando for corrido, ainda estará agarrado à página 24 sem compreender porque não o deixaram aplicar a metodologia específica ali enunciada, que, segundo o autor, é espectacular.

Num país perto de si

Ouvinte belga, hoje, em declarações a uma estação de rádio, onde um painel de políticos justificava a ruptura das negociações para o orçamento: “Parem de discutir. Não estamos em altura de respeitar princípios. Elaborem o orçamento e esqueçam os princípios.”

Estas frases traduzem bem o que se passa hoje em dia em grande parte da Europa. Cada vez mais países têm de encontrar soluções governativas sob a espada de Dâmocles dos especuladores. Os partidos de esquerda, de facto, estão perante o dilema de 1) manterem intactos os princípios que subjazem aos seus programas eleitorais, sob pena de os militantes e simpatizantes não se reconhecerem nas respectivas lideranças, ou 2) de os abandonarem, ainda que aos poucos e a contragosto, sendo acusados de indiferenciação em relação à direita.

Na Bélgica, com uma dívida próxima dos 100% do PIB, mas gozando, por enquanto, de uma boa situação económica, as negociações para a formação de uma coligação governativa apenas se concluíram ao cabo de mais de um ano após as eleições, mas, enfim, concluíram-se. Agora, negociava-se o orçamento para 2012, sem o qual não haverá (e bem) governo empossado. O resultado revelou-se um fracasso. Sem acordo possível, o hipotético futuro primeiro-ministro bateu com a porta e apresentou a demissão ao rei.
O problema qual é? São vários. O problema de fundo é que esta coligação foi formada contra o partido mais votado na Flandres, a NV-A, que, por ser independentista, ficou de fora, ao boicotar sistematicamente as primeiras negociações para a coligação. Unia-os, portanto, um inimigo comum. No entanto, quando encetam a primeira acção conjunta, que consiste na elaboração do orçamento, as divergências emergem, como não podia deixar de ser. Os socialistas acusam os liberais de quererem acabar com o sector público (hospitais, educação, prestações sociais) e de não aceitarem, por outro lado, taxar as grandes fortunas. Os liberais dizem que não. Já assistimos a isto.
Nos países em que a cizânia se instala (convém dizê-lo – porque a esquerda ganhou), os eleitores, fartos, têm vontade de mandar calar os políticos e de dar uma oportunidade aos técnicos de contas. Para terem um pouco de silêncio?

Assim se vai corrompendo a democracia por força dos “mercados”. Podemos daqui tristemente concluir que o mundo financeiro, após a crise de 2008, ganhou ainda mais poder. Assim, num país perto de si, e porque a falta de dinheiro do Estado, real ou demagogicamente exagerada, assusta toda a gente, ouvirá fatalmente, por estes tempos, onde quer que se desloque, falar no novo modelo de governos tecnocratas como o último grito em governação. Para já, por diferentes motivos, a população parece estar receptiva. É uma novidade. Pena ser só para alguns. Mais adiante se verá. Os juros não parecem estar a baixar nem na Itália, nem na Grécia, nem em Espanha, nem em Portugal, sob o comando de Gaspar. Os tempos são de grande expectativa e impotência. Aqui, na gaiola do euro.