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Num país perto de si

Ouvinte belga, hoje, em declarações a uma estação de rádio, onde um painel de políticos justificava a ruptura das negociações para o orçamento: “Parem de discutir. Não estamos em altura de respeitar princípios. Elaborem o orçamento e esqueçam os princípios.”

Estas frases traduzem bem o que se passa hoje em dia em grande parte da Europa. Cada vez mais países têm de encontrar soluções governativas sob a espada de Dâmocles dos especuladores. Os partidos de esquerda, de facto, estão perante o dilema de 1) manterem intactos os princípios que subjazem aos seus programas eleitorais, sob pena de os militantes e simpatizantes não se reconhecerem nas respectivas lideranças, ou 2) de os abandonarem, ainda que aos poucos e a contragosto, sendo acusados de indiferenciação em relação à direita.

Na Bélgica, com uma dívida próxima dos 100% do PIB, mas gozando, por enquanto, de uma boa situação económica, as negociações para a formação de uma coligação governativa apenas se concluíram ao cabo de mais de um ano após as eleições, mas, enfim, concluíram-se. Agora, negociava-se o orçamento para 2012, sem o qual não haverá (e bem) governo empossado. O resultado revelou-se um fracasso. Sem acordo possível, o hipotético futuro primeiro-ministro bateu com a porta e apresentou a demissão ao rei.
O problema qual é? São vários. O problema de fundo é que esta coligação foi formada contra o partido mais votado na Flandres, a NV-A, que, por ser independentista, ficou de fora, ao boicotar sistematicamente as primeiras negociações para a coligação. Unia-os, portanto, um inimigo comum. No entanto, quando encetam a primeira acção conjunta, que consiste na elaboração do orçamento, as divergências emergem, como não podia deixar de ser. Os socialistas acusam os liberais de quererem acabar com o sector público (hospitais, educação, prestações sociais) e de não aceitarem, por outro lado, taxar as grandes fortunas. Os liberais dizem que não. Já assistimos a isto.
Nos países em que a cizânia se instala (convém dizê-lo – porque a esquerda ganhou), os eleitores, fartos, têm vontade de mandar calar os políticos e de dar uma oportunidade aos técnicos de contas. Para terem um pouco de silêncio?

Assim se vai corrompendo a democracia por força dos “mercados”. Podemos daqui tristemente concluir que o mundo financeiro, após a crise de 2008, ganhou ainda mais poder. Assim, num país perto de si, e porque a falta de dinheiro do Estado, real ou demagogicamente exagerada, assusta toda a gente, ouvirá fatalmente, por estes tempos, onde quer que se desloque, falar no novo modelo de governos tecnocratas como o último grito em governação. Para já, por diferentes motivos, a população parece estar receptiva. É uma novidade. Pena ser só para alguns. Mais adiante se verá. Os juros não parecem estar a baixar nem na Itália, nem na Grécia, nem em Espanha, nem em Portugal, sob o comando de Gaspar. Os tempos são de grande expectativa e impotência. Aqui, na gaiola do euro.

A seta do tempo posta em causa

O conteúdo de um ovo partido espalhado no chão não se reunifica para voltar a entrar na metade partida da casca. É lógico. Esta é a lei da causalidade. A seta do tempo tem uma só direcção. Terá mesmo?
Dizem agora os cientistas que o universo não parecerá tão lógico se houver partículas que se deslocam a uma velocidade superior à da luz.

Estarão os neutrinos excluídos do limite de velocidade cósmico?

Passam-se coisas bem mais interessantes, positivas e entusiasmantes hoje em dia no subsolo da Europa do que na sua superfície. Prova de que muita e boa gente continua a acreditar no inconformismo da espécie humana (e, já agora, na sua continuidade). Com dinheiros públicos, convém dizer. Cá em cima, é a dimensão da sobrevivência finita, a vidinha, lá em baixo é do infinito que se trata, ou seja, da Vida, sem a qual nem o infinito faz sentido.

No CERN (Centre Européen de Recherche Nucléaire), gigantesco laboratório de partículas situado entre a França e a Suíça, uma experiência feita há cerca de dois meses concluiu que os neutrinos, uma partícula em (quase) tudo igual ao electrão, mas sem carga eléctrica, viajam a uma velocidade superior à da luz (20 partes por milhão), até agora o limite de velocidade cósmico.

Em Setembro, o CERN dizia cautelosamente, em comunicado:
The OPERA (nome da experiência) measurement is at odds with well-established laws of nature, though science frequently progresses by overthrowing the established paradigms. For this reason, many searches have been made for deviations from Einstein’s theory of relativity, so far not finding any such evidence. The strong constraints arising from these observations makes an interpretation of the OPERA measurement in terms of modification of Einstein’s theory unlikely, and give further strong reason to seek new independent measurements.”

Em 18 de Novembro, após uma segunda experiência de envio de um feixe de neutrinos do CERN para o laboratório Gran Sasso, em Itália, a uma distância de 730 km, um novo comunicado dizia o seguinte:

“The beam sent from CERN consisted of pulses three nanoseconds long separated by up to 524 nanoseconds. Some 20 clean neutrino events were measured at the Gran Sasso Laboratory, and precisely associated with the pulse leaving CERN. This test confirms the accuracy of OPERA’s timing measurement, ruling out one potential source of systematic error. The new measurements do not change the initial conclusion. Nevertheless, the observed anomaly in the neutrinos’ time of flight from CERN to Gran Sasso still needs further scrutiny and independent measurement before it can be refuted or confirmed.”

Ouçam este cientista, em declarações à BBC (4 minutos):

Dr Giles Barr

As cautelas são, obviamente, mais que muitas. Está em causa a inversão do tempo. No limite, a famosa ressurreição!

E, por falar em cautelas, termino com Carl Sagan, quando dizia:

Estamos constantemente a espicaçar, a desafiar, a procurar contradições ou pequenos erros residuais persistentes, a propor explicações alternativas, a encorajar a heresia.”

E também quando dizia: “Mantenham o espírito aberto, mas não tão aberto que os miolos saltem.”

O Conselho Superior da Magistratura é mesmo fofinho

Não é que a troca de uma maiúscula por uma minúscula leva à aplicação da pena de reforma compulsiva a um juíz?
Numa sentença proferida, o juíz em causa proclama que “a ré fofinha é absolvida”. A palavra aparece transcrita com letra inicial minúscula. Grande escândalo, a coisa chega ao CSM, que não se questiona minimamente sobre tão grave deslize ou tão descarado piropo, e vai daí reforma compulsivamente o juiz, pena noticiada pela imprensa, sem qualquer desmentido.
Só hoje se soube que afinal a Fofinha é uma empresa de Fios e Tecidos, Lda.

Lemos, é claro, que os 304 processos que o juiz deixou atrasar também estiveram na origem da punição, mas, atendendo às nossas suspeitas de que não será o único, o “atrevimento”, sem mais investigação do CSM, deve ter pesado imenso, ou não? Já o simples facto de ter sido admitido como verdadeiro nos deixa perplexos…

«Tal como o PÚBLICO referiu na altura (ver edição do passado dia 11), a decisão de punir o juiz com a segunda mais gravosa das penas previstas no Estatuto dos Magistrados Judiciais não se ficou a dever tanto à expressão “ré fofinha”, mas sim ao facto de o magistrado em causa ter, alegadamente, deixado atrasar 304 processos. “Há muitas outras penas que poderiam ter sido aplicadas caso se concluísse que foi essa expressão a causa da sentença. Poderia ser sentenciada uma multa, a transferência ou a suspensão de funções, mas avançou-se para a aposentação compulsiva por se entender que os factos analisados eram graves”, adiantou o mesmo responsável do CSM.»

(Fonte: Público (sem link))

Se este juiz conseguir provar que existem mais colegas com um número considerável de processos em atraso aos quais não foi imposta a mesma punição, pode até pedir uma choruda indemnização. -:)

Noutro caso bem diferente, afirma um jornal que Duarte Lima foi avisado com antecedência de que as suas residências iriam ser alvo de buscas, recebendo, portanto, sem qualquer surpresa, o magistrado Carlos Alexandre em sua casa. Possivelmente com um cafezinho bem quentinho à espera. Como é possível? Pouco falta para que alguém com conhecimento do processo o ajude a sair do país!

Poul Thomsen foi ao telejornal

Mandado por Gaspar, só pode. Uma passagem tão rápida (será que ainda vai percorrer os outros canais?) que se diria inútil. E a impressão com que fiquei é que não disse nada de jeito, fartando-se de meter as mãos pelos pés, tentando não fugir aos estribilhos do governo, ou aos seus próprios, válidos aqui e em qualquer parte do planeta, que o governo papagueia, nomeadamente que em 2013 vamos crescer e financiar-nos no mercado.
Mas disse também, por exemplo, segundo julgo ter ouvido, que há duas maneiras de os países se ajustarem: ou através de reformas estruturais, ou através do empobrecimento com a baixa de salários. Para ele, Portugal está a escolher a via das reformas estruturais. Ah!
Atendendo ao que disse Passos Coelho sobre a necessidade e a inevitabilidade de empobrecermos, não andará um bocado distraído? Ele e, pelos vistos, o José Rodrigues dos Santos, que o deixou fazer aquela extraordinária afirmação sem o confrontar com o óbvio.

Com tabela ou sem tabela, há que pagar

O Bloco de Esquerda decidiu apresentar uma proposta de legalização das “barrigas de aluguer”.
Reconhecendo a complexidade de redigir os detalhes da hipotética lei, não tenho nada contra, antes pelo contrário, até porque é impossível proibir o recurso a tal método de reprodução, aliás já com bastante procura. Melhor seria que as regras do contrato fossem claras, na medida do possível.

A matéria merecerá sem dúvida o repúdio desta maioria. No entanto, a sua prática prova também que muita gente é totalmente indiferente aos princípios da santa madre igreja em matéria de concepção de seres humanos e que só muito dificilmente se encontrará uma prestadora do serviço que entenda estar a fazer um acto de caridade, pelo qual será recompensada no céu.

“No caso da maternidade de substituição — as referidas “barrigas de aluguer” —, a proposta do BE circunscreve- as aos casos em que haja “razões clínicas” como “a ausência de útero, lesão ou doença incapacitante da gravidez” e recusa “qualquer componente comercial”. Traduzindo: a maternidade de substituição será legalmente aceite “numa base altruísta e a título gratuito”. Quando assim não for, a pena pode chegar a dois anos de prisão ou 240 dias de multa. Afastada a perspectiva comercial, Semedo explica que tal não signifi ca que a mãe de aluguer não possa ser compensada “pela perturbação e prejuízo decorrentes da gravidez, à semelhança das compensações que existem na doação de órgãos para transplante”. (Público, sem link)

No entanto, do que se lê no jornal, parece-me incompreensível, e até ridículo, que se mencione o carácter gratuito e altruista do “serviço”, ainda por cima quando, na mesma proposta, se menciona o direito a uma compensação. Alguém acredita que uma mulher se disponha a prestar esse serviço gratuitamente e por simpatia pelo próximo? Para sermos realistas: e gémeos, não deve ser mais caro?

Aceitam-se sugestões de nomes

Que tal aproveitar a maré de substituições de governantes eleitos por governantes tecnocratas não eleitos e correr com Merkel? Qualquer economista, ex-comissário, ex-governador, etc. que tenha uma visão correcta e benéfica para a Europa do que deve ser o papel do BCE fará melhor trabalho do ques esta frau, com a vantagem de, também na Alemanha, não ter de dar satisfações ao eleitorado nem estar por ele condicionado.

Este novo método bizarro de suspensão da democracia parece não suscitar, para já, grande contestação das populações. Devia era aplicar-se a todos. O eleitorado alemão e as preocupações da senhora Merkel com esse mesmo eleitorado não estão a ajudar em nada a Europa a sair da crise. Assim sendo…

(Des)governados por quem?

Antecipando-se à Itália e à Grécia na colocação de um tecnocrata (contabilista) à frente do executivo, Portugal, para efeitos práticos, é governado por Vítor Gaspar. Primeiro (pela boca de Passos e de Relvas), havia abertura para discutir um dos subsídios; uns dias mais tarde, nem pensar. Depois, havia abertura para excluir a restauração da subida do IVA para o escalão mais alto; Gaspar veio ontem dizer que não, por não ser um sector exportador (!). Outros et ceteras terão presumivelmente levado nega de Gaspar (isto, admitindo que, apesar de neoliberal, Passos tem mesmo assim veleidades a fazer alguma política).
Cavaco admite ter-se conformado com a renitência do governo em introduzir mais justiça no orçamento e Rui Rio e outros PSD da linha não neo-liberal também não têm grandes hipóteses de ter algum ganho de causa com as suas intervenções.
Portugal tem assim o seu destino totalmente entregue a um ex-funcionário do Banco de Portugal, segundo penso destacado no BCE, perito em deves e haveres, adepto de uma determinada teoria económica e intransigente (e contidamente radiante) na sua aplicação.
Com todos os indicadores a agravarem-se e ameaças de que estas medidas podem não ser suficientes para cumprir a meta do défice em 2013, não sei, sinceramente, o que vai ser deste governo (de governos destes, a bem dizer) e, pior ainda, deste país. A União Europeia, completamente indiferente ao empobrecimento das populações do sul, tudo fará para segurar por aqui Vítor Gaspar, cuja função é totalmente consonante com a de Papademos e, agora, de Mario Monti. Creio até que Merkel considerará as próximas eleições nesses países um enorme contratempo, que melhor seria se fosse evitado.
Ainda se com isso enriquecêssemos, nos educassem, nos civilizassem, tais personagens seriam bem-vindos. Para nos destruírem ou nos mandarem emigrar, evidentemente que não são!
Estamos, portanto, a assistir a uma ocupação, versão século XXI, por interpostas pessoas. Haverá os colaboracionistas, já estão até nos seus postos; mas haverá também, espero eu, o Maquis.

Em vez de perder tempo a discutir almofadas, mostrando-se igualmente subjugado aos ditames de Vítor Gaspar e de uma União Europeia incompetente e egoista, o PS faria melhor em discutir seriamente uma alternativa a este triste fado e ter coragem de a assumir. A verdade é que está tudo mal desde o princípio: o modo torpe como este governo chegou ao poder, a política da UE, as condições da “ajuda”, a estória do ir mais longe, as ocultações de Jardim e a protecção do governo e respectivas consequências no défice, este orçamento, enfim, tudo. Não há nada que se aproveite.

Nem vai nem racha, que sufoco!

Começámos a ouvi-la com a Grécia e a Irlanda, continuámos a ouvi-la em relação a nós, agora ouvimo-la de novo (em qualquer rádio de qualquer língua europeia, é só escolher), numa sonoridade mais dramática, em relação à Itália e também à França e à Bélgica.
A frase “É preciso acalmar os mercados (ou a variante “conquistar a confiança dos mercados)” já não se aguenta! Assim como já não se aguentam perguntas como “E acha que a demissão de […escolha você] irá acalmar os mercados?” ou “E estas medidas, serão suficientes para acalmar os mercados?”

Por mim, já chega. Estou farta. É que nem o pai morre, nem a gente almoça! Um após outro, os países vão sucumbindo à investida das ditas bestas. Vamos para a guerra?

A verdade é que os mercados não se acalmam. Nenhum dos países europeus forçados à austeridade profunda conseguiu ainda acalmar mercado algum, quanto mais conquistar a sua confiança. Mais referendo, menos referendo, mais demissão menos demissão, mais eleições menos eleições, mais contágio menos contágio, mais compasso de espera menos compasso de espera, trocas de governos de esquerda por direita e de direita por esquerda, os juros continuam teimosamente a subir e nem a turbulência amaina nem a crise, muito menos, se resolve. Com juros a 20% e a subir, quando vai Portugal conseguir financiar-se no mercado? No euro, nem daqui a 50 anos!

Quando tudo estiver de rastos, será preciso a especulação chegar à Alemanha?

Alemanha que, entretanto, olha tudo isto do alto do seu pedestal (por enquanto), possivelmente esfregando as mãos de contente por, por um lado, ter a oportunidade de usar um chicote ao fim de décadas de abstinência (estou a ser mazinha), e, por outro, por tudo se estar a conjugar para dispor de um manancial de países de mão-de-obra barata à sua volta ou muito perto. Como se já não lhe bastassem a Roménia os restantes países do antigo bloco soviético. Mérito deles, sem dúvida, que bem aproveitaram as ajudas que tiveram no pós-guerra, e da sua situação geográfica, mas…

mas … não sei porquê, parece-me que já estivemos mais longe de um conflito aqui na velha Europa… Com tanta humilhação (o que é isto de ditar a pergunta do referendo aos gregos?) e perda de soberania, alguns povos (conto com eles, e que inveja tenho deles) não se ensaiarão muito para mandar tudo às urtigas e que se lixe Wall Street e a bolsa de Frankfurt!

A nossa saúde e a da indústria farmacêutica

Segundo um antigo laureado com o prémio Nobel de Medicina, Richard Roberts, a investigação de drogas pára onde começa a doença crónica. Não há investimento em drogas que curem definitivamente, porque não são rentáveis. É possível. Haverá algo de verdade no que diz.

Leia aqui a entrevista (em espanhol)

No entanto, consciente de que tanto os investigadores como os dirigentes dos grandes laboratórios farmacêuticos, assim como os membros das suas famílias, também podem tornar-se diabéticos ou cancerosos ou tuberculosos, etc., tendo por isso interesse em ser curados, como levar a sério 100% do que diz o doutor Roberts?

Em defesa da lentidão alemã (artigo de opinião)

Sabemos que opiniões não faltam sobre a crise europeia. Esta é mais uma, a meu ver bastante lúcida. De Fareed Zakaria (CNN) (para quem quiser ler em inglês).

Um excerto:

Many argue that Germany should come up with a dramatic solution to the debt problem. Chancellor Angela Merkel is not leading, critics charge. I disagree. Germany has a good reason for being sluggish. It is trying to force countries like Greece to enact meaningful reforms.

The German concern is that if they come up with some dramatic solution to the euro crisis, such as guaranteeing everybody’s debt, financial panic would end but countries like Greece and Portugal would feel no pressure to undertake necessary reforms.

Ler artigo

Tenho, no entanto, a ressalvar que, embora eu concorde que seria sempre necessário em Portugal grande rigor orçamental e eliminação de despesas inúteis no sector público, processo começado pelo governo anterior, mais tarde interrompido pelo pânico da crise do subprime, e depois retomado com os sucessivos PEC até ao chumbo do quarto pela oposição (pelos vistos, para que tudo fosse agravado e rapidamente), o facto de termos o salário mínimo nacional mais baixo da zona euro e de haver uma tentativa séria de qualificar o tecido produtivo do país e de reformar a administração pública (pelo anterior governo) deveriam tornar as condições do empréstimo mais razoáveis. Prazos mais dilatados que impedissem a recessão, a par de um controlo cerrado do corte das despesas. Já quanto às privatizações das empresas públicas estratégicas que não dão qualquer prejuízo, a matéria devia ser discutível.

A meio do artigo refere-se o papel do BCE. E essa questão é igualmente determinante.

E porque será, A. J. Seguro?

Eu tenho de liderar um combate em nome do PS contra o Governo – e espero que os deputados do PS estejam comigo. À vezes vejo com preocupação camaradas mais preocupados em ver o que eu faço ou digo do que em combater o Governo”, declarou.”

Fonte

Porque será que há camaradas preocupados com isso que dizes?
Não será porque o que dizes e fazes não combate este governo? Ou porque mais do que aquilo que dizes e fazes, os camaradas estão talvez preocupados com o que não dizes nem fazes, mas devias dizer e fazer, como líder?

Ontem, por exemplo, ouvi num canal de televisão que consideras que todas as consultas – cá e no estrangeiro – que recentemente te têm ocupado foram contributos muito úteis para uma tomada de posição sobre o orçamento (!). Com isto, penso que sim, que deves estar preocupado. Mas não é com os camaradas, é antes com o teu futuro.

Lá como cá…

A ânsia de «ir ao pote» justifica todas as piruetas. Aquela oposição grega de direita, que há mais de um ano berra contra as sucessivas medidas de austeridade, mal vê uma hipótese de poder, dá uma volta de 180 graus no discurso.

Chegámos aqui com a política do governo (socialista), o novo acordo para a continuação da ajuda à Grécia é inevitável e é preciso garanti-lo”, declarou aos jornalistas Samaras, que até agora se tem oposto às medidas de austeridade adoptadas na Grécia e a qualquer ideia de um governo de união nacional. Apelo à formação de um governo temporário de transição que tem como missão exclusiva a organização de eleições (legislativas antecipadas) e a aprovação do acordo da UE”, acrescentou Samaras, citado pela Lusa.

O acordo sobre a nova ajuda à Grécia “não deve ficar pendente” e a sexta prestação do empréstimo de 110 mil milhões de euros concedido pela UE e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) “deve ser entregue o mais rapidamente possível para que as eleições decorram em condições normais“, afirmou.”

Fonte

Neste caso, imagino as pressões externas, dos EUA à Alemanha e à Grã-Bretanha, sobre uns e sobre outros, de uma intensidade garantidamente equivalente às veladas ameaças de morte sobre dirigentes da América latina que, há uns anos, não respeitavam os cânones nem os interesses da alta finança. Tiveram um triste fim. Como no Equador: http://www.youtube.com/watch?v=G9SaiKfKC8c&feature=player_embedded

Agora os tempos mudaram e, afinal, isto é a Europa, não é?
Não escondo uma certa revolta. Refiro-me também ao abandono do referendo, um expediente dilatório que, penso, não vai impedir que as coisas acabem mal. Até quando vai o povo grego aceitar ser transformado em Sísifo? Eles conhecem bem demais a sua mitologia.

O Público errou

Segundo se depreende da notícia de capa do jornal Público de hoje, José Sócrates deveria estar proibido de falar com os seus amigos sobre a situação política do país. Também deveria estar proibido de conversar com políticos “tout court”. Qualquer conversa é imediatamente interpretada como pressão ou, no caso de políticos europeus, como minagem do trabalho do actual executivo.
Ora, eu, que não contacto de forma alguma com José Sócrates, se entender, e entendo, que o próximo orçamento deve merecer o voto contra do PS, estarei, levando mais longe a linha de raciocínio da jornalista, sob a influência da “pressão” de Sócrates. O que é ridículo.
Mais: Seguro que, segundo refere a jornalista, jantou com Sócrates (nada indica que a tal tenha sido obrigado), terá violado com isso alguma lei deontológica ao não ter falado apenas da diferença de clima entre Paris e Lisboa. O mesmo vale para hipotéticas conversas telefónicas com membros do anterior governo. A conversa com Seguro, é claro, levou de imediato a jornalista a afirmar que Seguro “resiste” ao hipotético desejo de Sócrates. O Público devia evitar cair no ridículo, se não mesmo aceitar servir de veículo a pressões eventualmente “relvistas” (ou “seguristas”?), essas sim evidentes com a publicação de tal título, sobre o sentido de voto da bancada do PS.
É pena que não evite. Há no mesmo jornal, por exemplo, uma excelente reportagem sobre o trabalho de um assistente social num bairro pobre do Porto, de cuja leitura é impossível não concluir da importância da educação, da cultura e do acesso ao conhecimento na transformação para melhor das camadas mais desprovidas e iletradas da nossa sociedade. Com vantagens para todos, até do ponto de vista económico. Daqui a alguns anos se perceberá como cortar cegamente no ensino público, nomeadamente na educação de adultos, e em certas ajudas sociais se paga muito mais caro do que os milhares de euros que agora se pouparão.

Gente feliz, sem lágrimas

Arrastados na enxurrada de medidas que visam tornar-nos mais pobres, é sempre reconfortante constatar, quando se levanta a cabeça, que alguém anda contente. Assim:

Paulo Portas – Realizado o sonho da sua vida, ser ministro, é vê-lo a viajar por todo o lado numa actividade que, se não é, parece totalmente autónoma do governo e cujos resultados práticos não se vislumbram. Mas anda feliz.

Passos Coelho – Queria tanto ser primeiro-ministro e dar cabo do Estado e dos serviços públicos, tendo para isso construído uma narrativa de mentiras como nunca visto, que hoje deve sentir-se muito próximo de realizado. Qualquer outra solução para a crise que não o desmantelamento dos serviços, a oferta, em fatias, do sector público ao privado e a redução dos salários deixá-lo-ia altamente frustrado. Por isso, a bem da sua felicidade, esperemos que a crise se mantenha, ou mesmo que se agrave. Ele bem segreda à Merkel.

Cavaco Silva – Feliz por ter corrido com Sócrates que, em 2009, ousou ganhar as eleições à sua amiga Manuela. Feliz por ter sido reeleito. Feliz por ter os da sua cor no governo e feliz por ver os seus amigos do BPN a safarem-se com a máxima serenidade e a conivência da imprensa.

Seguro – O homem anda feliz porque o seu actual estatuto lhe permite reunir com imensa gente – desde a CIP às organizações sindicais, o PR e o PM e, no estrangeiro, com Zapatero, Delors, Hollande, Barroso, PE, enfim um privilégio! De volta à Assembleia, enche de vez em quando o peito, afina a goela e mostra-se indignado, mas, cá para mim, nem sabe bem porquê.

Somos ricos, não sabíamos e possivelmente é melhor nem sabermos

A avaliar pelas declarações sempre surpreendentes do ministro da Economia, alguém descobriu que temos ferro, lítio, ouro e gás natural a rodos, prontinhos a serem explorados por multinacionais estrangeiras de todo o planeta, desde a Austrália ao Canadá. Um dos contratos vai já ser assinado dentro de dias. Poderíamos saber as condições de exploração?

Por outro lado, como conciliar a exploração mineira e de gás com o turismo para a terceira idade estrangeira?

Cinema – 5 estrelas é demais!

Segundo li, o realizador João Canijo reagiu com violência física contra um crítico do Expresso que ousou atribuir apenas duas estrelas ao seu filme “Sangue do meu sangue”. Quer isto dizer que se tem em muito alta conta. Terá razões para isso?
Vi o filme na semana passada. Com tanta crítica laudatória, as expectativas eram altas, mas o que vi não me suscitou tanto entusiasmo como a algumas pessoas. Explico:
O ritmo é, em geral, lento (daí as quase três horas) – longos percursos das personagens de e para casa, à boa maneira dos filmes insuportáveis portugueses, cenas demasiado demoradas. Para percebermos que uma casa é minúscula não é necessário filmar os seus interiores repetida e longamente. As conversas prolongadas às refeições, a dos carapaus por exemplo, que até podem ser realistas, não acrescentam muito à trama.
Duas histórias correm em simultâneo (por vezes os seus protagonistas partilham o écran em diálogos distintos), emanando de e convergindo na casa de uma família pobre dos subúrbios da capital, onde, através da chefe de família, encarnada por Rita Blanco, ganham sentido os laços de sangue que dão o título ao filme. Existe uma solidariedade familiar, embora em facções.
De um lado, o bas-fonds do narcotráfico, história violenta, que culmina na cena final extrema de humilhação e sangue, para muita gente, eventualmente, a cena mais marcante do filme. Palavrões em barda, ao bom estilo “fuck” e “fucking” das centenas de filmes hollywoodianos que já vimos sobre essa temática, desta vez em língua portuguesa. Os actores vão bem, com destaque para o chefe do gangue. Mas só isto não faz um bom filme. O tema é demasiado batido.
Do outro lado, uma história amorosa que parece prometer grande realismo e também alguma originalidade, mas que depois descamba, com grande prejuízo, para um enredo telenovelesco, risível e bastante inverosímil dando, quanto a mim, cabo do filme. Os diálogos são maus e o pior deles todos é o da conversa de rompimento dos amantes, candidato ao pior diálogo da história do cinema. Agravado pelo péssimo desempenho do actor que faz de médico. Já Rita Blanco é sem dúvida uma boa actriz e domina o filme. Quase arrisco dizer que os diálogos que protagoniza são provavelmente de sua autoria, atendendo à qualidade dos restantes.
Em conclusão, o que nos fará dizer que ganhámos algo ao ver este filme? Muito pouco. Que nos subúrbios há muita crueldade e também bons sentimentos, muitas vezes coexistindo na mesma pessoa? Que um criminoso pode ser um bom pai? Que o realizador estudou bem o meio? Sim, tudo indica que sim, e o aspecto para mim mais bem conseguido é o da relação tia-sobrinho. Mas falta contexto, falta história àquela gente. Falta a diferença que faz um bom filme.
Parece-me que, entre alguns dos nossos críticos (no Público, por exemplo, os três críticos atribuem ao filme 5, 5 e 4 estrelas), há uma tendência para valorizar demasiado determinados filmes portugueses só por serem portugueses e não serem maus. Não é assim que vamos lá. Objectividade precisa-se. Cinco estrelas, meus deus?

Que vai Passos fazer à cimeira?

O primeiro-ministro avisou hoje que seria “imprudente aumentar a carga fiscal” sobre o sector privado admitindo que os patrões estão pressionados a cortar nos salários para aumentar a competitividade das empresas.

Sabemos que a racionalização de custos no sector privado significará em muitos casos um aumento do desemprego, a redução dos salários ou de outras compensações como bónus, benefícios e prémios de desempenho. Sabemos que significará em muitos casos a redução dos lucros e portanto dos lucros distribuídos. É o que farão os nossos competidores internacionais. Teremos de fazer o mesmo se quisermos ultrapassar a crise económica e lançar as bases do crescimento futuro.”

Fonte

Pergunto-me se estas (e outras) declarações, se lá chegarem, assim como o empenho deste governo nas suas novas políticas, se dele houver notícia, não causarão alguma perplexidade na União Europeia. Ou seja, para quê procurarem-se soluções europeias para a crise do euro e para “aliviar” a consequente carga brutal de austeridade que pesa sobre as populações de alguns países, entre os quais Portugal, se há palhaços destes a comprazerem-se e a promoverem convictamente o empobrecimento generalizado do país para fazer face aos “nossos competidores internacionais”? Aos nossos competidores internacionais!? Estará a referir-se à China ou à Índia, ou apenas à Roménia e à Bulgária?
Realmente, faltam-me as palavras perante tal frieza.
Corre-se até o risco de a cimeira ser decepcionante para Passos e Gaspar, agora que tudo estava a correr tão de acordo com o plano!
Mas comprova-se, se dúvidas ainda houvesse: Estes dois defendem o que, para políticos, vá lá, normais, seria absolutamente de combater.
Já desde Abril que Angela Merkel e outros se devem debater com esta dúvida: “Ils sont fous, ces portugais?”

Sim, desculpas para quê?

Apesar das desculpas com desvios, que darão a entender que, quase exclusivamente por isso (sendo o resto alegadamente “prevenção”), estas medidas violentas, recessivas e de empobrecimento da população são absolutamente indispensáveis – elas ou a bancarrota, dizem – convém não esquecer em momento algum que estes governantes, antes de o serem, e os seus apoiantes sempre se mostraram fervorosos defensores de medidas deste género como solução para o país, tendo até achado conveniente a vinda da Troika. Entendiam que os trabalhadores ganhavam demais, no privado e no público, que gastavam demais, que havia contratos escritos a mais. Estas medidas apelidam-nas, às tantas, de reformas estruturais, aplicando-as agora mais facilmente sob o chapéu-de-chuva do memorando e da crise.
Por isso, dispensamos totalmente o ar compungido com que Passos e Gaspar se apresentam, um com óculos, outro com olheiras, aos portugueses.
Não alardeavam que o peso do Estado na economia e do funcionalismo público era excessivo? Pois agora mais não estão do que a tratar desse aspecto do seu programa, degradando as condições de trabalho e baixando as remunerações dos funcionários públicos, convidando muitos, sobretudo os mais qualificados, a saltar do barco. Tudo perfeito, portanto.
E não alardeavam que as empresas se viam constrangidas pelo peso das obrigações sociais e salariais, sendo essa a razão por que não eram competitivas? Pois esse problema está também a ser resolvido através da consequência colateral da redução dos salários públicos – a redução dos do privado também. Além do aumento do desemprego, um factor importante, que determina o preço das novas contratações.
Não venham, por favor, com ar dramático, anunciar aquilo que sempre desejaram e não tinham condições para pôr em prática!
É que, quando se aplicam as políticas concebidas para alcançar os resultados desejados, para quê lamentá-lo e arranjar desculpas, dando a entender que, se pudessem, se tivessem margem, se não tivesse havido desvios, nunca fariam tal coisa? Fariam e com muito gosto.
Acaba-se com os serviços públicos degradando-os, acaba-se com os funcionários públicos desmotivando-os, acaba-se com as reivindicações privatizando e transforma-se o país numa economia competitiva, à luz das suas teorias, precarizando e escravizando o trabalho. No fim, cantam o hino nacional com os empresários seus amigos.
Passos já declarou que não entende que deva pedir desculpa aos portugueses. Compreendemos.