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Barreira dos 7%

Lembram-se de ouvir dizer que o governo Sócrates devia ter pedido “ajuda” antes, nomeadamente quando os juros da dívida pública a 10 anos atingiram os 7%, sendo a recusa a causa mais apontada pelos direitolas para o “estado a que chegámos”? (pobres demagogos)
O safado irresponsável não quis saber. Continuou “levianamente” a resistir, com o aval da UE.
Agora, o “safado irresponsável” do Mario Monti, numa altura em que a Itália já está obrigada a pagar 6,47% pelos empréstimos a 5 anos e mais de 7% a 10 anos, também não está a pedir a “ajuda” da Troika. Um criminoso, portanto. Um irresponsável. Não é? Se não, porque será?

“Os mercados accionistas abriram negativos, mas as quedas agravaram-se depois da emissão de dívida italiana, que, pelo prazo de cinco anos, teve de pagar 6,47%, – um nível de juros incomportável a longo prazo. Desde a cimeira Europeia da semana passada, os juros das dívidas soberanas não dão qualquer sinal de correcção.” (do Público)

Conforto não lhes falta – Passos fala estrangeiro

Vamos lá a saber. Como interpretará a grande maioria da população do nosso país as seguintes palavras do primeiro-ministro, ontem proferidas para as televisões:”o Governo está absolutamente confortado com a proposta” (feita pelo ministro da Saúde)?

Contexto: aumento das taxas moderadoras e “plafond” ainda não atingido.

«Questionado se os aumentos das taxas moderadoras que estão previstos não poderão deixar portugueses sem acesso à saúde, o primeiro-ministro respondeu que “não” e que “o Governo está absolutamente confortado com a proposta” feita pelo ministro da Saúde.» (ler no DN)

Lembramo-nos tão bem de quando Sócrates não queria pagar a dívida

Nem baixar o défice! Tudo começou a tornar-se claro por volta de 2007/2008, ia o governo com mais de dois anos de exercício e satisfeito da vida com o défice herdado, de 6,3%, quando, de repente, se deu conta de que o mesmo caíra para uns escandalosos 2,8%! Como fora possível? Sócrates não queria; achava que ter um défice elevado era bom, significava que Portugal poderia num dia glorioso avistar-se da Lua: as suas obras sumptuosas, douradas, faraónicas seriam o cartão de visita do planeta! E ele, o seu responsável.
Mas enfim, azar, aconteceu. O défice baixou. E que fez o nosso homem? Ouviu dizer que rebentara um escândalo em Wall Street, umas vigarices valentes, uns “subprime”, uma bolha imobiliária que rebentara e que, diziam-lhe, estava a causar um tsunami na Europa, com fecho de empresas e quebra acentuada das receitas. Viu ali então uma ocasião única para voltar a elevar o défice e aumentar a dívida para níveis mais compatíveis com o seu gosto e as suas teorias económicas extravagantes, que, sabe-se hoje, assentam no princípio de que quanto maiores as dívidas dos Estados melhor, e que as dívidas não são para pagar em nenhuma circunstância. Esta informação chegou-nos directamente de Poitiers, com o selo de garantia do Correio da Manhã. Não ouvimos o mesmo que o director do jornal nem o orador o confirmou, mas, se eles o dizem… vamos discordar porquê?

Foi assim que, apesar das ordens estritas da União Europeia para que nenhum Estado-Membro apoiasse a economia e que, nos diferentes países, se deixassem as empresas em dificuldades ir à falência – caso da Alemanha, que deixou imediatamente falir a Volkswagen -, Sócrates, teimoso, insistiu em aumentar os apoios aos desempregados e conceder incentivos à economia, prevendo, inclusivamente, investimento público para compensar a falta de investimentos privados e não deixar morrer a economia. Tudo, claro, contra as directrizes da Comissão que até nem tinha adoptado um pacote de medidas de estímulo intitulado “Plano de Relançamento da Economia Europeia”.

Contente por finalmente estar a conseguir aumentar a dívida e o défice para valores totalmente do seu gosto, e não vendo, não vendo mesmo, tão enebriado estava com os gastos sumptuosos, que os especuladores começavam a encontrar na zona euro um filão promissor e potencialmente inesgotável, começou a pedir à oposição que lhe desse todo o apoio possível ao aumento do endividamento. Foi isso, não foi? E aí, ironia!, constatou que a dita oposição, sim, lhe dava todo o apoio : não queria impostos, não queria sacrifícios, havia limites! Ele queria gastar mais e eles até alinhavam!
Só para contrariar, porém, e contra tudo o que pensava, até mesmo contra as novas directrizes da União Europeia, Sócrates começou a reduzir a despesa e a seguir uma via de maior austeridade, através dos PEC.

E a oposição? Uns, que não, que não podia ser, que havia direitos adquiridos. Outros, que não, que assim não, que havia maneiras simplicíssimas de cortar na despesa, que não se justificavam aumentos do IVA, nem cortes de 5% nos salários, nem suspensão das transferências para a Madeira, nem escalões no ensino. Que fariam melhor e mais rápido sem sacrifícios para os portugueses, que já se sentiam no limite.
Transpostos estes argumentos para o megafone do presidente da República e depois para o das televisões, tomaram o poder.

O resto da história e os limites da austeridade já são de todos conhecidos.

Mas aventesmas como esta ou Freitas ou Henrique Monteiro do Expresso e outros pulhas, que até admitem que a crise é sistémica e que a sua origem nacional é altamente discutível, continuam a debitar que Sócrates foi o responsável pelo estado a que chegámos, agora revigorados pela descoberta de que, para ele, as dívidas não se pagam (o que desde a primeira hora do seu governo se demonstra, não é?) e, portanto, os défices não se baixam. Até quando vamos ter de aturar estes vómitos?

Dissidentes do BE…

…chamam “institucionalizados e parlamentarizados” aos militantes da facção actualmente dominante no partido (Fonte). Sendo então os que lá estão os finos e acomodados, podemos esperar a formação de um partido de rua, à margem das instituições? É desta que vamos ter o nosso Outubro Vermelho, camaradas?

Folgo, no entanto, em saber que alguma coisa mexe no reino do Louçã ou pós-Louçã ou anti-Louçã. 200 são muitos!

Perguntas inocentes no rescaldo de dois assuntos

1. Havia ou não havia uma vontade imensa de entrevistar José Sócrates? A mini-entrevista de ontem foi quase nada, mas, apesar disso, ouvi o jornalista Carlos Daniel na RTP-I a dizer que, se soubesse que Sócrates dava entrevistas, ele e muitos outros jornalistas também gostariam de o ter entrevistado! Impossível de esconder a invejinha de Isabel Damásio, ah, ah!
Espantoso o fascínio de Sócrates e o interesse pelo que terá a dizer (apesar dos gritos histéricos, que Freud explica).

2. Back to Brussels: Será que a Alemanha e a França estão convencidas de que o reforço, a generalização e o maior controlo das medidas de austeridade vão mesmo convencer os “mercados” a acabarem com a especulação? Não é hoje que o euro explode, mas os mercados na segunda-feira vão dizer como é. No fundo, não quererá mesmo a Alemanha acabar com isto tudo?

Ia já longa a madrugada em Bruxelas quando, após nove horas de negociações intensas, os líderes dos 17 países do euro fizeram divulgar uma declaração conjunta em que se comprometem a seguir o essencial das propostas franco-alemãs de reforço da disciplina orçamental. Angela Merkel queria que as novas regras ficassem inscritas na “pedra”, ou seja no Tratado de Lisboa e no quadro jurídico da União Europeia e das suas instituições.

Ou, lido em inglês, no site da BBC:

“Even so, the main impact of these changes will be in the long term.

Last night’s historic agreement has little to say about debt, about the absence of growth, about the European economies that continue to grow apart.

The major test will be whether a commitment to budgetary discipline frees up the European Central Bank to act more aggressively in the markets and so lower the borrowing costs of troubled countries like Italy and Spain.

The head of the ECB, Mario Draghi, was circumspect last night, saying only that the agreement was “going to be the basis for a good fiscal compact and more discipline”.

Freitas: onde está a decência?

Freitas ontem à noite

Depois de várias reviravoltas políticas, que passaram pela criação do CDS após o 25 de Abril, pelo abandono do partido mais tarde, o que lhe grangeou o estatuto de persona non grata no Largo do Caldas e levou à cena caricata da retirada da sua fotografia das paredes, por uma candidatura à Presidência da República, uma passagem pela AG da ONU e pela participação em governos de diferentes cores, nomeadamente no primeiro de José Sócrates, do qual saiu, não em conflito (embora quem pudesse ter razões de queixa (políticas) fosse Sócrates), mas devido a problemas graves de saúde, Freitas do Amaral decidiu atacar o antigo primeiro-ministro com a mais descarada das ligeirezas e o mais descarado dos populismos e, direi eu, oportunismos. Este ataque já data de há uns meses, bem antes das últimas eleições. O tempo suficiente para que a cambada que agora nos governa o considere digno do lugar de presidente do conselho de administração da Galp. Pois é.

Freitas, como a direita rasca que nos calhou em sorte, tem proferido afirmações verdadeiramente incompreensíveis para quem deveria ter mais, muito mais do que dois dedos de testa. Freitas faz completa tábua rasa das circunstâncias em que Sócrates foi forçado a governar desde 2009, após uma campanha sem paralelo de ataques pessoais, da crise internacional do subprime, cujas consequências já então se sentiam fortemente aqui na Europa, da gravidade de uma eventual recusa de formar governo nessa altura crucial e da abertura de uma crise política, das directrizes da União Europeia no sentido de se incentivar a economia, da inversão brusca dessas mesmas directrizes mal a Alemanha resolveu o seu problema e mal começou a especulação em torno do euro, do comportamento velhaco das oposições.

Crespo, que não perde uma que alimente o ódio contra o ex-primeiro-ministro, convidou-o para o Jornal das 9. Claro que o pretexto foi o lançamento de um livro (estamos no Natal, afinal!).
Imagino que Portas não ache muita piada à nomeação de Freitas para a Galp, sendo por isso conveniente carregar os tons das acusações ao anterior governo. No balcão do Crespo, Freitas aproveitou o vídeo da palestra de Sócrates em Poitiers para desferir mais um golpe completamente oportunista, baseado numa deturpação propositada das afirmações de Sócrates, e ridículo, pois qualquer pessoa percebeu que o problema de que falava o conferencista era o do pagamento das dívidas de alguns países a um ritmo de mata-cavalos. Era o problema da necessidade de desenvolvimento dos países. Era o da diabolização das meras dívidas!
Freitas não é burro ao ponto de não o perceber. O problema dele, como resulta claro, é o que o move. E aí, não se vislumbra nunca nada de muito edificante. Um distinto catedrático que perdeu mais uma boa oportunidade de se distinguir da podridão.

Verniz intergovernamental

Segundo os planos mais ou menos conhecidos da chanceler alemã, os países que celebrem o novo pacto de estabilidade do euro vão ter de submeter-se a uma disciplina orçamental rigorosa (para nós, maior do que a actual), não autónoma, controlada a nível da Comissão (ou assim parece), e os desvios e incumprimentos serão punidos pelo Tribunal de Justiça Europeu. Estes planos baseiam-se, claro está, no princípio teutónico dos santos e pecadores, totalmente discutível, até por grandes sumidades internacionais, e que, aliás, já começa a perder consistência com a transformação dos primeiros dos santos, os Santos dos Santos, em pecadores como os outros, quiçá mortal e suicidariamente pecadores. Mas esse princípio foi plenamente abraçado e é repetidamente defendido pelo nosso actual primeiro-ministro, que precisa de justificar a falta de qualquer desígnio de desenvolvimento para o país com os “pecados” do seu antecessor que agora haverá que expiar e pagar. A senhora Merkel é tão-só o farol que o ilumina. Um triste, sem qualquer orgulho próprio (é certo que não tem motivos) nem nos cidadãos que governa.

No caso concreto do Portugal pecador (para perceber os nossos pecados, basta ler o post do Valupi intitulado “A culpa é dos faraós”), e no que toca a um possível desenvolvimento económico que nos tire dos infernos, exceptuando as migalhas que algumas empresas alemãs ou francesas benemeritamente aqui quiserem investir (digo benemeritamente, porque, bem mais perto das fronteiras alemãs, existem paraísos de mão-de-obra barata, como a Roménia, a Bulgária, a República Checa, futuramente a Croácia e a Sérvia, etc., bem mais barata do que a nossa e com melhores acessos ao núcleo duro da Europa), como não há crédito, as perspectivas são as de os nossos investimentos apenas poderem decorrer da riqueza gerada a nível interno. Ou seja, em plena recessão e a afundar-nos, nenhuns. Nas nossas circunstâncias, sem crédito para ideias luminosas devido às pobres perspectivas causadas pela recessão, e sem mercados europeus para onde exportar, dada a austeridade generalizada, restar-nos-á o quê?
O espartilho do euro vai condenar-nos à maior e mais longa miséria de que há memória. E em regime de subjugação política. Há uns tempos, falava-se que o abandono do euro por parte de um Estado poderia ter um efeito arrasador nos restantes sócios desta abstrusa empresa. A ser verdade, e se em vez de um (Grécia), forem dois a ameaçar sair (e porque não a Itália?), não estará aí uma poderosa arma de pressão a nosso favor? Iremos ser chantageados na próxima cimeira. Tens alguma na manga, Passos? Ou baixas as orelhas? É que o que nos propõem não acende a mínima luz ao fundo do túnel. Do que li, não há cenoura a acompanhar o chicote. E os nossos interesses não são os da Alemanha. Nem os dos eleitores da senhora Merkel, nos quais, como sabemos, não nos incluímos.

Só pode revoltar, por isso, o que lemos sobre as ideias do ministro das Finanças alemão, citado pelo Jornal de Negócios, e o “elogio” hipócrita e paternalista que dispensa a Portugal e à Irlanda.
Não percebe ou não quer perceber que o problema da zona euro é actualmente o seu fraco crescimento, impossível de inverter com políticas sacrificiais de empobrecimento.
Não será na sexta-feira, mas um dia o verniz estala.

Momentos altos de televisão

1. Ontem, na SIC-N, Mário Crespo conversava com Maria João Avillez sobre a entrevista de Passos. A conversa prosseguia amena, como não podia deixar de ser, com Maria João a controlar mais do que o habitual o tom laudatório com que comenta as intervenções deste filho de médico. Mesmo assim, às tantas, pergunta Crespo, não se contendo: “Estaremos perante um novo Sá Carneiro?”
Devo dizer que a resposta esteve muito longe, tão longe do Sim, que foi um enfático e repetido Não… Tontice nem sempre é sinónimo de burrice.

2. Também ontem, noutro canal, o deputado Carlos Abreu Amorim, que, devido à sua compleição física, tem riscos de enfarte, mostrou como se disciplina para preservar a saúde e a receita é muito simples: não pronuncia o nome de José Sócrates em nenhuma circunstância. Tendo jurado a si mesmo que não o faria, mesmo quando parece incontornável para efeitos de acusação, ontem cumpriu e não o fez. O resultado foi hilariante. Valha-nos Zeus, que o peso das superstições ligadas a Satanás ainda é grande.

O pior da fruta: um cerejo e Verde

Lemos há dias que o Público estava com dificuldades de ordem financeira e que até iria reduzir o salário dos colaboradores. Talvez para aliviar o sufoco vendendo uns exemplares valentes, encomendaram uma “investigação” ao jornalista Cerejo, o que tem como dossiês exclusivos ora Sócrates ora António Costa (mas, com tantas qualidades investigativas, não se percebe porque nunca lhe deram o caso BPN).
Hoje calha a vez a Sócrates, o grande objecto do seu ódio. E o que “investigou” o jornalista? O processo académico de Sócrates na Independente, aproveitando a saída de um livro. Grande ponto de interesse do artigo: O antigo administrador da Independente, e autor do livro, diz ter consigo os originais dos documentos que serviram de base à investigação do DCIAP.
Primeira pergunta de qualquer leitor: E são discrepantes em relação às cópias? Parece que não.
Segunda pergunta: E porque não os entregou na altura? “Ninguém mos pediu”, responde Verde.
Se continuar por esta via dos “scoops” ocos, o Público extingue-se, o que é de lamentar, porque ultimamente estava francamente parecido com um jornal decente.

Quem pode derrotar Obama para o ano? Angela Merkel.*

* Piada que circula nos EUA e referida neste artigo da BBC sobre a reunião de Obama, Barroso e Van Rompuy em Washington.

A irritação com a Alemanha já não se limita à Europa. Aguarda-se com grande expectativa o resultado dos “cozinhados” franco-alemães.

Apesar de o Ministério das Finanças alemão ter desmentido que a Alemanha tenha um plano para mutualizar a dívida dos países (ainda) com notação AAA (neste momento, seis), deixando os restantes na periferia (na pocilga?) a que pertencem, não custa muito imaginar que soluções desse tipo estejam a ser seriamente ponderadas pelo “Eixo”. O que nos leva, ou deveria levar, a pensar no nosso próximo destino.

Este governo que não mude de discurso, não (e, já agora, o Seguro). Um dia destes o país é atirado borda fora do euro e estas vénias humilhantes à senhora Merkel vão parecer ainda mais ridículas do que já são.

Eu até gostava de ser primeiro-ministro

Rui Rio considera que “não é possível termos um poder político forte e capaz quando na comunicação social as pessoas são denegridas permanentemente e são julgadas na praça pública de uma forma perfeitamente arbitrária”.

Notícia completa

Concordo. Mas o que leva Rui Rio a fazer estas afirmações agora? Se está a referir-se a casos como o de Duarte Lima (ou qualquer outro cidadão a braços com a justiça), evidentemente que o comportamento da comunicação social é infame, embora comercialmente compreensível, mas menos infame, por exemplo, do que o dos agentes da justiça que lhe fornecem as informações “preciosas” e que são as verdadeiras fontes da boataria e das meias verdades. O que Rui Rio não deixa de reconhecer. Mas Duarte Lima não é um político no activo. Há anos que não exerce qualquer cargo. Então?
Se está a referir-se a Sócrates, seja bem-vindo, mas já vem tarde. Na altura, como o próprio afirma, “até achava graça”, não era?

O facto de, ao ler a notícia, ter imediatamente imaginado na cabeça de Rui Rio estes dois casos deve-se claramente à proximidade do primeiro e ao exemplo flagrante e escandaloso de ataque insuportável que o segundo constituiu. Mas a amálgama é incompreensível. Confundir acusações de burlas de milhões e de homicídio com montagens de origem política, com um objectivo bem preciso de abater um adversário é não ajudar nada à desejável separação de águas.

Eu sei, dirá que não estava a referir-se a nenhum caso concreto, mas o problema é que, se houve político que foi denegrido e injuriado na comunicação social foi Sócrates, e com tal força que ainda hoje a mera menção do seu nome leva muita gente a afiar os punhais, pelo que, mesmo não aludindo a ele, é impossível não o incluirmos na nebulosa que emana das palavras de Rio. Rui Rio, embora pense que não, está assim também a contribuir para o “caldo” de que o seu próprio partido é corresponsável.
De fora da nebulosa estará, certamente, para Rui Rio, Cavaco Silva e o arranjinho com o Público pouco antes das eleições de 2009 com vista à propagação do boato de que a presidência andaria a ser ilegalmente escutada pelo anterior primeiro-ministro. Esse quadro, efectivamente, assusta e desmotiva.
As acusações genéricas, confundindo tudo, têm o efeito contrário ao pretendido por este, por vezes ingénuo, Rui Rio. E perpetuam a ineficácia da justiça ao cegar a opinião pública.

Obviamente que as discordâncias da ala não neo-liberal do PSD, na qual se inclui Rio, em relação à política impiedosa e experimentalista do actual governo levam o presidente da Câmara do Porto a pensar com os seus botões se não teria apoio suficiente para liderar o partido e correr com os estarolas. Homem, pense nisso. Mas olhe que uma coisa são insultos, insinuações e calúnias a políticos, luta política rasteira (não confundir com os casos de polícia – Duarte Lima e Oliveira Costa) e outra bem diferente são críticas. Estas terão toda a razão de existir numa sociedade democrática. Por vezes fica-se com a sensação de que Rio também não está preparado para críticas.

Céus, Portugal não é um laboratório

Vítor Gaspar estudou durante uns anos uns livros de economia e agora ofereceram-lhe um povo – nós – para poder aplicar, à letra, a título experimental, a matéria estudada.

“Questionado por Fernando Medina, do PS, sobre qual o impacto no crescimento económico das reformas estruturais, Gaspar respondeu que “é uma pergunta difícil” e continuou: “Não existe metodologia que permita quantificar com qualquer grau de rigor o impacto deste tipo de políticas no crescimento”.
Segundo o ministro das Finanças, “a evidência empírica sugere que os impactos podem variar muito fortemente de país para país”,
etc.

Fonte

Quando for corrido, ainda estará agarrado à página 24 sem compreender porque não o deixaram aplicar a metodologia específica ali enunciada, que, segundo o autor, é espectacular.

Num país perto de si

Ouvinte belga, hoje, em declarações a uma estação de rádio, onde um painel de políticos justificava a ruptura das negociações para o orçamento: “Parem de discutir. Não estamos em altura de respeitar princípios. Elaborem o orçamento e esqueçam os princípios.”

Estas frases traduzem bem o que se passa hoje em dia em grande parte da Europa. Cada vez mais países têm de encontrar soluções governativas sob a espada de Dâmocles dos especuladores. Os partidos de esquerda, de facto, estão perante o dilema de 1) manterem intactos os princípios que subjazem aos seus programas eleitorais, sob pena de os militantes e simpatizantes não se reconhecerem nas respectivas lideranças, ou 2) de os abandonarem, ainda que aos poucos e a contragosto, sendo acusados de indiferenciação em relação à direita.

Na Bélgica, com uma dívida próxima dos 100% do PIB, mas gozando, por enquanto, de uma boa situação económica, as negociações para a formação de uma coligação governativa apenas se concluíram ao cabo de mais de um ano após as eleições, mas, enfim, concluíram-se. Agora, negociava-se o orçamento para 2012, sem o qual não haverá (e bem) governo empossado. O resultado revelou-se um fracasso. Sem acordo possível, o hipotético futuro primeiro-ministro bateu com a porta e apresentou a demissão ao rei.
O problema qual é? São vários. O problema de fundo é que esta coligação foi formada contra o partido mais votado na Flandres, a NV-A, que, por ser independentista, ficou de fora, ao boicotar sistematicamente as primeiras negociações para a coligação. Unia-os, portanto, um inimigo comum. No entanto, quando encetam a primeira acção conjunta, que consiste na elaboração do orçamento, as divergências emergem, como não podia deixar de ser. Os socialistas acusam os liberais de quererem acabar com o sector público (hospitais, educação, prestações sociais) e de não aceitarem, por outro lado, taxar as grandes fortunas. Os liberais dizem que não. Já assistimos a isto.
Nos países em que a cizânia se instala (convém dizê-lo – porque a esquerda ganhou), os eleitores, fartos, têm vontade de mandar calar os políticos e de dar uma oportunidade aos técnicos de contas. Para terem um pouco de silêncio?

Assim se vai corrompendo a democracia por força dos “mercados”. Podemos daqui tristemente concluir que o mundo financeiro, após a crise de 2008, ganhou ainda mais poder. Assim, num país perto de si, e porque a falta de dinheiro do Estado, real ou demagogicamente exagerada, assusta toda a gente, ouvirá fatalmente, por estes tempos, onde quer que se desloque, falar no novo modelo de governos tecnocratas como o último grito em governação. Para já, por diferentes motivos, a população parece estar receptiva. É uma novidade. Pena ser só para alguns. Mais adiante se verá. Os juros não parecem estar a baixar nem na Itália, nem na Grécia, nem em Espanha, nem em Portugal, sob o comando de Gaspar. Os tempos são de grande expectativa e impotência. Aqui, na gaiola do euro.

A seta do tempo posta em causa

O conteúdo de um ovo partido espalhado no chão não se reunifica para voltar a entrar na metade partida da casca. É lógico. Esta é a lei da causalidade. A seta do tempo tem uma só direcção. Terá mesmo?
Dizem agora os cientistas que o universo não parecerá tão lógico se houver partículas que se deslocam a uma velocidade superior à da luz.

Estarão os neutrinos excluídos do limite de velocidade cósmico?

Passam-se coisas bem mais interessantes, positivas e entusiasmantes hoje em dia no subsolo da Europa do que na sua superfície. Prova de que muita e boa gente continua a acreditar no inconformismo da espécie humana (e, já agora, na sua continuidade). Com dinheiros públicos, convém dizer. Cá em cima, é a dimensão da sobrevivência finita, a vidinha, lá em baixo é do infinito que se trata, ou seja, da Vida, sem a qual nem o infinito faz sentido.

No CERN (Centre Européen de Recherche Nucléaire), gigantesco laboratório de partículas situado entre a França e a Suíça, uma experiência feita há cerca de dois meses concluiu que os neutrinos, uma partícula em (quase) tudo igual ao electrão, mas sem carga eléctrica, viajam a uma velocidade superior à da luz (20 partes por milhão), até agora o limite de velocidade cósmico.

Em Setembro, o CERN dizia cautelosamente, em comunicado:
The OPERA (nome da experiência) measurement is at odds with well-established laws of nature, though science frequently progresses by overthrowing the established paradigms. For this reason, many searches have been made for deviations from Einstein’s theory of relativity, so far not finding any such evidence. The strong constraints arising from these observations makes an interpretation of the OPERA measurement in terms of modification of Einstein’s theory unlikely, and give further strong reason to seek new independent measurements.”

Em 18 de Novembro, após uma segunda experiência de envio de um feixe de neutrinos do CERN para o laboratório Gran Sasso, em Itália, a uma distância de 730 km, um novo comunicado dizia o seguinte:

“The beam sent from CERN consisted of pulses three nanoseconds long separated by up to 524 nanoseconds. Some 20 clean neutrino events were measured at the Gran Sasso Laboratory, and precisely associated with the pulse leaving CERN. This test confirms the accuracy of OPERA’s timing measurement, ruling out one potential source of systematic error. The new measurements do not change the initial conclusion. Nevertheless, the observed anomaly in the neutrinos’ time of flight from CERN to Gran Sasso still needs further scrutiny and independent measurement before it can be refuted or confirmed.”

Ouçam este cientista, em declarações à BBC (4 minutos):

Dr Giles Barr

As cautelas são, obviamente, mais que muitas. Está em causa a inversão do tempo. No limite, a famosa ressurreição!

E, por falar em cautelas, termino com Carl Sagan, quando dizia:

Estamos constantemente a espicaçar, a desafiar, a procurar contradições ou pequenos erros residuais persistentes, a propor explicações alternativas, a encorajar a heresia.”

E também quando dizia: “Mantenham o espírito aberto, mas não tão aberto que os miolos saltem.”

O Conselho Superior da Magistratura é mesmo fofinho

Não é que a troca de uma maiúscula por uma minúscula leva à aplicação da pena de reforma compulsiva a um juíz?
Numa sentença proferida, o juíz em causa proclama que “a ré fofinha é absolvida”. A palavra aparece transcrita com letra inicial minúscula. Grande escândalo, a coisa chega ao CSM, que não se questiona minimamente sobre tão grave deslize ou tão descarado piropo, e vai daí reforma compulsivamente o juiz, pena noticiada pela imprensa, sem qualquer desmentido.
Só hoje se soube que afinal a Fofinha é uma empresa de Fios e Tecidos, Lda.

Lemos, é claro, que os 304 processos que o juiz deixou atrasar também estiveram na origem da punição, mas, atendendo às nossas suspeitas de que não será o único, o “atrevimento”, sem mais investigação do CSM, deve ter pesado imenso, ou não? Já o simples facto de ter sido admitido como verdadeiro nos deixa perplexos…

«Tal como o PÚBLICO referiu na altura (ver edição do passado dia 11), a decisão de punir o juiz com a segunda mais gravosa das penas previstas no Estatuto dos Magistrados Judiciais não se ficou a dever tanto à expressão “ré fofinha”, mas sim ao facto de o magistrado em causa ter, alegadamente, deixado atrasar 304 processos. “Há muitas outras penas que poderiam ter sido aplicadas caso se concluísse que foi essa expressão a causa da sentença. Poderia ser sentenciada uma multa, a transferência ou a suspensão de funções, mas avançou-se para a aposentação compulsiva por se entender que os factos analisados eram graves”, adiantou o mesmo responsável do CSM.»

(Fonte: Público (sem link))

Se este juiz conseguir provar que existem mais colegas com um número considerável de processos em atraso aos quais não foi imposta a mesma punição, pode até pedir uma choruda indemnização. -:)

Noutro caso bem diferente, afirma um jornal que Duarte Lima foi avisado com antecedência de que as suas residências iriam ser alvo de buscas, recebendo, portanto, sem qualquer surpresa, o magistrado Carlos Alexandre em sua casa. Possivelmente com um cafezinho bem quentinho à espera. Como é possível? Pouco falta para que alguém com conhecimento do processo o ajude a sair do país!

Poul Thomsen foi ao telejornal

Mandado por Gaspar, só pode. Uma passagem tão rápida (será que ainda vai percorrer os outros canais?) que se diria inútil. E a impressão com que fiquei é que não disse nada de jeito, fartando-se de meter as mãos pelos pés, tentando não fugir aos estribilhos do governo, ou aos seus próprios, válidos aqui e em qualquer parte do planeta, que o governo papagueia, nomeadamente que em 2013 vamos crescer e financiar-nos no mercado.
Mas disse também, por exemplo, segundo julgo ter ouvido, que há duas maneiras de os países se ajustarem: ou através de reformas estruturais, ou através do empobrecimento com a baixa de salários. Para ele, Portugal está a escolher a via das reformas estruturais. Ah!
Atendendo ao que disse Passos Coelho sobre a necessidade e a inevitabilidade de empobrecermos, não andará um bocado distraído? Ele e, pelos vistos, o José Rodrigues dos Santos, que o deixou fazer aquela extraordinária afirmação sem o confrontar com o óbvio.

Com tabela ou sem tabela, há que pagar

O Bloco de Esquerda decidiu apresentar uma proposta de legalização das “barrigas de aluguer”.
Reconhecendo a complexidade de redigir os detalhes da hipotética lei, não tenho nada contra, antes pelo contrário, até porque é impossível proibir o recurso a tal método de reprodução, aliás já com bastante procura. Melhor seria que as regras do contrato fossem claras, na medida do possível.

A matéria merecerá sem dúvida o repúdio desta maioria. No entanto, a sua prática prova também que muita gente é totalmente indiferente aos princípios da santa madre igreja em matéria de concepção de seres humanos e que só muito dificilmente se encontrará uma prestadora do serviço que entenda estar a fazer um acto de caridade, pelo qual será recompensada no céu.

“No caso da maternidade de substituição — as referidas “barrigas de aluguer” —, a proposta do BE circunscreve- as aos casos em que haja “razões clínicas” como “a ausência de útero, lesão ou doença incapacitante da gravidez” e recusa “qualquer componente comercial”. Traduzindo: a maternidade de substituição será legalmente aceite “numa base altruísta e a título gratuito”. Quando assim não for, a pena pode chegar a dois anos de prisão ou 240 dias de multa. Afastada a perspectiva comercial, Semedo explica que tal não signifi ca que a mãe de aluguer não possa ser compensada “pela perturbação e prejuízo decorrentes da gravidez, à semelhança das compensações que existem na doação de órgãos para transplante”. (Público, sem link)

No entanto, do que se lê no jornal, parece-me incompreensível, e até ridículo, que se mencione o carácter gratuito e altruista do “serviço”, ainda por cima quando, na mesma proposta, se menciona o direito a uma compensação. Alguém acredita que uma mulher se disponha a prestar esse serviço gratuitamente e por simpatia pelo próximo? Para sermos realistas: e gémeos, não deve ser mais caro?

Aceitam-se sugestões de nomes

Que tal aproveitar a maré de substituições de governantes eleitos por governantes tecnocratas não eleitos e correr com Merkel? Qualquer economista, ex-comissário, ex-governador, etc. que tenha uma visão correcta e benéfica para a Europa do que deve ser o papel do BCE fará melhor trabalho do ques esta frau, com a vantagem de, também na Alemanha, não ter de dar satisfações ao eleitorado nem estar por ele condicionado.

Este novo método bizarro de suspensão da democracia parece não suscitar, para já, grande contestação das populações. Devia era aplicar-se a todos. O eleitorado alemão e as preocupações da senhora Merkel com esse mesmo eleitorado não estão a ajudar em nada a Europa a sair da crise. Assim sendo…

(Des)governados por quem?

Antecipando-se à Itália e à Grécia na colocação de um tecnocrata (contabilista) à frente do executivo, Portugal, para efeitos práticos, é governado por Vítor Gaspar. Primeiro (pela boca de Passos e de Relvas), havia abertura para discutir um dos subsídios; uns dias mais tarde, nem pensar. Depois, havia abertura para excluir a restauração da subida do IVA para o escalão mais alto; Gaspar veio ontem dizer que não, por não ser um sector exportador (!). Outros et ceteras terão presumivelmente levado nega de Gaspar (isto, admitindo que, apesar de neoliberal, Passos tem mesmo assim veleidades a fazer alguma política).
Cavaco admite ter-se conformado com a renitência do governo em introduzir mais justiça no orçamento e Rui Rio e outros PSD da linha não neo-liberal também não têm grandes hipóteses de ter algum ganho de causa com as suas intervenções.
Portugal tem assim o seu destino totalmente entregue a um ex-funcionário do Banco de Portugal, segundo penso destacado no BCE, perito em deves e haveres, adepto de uma determinada teoria económica e intransigente (e contidamente radiante) na sua aplicação.
Com todos os indicadores a agravarem-se e ameaças de que estas medidas podem não ser suficientes para cumprir a meta do défice em 2013, não sei, sinceramente, o que vai ser deste governo (de governos destes, a bem dizer) e, pior ainda, deste país. A União Europeia, completamente indiferente ao empobrecimento das populações do sul, tudo fará para segurar por aqui Vítor Gaspar, cuja função é totalmente consonante com a de Papademos e, agora, de Mario Monti. Creio até que Merkel considerará as próximas eleições nesses países um enorme contratempo, que melhor seria se fosse evitado.
Ainda se com isso enriquecêssemos, nos educassem, nos civilizassem, tais personagens seriam bem-vindos. Para nos destruírem ou nos mandarem emigrar, evidentemente que não são!
Estamos, portanto, a assistir a uma ocupação, versão século XXI, por interpostas pessoas. Haverá os colaboracionistas, já estão até nos seus postos; mas haverá também, espero eu, o Maquis.

Em vez de perder tempo a discutir almofadas, mostrando-se igualmente subjugado aos ditames de Vítor Gaspar e de uma União Europeia incompetente e egoista, o PS faria melhor em discutir seriamente uma alternativa a este triste fado e ter coragem de a assumir. A verdade é que está tudo mal desde o princípio: o modo torpe como este governo chegou ao poder, a política da UE, as condições da “ajuda”, a estória do ir mais longe, as ocultações de Jardim e a protecção do governo e respectivas consequências no défice, este orçamento, enfim, tudo. Não há nada que se aproveite.