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Espécie de primeiro-ministro

Qualquer nação que tem amor próprio não anda de mão estendida“, diz Passos, esta espécie de primeiro-ministro.
Quer-se dizer: quando havia que, “custasse o que custasse”, evitar a vinda da Troika e o “estender da mão” devido ao tal “amor próprio”, esta leviana criatura andava a brincar à conquista do poder “custasse o que custasse”. Agora que custa verdadeiramente muitíssimo e que o país se afunda a cada hora que passa, vem falar na nação, no amor próprio e na necessidade de evitar jugos. Alguém no Parlamento que lhe atire com um tomate, please.

Subsídios de férias e de Natal

Alguém será capaz de explicar decentemente por que carga de água os despachos relativos à contratação de adjuntos pelo Governo têm mencionado (e continuam a mencionar) que estes têm direito a subsídio de férias e de Natal? E por que razão nalguns casos já denunciados o “lapso” foi corrigido e noutros se apresenta o argumento de que não é necessária qualquer correção porque está pressuposto que não terão direito a eles enquanto durar o programa de assistência económica e financeira? (E agora em tom de Consultório Jurídico) Como controlar o cumprimento prático dessa subentendida norma?

Ainda a propósito de subsídios cortados, no todo ou em parte, na função pública, a dona Ana Avoila, o senhor Bettencourt Picanço ou o sindicalista Mário Nogueira onde andam? Na anterior legislatura fartavam-se de chinfrinar e vociferar para as câmaras (é daí que os conheço), mas agora parecem extremamente “confortados” com o quase supremo ataque ao funcionalismo público (apenas um grau abaixo dos despedimentos).

Da impossibilidade de uma alternativa

Que a Alemanha possui o recheio e a chave do cofre europeu, todos sabemos. Que, por isso, e enquanto a sua situação económica for boa, não tem interesse em alterar o rumo da política europeia por si definida, também sabemos e, imaginando-nos alemães, até compreendemos, apesar de não termos de nos resignar, não sendo nós, de facto, alemães e sendo o nosso interesse diferente. Que Portugal está temporariamente subjugado pelos atuais credores e sem margem para não cumprir os termos do acordo de empréstimo sob pena de entrar em bancarrota também não há grandes dúvidas. Mas que estas circunstâncias anulem a luta política interna já não é compreensível. O atual governo, se governa mal, deve ir embora. Se diz mentiras, inventa desvios colossais e comete erros flagrantes na elaboração do orçamento, deve suscitar um clamor de revolta e ser corrido na primeira oportunidade.

Ainda ontem, Passos disse cínica e ambiguamente que não deixaria de cumprir um acordo que não negociou. Ora, todos sabemos que, não só não deixa de o cumprir por se identificar com ele (nas suas próprias palavras), como também o ultrapassa em dureza, declarando repetidas vezes, e com grande entusiasmo e frieza, ir “ainda mais longe”, o que só nos pode levar a concluir que, fora ele a negociá-lo, o acordo seria ainda mais violento para a população. Donde, a expressão “o acordo que não negociou” não passa de veneno sobre os seus antecessores, lançado de uma maneira parva e reles. Não só o PSD participou nas negociações como também não foi dada qualquer hipótese ao anterior governo de não ser ele a negociá-lo, como pretendia Sócrates, que, de modo sábio mas incompreendido, tudo fez para o evitar.

Voltando ao primeiro parágrafo, a nossa situação de escravizados não pode nem deve impedir a constituição de uma alternativa interna a este governo. E aqui discordo do que diz Porfírio Silva no final deste seu post Reflexões em voz baixa. Não falando já no princípio da igualdade na distribuição dos sacrifícios, bastante desrespeitado neste momento, e que os socialistas poderiam garantir melhor, ou no radicalismo neoliberal da dupla Gaspar/Passos e a sua visão, deslocadamente salazarenta, dos trabalhadores e dos apoios sociais que a oposição pode e deve combater e, uma vez no governo, repudiar, há também as características pessoais de quem governa e de quem pode vir a governar. Esta tropa fandanga que tomou de assalto o executivo com base em mentiras é leviana, socialmente insensível, experimentalista usando cobaias humanas e focada no dinheiro, perfeitamente confortada com o facto de este não ter pátria e de Portugal, irremediavelmente, fatalmente, convenientemente pobre, dever enxotar os seus miseráveis habitantes para longe e ser posto à venda. Francamente, não me parece difícil propor uma alternativa aos portugueses. Assim haja um líder à altura.

Pode ser que, noutros países europeus onde os governos de direita não estejam a implementar medidas tão radicais e recessivas como em Portugal, as oposições sociais-democratas ou socialistas tenham alguma dificuldade em encontrar um discurso e políticas alternativas convincentes (no entanto, mesmo em França, tudo parece indicar que a simples mudança de personalidades agrada ao eleitorado). O caso de Portugal é diferente. Este governo quer desmantelar o Estado (exceto os cargos que ainda pode distribuir pelos amigos) e os serviços públicos, propósito verdadeiramente raro na Europa, e ainda mais raro no próspero Norte. O governo de Sócrates, ao mesmo tempo que procurava o rigor orçamental sem cair em desregulamentações ultraliberais, pressionava a Europa (na realidade a Alemanha) para que, reconhecendo o esforço de ajustamento, desse condições de crescimento ao país. As críticas ao atual líder do PS prendem-se com o facto de não fazer uma defesa clara dessa linha de atuação (ou, se a defende, apresenta-a como nova, nunca reconhecendo mérito a quem já se bateu por isso e pagou um elevado preço), linha essa que é a única que, ainda hoje, faz sentido: um ajustamento gradual tendo em conta a crise brutal de 2008 e ao que ela obrigou, acompanhado de estímulos à economia. Seguro não defende o legado positivo do governo anterior, nem quando atacado pelo atual de maneira mentirosa ou demagógica. Com tanta matéria criticável na atuação de Passos e seus sócios, Seguro mostra-se no geral pactuante, hesitante e receoso de fazer ondas. Merece ser criticado e duramente. Além de não ter qualquer carisma nem visão própria para o país. Neste momento, e dando de barato que o abandono do clube do euro é uma impossibilidade (perspetiva que pode mudar perante um sufoco sem fim à vista, dependendo da situação a que chegarmos dentro da moeda única), é para todos claro que a situação internacional obriga a um completo rigor orçamental. Mas rigor orçamental não é sinónimo de desmantelamento do Estado nem de empobrecimento programado. É aqui que deve entrar um bom líder da oposição, que se mostre genuinamente crítico do fundamentalismo dos atuais governantes e convicto de saber fazer diferente para melhor, o que, repito, não me parece difícil. E que lute por isso. Não é de todo o caso do atual secretário-geral do PS.

Inépcia política total

Repare-se bem no que diz Seguro sobre o programa imposto à Madeira:

“É “um acordo entre familiares do PSD, que aplica àquela região autónoma a mesma receita do Continente, isto é, empobrecer”, disse o líder socialista, acrescentando que a Madeira “vai ser duplamente prejudicada” com esta opção.”

Fonte

Ou seja, começando por dizer que é tudo em família, o que nos prepara para uma conclusão de que os madeirenses sairiam beneficiados para lá do razoável, Seguro surpreende-nos depois dizendo que se trata de uma família, sim, mas, desafiando toda a lógica, uma que gosta de empobrecer, que terá aparentemente feito uma espécie de pacto de empobrecimento (!), concluindo estranhamente que a Madeira vai ser duplamente prejudicada. Enfim, um quadro em que Jardim ou não existe ou não encaixa.

Seguro prova mais uma vez que perspicácia política é coisa de que, já tendo ouvido falar, não possui. Para efeitos políticos, toda a população do continente concorda que se imponha um programa duro à Região Autónoma da Madeira. Mais: dificilmente aceitaríamos que Jardim manhosamente “se safasse” com os seus esquemas habituais e ameaças separatistas. Em suma, o governo marca aqui um ponto aos olhos dos eleitores do continente. Quem não vê isto, é burro.

Nesta questão da Madeira, se Seguro não tem uma posição claramente entendível (conhecendo-o, admito que ande ali a navegar entre defender o povo madeirense – que, convém lembrar, sempre votou maciçamente em Jardim e, mesmo conhecendo as falcatruas e as inevitáveis consequências em 2011, continuou a votar nele em peso – e acusar o PSD de alguma coisa), melhor seria que se calasse. Mas, se lhe pedem que fale, ao menos que refira as vigarices continuadas de Jardim e o interesse dos madeirenses em arredá-lo do poder; ou a conivência e proteção de que beneficiou até ser reeleito. Tudo o que for além disto só pode dar asneira.

Para além do facto, não despiciendo, de estar implicitamente a fazer comparações inaceitáveis entre a dívida da Madeira e a do continente, a confundir deliberadamente ou por estupidez as razões de ambas e a branquear no fundo Jardim e o seu desrespeito grave pela lei (cerca de 7000 milhões de euros ocultados da contabilidade, a quase totalidade dos quais vai ser paga por nós). A dívida astronómica da Madeira (ocultada, ocultada) não tem absolutamente nada que ver com a crise de 2008, nem com a resposta ao encerramento de empresas nem com o apoio aos desempregados, como no continente, que, aliás, foi autorizado a desrespeitar os limites do défice e a aumentar a dívida pela própria União Europeia. No continente, todas as contas públicas eram acompanhadas pelas instâncias europeias, sendo impossível ocultações. Seguro não pode ignorá-lo. Esta sua postura ambígua e populista é totalmente descredibilizadora e sobretudo politicamente ineficaz.
Jardim e o PSD formam, de facto, uma família, mas uma família política em que leviandades e fraudes e vigarices de toda a espécie não escasseiam. Este é o ponto.

Nova administração laranja da Caixa quer ainda mais companhia

Segundo o jornal i, os novos administradores da CGD andam insatisfeitos e frustrados, porque “a teia de Armando Vara se mantém viva”, apesar de Vara já não pertencer aos quadros de topo da instituição há imenso tempo. Ora isso não pode acontecer, tanto mais que ainda há alguns amigos na bicha, não é? O tentáculo de Vara “estrategicamente” por lá deixado, ou seja “pessoas ligadas ao PS”, está a causar impaciência. Os laranjas gostam de total exclusividade.

Governo entalado entre uma má receita e Angola

Para que serviu este governo até agora?

Depois de ter empurrado entusiasticamente o país para a ajuda externa, eis para o que serviu:

1. Para sacar do apito e chamar a malta ao pote.
2. Para agraciar os empresários seus apoiantes com todas as facilidades pretendidas.
3. Para ir sacar ao bolso dos portugueses dinheiro suficiente para pagar a dívida (e os respetivos juros) contraída junto de uma Tríade pela qual ansiavam.
4. Para varrer do país milhares de trabalhadores e quadros qualificados, entre os quais médicos e investigadores.
5. Para permitir a Vítor Gaspar testar as suas teorias económicas.
6. Para atacar e desmotivar os funcionários públicos.
7. Para empobrecer 95% do país, na tentativa desmiolada de concorrer com a China (no fabrico de vassouras? Sapatilhas?).

Confrontados agora com a subida contínua das “yields” num mercado totalmente indiferente, por um lado, à voz de Passos e à sua alegada credibilidade e, por outro, à matraqueada competência de Gaspar, com as críticas da Tríade à falta de políticas para o crescimento, à morte da atividade económica e à manutenção de certos monopólios muito ligados ao Estado, a desorientação e o desassossego começam a grassar entre as hostes, e o exterior (a Europa, a Grécia), e evidentemente já não o outro governo, começa a ser o grande acusado do agravamento da situação do país. O que ganhámos, pois?
“Estamos a fazer o nosso trabalho, resta à Europa fazer o seu”. Mais ou menos, é o que agora dizem. Mas já o dizia Sócrates, quando então os estarolas o acusavam de tudo e mais um par de botas e se entretinham com um toca e foge político, encenações de desculpas e outras técnicas de brincar com o fogo. Até ao incêndio. É que já na altura havia pactos de estabilidade, assim como vigilância e controlos das contas do país pelas instituições europeias. O que constatamos hoje, por exemplo? Que Mario Monti, numa Itália ameaçada pela especulação como nós à altura, está não só a fazer tudo para evitar ajuda externa, como também a aplicar no seu país, muito mais anquilosado do que o nosso a nível das estruturas económicas e sociais, as mesmas medidas que Sócrates aplicou há anos, ou seja, o combate às corporações, a liberalização das farmácias e dos táxis e muitas outras, nomeadamente o investimento público em infraestruturas ferroviárias e outras, para dinamizar a economia, ao mesmo tempo que vai pressionando Angela Merkel a rever a sua inflexibilidade, lembrando-lhe oportunamente que a mesma corre o risco de ressuscitar velhos ódios entre os povos. E lembro que Monti não é nem nunca foi de esquerda. Verdadeiramente, ganhámos o quê?

Noutra frente, convidando os portugueses a emigrar e dando um sinal claro de que Angola nos é fundamental como destino dos indesejados, entre outras coisas com Prós e Contras patéticos como o de há uns dias, Relvas e companhia colocaram Portugal à mercê da chantagem angolana, que, repleta de petro-kuanzas, não é meiga. Ai de quem fale publicamente mal de Angola. Foi assim que um programa de rádio português, crítico da política angolana, foi há dias censurado e erradicado das antenas pela direção do canal público. O que se seguirá? Se a situação se agravar, irão estas práticas liberticidas ser toleradas?

Entre a cegueira económico-financeira militante e as negociatas do Relvas, desta feita com a mão-de-obra a exportar, o Governo está bastante entalado.

A lei laboral: a palavra a quem sabe

Sabemos que constam do acordo com a Troika medidas tendentes a reduzir os custos para as empresas. Na impossibilidade de descida da TSU dadas as consequências catastróficas de tal medida para o saldo da segurança social (de que Sócrates tinha plena consciência, por isso a contestava) e o descalabro que provocariam as medidas compensatórias (aumento do IVA, por exemplo), este governo concentrou-se na facilitação dos despedimentos, permitindo às empresas novas contratações mais baratas (com a preciosa ajuda do aumento do desemprego), no aumento dos dias de trabalho por ano e na redução dos custos com horas extraordinárias, incluindo a redução do custo do trabalho aos sábados. Lembremos que estas medidas, houvesse ou não Troika, seriam tomadas de qualquer maneira, já que se enquadram no modelo económico defendido por este governo, que mal podia esperar. Dentro em breve, a Troika, embevecida, poderá até deixar de frequentar o hotel Ritz com a regularidade prevista. Passos receberá um prémio, seguramente, e o futuro será seu.

Mas as teorias da Troika não devem, nem podem, ser consideradas uma Bíblia, até porque têm uma única fonte de orientação, muito pouco poética/fantasiosa: a recuperação, pelos credores, dos montantes em dívida. Há quem entenda poder e dever discuti-las e contestá-las, gente que pensa e, sobretudo, que gostaria de se orgulhar do seu país.

Não conhecia nem nunca tinha ouvido este professor universitário de nome Luis Bento, mas tive prazer em ouvi-lo, ontem, na RTP Informação.

Diz ele, a propósito do acordo na concertação social, que a falta de competitividade das nossas empresas tem muito pouco a ver com a lei laboral, longe de ser a mais rígida da União Europeia, devendo-se antes a fatores como os custos da energia, os custos dos transportes, a má gestão (uma gestão que muitas vezes bloqueia no momento de dar o salto em frente) e, um fator que tende a ser esquecido, os custos de periferia.
Diz mais – que é insultuoso dizer-se que o acordo é benéfico para todas as partes quando haverá um flagrante agravamento das condições de trabalho; que o modelo de “desenvolvimento” assente na mão-de-obra barata não logrará qualquer sucesso a médio prazo, se tivermos em conta que até a própria China já começa a deslocalizar empresas para países vizinhos com custos laborais ainda menores.

Luis Bento, em tom sereno. Clicar para abrir o vídeo. Minuto 1.28.

Os foguetes e as canas

Ontem foi grande a festa e o foguetório do governo e seus apoiantes a propósito do acordo alcançado na concertação social. Quem, apesar dos tempos, vê os momentos de televisão das novas personagens saídas sabe-se lá de que toca, arrisca-se a ouvir Braga de Macedo na RTP Informação (como aconteceu ontem, ao fim da tarde) a dizer o seguinte (cito de cor):

Este acordo (na concertação social) veio na hora H. Já devia ter acontecido há mais tempo, mas numa semana em que as agências de rating baixam as notações de vários países europeus, entre os quais a França, é importante mostrar o empenho de Portugal em fazer o seu trabalho e dar confiança aos mercados. Foi mesmo na hora H.”

Não sendo estas as palavras exatas, a hora H foi seguramente referida umas seis vezes durante a intervenção. Para este economista do PSD e próximo membro do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, a partir de agora o rating de Portugal vai ser sempre a subir. A revisão da lei laboral no sentido da flexibilização era o pormenor que faltava para inverter a situação de “descrédito” do país face aos mercados. Indiferentes a tanta fé, hoje, no mercado secundário, a rendibilidade exigida pela compra de dívida portuguesa a 5 e 10 anos voltou a atingir máximos (18,2% e 14,6% respetivamente), nada indiciando que vamos sair do lixo na próxima década. Chatice, Dr. Macedo. E logo agora que nos tornáramos tão sedutores para os investidores e nos armáramos de um escudo invencível contra os especuladores de tal maneira resistente que nem o provável incumprimento da Grécia nos poderia jamais afetar.
Acredite que eu até gostaria que a vida financeira e política fosse simples assim e que a situação económica internacional decorrente da globalização, do regresso dos nacionalismos, da apropriação dos Estados pela alta finança, etc., etc. exigisse apenas, dos países europeus, que fossem os bons alunos do diretório alemão e da Troika ou seguissem à risca a cartilha do liberalismo económico, baixando os salários, desregulamentando a economia e reduzindo/suprimindo o papel do Estado. Assim não é e essas vias só nos afundam. Com a austeridade e a perda de poder de compra, cada vez haverá menos dinheiro para pagar dívidas e respetivos juros. Atrelados ao euro, a resposta ou é europeia ou não é nenhuma. Se fosse a vocês, guardaria os foguetes para mais nobre ocasião e, por enquanto, trataria de apanhar as canas. Ou mandar apanhar, mais de acordo com a vossa assumida classe (para já, invisível a olho nu).

Fartos de frases como esta

Portugal tem que ser um dos países mais baratos”, declara Daniel Bessa.

Esta gente que usufrui de um belíssimo salário e/ou dispõe de avultados rendimentos e que, baseando-se em meros cálculos economicistas, que, aliás, qualquer um de nós saberia fazer se o objetivo for o exclusivo desafogo financeiro dos empresários, vem dizer que o melhor é os trabalhadores ganharem o menos possível, revolve-me as tripas, confesso. A “mão-de-obra barata” é constituída por pessoas, com necessidades, com expectativas, com famílias ou com ambição a constituírem uma, pessoas potencialmente com capacidades. Pessoas que, com tiradas como esta, só podem é decidir fugir daqui e sem demora.
Daniel Bessa, que, por vezes, parece ter lucidez suficiente para desejar que a Europa reveja a austeridade, pretende agora, como muita gente insensível, reduzir o país a pessoas analfabetas (ah, pois, a educação e a formação custam dinheiro), desqualificadas e mal pagas que “alimentem” (também literalmente) e perpetuem o nosso incompetente tecido empresarial. Esta é a via para o subdesenvolvimento, caro senhor. Só que não para o seu nem o dos seus filhos, claro.

Oposição precisa-se (em que número é que já vai esta rubrica?)

Pelo rumo que as coisas estão a tomar, o que está o PS à espera para se deixar de paninhos quentes em relação a Passos Coelho? (Ai este erro da escolha do Seguro vai-lhes sair caro). O homem, como político, é e sempre foi um aldrabão. Desde as técnicas de desgaste aplicadas na discussão do orçamento para 2011 e a cena do pedido de desculpas aos portugueses pela excessiva austeridade, passando pela reunião com Sócrates que declarou convictamente não ter existido até ser desmascarado sem que nem um traço se alterasse na sua expressão facial, pela campanha eleitoral despudoradamente enganadora, pela invenção de um desvio colossal a todos os títulos negado pelo INE, pela proteção e cobertura fraudulentas dadas a Alberto João até à sua eleição em Outubro, até à quantidade exata de nomeações partidárias e às respetivas justificações inverosímeis, o homem é uma fraude. Um barítono sinistro.

Compreende-se muito mal que haja gente com responsabilidades fora dos partidos do governo que ainda lhe dê crédito. Alguns exemplos lamentáveis:
– Mário Soares continua a dizer que o acha um cidadão com qualidades e bem intencionado. (Dada a diferença de idades, tipo um rapazinho asseado)
– Pedro Guerreiro, ontem na SICN, excluía a possibilidade de o homem ser sonso, considerando-o apenas um ingénuo. Eu, que acho que Pedro Guerreiro não é sonso, admiro-me que seja ingénuo.
– O vice-presidente da bancada parlamentar do PS, José Junqueiro, vem hoje afirmar (a propósito do número de nomeações partidárias) que “o primeiro-ministro está mal informado” (mal informado? O sócio de Relvas?). Que brandura! Mais um que aderiu à oposição “elegante” de Seguro.
– Zorrinho, que sempre vi como pessoa cheia de iniciativa, desde que se encostou a Seguro, parece um menino de sacristia. Os seus pruridos em fazer escarcéu perante os piores atropelos deste governo só para não amedrontar sabe-se lá quem são penosos.

Em surpreendente contraste, ainda ontem, Lobo Xavier, um seu acérrimo apoiante, mostrou-se o mais furioso dos três esgrimistas da Quadratura a propósito das nomeações para a EDP e a AdP.

É triste, toda a gente o diz, a democracia exige, é preciso oposição, mas assim o PS não vai a lado nenhum. Assistir impavidamente em nome do respeito pela alternância democrática à saída da toca de toda a rataria salazarenta, que já nem se ensaia para proferir as maiores barbaridades, e nada dizer (salvo honrosas exceções, mas a título pessoal – Assis, Silva Pereira, João Galamba, Isabel Moreira, Pedro Nuno e alguns mais, e felizmente a blogosfera de esquerda) com medo de uma troika que já não tem nada a ver com o que se está a passar não é postura que se aceite do maior partido da oposição. Sabemos que governar na atual conjuntura não é fácil, mas ninguém disse que a política era fácil. Há que ter coragem. Seguro não tem, não quer ter e deve ser corrido. Portugal está a regredir e este primeiro-ministro é apenas a voz que distrai, ou encanta, enquanto a vampiragem toma conta da cidade.

Saidinhos do forno para uma mesa em Berlim, Álvaro?

Diz o ministro Álvaro que os pastéis de nata constituem um exemplo de falha incompreensível nas nossas exportações. Admito que lá em Vancouver, de onde veio, não se vendam, mas em qualquer capital europeia onde haja portugueses com padarias, há pastéis de nata, certo e sabido. Até já os tenho encontrado em supermercados. Até na África do Sul, tenho a certeza, há pastéis de nata.
Evidentemente que este não é um produto que possa sair de Portugal, como o vinho ou o azeite, pronto a consumir. A menos que se congelem! No caso dos pastéis, exportaram-se os portugueses que os fabricam por lá, mas serão essas as exportações que nos interessam, ou este homem já não tem remédio?

Cá dentro é que está o pote

Penso que já não falta muito (e é esse o meu desejo) para que a maior parte dos países europeus olhe com olhos de ver o que se está a passar com esta crise do euro. As soluções para os países em dificuldades não avançam e a receita é somar austeridade à austeridade por uma razão muito simples: a Alemanha está a ganhar e a beneficiar muitíssimo com o arrastar da situação. As yields pedidas pelos investidores pela compra da sua dívida são tão baixas que, ontem, eram inferiores a zero. O desemprego baixou para percentagens irrelevantes. As maiores empresas registam lucros superiores a 70% desde há um ano. Suprimido calculistamente o salário mínimo há três anos, os vizinhos romenos, por exemplo, são contratados ao preço da chuva (400 € mensais + almoço) e ainda acham que fazem bom negócio. Desempregados e técnicos qualificados de países como Portugal oferecem-se para trabalhar por bom preço. As exportações de maquinaria, tecnologia e automóveis para os países emergentes (mercados tão grandes ou maiores do que o europeu) compensam a quebra nas exportações dentro do mercado único. Na verdade, tudo corre bem, para já, à Alemanha, o que não lhe dá qualquer incentivo a mudar de rumo. Concentrando todo o dinheiro, cabe-lhe ditar as regras. Em seu benefício também, nem Sarkozy ainda percebeu o engodo para que foi atraído, embora se tenha voluntariado para o isco. Merkel sabe desde o início, ou não conhecesse a história recente do seu país, que não lhe convém aparecer sozinha a liderar o processo.
Hoje, já Mario Monti vem dizer que não pode ser apenas aquele duo a liderar e a decidir o futuro da Europa, excluindo países como o seu, uma economia forte, sob pena de se abrirem as hostilidades a nível externo, instigadas pelas que inevitavelmente se abrirão a nível interno (até um tecnocrata, desde que inteligente, não demora muito a sentir as necessidades e a força silenciosa dos governados). Outros países da zona euro com a corda na garganta, como a Espanha ou a Irlanda não podem por muito mais tempo limitar-se a cumprir as ordens de Berlim, para sua grande glória, enquanto as suas populações fogem, definham ou se violentam.

Por cá, qual o estado de espírito deste governo? Olhando para além do ar grave, encenado, com que se apresentam, tudo na boa: com maioria confortável, as pessoas, os 9,5 milhões de portugueses que não são as suas “elites”, não existem. Assim, Gaspar faz umas contas para ver se batem certo com o que a Troika quer e erra essas mesmas contas na primeira curva, mas não é grave porque a comunicação social é amiga e ele fala com voz competente, Paulo Macedo corta no SNS, sem plano verdadeiramente definido para o tornar eficiente, ou sequer para o manter, Crato corta no ensino, mas mais no público para satisfazer compromissos eleitorais e não lhe interessa muito que se ensine a quem não tem condições para aprender, tomam-se umas medidas ad hoc aqui e ali, mas, no fundo, com a Troika a ditar a orientação geral, os rapazes, com Passos e Relvas à cabeça, estão radiantes por irem finalmente entregar, com boa cobertura, o poder às empresas e estas aos amigos, que os recompensarão principescamente quando chegar a hora da partida. O “big” pote estava claramente guardado para depois do primeiro semestre.

Crise europeia? Merkel e Sarkozy? Conjugação de estratégias entre periféricos? Governar um país? O que é que isso verdadeiramente interessa? O que é um país, ao fim e ao cabo?

Descaramento total

Como evitar que Portugal se transforme num país de velhos sem esperança, quando o bronco número dois deste governo insiste em mandar lá para fora os mais novos e mais qualificados (deduzimos que com plena noção de que por lá assentarão arraiais e por lá se reproduzirão), elogiando-os até por tal serviço prestado?

Ao conversar com jovens portugueses, em Maputo, “tive grande orgulho naquilo que vi e ouvi”, perante um “outro tipo de emigração”, diferente da dos anos 60, com destino à Europa.

“Esta é uma emigração muito bem preparada. Nós investimos significativamente nos últimos 20 anos numa geração e hoje não lhes damos aquilo de que eles precisam, que é o emprego”, referiu.

Em Moçambique, com aqueles jovens, Miguel Relvas disse ter ficado “com a sensação de que pátria deles é o momento onde estão, a circunstância em que estão”.

Fonte

O charme improvável de Celeste

No pacote de seis premiados por este governo com um enorme tacho na EDP , figura a doutora Celeste Cardona. Esta senhora deve ser extremamente competente e versada, ou algo de muito meritório deve ter feito em prol do seu partido, o CDS, ou não seria tão encaminhada para os mais variados cargos nos últimos 10 anos. Ela própria se deve surpreender. E orgulhar. Não é qualquer um que é sistematicamente a escolha natural. Depois de ministra da Justiça no governo de coligação de Durão Barroso, saltou para a Administração da CGD e agora para o Conselho Geral e de Supervisão da EDP, a par de Catroga, Teixeira Pinto, Braga de Macedo e Ilídio Pinho, todos prestadores de altos serviços. Dir-se-ia que o CDS não tem mais ninguém a quem recompensar para preencher a sua quota-parte nos super-lugares partidários? Perguntar não ofende.

versa fiada

Júlio Magalhães tem uma relação especial com Marcelo e “a direcção não quer que o professor se vá embora da TVI”, explica ao JN uma fonte do canal de Queluz de Baixo

Já vi a expressão “uma relação especial” ser utilizada em muitos contextos (o amoroso é dominante), mas, neste, só pode significar uma coisa: Júlio Magalhães gosta de dedicar a parte final do seu telejornal a fazer de boneco, aceitando ser pago para isso. O professor é um palrador com ar simpático, não fora a política. Mas, de facto, todo o pivô que aceite sentá-lo à sua mesa na condição de abrir a boca duas ou três vezes, apenas para introduzir os temas da comentarice dominical, ouvindo passivamente e sem a mínima réplica (aparentemente como cláusula contratual) os frequentes dislates e basófias de Marcelo, está deliberadamente a deixar os seus créditos jornalísticos atravessar um troço arriscado. Foi o que aconteceu com Ana Sousa Dias e Maria Flor Pedroso (ainda que esta ensaiasse, de vez em quando, ligeiros contrapontos). Ambas recuperaram dessa travessia, mas lembrar-nos-emos sempre da figura que fizeram. Presumo que não haja na TVI quem mais se queira prestar a esse papel (?). Ou então a afabilidade de Júlio Magalhães ou a sua admiração por Marcelo casam tão bem com as pretensões deste último que lhe dão o direito de exigir a sua manutenção no papel. Sob pena (acabo aqui, recorrendo à técnica estilística do blogger Maradona).

(Nota: Vou passar a escrever segundo as regras do Novo Acordo Ortográfico. Profissionalmente, estou obrigada a isso desde 1 de janeiro. Além disso, também na escrita pessoal, não me causa qualquer repulsa. No texto supra, nem foi necessário alterar nada.)

Inteligência: ou se tem ou não se tem

Neste miserável ano de 2011/2012, em que um governo sem qualquer outra estratégia para o país que não seja a dos cortes cegos e do empobrecimento com vista a uma mão-de-obra barata assumiu o poder, vale a pena ler esta entrevista dada ao jornal i por uma destacada cientista/matemática portuguesa a trabalhar nos Estados Unidos, Irene Fonseca. Entre outras coisas, diz ela:

Ir para o estrangeiro tem sido aliás um apelo dos nossos governantes para enfrentar esta crise. Para si é um apelo que faz sentido ou fica angustiada com a eventualidade de o melhor de Portugal sair de Portugal?

Desculpe, não percebi a pergunta. Os governantes aqui encorajam os nossos a saírem?”

(…)”Nos EUA, há uma grande preocupação nossa e também da administração vigente com a investigação científica. Entre os cortes que têm sido feitos, a Nacional Science Fundation, tem sido poupada. Ao contrário, o nosso orçamento está a ser aumentado.”

(…) “Dou-lhe mais um exemplo: o Google foi um projecto sem calendário nem prazo financiado pela National Science Foundation e o resultado desse projecto é um instrumento que toda a gente usa. Era um projecto de três indivíduos que fizeram uma proposta, obtiveram financiamento e apresentaram resultados. Isto exige uma aposta do Estado. Claro que há um risco, mas há sempre qualquer coisa de bom que sai da investigação”.

Sem ciência, não há desenvolvimento. O objectivo de competir com a China ou com a Índia no tipo e nos custos de produção revela uma estratégia demissionária, classista, insensível e, além do mais, condenada ao fracasso. Alguém tem ideia de quais as áreas da ciência em que este governo gostaria de apostar para que o país possa figurar no mapa de países civilizados, para que exista uma via alternativa ao marasmo e para que não se perca o avanço conseguido nos últimos anos? Um governante como Passos que não dá o mínimo sinal de gostar (muito menos de se orgulhar) do seu país e da sua gente nem tem a inteligência suficiente para incentivar (incluindo financeiramente) o que de melhor há e o que de melhor se faz ou poderá fazer por cá não merece o lugar que ocupa. Aldrabão sem pátria, foi para o governo para pôr a ganhar dinheiro a maioria de empresários patos-bravos que vota PSD e que nunca deixou de por aí andar.