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O pecado da modernização das escolas

Não havendo qualquer notícia de fraude ou desvio de fundos, há algo de muito errado, rasteiro e revoltante na maneira como esta direita ataca a Parque Escolar (o mesmo já acontecera com o Magalhães): em vez de se regozijarem com a ideia louvável que alguém teve de melhorar, e com urgência, a qualidade das escolas públicas, a maior parte delas degradadas e com falta de, por exemplo, instalações desportivas, e em vez de se orgulharem e de quererem, eles também, aproveitar ao máximo os fundos da UE para prossecução de tão nobre causa, não perdem uma oportunidade para denegrir o empreendimento, mesmo que transpareça para a opinião pública, nela incluída a dos próprios jovens beneficiários, a ideia de que a atitude acertada teria sido deixar ruir as escolas ou torná-las infrequentáveis.

Este caso, que merecia toda a solidariedade nacional, quanto mais não seja porque a quase totalidade dos fundos provém da União, transforma-se assim em mais um triste exemplo de como o combate político protagonizado por esta direita estúpida atropela com total indiferença as mais legítimas aspirações da população (uma delas, a qualidade de vida, também passa pela qualidade das instalações onde se trabalha ou estuda).

A notícia do jornal i aqui “linkada” deixa, além disso, muito pouco espaço para explicações das partes acusadas pelo ministro.

««Nuno Crato revelou também no parlamento que a auditoria à Parque Escolar feita pela Inspecção-Geral das Finanças está concluída. E enunciou dois factos que põem em causa os procedimentos com uma das paixões de Sócrates: que a Parque Escolar deveria ter estabelecido tectos para o investimento em cada obra e deveria ter feito uma apreciação crítica da arquitectura antes de avançar com as obras.

“Não o fez”, acrescentou o ministro, “e houve uma subida de custos muito elevada.” Crato disse ainda que a auditoria do Tribunal de Contas continua na fase de contraditório e fiscaliza cinco obras, devendo o resultado ser conhecido em breve.

Quanto à situação financeira da empresa, o investimento continua a ser fortemente apoiado pelo QREN, estando em curso diligências que visam reforçar o co-financiamento comunitário e, desta forma, “contribuir positivamente para a consolidação orçamental”, diz fonte oficial da Parque Escolar. A empresa está a pagar aos fornecedores a 90 dias, em vez dos 60 anteriores, devido a atrasos nas transferências dos fundos comunitários.»

Naufrágio previsível num oceano de mediocridade

Impossível não notar que, nos últimos dias, sobretudo depois de a Grécia ter sido “resgatada” pela terceira vez para logo de seguida entrar, pela mão das agências de notação, em “selective default” (incumprimento controlado), a situação em Portugal tem vindo a deteriorar-se literalmente a olhos vistos.

O juros da dívida, que têm baixado para a Espanha e a Itália, por cá têm subido, no mercado secundário, sobretudo na dívida a 5 e 10 anos (16% e 14% respetivamente). As perspetivas de financiamento nos mercados para o próximo ano estão cada vez mais negras.

O desemprego passou praticamente de um dia para o outro de 14,3% para 14,8%!

Para coroar tudo isto, soube-se hoje que “As dívidas comerciais da Região Autónoma da Madeira estão estimadas em dois mil milhões de euros, segundo o secretário do Plano e Finanças, Ventura Garcês, pelo que a dívida global da região deve assim ultrapassar a barreira dos 8000 milhões.” (Público)

Com os alertas de várias entidades sobre a diminuição acentuada das receitas e das contribuições para a segurança social, o Governo anda desnorteado, claro, e, em desespero, resolveu regressar à velha estratégia de culpar o Governo anterior pela herança deixada.
Dificilmente conseguirão que pegue, meus caros. Dizer coisas dessas no dia em que se conhecem os novos números da Madeira parece-me desplante inútil. Portugal perfila-se para ser o próximo a cair e as teorias de Gaspar podem regressar à gaveta de um gabinete do Banco de Portugal para revisão profunda, em especial da sua parte mais curta – a referente ao contexto -, merecido arquivamento ou mesmo queima radical.

Sendo um filme de enredo trágico que ninguém gosta de ver, mas infelizmente todos pagamos para ver, não deixa de ter, apesar de tudo, os seus momentos de humor:

«O ministro Miguel Relvas afirma que o Governo está a seguir as políticas necessárias para recuperar o país tendo sempre “uma grande preocupação com os sectores mais desfavorecidos”, num comentário às declarações de Cavaco Silva sobre a austeridade. “O Governo tudo tem feito para limitar a austeridade”, disse o ministro Adjunto e dos Assuntos Parlamentares aos jornalistas.» (Público)

Álvaro Santos Pereira perde gestão dos fundos comunitários
«Segundo o jornal (DN), a coordenação dos fundos do QREN passa para o ministro das Finanças, sendo que será alterado o modelo de governação dos fundos comunitários. O objectivo passa por mover os fundos reservados para infra-estruturas, como o TGV, para outros programas de apoio ao emprego e à formação.» (Jornal de Negócios)
Já nem os transportes e o emprego, ó Álvaro?

Enquanto isto, na Europa “séria”

Para além do jogo de Sudoku do ministro alemão das Finanças no Parlamento, «Juncker considerou […] “escandaloso” que as despesas militares na Grécia se mantenham elevadas num contexto de redução de salários e pensões, e “um escândalo” que os “países virtuosos” insistam em vender equipamento militar a Atenas. A afirmação contém uma crítica feroz à França e Alemanha, que continuam a vender submarinos e aviões à Grécia. Segundo o Banco Mundial, Grécia é o país da UE que mais gasta em defesa em termos relativos, com gastos de 3,11% do PIB em 2010, bem longe do Reino Unido, no segundo lugar, com 2,65% do PIB
(Público)

Vivemos numa época de génios.

Como é que aqui chegámos e para onde vamos (momento verde)

Ultimamente, notícias da vida passada neste planeta não faltam.
Ele são as flores ressuscitadas da Sibéria (bem bonitas) a partir de material genético de tecidos congelados com mais de 30 000 anos, ele são os pinguins da Nova Zelândia com 4 1,20 metros de altura, que viveram há 25 milhões de anos e cuja reconstituição foi possível a partir de fósseis recentemente encontrados; hoje, são informações sobre o Homem do Gelo, uma múmia muito completa de um antepassado nosso, com 5300 anos, encontrada em 1991 nos Alpes italianos. Segundo as últimas análises, o homem teria 46 anos à altura da morte (um resistente), 1,50 m e olhos castanhos, ah! e, como esta sua descendente, era intolerante à lactose (não sei mesmo que mutação genética terá tornado os humanos não bebés tolerantes a tal substância).
Não tarda muito, poderemos estudar ao vivo um homem de neandertal e ensinar-lhe inglês ou oferecer-lhe um gelado e ver se fica indisposto (todas as experiências em aberto, incluindo o seu acasalamento com um homo sapiens sapiens).

Também fomos lembrados de que há vacas a mais no planeta, requisitam 30% das terras não geladas, o que deteriora consideravelmente a camada protetora de ozono devido ao metano que expelem, havendo já quem se dedique a investigar maneiras de produzir bifes, vá lá, hambúrgueres, sem necessidade de tamanha quantidade de bovinos, que consomem uma quantidade inimaginável (mas já medida) de recursos naturais preciosos. Apenas 15% da matéria vegetal que consomem se transforma em carne. Os novos “bifes” seriam produzidos a partir de células estaminais do animal, transformadas depois em tecido muscular e gordura e depois enriquecidas com nutrientes. Uma mesma vaca poderá produzir o mesmo número de hambúrgueres que um milhão delas atualmente. Será seguramente a ruína do setor agropecuário, sobretudo se admitirmos que, em breve, será também possível produzir pele de vitela em laboratório especialmente destinada à indústria do calçado e marroquinaria… De notar que o hambúrguer resultante da experiência científica custa presentemente 250 000 euros e que o cientista responsável ainda não foi abatido nem pediu guarda-costas.

Quando a forretice moralista alemã colide com o dinheiro do G-20

“Os países ricos deram este fim-de-semana novos passos para criar um “muro de protecção” mundial, mas deixaram claro que aquela que é maior ameaça à economia global – a crise da dívida europeia – tem de ser resolvida primeiro dentro de portas, o que implica cedências da parte da Alemanha. Os líderes mundiais vão esperar para ver o que sai da cimeira europeia desta semana […].

[…] Ou seja, não há acordo do G20 para reforçar em 500 a 600 mil milhões os meios do FMI (que ficaria assim com um “poder de fogo” de quase um milhão de milhão) enquanto a zona euro não reforçar os seus meios de combate.”

(Fonte: Público (sem link))

Parece-me uma reação totalmente lógica que muitos países do G-20 se recusem a contribuir com mais dinheiro para a resolução da crise financeira europeia até que os próprios europeus (leia-se «os alemães») abram os cordões à bolsa. Compreendo que países como os Estados Unidos, a China, o Brasil ou a Austrália não considerem admissível que a Alemanha, que se fartou, e farta, de ganhar dinheiro à custa dos seus parceiros continentais, incluindo os da mesma aliança monetária, ora incentivando-os a consumir, ora impondo-lhes uma dieta que lhes suga as economias só porque os seus bancos (os primeiros incentivadores ao consumo) se viram de súbito em grandes dificuldades graças ao jogo financeiro internacional, prossiga uma política sovina de poupança interna e de austeridade falsamente monástica ao mesmo tempo que impõe às populações circundantes o desemprego e a pobreza, ainda lucrando pelo caminho com a contratação dos quadros mais qualificados desses países. Alguém de fora que imponha ordem e justiça cá no burgo, mesmo recorrendo ao mesmo argumento por aqui usado: o da força do dinheiro.

Num jornal abjeto só pode trabalhar gente estúpida

Comprei o Correio da Manhã e não dei o dinheiro por mal gasto. Aqui declaro, alto e bom som, e com grande fundamento, que este diário é um nojo.

Uma jornalista de nome Sónia Trigueirão decidiu publicar uma conversa telefónica entre José Sócrates e o reitor da Independente na altura da campanha do curso, encimando-a com uns títulos que convocam o escândalo. Aconselho vivamente os interessados a irem à tasca mais próxima, ou ao respetivo caixote do lixo, e gastarem três minutos com a leitura de tal coisa. Tão ilustrativa peça de infâmia não há. Terão oportunidade de confirmar 1) a obsessão patológica do jornal e 2) como a publicação de “revelações” como esta os descredibiliza ainda mais, tal a naturalidade e sinceridade do diálogo reproduzido. Nunca ali é pedido que se falsifique ou aldrabe seja o que for. Sócrates autoriza mesmo (como mandam as regras) o jornalista do Público a consultar os documentos pretendidos.

Nada naquela conversa belisca a imagem de decência do ex-primeiro-ministro. Nada. A jornalista, pelo contrário, presta-se a revelar um nível de competência abaixo de zero na interpretação da realidade. Devia ter vergonha de sair à rua. Está ao serviço de gente sabuja e de uma causa muito pouco nobre.

(não há link, a coisa não está online)

Vamos concluir?

A percentagem de portugueses que dá nota negativa ao Governo quase que duplicou face à última sondagem da Católica, em Setembro. Nessa altura 36% consideravam que a prestação do Governo era má e 32% elogiavam o seu desempenho. Agora 62% chumba a actuação do Executivo de Passos Coelho e 29% atribui nota positiva, o que revela que os que, em Setembro (com três meses de governação), não tinham opinião formada, agora criticam o Governo.
Apesar das críticas, e de 40% da população achar mesmo que os sacrifícios impostos aos cidadãos (através, nomeadamente, do aumento de impostos) não levarão a bom porto, a grande maioria (73%) não encontra melhor alternativa em qualquer um dos partidos da oposição
.”

Que o governo vá afundando nas sondagens, já se esperava, apenas não se percebendo como alguma vez subiu ao ponto de ser eleito. Mas os portugueses dizem também não ver boas alternativas nas oposições.
O que concluis?

1. Qualquer que fosse o governo neste momento, agiria da mesma maneira e com igual gosto.

2. Quem governa, e governará, é a troika, por isso, melhor as oposições não se meterem nisto.

2. António José Seguro não entusiasma.

3. António José Seguro ainda não entusiasma.

4. António José Seguro só há poucos dias começou a entusiasmar, não indo a tempo da sondagem.

5. O PCP é para organizar manifestações, não para governar.

6. O BE não é para governar, porque ficaríamos sem os nossos depósitos bancários e perderíamos uns críticos e treinadores de bancada que nem ao relvado pretendem descer.

7. O Sócrates está longe.

8. O Sócrates está perto demais.

Ingleses veem em Passos um caso perdido de submissão a Merkel

David Cameron também já percebeu que a palavra “crescimento” causa curto-circuito nos neurónios de Passos.

“O primeiro-ministro português ficou de fora do manifesto do primeiro-ministro britânico, David Cameron, porque “não está sintonizado”, refere a edição de hoje do “Diário de Notícias”.

O jornal, que cita o site oficial do gabinete de Cameron, conta que em Janeiro passado o primeiro-ministro britânico e o seu homólogo italiano Mário Monti concordaram que “os seus países deveriam trabalhar juntos para desenvolver medidas práticas que desbloqueassem o potencial do mercado único”.

O manifesto, intitulado “Um plano para o crescimento na Europa” foi assinado por 12 primeiros-ministros europeus, tendo Passos Coelho ficado de fora. “

Lady Thatcher e o seu funeral

Depois de ver o filme “The Iron Lady”, onde Margaret Thatcher é apresentada como sofrendo atualmente de delírios com a imagem do falecido marido, sendo esse o ponto de partida e uma constante ao longo de todo o filme, decidi procurar na Rede informações sobre o verdadeiro estado de saúde da senhora. O Google sugeriu-me imediatamente a consulta do jornal Mail online, onde a notícia, com data de hoje, versa sobre o funeral da ex-primeira-ministra. O quê?! Morreu? Calma, nada disso. Pelo menos ainda não. Parece até que goza de boa saúde, apesar de pequenos AVC que lhe foram toldando a memória mais recente. Diz-se mesmo na notícia que, além de visitar com alguma frequência a rainha (mais velha, diga-se), tenciona por estes dias passar umas férias na neve com amigos. Não morreu, portanto. Mas há de morrer; num dia que, diz o jornal, muita gente espera venha longe.
E que tema desenvolve então o Mail neste dia da graça de 20 de fevereiro de 2012? A senhora Thatcher tem 82 anos e, evidentemente, restam-lhe menos anos de vida do que quando tinha 60. Pois andam, já há uns tempos (anos?), uns impecáveis e atarefados chefes de protocolo a planear ao pormenor o funeral da Dama de Ferro (presumo que o da rainha esteja planeado desde o dia em que nasceu), não fazendo disso especial segredo e a prová-lo está a clareza e crueza com que o jornal divulga os detalhes.

A questão parece merecer toda a azáfama de bastidores de que se dá notícia, por várias razões: a fazer-se um funeral de Estado, como a monarquia e as atuais forças políticas maioritárias pretendem, em primeiro lugar, a rainha (se não se finar antes) terá de estar presente (o que é logo motivo para alvoroço protocolar), em segundo lugar, quem suporta os custos é o governo e, em terceiro, não de somenos e relacionado com o segundo, há preocupações quanto ao número de militares que serão necessários para enquadrar a linha do cortejo fúnebre. Sem qualquer reserva ou tabu, a própria futura defunta também já deu um importante contributo para a organização, declarando ser seu desejo que as cerimónias decorram na catedral de St.Paul.

Não sei se tudo isto é muito “British”, não gosto de clichés, mas dificilmente imagino tais notícias a serem publicadas, sem choque e indignação, na nossa imprensa a propósito das nossas figuras ou ex-figuras de Estado mais marcantes e ainda vivas. Mas que alguém pensa nisso, não tenhamos dúvidas. Por mim, passada a surpresa com a franqueza do jornal, que até nem me pareceu devassa, penso que não será de facto má ideia exercermos ainda em vida algum poder de decisão sobre a nossa morte e dela falarmos abertamente, inclusivamente da cerimónia (ou ausência dela), das flores e da indumentária. Rendo-me, pois, ao espírito prático, partilhado, dos ingleses.

Quanto ao filme, cinco estrelas para Meryl Streep, ou melhor, se possível, 5 Óscares! Perante isto, o resto, um retrato, pelos vistos não verdadeiro, do dia a dia atual da senhora e da sua intimidade, e uma recordação nostálgica, em “flahbacks”, de uma série de momentos marcantes do seu mandato, em tom geralmente laudatório, pareceu-me bastante irrelevante.

António Capucho, vá-se lá saber porquê, diz que Passos é obrigado a ser liberal

Criticou duramente o anterior Governo por estar a destruir o Estado Social. Este Governo não está a seguir o mesmo caminho?
– Em defesa deste Governo, tenho de dizer que está a fazer aquilo a que o anterior Governo se comprometeu, que o País e o Estado se comprometeram. De facto, as prestações sociais baixaram em todos os sentidos, estamos numa situação muito difícil. Mas o Governo, quando abriu o armário, aquilo estava cheio de esqueletos.
O PSD ainda é um partido social-democrata neste momento? As políticas que estão a ser aplicadas são sociais-democratas?
– Não, são perfeitamente liberais, como é óbvio. Nem podiam ser outra coisa. Ninguém que assuma o poder e queira cumprir o acordo com a troika pode assumir a social-democracia.
– Identifica-se com o partido?
– Não é o partido que está em causa no momento, é um Governo obrigado a pôr em prática um conjunto de medidas de feição manifestamente liberal.”

Entrevista ao Correio da Manhã

Não há um que escape (mas eu pasmo sempre): o gosto da mentira e da rasteirice está-lhes na massa do sangue. Desta feita, trata-se de Capucho, o ex-presidente da Câmara de Cascais, que pensava ser escolhido para presidente da AR e possivelmente ainda pensa candidatar-se a PR.

Como pode António Capucho insistir na conversa dos esqueletos, insinuando serem dívidas escondidas pelo governo anterior, mesmo depois de tudo o que é instituição oficial, do INE à UTAO, passando pelo próprio ministério das Finanças e pela troika, o terem desmentido e estar mais do que confirmado terem os encargos com o BPN, a dívida oculta da Madeira, a quebra das receitas e os novos juros sido os responsáveis pelo agravamento do défice no ano passado?

Como pode defender o atual governo alegando que está obrigado a executar o que o anterior assinou (e eles não assinaram?), quando todos nós já ouvimos o próprio Passos dizer que o programa da troika é o seu programa (melhor, que fica aquém do dele) e que não o executa de modo algum contrariado? (atenção: havia jornalista nesta entrevista?)

Por último, como se atreve a deixar a ideia de que Passos e companhia possivelmente até queriam “assumir a social-democracia”, mas não podem deixar de ser liberais porque a troika não lhes dá outra hipótese? Isto é cegueira, disparate puro ou poeira, supondo dirigir-se a burros?

Dr Capucho, defenda lá o seu partido e os seus correligionários, seja lá com que propósito, mas com um mínimo de objetividade e decência (o senhor que, às vezes, até parece querer elevar-se acima da jovialidade/irresponsabilidade e mediocridade deste governo, como no caso de Fernando Nobre e no caso recente do Carnaval), de preferência com frases claras (nem sempre proferidas nesta entrevista), coerência e sem fazer dos outros parvos. Acredite que é um favor que fará a si próprio.

O diretor do JN parece simpatizar com os islamistas

Para quem não quiser ler este naco de prosa na íntegra, aqui deixo o resumo: tal como o novo cardeal, Manuel Tavares quer as mulheres de regresso à capoeira. Parece que há falta de pintos e elas andam muito saídas (quem sabe se da casca?). Para parecer moderno e democrático, porém, sugere que o governo, inspirado nas doutas e cristãs palavras do D. Manuel Monteiro de Castro, lhes pergunte se pretendem prosseguir com a crueldade de deixar um filho na creche ou se pretendem deixar de trabalhar e ficar em casa, porque “mãe há só uma”.
Pela parte que me toca, obrigada, nunca duvidei e, no que toca aos meus filhos, que bem que souberam e sabem aproveitar a evidência!

Acontece que, até prova em contrário, pai também só há um e, no entanto, o diretor do JN não se lembra de propor que seja ele a ficar em casa, para criar condições favoráveis ao aumento da natalidade e ao reforço do núcleo da sociedade – a família.

Sugiro ao diretor do JN que, na próxima crónica, ouse ir ainda mais longe, propondo ao governo que legisle no sentido de as mulheres tirarem apenas o secundário (isto atendendo a que, apesar de tudo, terão de orientar os estudos dos filhos varões), ou, vá lá, cursos superiores levezinhos, para poupar dinheiro ao Estado e às famílias e criar condições para uma maternidade dedicada.

Está tudo doido. Pergunto-me se ainda há jornalistas mulheres neste jornal.

Para este senhor, nada como seguir o exemplo de quem sabe: de facto, jovens não faltam nos países islâmicos. Tantos que, ainda crianças, algumas “mães que há só uma” (e também pais, é certo) não se importam que atem um cinto com explosivos em volta da cintura.

Ciência – Elogio do deserto

Em situação geocosmológica privilegiada, com um clima e um silêncio que permitem observar de forma nítida e desafogada o universo, a a terra ressequida do norte do Chile que dá pelo nome de deserto do Atacama, onde já foram instalados potentes telescópios, alberga também no subsolo, descobriu-se agora, surpreendentes comunidades de bactérias que levam uma vida extremamente austera, ao ponto de se darem ao luxo de dispensar oxigénio e luz, e que dão ideias aos cientistas quanto à existência de vida no subsolo de Marte. Ler no DN

Por coincidência, e tendo em comum o Atacama, um extenso artigo na revista The Economist de ontem informa-nos que acaba de ser instalada, num telescópio do Laboratório Interamericano de Cerro Tololo, no dito deserto, a maior câmara digital do mundo, com 5 toneladas e 520 megapíxeis. O objetivo é perceber por que razão o universo se está a expandir, não lentamente como se pensava no princípio do século passado, mas a um ritmo cada vez mais acelerado (não, não creio que exista o perigo de rebentarmos, como a rã, no processo). O projeto chama-se “Dark Energy Survey” (DES).

Sabendo-se que a matéria de que são feitas as pessoas, os planetas e as estrelas representa apenas 4% da densidade do universo (massa+energia) e que a “matéria negra”, não constituída por átomos, representa outros 22%, o mistério está em saber o que constitui os restantes ¾ da densidade, estando aí, possivelmente, a explicação para a expansão acelerada do universo. Chamam-lhe “energia negra” e supõe-se que exerça uma pressão negativa, contrária à da gravidade. Se dividirmos a pressão negativa desta energia pela sua densidade (positiva), obtém-se uma força a que os cosmólogos chamam “w” (cujo valor andará à volta de -1). Para relembrar, ou descobrir, como tudo isto se relaciona com as teorias de Einstein, com a constante universal, com as supernovas, a cor vermelha, as oscilações sonoras, o Big Bang, etc., proponho a leitura do artigo, onde também travarão conhecimento com o astrónomo Dr Perlmutter, para quem este problema exigirá ser estudado por mais do que uma geração, ou seja, a incógnita surgiu no século XX, mas, pensa ele, só no século XXII terá resposta.

A fatalidade que podia não ser

“Com alguns brevíssimos sobressaltos pelo meio, a herança que a ditadura legou foi uma herança de conformismo e obediência, que permanece viva, e frequentemente dominante, no Portugal de hoje, com a sua complacência e a sua democracia. Verdade que o PREC não se recomenda. Mas não durou muito e a velha ordem depressa voltou com a sua dignidade postiça e as mediocridades do costume. A troika escusa de se preocupar. Cá na terra nós fazemos sempre, ou quase sempre, o que nos mandam. E não gostamos nada de aventuras.”

Vasco Pulido Valente (no Público de hoje)

VPV invoca sempre os seus profundíssimos conhecimentos da história do Estado Novo para comentar a atualidade política nacional. Diz ele hoje, em resumo, que não tem a Troika que se preocupar com o nosso cumprimento do acordo. Somos, nos últimos 70 anos, um povo submisso e obediente. Com alguns, poucos, interregnos, assim continuaremos a ser.

Não temos, por aqui, dúvidas de que o espírito salazarento, que já tinha reencarnado na figura física de Cavaco, em nada conflituante com a sua maneira de ser autoritária e de vistas curtas, logo na década de 80-90, reencarnou agora, alimentado e endoutrinado pela crise, ainda com maior viço, nas pessoas da coligação que nos governa (da qual fazem parte os “caritativos e beneficentes” do CDS). Este espírito é, volta não volta, explicitado por Manuela Ferreira Leite (que interpreta os “free marketeers” à luz peculiar da sua educação tradicional), em alturas em que, perante as câmaras, o seu sistema nervoso parassimpático suspende temporariamente a atividade.

VPV termina quase invariavelmente as suas crónicas na ideia da fatalidade, demonstrando também invariavelmente, que não é ele próprio um aventureiro, nem sequer um ousado. Nem oralmente, nem em feitos, nem com a pena. Seria o último escriba a contratar por um general que pretendesse, com um discurso, mobilizar as tropas. No que ao atual momento diz respeito, tem, todavia, razão.

Lamento é que esqueça sistematicamente (ou transfigure com fel) o interregno mais importante da história recente do país, o período em que fomos governados pela única pessoa com a determinação necessária para erradicar de vez o bolor e fazer qualquer coisa pelo orgulho, a dignidade e a inteligência das pessoas.

Haverá diferença entre cumprir bem e cumprir mal os programas da Troika?

É o que iremos descobrir, custe o que custar, dentro em breve. Segundo os cânones europeus atuais, a Grécia é o exemplo de um país que não tem cumprido bem o programa imposto. Também segundo os mesmos cânones, se o tivesse cumprido bem, estaria agora a salvo da bancarrota e, das duas, uma, ou já não estaria a precisar neste momento de novo empréstimo (?), ou o dinheiro continuaria a ser-lhe disponibilizado sem dramas contra novos ajustamentos. No fim, ao cabo de três anos, a economia estaria a crescer e o país regressaria aos mercados, dispensando a malfadada Troika. Mas será assim? Como é óbvio, não é.

Portugal, que se vê a si próprio como exemplo de país que cumpre muito bem o programa, não precisará teoricamente de novo resgate em 2012, nem em 2013, podendo nessa altura regressar confiantemente aos mercados, estando a sua economia a crescer a bom ritmo. Ou muito me engano, ou também não será assim.

Muitos, inúmeros cortes já fez a Grécia. Tantos que já teve direito a uma entrada acelerada no amaldiçoado império da recessão. Tivesse a Grécia aplicado sem mácula os sucessivos programas de austeridade, estaria agora em melhor situação? Não estaria. Estaria talqualmente em recessão. Pode a democracia grega viver num turbilhão de ódio e calculismo; podem os grupos de pressão usar de todas as chantagens para protelar a inevitável perda de privilégios; podem os arruaceiros lançar pedras à polícia e incendiar edifícios. Tudo isso acontece. Mas, não fosse esse o cenário e a Grécia não estaria melhor.

Ainda hoje, as notações de vários países europeus “que não são a Grécia”, entre os quais Portugal, levaram nova machadada das agências de notação. Significa isto que, sem mutualização das dívidas soberanas, sem blindagem da Europa contra a especulação e sem crescimento das economias, não há investidor que confie nem especulador que desista. Cumpram-se bem ou mal os programas de austeridade “compactos”, que, de passagem, matam as economias. A provável expulsão da Grécia da zona euro apenas transformará um problema financeiro numa tragédia humanitária. Será que compensa? Alhures e com outro espírito, é onde a Europa tem de encontrar soluções. Com praticamente todas as economia do velho continente em recessão, incluindo a britânica, alguém está a ver hipóteses de sucesso nos programas da Troika, quando o crescimento da própria Alemanha também já começa a desacelerar?
Não gozem com o pagode.

“Should I stay or should I go”

Há uns meses, em mais um impasse sobre a libertação da última fatia do último empréstimo, o primeiro-ministro Papandreou, perante a revolta na rua de Atenas, a contestação dos seus próprios deputados e o boicote e os vitupérios da oposição, quis fazer um referendo ao povo grego. A pergunta não chegou a ser conhecida, mas não andaria muito longe da seguinte: “Aceita as novas medidas de austeridade, sob pena de o país ter de abandonar o euro?” – esta segunda parte da pergunta não figuraria necessariamente, mas estaria pressuposta.

Por forte pressão do Eurogrupo, com Merkel e Sarkozy à cabeça, que temiam um “não, não aceitamos”, Papandreou desistiu do referendo. Foi um erro. Sabendo-se que a maioria da população não desejava abandonar a moeda única, perdeu-se uma grande oportunidade para legitimar decisões e acalmar as hostes na Praça da Constituição e arredores. Este segundo aspeto teria sido importante, já que os manifestantes que criam o caos nas ruas de Atenas não representam necessariamente a opinião da população grega. Sem prejuízo das razões de protesto que assistem aos gregos, há e sempre houve na Grécia grupos anarquistas e marginais especialmente vocacionados para a arruaça. E para a violência. É um erro considerar que traduzem o pensamento da generalidade dos eleitores.

Evidentemente que é possível que a Europa não quisesse a consulta popular na altura por, na hipótese de um Não, não estarem ainda preparados os mecanismos necessários para aparar o choque, sobretudo a nível da banca, e para impedir réplicas noutras longitudes.
Mas as coisas vão evoluindo. Na Europa, onde se começa a perceber que o “remédio” não funciona, e na Grécia. A breve trecho, haverá eleições. Se ganhar a Nova Democracia, as medidas tomadas não serão em nada diferentes das atualmente tomadas pelo chefe de governo “tecnocrata” não eleito, que preside à coligação. Sob a tutela da Troika, será esta que continuará a ditar as regras. Se ganhar o conjunto de partidos dispersos mais à esquerda, poderá instalar-se um enorme caos político, nenhum deles tendo uma maioria clara e declarando-se todos contra a Troika. Por outro lado, o prolongamento do mandato de Papademos arrisca-se a provocar a impaciência dos políticos, além de que significaria a aplicação do mesmo programa e as respetivas dificuldades de o fazer passar, ou seja, o prolongar dos dramas a cada libertação de nova fatia. Os mais recentes dados permitem vaticinar que, não tendo a Grécia a mínima possibilidade de pagar as dívidas (as passadas, as presentes e as futuras) com as sucessivas vagas de austeridade, a falência não tardará muito, dependendo apenas de uma decisão europeia.

O mais curioso e preocupante é nós não sabermos sequer neste momento qual é, do ponto de vista da França e da Alemanha, a saída/solução mais conveniente. Parece-me que aligeirar a austeridade está fora de questão. Mas, e se se aligeirar para os portugueses, como já foi, digamos, prometido?
Fosse o povo grego interrogado hoje sobre o desejo de permanecer no euro, temeria a Europa mais o Não ou o mais o Sim? Não sabemos. O desejo de permanência dos gregos poderá tornar-se insuportável.
Por mim, e por mais difícil que seja, desejo cá no fundo que encontrem maneira de serem eles próprios a mandar a Europa “bugiar”.

Concordo

Com Ana Gomes sobre as declarações de Martin Schulz
Nem sempre subscrevo o que diz Ana Gomes, mas desta vez dou-lhe razão. No Parlamento Europeu, muitos deputados se pronunciam sobre, e criticam, as políticas da Alemanha (no caso dos socialistas portugueses, sobretudo as que nos afetam). Schulz sentiu-se livre para falar de Portugal e dar o exemplo de um país que “pactua” com regimes pouco democráticos e desrespeitadores dos direitos humanos, matéria que dá, deu e sempre dará muito pano para mangas. Por outro lado, Schulz deveria saber as razões das coisas e não enveredar por críticas simplistas. Penso que Ana Gomes faz aqui um bom comentário.

Quando li excertos do que Schulz disse (aqui pode ser visto na íntegra), e sobretudo quando chamou “esclavagista” ao regime chinês, fiquei com a ideia de que a intenção do discurso, em geral, era mais a de alertar para a qualidade dos nossos (da Europa, e de alguns países em particular) interlocutores comerciais/financeiros.
Também acho que a exigência de explicações só lhe fez bem.

Passos, estão a ver, não é nada piegas. Já Cavaco…

Apesar das dificuldades financeiras tremendas por que está a passar o barítono feito maestro e apesar de estar a pôr em risco o seu futuro no privado, este farol que nos ilumina não se queixa. Mais, apesar da vida dura que levou até aqui, na JSD, no Parlamento Europeu e na empresa de Ângelo, nunca ninguém lhe ouviu um queixume. Este homem é um exemplo para qualquer português.

Em descaramento, melhor que ele, só mesmo o Cavaco, que também chamou piegas aos portugueses – não é que lhes bastaria olhar para a sua (dele) miserável situação económica para não se lamentarem? Pelo caminho, conseguiu que o Banco de Portugal não cortasse nas pensões dos seus reformados. Um caso em que ser piegas resultou.

Não pensava repetir-me, mas Seguro falou em Évora

A estratégia radical deste governo não está a resultar, nem vai resultar, com a dívida a ultrapassar os 110% do PIB (dados hoje conhecidos) e as previsões quase unânimes de incumprimento das metas. Está o PS de Seguro preparado para o que se segue? Visto ao sol de Évora, não o diria.

António José Seguro voltou, este fim de semana, a falar para os jornalistas, mostrando-se igual a si próprio, ou seja, um navegador de águas mansas, impreparado para tempestades: perante o partido e as críticas de que foi alvo, defende-se alegando não ter sido ele a assinar o acordo com a Troika; cá para fora, perante os portugueses, refere um ponto do memorando de que discorda e, sem se alongar mais, acrescenta que o PS respeitará o dito memorando (mesmo que seja impossível não ter visto que o rumo do país exige a revisão de várias cláusulas). De seguida, volta-se para os aspetos gastronómicos da região, evitando úlceras. O entusiasmo de alguns (jornalistas sobretudo) com a primeira afirmação ficou de imediato neutralizado pela última. Pois é, com Seguro, meus senhores, não há clímax. Não chega sequer a haver aquecimento.

O problema é que o atual secretário-geral do PS não compreende que a sua atuação é criticável por muitas outras razões que não têm que ver com os compromissos assumidos com a Troika (espero que alguém lhe tenha lembrado Cavaco, a Madeira, o Novas Oportunidades, Manuel Carrilho, o FMI, Mario Monti e pelo menos 20 outras matérias). Este governo, assumindo futura responsabilidade total pelo desastre, faz questão de dizer que vai, com muito gosto, para além do que foi acordado. E tem-no feito. Mas está a dar o flanco, caso o PS não tenha reparado. A par disso, mente, inventa, ludibria com uma alegada transparência nas contratações, erra em questões importantes como a elaboração do orçamento. Toma de assalto o aparelho de Estado. E Seguro não tem sido contundente nas críticas, nem minimamente convincente. Nem perante os dados que vão sendo conhecidos. Não percebe que “uma oposição construtiva” com este pessoal da “fezada” e do apetite pelo metal, pessoal encenadamente contido, mas no fundo tão assanhado como o Relvas, não surte qualquer efeito. Aqui, a haver construção, só pode ser a de uma alternativa, que passa, em primeiro lugar, por uma personalidade determinada (que está longe de ser), pela identificação clara de uma visão e de um rumo (que se desconhecem), pela defesa do legado positivo do anterior governo (de que se sente visceralmente incapaz) e pela demolição sem dó das teorias gasparistas (para o que não tem habilitações, penso). Ou lhe dão um grande choque elétrico político lá no partido ou preparem-se para a insignificância. Depois de Sócrates, seria uma pena.