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“Retro-imperialistas” e o divertido mas lamentável panorama britânico

Acabo de ler o termo num artigo no The Guardian, assinado por Martin Kettle.  Ele critica o “fanatismo sinergético da direita retro-imperialista dos conservadores britânicos e do DUP“, ou seja, os conservadores fanáticos da saída do Reino Unido da União Europeia, fixados numa miragem da antiga glória do país.

É anedótico mas penoso – ao mesmo tempo – observar a política britânica por estes dias. Theresa May adia a votação do acordo de saída da UE por ter a certeza de que seria chumbado nos Comuns e, ao mesmo tempo, a oposição trabalhista não quer apresentar uma moção de censura por ter a certeza de que seria igualmente chumbada. E os deputados conservadores, que tanto criticam May, também nada fazem a não ser divertir-se com as andanças da primeira-ministra. Pelo menos até à hora a que escrevo.

Por conseguinte, tenho pena e admiração – sim, as duas – pela Theresa May. Ninguém quer o acordo negociado pelo seu governo, nem mesmo alguns ministros, mas ninguém quer, nem pode, ir para o lugar dela negociar outro, aliás impossível e desconhecido. E ela insiste. Ela, que até era contra o Brexit. Admito que possa parecer um bocado tonta, mas não consigo odiá-la. A pobre tem de continuar o “show” posto na estrada pelo seu predecessor no cargo, David Cameron, que consistiu em pôr os excitados conservadores a fingir, em campanha (mas ironicamente não ele, que era favorável à permanência), que um acordo de saída era facílimo de negociar e ultravantajoso, quando toda a gente devia saber que não era nem nunca seria se a ideia fosse “ficar com a manteiga e com o dinheiro da manteiga”, e a prova está à vista.

É claro que May pode sempre demitir-se. Simplesmente parece não haver ninguém que a queira substituir, pelo menos não sem antes verem que concessões consegue ela obter do”continente” nesta nova ronda. E o tempo está a passar, faltando apenas três meses para a ruptura com a Europa. Mas tudo pode mudar muito rapidamente. Correm boatos desde há pouco que os próprios conservadores vão apresentar uma moção de censura. Veremos para quê.

Uma coisa é certa: são tão palhaços personagens como Boris Johnson ou Rees-Mogg, que dizem querer partir a louça toda com uma saída “musculada”, mas não avançam nem ninguém sabe o que fariam de melhor nem o que representaria essa saída, como são palhaços Jeremy Corbyn e companhia, que lideram uma oposição por sua vez dividida, facto que os faz fazer figuras tristes pela indefinição e insegurança.

Enfim, eu penso que a saída será inevitável, de uma maneira ou de outra. Tenho mesmo dúvidas de que um novo referendo resulte numa preferência clara pela permanência. Possivelmente os 52-48 passariam a 50-50 e nada ficaria facilitado. Uma derrota do Brexit num segundo referendo seria uma humilhação total para os conservadores. Não o vão permitir. Vale-lhes, de momento, o facto de Jeremy Corbyn não ter muitas hipóteses de ganhar umas eleições. Pelo que o circo poderá continuar.

Xi Jinping e Portugal fazem pela vida

[…] Responding to critics, Portugal’s Prime Minister said his country did not see foreign investment as a source of anxiety. But with China systematically targeting smaller and poorer EU member states such as Greece and Portugal for its investment activities, and given Beijing’s ability to play a long-term strategic game leveraging economic clout into political power, we believe that the EU’s soon-to-be implemented legal framework for screening FDI on security grounds does not come a day too soon. That said, the EU would not need to be so concerned about Chinese investment if it were itself investing sufficiently in the capital-deprived periphery. 

 

 

A linguagem política tem o seu quê de fascinante. É preciso dominá-la, sobretudo quando se fala indirectamente para outros parceiros. António Costa dizer que o investimento estrangeiro não é fonte de ansiedade para o país quer exactamente dizer que é fonte de alguma ansiedade e tem selo para alguns países europeus, facto que este analista resume no final do artigo.: “Vocês não investem, pá! O que é que querem?”

A “Europa” diz que quer fiscalizar o investimento directo estrangeiro nos Estados-Membros. Fiscalizar o capital dos outros, mas não fazer nada com os capitais próprios. Isso é repressão. Será inveja?

 

Mas, a este propósito, imaginemos que os alemães decidiam investir no porto de Sines como os chineses pretendem. Estamos já a ver os comunistas e bloquistas a chamar a Portugal uma colónia dos alemães. Ainda gostava que os moralistas do costume dissessem afinal quem pode investir aqui. Querem ver que é o Putin?

E pachorra para radicais civilizados?

Deve ter sido das poucas vezes, ontem, que concordei com tudo o que disse a Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal. É certo que os temas principais em discussão não eram “de força maior” nem determinantes para o nosso destino como país – tratava-se das touradas e da não redução do IVA para esses espectáculos e ainda das brigadas do IRA nacional – sinal de que tudo corre tranquilo na política, mas, mesmo assim ou talvez por isso, deu bem para ver as posturas de fundo de alguns membros do quarteto. Começo por dizer que o meu total acordo com a Clara se deve ao facto de, tal como eu, ela admitir e reconhecer que as perspectivas das pessoas sobre hábitos, práticas e tradições humanas se podem (possivelmente devem) alterar ao longo da vida. Que aquilo que, na infância, faz como que parte da nossa paisagem, pode ter muito pouco de bucólico perante outros dados. Que as perspectivas podem “evoluir” num sentido crítico à medida que pensamos nessas práticas e tradições, que observamos as mudanças na relação do homem com a natureza da qual depende ou à medida que nos informamos, por exemplo, neste caso, sobre o mundo animal. É evidente que os animais, apesar de por cá andarem exactamente pelas mesmas razões que nós, não são seres humanos, mas isso não equivale a dizer que não sofrem e que seja admissível que se façam sofrer sem qualquer outro fim que não seja o espectáculo. Dito isto, que é forçosamente muito pouco e resumido, as touradas têm um lado de desafio e combate entre homens e bestas que pode fazer esquecer tudo o resto. Os forcados são uns bravos (e os surfistas? E os astronautas?), embora já com o touro debilitado, e os toureiros mais bravos são ao enfrentarem a besta. Só que a besta hoje em dia é criada para o espectáculo e serve para pouco mais. No entanto, a festa tauromáquica lembra e como que reproduz valentias antigas e tal pode ser romântico e poético. Por outro lado, em Portugal os toureiros têm o êxito na arena praticamente assegurado – quer porque estão a cavalo, quer porque podem facilmente fugir se a coisa se complica. Há, portanto, contradições na apreciação deste tipo de espectáculo que levam a que se não possa dizer facilmente que se vai acabar com as touradas por o sofrimento do animal não dever provocar gáudio. Não é só isso que acontece numa arena, mas a extinção acabará por acontecer, penso eu. Por isso, não me parece escandaloso que este tipo de ritual, pelos vistos muito procurado, não beneficie de um IVA reduzido. Trata-se de um marcar de posição do Governo. Não sendo radical, nem podendo ser pelos motivos supra, abre, no entanto, a discussão, o que pode ser positivo.

Passando ao que aqui me traz, o Daniel Oliveira, que não deixa de ser um radical, tinha que vir com o extremismo de exigir que o Governo “tenha a coragem” de acabar com as touradas. Ou, como ele diz, que “seja claro”. Ora, eu penso que o Governo está a ser claro – as touradas, tal como as conhecemos, pelo menos, hão de acabar um dia de vez, como já acabaram em muitos concelhos deste país e em muitas regiões da Europa. Só que ainda não chegou o momento. E, já que têm audiência, não precisam certamente de um incentivo fiscal para existirem. Muito menos deve ser um governo que tem uma perspectiva mais “pró-animal” desse espectáculo a incentivá-lo. Mas sim, no partido socialista e entre os seus apoiantes, assim como na sociedade portuguesa em geral, há muitas pessoas que apreciam a vertente “heroicidade” das touradas e o seu simbolismo em relação a outros tempos, a memória desses tempos em que a nossa sobrevivência dependia de actos de bravura física extrema contra as “forças da natureza”. Não é pecado. Compreende-se, respeita-se. Vê-se nisso uma certa beleza, mas não faz mal lançar a discussão. Faz até muito bem. O Daniel queria uma medida política extrema, que, já que refere o Bloco e a sua “clareza” (fácil enquanto se mantiverem à margem das responsabilidades à séria), o Bloco jamais tomaria se governasse. Mas o Daniel é “civilizado” em matéria de animais. Acho bem. Não sei é se um radical pode ser considerado muito civilizado em geral.

Quanto ao Pedro Marques Lopes, ultimamente anda a dizer asneiras demais. A defesa intransigente de Rui Rio, José Silvano e Emília Cerqueira – cujo alegado desconhecimento do sistema de marcação de presenças na Assembleia é anedótico – roça o delírio e faz pensar em amiguismo. Nesta matéria das touradas, fez claramente pouco esforço para pensar. Mas “fiat lux” de um dia para o outro só mesmo na Bíblia, não é?

Tancos também é fogo posto

 

Vai uma festança na direita com o caso de Tancos. Para além dos desocupados do costume, mas ansiosos pelo pote – Assunção Cristas, CDS em geral, PSD-Rio e PSD-Observador – ele são também os órgãos de comunicação social, como o Expresso ou hoje o Público a procurarem uma guerra entre o PM e o PR com base num suposto concurso de ansiedade entre um e o outro… Ao mesmo tempo vemos também Marcelo a rebaixar-se ao ponto de se explicar perante a Sandra Felgueiras e as suas reportagens dramáticas, “série B”, sempre superficiais, em 98% dos casos orientadas contra o Governo. Isto, claro, não é festa nenhuma e eu nunca pensei ver Marcelo nesta posição. Os maldosos dirão que o Governo sentiu os calos pisados bastas vezes pelo Presidente, mas, sinceramente, não acredito. Vingança através da Sandra Felgueiras??

 

Recapitulemos. Um certo material de guerra foi dado como desaparecido no ano passado. Passados uns meses de alarido da oposição a pedir demissões destes e daqueles (e estão com sorte por não terem exigido eleições), o material reapareceu (embora com faltas) após uma operação da PJM (à altura a responsável pela investigação). Perante um e outro acontecimento, surgiram muitas perguntas, a maior parte das quais mantêm a sua pertinência.

  1. Sobre o roubo

O material desapareceu como? Desapareceu mesmo? Se sim, quem o retirou do paiol? Quando exactamente? Como é que alguém se lembra de roubar material de guerra sem ter o seu escoamento garantido? Houve roubo ou não?

  1. Sobre a recuperação

Implicou a colaboração e o encobrimento do “ladrão” ou não? Havia um ladrão? Se houve encobrimento do ladrão, o Ministro da Defesa foi informado? Não saberiam os militares da PJM que lhes seria fatal mencionarem o encobrimento do ladrão ao comunicarem a recuperação do material ao ministro? O que é que alguns intervenientes militares pretendem agora? Transmitir a ideia de que o Governo estava com eles contra a PJ (entretanto encarregada das investigações)? E quem está a envolver o PR? Tem o actual governo algum interesse em perturbar o geral bom entendimento com o PR? Enfim, são perguntas e mais perguntas, mas que não podem levar a que se perca o principal foco – o roubo. Verdadeiro ou fictício.

 

E chega a comunicação social.

O aproveitamento político destes mistérios foi descaradamente assumido pelo Expresso e, hoje, pelo Público: ambos visam minar as boas relações entre o Presidente da República e o Governo ao deturparem por completo as declarações de António Costa. Basta olhar para o que ele disse ontem e para as interpretações abusivas dos títulos.

 

O senhor Presidente da República, aliás, não se tem cansado em expressar publicamente a sua ansiedade e o Governo, naturalmente, deve ser mais contido em expressar a sua ansiedade, mas não é menor. Acho que ninguém compreenderia em Portugal é que, relativamente a este crime, não se chegasse ao final da investigação punindo quem deve ser punido e esclarecendo tudo o que deve ser esclarecido”, salientou António Costa.

Para o primeiro-ministro, “não é possível procurar-se criar uma névoa política sobre aquilo que é a actividade das autoridades judiciárias”.

Mas, neste ponto, António Costa foi mais longe, criticando “teorias conspirativas bastante absurdas, como procurando ver qualquer confrontação entre o Presidente da República e o Governo sobre esta matéria, quando, quer um, quer outro, têm tido uma posição absolutamente convergente desde o primeiro dia”.

Os títulos, depois de “trabalhados”:

 

Tancos: Costa sugere a Marcelo que contenha “a ansiedade” (Expresso)

Tensão entre Marcelo e Costa sobe por causa de Tancos (Público)

(este título, lê-se depois na notícia, tem por única e exclusiva “fonte”, pasme-se, as bocas do Marques Mendes na SIC… e o suposto mal-estar da parte de Marcelo é automaticamente deduzido da falta de resposta de Marcelo a uma pergunta de um jornalista sobre isso)

Ou seja, atira-se a tocha e depois vende-se ao público que há fogo. Eles divertem-se e, mais importante ainda, se for o caso, vendem mais uns exemplares ou ganham mais uns assinantes. Mas não deixam de estar a fazer um nojo de jornalismo/encomenda.

Uma indigestão de anos. Cabeça ressente-se

Se o João Miguel Tavares elogia, como hoje, os telejornais da Manuela Moura Guedes em 2009, acusando Sócrates de ter querido acabar com a liberdade jornalística ao “exterminar o espaço noticioso mais influente do país“, convém alguém mostrar-lhe a figura ridícula e o espectáculo penoso que essa mulher faz/dá agora na SIC uma vez por semana. A sério que esta mulher era um baluarte da qualidade jornalística? Como explicar então a “degradação”?  Foi o Sócrates? Foi o trauma? A CMTV de hoje não será mais o equiparável daquele “espaço”? Receio bem que seja hoje “o mais influente”…

Este colunista é de facto tão ridículo e tão bom como a senhora Guedes. A verdade, ó Tavares, é que a qualidade não se perde e, a partir de certa idade, não se ganha.

 

Assim, talvez em homenagem ao dia das bruxas, a paranóia deste caluniador do Público leva-o hoje a “soltar mesmo a franga”, fazendo o pleno dos seus fantasmas:

 

 

A opção estava muito longe de ser evidente, mas sendo ela tão evidente para tantos portugueses, eu não percebo como é que as mesmas pessoas que hoje têm tantas certezas sobre o futuro do Brasil tinham tão poucas certezas sobre o Portugal de 2009, quando José Sócrates tinha acabado de exterminar o espaço noticioso mais influente do país, estava a tentar comprar o canal de televisão mais visto de Portugal, tinha sob o seu controlo a CGD e o BCP (do BES ainda não se sabia a missa a metade), fazia o que queria na PT, era acusado de corrupção no caso Freeport, tinha atrás de si um rasto infindável de suspeitas nunca justificadas, perseguia professores por causa de anedotas, processava jornalistas por dá cá aquela palha, tinha os serviços secretos na mão, namorava Hugo Chávez e Khadafi, espalhava insultos e grosserias através de blogues amigos e ministros desbocados (hoje grandes referências institucionais da nação), manipulava informações via Câmara Corporativa, controlava a ERC de forma obscena, colocava o arquivador-mor na Procuradoria-Geral da República, e por aí fora.”

 

Ena pá! Sim senhor. Vivemos numa ditadura implacável e ninguém deu por nada.

Mas o que nos interessa a vidinha do juiz Carlos Alexandre?

Já lá vão duas – duas – reportagens sobre o juiz de Mação. Uma com óculos, outra sem óculos. A próxima virá de monóculo? Enquanto vejo, na RTP, e dado o desinteresse da temática, que mais uma vez insiste nos testemunhos da “rectidão moral” e religiosidade do senhor e me provoca bocejos após a incredulidade, só posso concluir que o juiz queria era dizer mal do sorteio que atribuiu a instrução do processo Marquês ao seu colega Ivo Rosa e esta reportagem serviu para pouco mais do que isso. Terá sido ele a pedir a entrevista?

Mas outras perguntas têm que ser feitas a propósito desta andorinha: por que razão não impugnou logo de imediato o sorteio e optou por denunciá-lo mais de um mês depois, com enquadramento televisivo sobre as suas qualidades morais? Porque não esteve sequer presente? Este juiz é esquisito. Não é discreto, auotoelogia-se com prazer, gosta de mediatismo e não se inibe de mentir para as câmaras (a história das razões pessoais para a sua ausência; pensa que goza). Com justiceiros destes, como não torcer pelos criminosos? São, obviamente, muito mais inteligentes. E elegantes.

Com os olhos em João Galamba

Aturar e demolir o Mesquita Nunes ou o Leitão Amaro nos “Frentes a frente” da SIC Notícias ou ripostar contra a argumentação javarda e incongruente da direita no Parlamento têm sido as especialidades políticas de João Galamba, o agora ex-deputado do PS nomeado secretário de Estado da Energia.  Especialidades exercidas com grande eficácia, diga-se, exceptuando uma ou outra precipitação. Galamba tem um discurso claro e bem fundamentado e é combativo, além de perceber de economia e finanças e de se preparar bem para os confrontos. Não sei se é mais à esquerda ou mais à direita no PS. Que é mais novo do que os outros, é. Mas, se for mais à esquerda, está mais do que bem posicionado no novo cargo para enfrentar o poderoso lóbi das empresas energéticas, ou não está?. Qual a crítica, então? A direita, sobretudo o PSD e o Correio da Manhã, já começou a campanha de tiro ao boneco. Ou porque não tem habilitações (??) para a área (Seguro Sanches tinha?), ou porque é demasiado à esquerda (e isso será mau quando se trata das energéticas?), ou ainda a derradeira e rainha das razões: a de que Galamba foi lançado na política por Sócrates. Mas também pode ser que seja o discreto piercing na orelha? Possivelmente é tão-só este o irritante. Não vão ter sorte. João Galamba já deve estar mergulhado nos dossiês que o esperam, pronto e preparado para o combate e para fazer um brilharete. Os bloquistas estarão de olhos atentos e gulosos nele, pensando num futuro governo, agora que já têm mais a noção do que se trata.

Eu contribuo imenso para a crise da imprensa diária

Regra única para ler jornais hoje em dia:

Olhar para as capas, ver se há alguma novidade; se sim, dizer “Está bem, abelhas” e, antes de seguir viagem, verificar se, por milagre, alguma notícia de há três dias reapareceu. Nesse caso, esperar mais outros três. Considerar o jornal lido

 

Ao contrário da instantaneidade das redes sociais e da rapidez de reacção e superficialidade que as caracteriza, os jornais (e revistas) deviam esperar entre três dias a uma semana, ou mais, até noticiarem um facto de que tenham tido conhecimento. Menos do que isso, é passaporte para a asneira e consequente perda de credibilidade. É  “infotainment”, com ênfase no “…tainment”. Começa a ser demais e já perdi a paciência. Sai uma notícia. Passados uns dias, afinal não é bem assim. Outras vezes, nem um pingo de verdade havia no que foi noticiado inicialmente. Pura e simplesmente falso. Muitas vezes, falou-se uma vez, não se falou mais. Fogo fátuo. Abafamento ou missão cumprida. Por isso, deixei de comprar e de assinar jornais. Excepção feita à “The Economist“, sempre rigorosa, bem escrita e informativa, mesmo que se não concorde com o que é dito, e a uns dois ou três jornais ingleses. Em Portugal (e não só), a cada novidade, acreditar é estupidez. Escrever sobre isso, é precipitado. É preciso que a notícia sofra o teste de resistência ao tempo, para lhe começar a dar alguma atenção e considerar que está ali alguma coisa séria e importante que convém aprofundar. Mas, a maior parte das vezes, grandes bombas são pólvora seca. Que ninguém deixa de mandar, no entanto. É um foguetório permanente de coisa nenhuma ou então de encomendas ou de armadilhas políticas. Para alguns jornais, as fontes são um “Mente-me, que eu quero”. Ganhei juízo e não pago mais para isso.

Quando se quer um ditador

Na segunda-feira almocei num restaurante à beira-rio, onde fui servida por um rapaz brasileiro a quem perguntámos pela situação no Brasil e o que achava de Bolsonaro. A resposta foi que não votou (já não sei porquê), mas que votaria tranquilamente em Bolsonaro. E então porquê? – quisemos saber. Devo dizer, antes da resposta dele, que o rapaz não tinha ar nem de gorila, nem de ignorante, nem de agressivo nem de nada disso. Era o rapaz mais cordial, bem disposto e bem parecido que se pode imaginar em figura de “garçon” mais ou menos atento ao linguajar das televisões. Estava em Portugal há cinco meses e de bem com a vida. Vinha do Paraná. Mas sim, adivinharam, votaria Bolsonaro. A razão, disse ele, era a violência que existe no Brasil e a necessidade de pôr os criminosos na ordem, ou seja, na prisão ou no cemitério. Além, claro está, das razões anti-PT, ao qual associou, graças à campanha Lava Jato, digo eu, toda a corrupção política existente no país nos últimos 30 anos. O PT tem estigma. A avaliar pelas suas palavras, pouco interessa o que Bolsonaro diz ou não diz, ou até se diz alguma coisa, se balbucia apenas ou se desaparece até ao dia da votação final sem dizer palavra. O rapaz não fazia a mínima ideia de quais os restantes programas de Bolsonaro para além da repressão. O que lhe interessa, a ele e a largos milhões de brasileiros, é que está ali um que é militar e que diz que vai pôr tudo na ordem. Mais nada.

 

E eu fiquei a pensar, ou melhor, fiquei pensando que um Pinochet é mesmo o que o povo brasileiro deseja. Acontece que o Bolsonaro está, mesmo assim, alguns furos abaixo, em “status” e em coerência,  do Pinochet e o Brasil não é o Chile. Pelo que tudo é uma incógnita. Mas parece haver momentos na história em que os povos pedem um ditador (o Pinochet não foi pedido, eram outros tempos). Este fenómeno deve ter explicações interessantíssimas e provavelmente simples.

É certo que o candidato alternativo Haddad é pouco carismático e com um discurso pouco cativante e algo desastrado e essas características não ajudam. E está muito ligado ao Lula, essa fonte de todos os males, segundo propalou e decretou a Justiça. E que ninguém parece atribuir importância ao factor “30 partidos representados no Parlamento” como fonte de negociatas e compra de votos para evitar impasses. Nada disso pesa verdadeiramente. O povo quer mesmo é o chicote. E está convencido de que é para os outros.

Tancos – uma farsa em vários actos

O famoso Memorando que o director da PJ Militar, Luís Vieira, supostamente entregou, ou mostrou, ao ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes, general António Martins Pereira, e que fora assinado pelo major Vasco Brazão, líder da investigação, efectivamente nada diz sobre uma encenação ou um encobrimento. Zero. Isso mesmo se pode ler nesta notícia do DN, hoje publicada.

Tem razão o ex-chefe de gabinete do ministro e ainda mais o ministro.

 

O único memorando que foi encontrado pela investigação à encenação da devolução do material de Tancos estava no gabinete do diretor da PJ Militar, coronel Luís Vieira, e foi assinado pelo líder da investigação, Vasco Brazão, mas não faz qualquer referência ao conhecimento da tutela ou do ministro da Defesa. Esta carta pede agradecimentos e louvores aos militares da GNR e da polícia que integraram a investigação.[… ]

 

[…] Segundo a versão dada em tribunal, a conversa e a suposta entrega do memorando no Ministério da Defesa teriam acontecido numa altura em que os militares da PJM começaram a sentir o cerco da PJ. Segundo terá explicado Brazão, sentiram necessidade de justificar a “encenação” e conseguir apoio ao mais alto nível. Nesta estratégia terão integrado também jornalistas – há transcrições de escutas no processo – para passar a mensagem da PJM sobre o “achamento”.

O que disse Vasco Brazão e já foi “categoricamente” desmentido pelo ministro da Defesa – só poderá ser corroborado pelas duas testemunhas que ele afirma terem presenciado o sucedido: o chefe de gabinete de Azeredo Lopes, o general do Exército António Martins Pereira, ou o próprio ex-diretor da PJM, coronel Luís Vieira, cuja defesa, contactada pelo DN, também não quis fazer declarações. Isto porque nas buscas não foi apreendido nenhum memorando – tão-pouco no computador de Brazão.

 

Noto aqui um excesso de elogios e agradecimentos

 

O que terá levado Passos Coelho a agradecer tanto a Joana Marques Vidal e a lustrar-lhe o ego ao ponto de lhe chamar”humilde” e “lufada de ar fresco”, além de “íntegra”, “independente” e “suprapartidária”, num elogioso artigo publicado no Observador , depois de conhecida a sua substituta, onde só faltou chamar-lhe “querida”, “fofinha”, “adorada”, “muitos beijinhos”, “tudo de bom”, “obrigado”, tudo isto num fundo de “eles são maus, meu amor”?

 

Hmm…

 

Esta saída da toca não se fez, claro está, sem anedota. O bicho apresentou-se com a conhecida lata e fez questão de falar nos privilegiados que deixaram de o ser sob as ordens de Joana e apenas sob as ordens dela, deixando a ideia de que, até aí, era o fartar vilanagem, não especificando, porém sob a responsabilidade de quem, quando, como, etc. Não interessa. É o que dizem e o que ele diz. Interessa, sim, é que privilegiados, não mais. Graças à Joana.

 

Mas isto é anedota. Ele, por exemplo. Poderia ter visto o caso Tecnoforma e a utilização fraudulenta de milhões de fundos comunitários, confirmada pela Comissão Europeia, reaberto e não viu. Tudo arquivado. Nós que paguemos. Querem maior prova de fim dos privilégios e da “impunidade”? A senhora procuradora foi ou não foi implacável? Onde estão aqui os privilegiados?

 

“Poucos, até há alguns anos, acreditavam que realmente fosse possível garantir de facto, que não na letra da lei e nos discursos, uma ação penal que não distinguisse entre alguns privilegiados e os restantes portugueses. No termo deste seu mandato, são sem dúvida mais os que acreditam que se pode fazer a diferença e marcar um reduto de integridade e independência, onde as influências partidárias ou as movimentações discretas de pessoas privilegiadas na sociedade esbarram e não logram sucesso. “

Pessoas que sabem muito

 

Quem ler a crónica do Tavares, José, hoje no Público, tem direito a mais uma das suas despudoradas insinuações: desta feita a de que o Governo afastou o IHRU (Instituto da Habitação e Reabilitação Urbana) do processo de reconstrução das habitações ardidas em 2017 em Pedrógão e desconsiderou a lista de edifícios prioritários por ele elaborada, porque, no fundo, quis abrir a porta ao favorecimento das pessoas que queriam reabilitar segundas habitações como se fossem primeiras. Em resumo, é isto e é forte. Porém, altamente estúpido.

E quem consulta o Tavares para corroborar o seu ponto de vista e fundamentar o seu auto? Ora, Vítor Reis, o ex-presidente do IHRU, nomeado para esse cargo por Passos Coelho em 2012 e substituído em finais de 2017 pela arquitecta Alexandra Gesta (que liderara o processo de Guimarães a cidade Património Mundial da Humanidade). A nova presidente do IHRU (desde finais do ano passado), claro está, não foi interrogada. Chama-se a isto uma crónica bem apoiada e sobretudo isenta. Duplamente isenta – por o Tavares já ser bestialmente isento e por o dito Vítor Reis se apresentar em condições de ser o mais isento que há.

 

(ex-presidente)

Pelo caminho, o Tavares acusa Valdemar Alves, o actual presidente da câmara de Pedrógão, de fraude na atribuição dos fundos, baseando-se apenas numa reportagem da Ana Leal da TVI (a mesma dos objectos suspeitos encontrados e que eram a prova provada de crime concertado dos madeireiros no incêndio do pinhal de Leiria) e na abertura de uma investigação ainda sem dados nem arguidos e sem ainda sequer saber o que apurou a PJ das recentes buscas à câmara e à Casa da Cultura de Pedrógão.

Mais: o Tavares até é capaz de ter percebido, num dia de calmaria mental, que as pressões da presidência da República, por um lado, e da oportunista e estouvada oposição de direita, por outro, para acelerar todo o processo, acelerar, acelerar e continuar a acelerar a todo o custo (até à hipotética fraude, diria eu, para depois virem com este número) podem ter levado o Governo a optar por processos mais directos que dispensam certas burocracias que o IHRU implicava (algumas razões dá-as o próprio Tavares: Escapar a um processo demasiado burocrático, ultrapassando o quadro legal em vigor. Apostar numa intervenção descentralizada e mais próxima da população. Aproveitar a maior flexibilidade do fundo Revita. ). Talvez tenha percebido isto e muito mais, mas o que lhe interessa perceber? Perceber é um “minuto do bem” que não cabe na sua missão ou caderno de encargos. O lançamento de lama sobre tudo o que é socialista, que governe, tenha governado ou possa governar, é a prioridade, como sempre, e foi com esse intuito que decidiu preencher 4/3 do espaço que lhe reservam no jornal a insinuar coisas.

Para quando a transferência deste rancoroso para o Observador? É que só se estragava uma casa. Não é que o Público esteja muito bem entregue e que a presença deste caluniador profissional destoe, pois a Ana Sá Lopes emparelha bem com o género execrável do Manuel Carvalho, mas o Observador é o coito da moda para os verrinosos da direita e asilo para muitos pacientes com a patologia do Tavares do Governo Sombra.

Comportamento exemplar de Joana Marques Vidal seria reafirmar o que já disse

Em Março de 2016, em Cuba, a actual Procuradora-Geral da República declarou ser o mandato de PGR único. De facto, a duração prevista pela Constituição é de seis anos, duração mais longa do que o habitual em cargos institucionais para evitar mudanças demasiado precoces ou permanências demasiado prolongadas e permitir a necessária rotação. A ministra da Justiça, tendo ouvido essas declarações, corroborou-as uns tempos depois, sujeitando-se a uma chuva de críticas absolutamente estúpidas. As permanências excessivas nestes cargos são forçosamente fonte de instabilidade, são anti-dinâmicas, propícias a compadrios e prejudiciais à isenção. Além de contrárias ao espírito da Constituição. Dois mandatos significam doze anos. É muito ano. Porquê, então, esta febre e paixão joaninas que atacaram agora toda a direita portuguesa, ainda por cima quando o próprio sindicato do MP se mostra favorável ao mandato único (e olha quem)? Em todos os jornais, revistas, televisões e rádios, a recondução da PGR é claramente o osso que toda a direita abocanha por estes dias com desespero.

 

A quem deu caça esta mulher tão apreciada por toda a direita? A todos os corruptos? A todo o político que mexe, como gostam os populistas? Nem por isso. Mediatizou a “caça”, isso sim. Tabloidizou a justiça, isso é seguro. Reinstituiu o pelourinho, é a verdade. Será disso que eles gostam? O certo é que, apesar do alarido, não há conhecimento de condenações a penas de prisão em nenhuma das grandes operações lançadas no seu mandato. Nem na Operação Fizz, uma vergonha que envolvia um ex-procurador. Aliás, ainda resta saber, apesar do show das detenções, se há ou não corruptos no principal processo – o Marquês – instaurado da maneira que sabemos no mandato de Joana.

 

Os factos são que esta procuradora-geral foi a que não só não controlou as fugas de informação escandalosas na Operação Marquês com origem na sua instituição, como também falhou rotundamente na instauração de vários inquéritos internos às ditas fugas (consta que 111 – ver aqui) já que ninguém conhece deles o mínimo resultado e sobretudo a mínima consequência, nada disto lhe tirando um minuto sequer de sono, apesar do descrédito que sobre ela paira. Mais valia não instaurar inquérito nenhum. Foi ela que assistiu impávida (ou autorizou ou não proibiu ou não puniu) à transmissão pública dos interrogatórios aos arguidos, testemunhas e pessoas lateralmente envolvidas no referido processo, na prática comprazendo-se ou alheando-se de responsabilidades perante uma situação tão aviltante e repugnante e totalmente inédita. Além de ilegal. Foi ela que, em Novembro de 2017, ponderou reabrir o processo Tecnoforma (que envolvia Miguel Relvas e Passos Coelho) após a investigação da Comissão Europeia ter detectado fraudes graves (de milhões) na utilização de dinheiros comunitários, mas se esqueceu do assunto logo no dia seguinte e para todo o sempre. Foi ela que arquivou o processo a Dias Loureiro. Foi ela que liderou aquela ridícula operação de busca ao Ministério das Finanças, porque, crime terrível que implicava de imediato um assalto policial aos gabinetes, o ministro tinha ido assistir a um jogo do Benfica em lugar mais protegido e confortável do que o terceiro anel do estádio da Luz. Mais actuações extraordinariamente louváveis como estas todos por aqui conhecerão, mas não vou mais longe.

 

Para a direita toda, que anda por onde pode a exigir a recondução desta senhora como se isso fosse uma questão de vida ou de morte, revelando que a mana Marques Vidal é, de facto, o seu braço armado na Justiça contra os socialistas, o grande, enorme ponto de interesse do seu mandato foi, na realidade, a humilhação infligida ao odiado Sócrates (muito mais do que a de Ricardo Salgado) – desde a detenção, à prisão, aos interrogatórios, ao julgamento via Correio da Manhã e tudo o mais que fez as delícias dos sabujos que adoram o pelourinho para os seus adversários. Só por isso, todos os dias estas pessoas e o Marques Mendes erguem a Joana Marques Vidal uma estátua virtual de proporções gigantescas e elucidativas, perante a qual se ajoelham, por esse feito absolutamente “heroico” (as aspas devem-se à inexistência de qualquer dificuldade ou obstáculo à façanha) e nunca visto. Lembro que a direita viveu o seu  tempo áureo quando dispôs de um Presidente (Cavaco), um primeiro-ministro (Passos) e uma PGR – um trio deprimente – à frente dos principais órgãos do Estado totalmente consonantes com a sua estratégia e alvos. A reintrodução de julgamentos à maneira medieval fez-se com um estalar de dedos. Mas só alguns foram assim julgados, claro.

 

Voltando ao meu ponto: se Joana Marques Vidal quisesse provar de uma vez por todas a sua total independência (ganhando a minha admiração) e arrumar também de vez com os articulistas/propagandistas da direita que desejam às escâncaras politizar a Justiça e fazer luta política agarrando-se a ela (aqui para nós, à falta de melhor), enquanto escrevem nos jornais e debitam nas televisões, viria a público dizer simplesmente que procurou cumprir com dignidade as suas funções, que espera ter lançado as bases para isto e para aquilo, mas que reafirma que considera o seu mandato único, como aliás foram os de todos os seus antecessores, com excepção de Cunha Rodrigues (de 1984 a 2000; outros tempos e uma excepção em mais de 80 anos). Suspeito, porém, que não o fará. Suspeito que ficará calada enquanto a direita a transforma na sua mais importante ou única bandeira. Possivelmente o Tavares caluniador do Público já a fez inchar de tal maneira com a campanha que pôs em marcha a seu favor (dia sim, dia não) que a vaidade lhe subirá à cabeça e Joana acabará por decidir dar o dito por não dito, mandar o tal de mandato único às urtigas, manobrar pela sua própria recondução e entrar na luta política. Entrar ou continuar. Se Costa e Marcelo a deixarem, está bom de ver. Estou curiosa por saber o que cozinham. Atendendo a que Joana já disse o que pensava sobre o assunto, vejo muito a custo Costa e Marcelo a pedirem-lhe que fique.

Realismo, oportunismo ou transtorno da mioleira?

 

A líder parlamentar do partido alemão “Die Linke” decidiu criar um novo movimento que inverte os princípios tradicionais deste partido sobre os imigrantes e requerentes de asilo. Segundo se lê neste jornal francês, Sahra Wagenknecht proclama agora que a imigração deve ser controlada e limitada para se poder prover a outras necessidades prementes do país em relação aos mais pobres e reconhece que “o alojamento social não é ilimitado”. “É ingenuidade pensar que se pode abrir uma fronteira a toda a gente”, diz também, acrescentando que essa não é uma política de esquerda. Visa, assim, contrariar o avanço dos extremistas de direita do partido AfD, agora representados no Bundestag.

“Inspirée du succès de Podemos en Espagne, de la France Insoumise de Jean-Luc Mélenchon ou de Syriza en Grèce, Aufstehen (Traduisez: «Debout!» ou «Réveil!») va tenter de mobiliser très à gauche, mais sur le thème de la politique migratoire qui bouleverse le paysage politique allemand depuis 2015. Âgée de 49 ans, née d’un père iranien et d’une mère allemande, la présidente du groupe parlementaire de la gauche radicale (Die Linke) veut «mettre la pression» sur les partis de gauche pour qu’ils engagent une «autre politique migratoire», dit-elle. Sahra Wagenknecht veut en finir avec la «bonne conscience de gauche sur la culture de l’accueil» et ces «responsables vivant loin des familles modestes qui se battent pour défendre leur part du gâteau».

Crainte pour les bas salaires

«Une frontière ouverte à tous, c’est naïf. Ce n’est surtout pas une politique de gauche», insiste-t-elle. Les milliards dépensés par le gouvernement pour accueillir les demandeurs d’asile en 2015 «auraient pu aider beaucoup plus de nécessiteux en Allemagne», dit-elle. «Plus de migrants économiques signifie plus de concurrence pour décrocher des jobs dans le secteur des bas salaires. Le nombre de logements sociaux n’est pas non plus illimité», estime-t-elle.”

Em Portugal, a imigração não tem sido um problema. Pelo contrário, temos falta de estrangeiros. Mas, inseridos na Europa, interessa-nos, por razões que me dispenso de referir, o evoluir da situação política nos restantes países. E a questão da imigração (sobretudo a muçulmana) é, a par da passada crise financeira, das que mais alterações têm produzido no panorama político europeu actual. Com ou sem razão. Vários países fecharam as fronteiras e são agora governados por políticos populistas e com fortes tendências ditatoriais. Muita dessa evolução é fruto não só da vaga enorme de migrantes e refugiados que têm demandado a Europa (e sobretudo a Alemanha) nos últimos três anos, mas também da perspectiva de não abrandamento desse fluxo, dado que as guerras continuam no Médio Oriente, a Turquia ameaça constantemente deixar de reter uma boa parte dos fugitivos e a África, com a sua série de Estados falhados ou a braços com a invasão de tresloucados islamistas, ou ainda sob os efeitos das alterações climáticas, é um problema de difícil solução. O facto de um conhecido partido de extrema-esquerda, como o “Die Linke”, colocar sequer a hipótese de o país fechar as portas aos que pedem asilo pode ser mais uma prova de que “a boa consciência” da esquerda, como ela diz, não chega já para solucionar um problema desta importância para os países de entrada ou de destino dos migrantes. O que se passa na Itália, na Áustria, na Hungria, na República Checa, na Polónia e até na Alemanha é que chamar automaticamente fascista e xenófobo a quem não defende a abertura incondicional das fronteiras foi meio caminho andado para os verdadeiros fascistas adormecidos acordarem e verem uma enorme oportunidade à sua frente.

Assim, pode o número real de imigrantes e refugiados ser pouco expressivo e pouco alarmante, pode a dita Sahra estar avariada da mioleira e não ter sorte nenhuma com o público-alvo que visa conquistar, mas não deixa de ser um sintoma de que algo vai mal quando a direita populista tem tamanha facilidade em chegar ao poder um pouco por todo o lado na Europa, apesar do exemplo deplorável do cabeça loira do outro lado do Atlântico.

Centeno não disse nada de especialmente chocante

Deixem o Mário Centeno em paz. O programa de assistência financeira à Grécia terminou finalmente e impunha-se o comentário da praxe sobre a ocasião. Como presidente do Eurogrupo, o que poderia dizer Centeno, se não que “todos aprendemos com os nossos erros”, como se ouve no vídeo? Todos incluindo a Grécia, sim, cujos governos anteriores à crise aldrabaram a bom aldrabar as contas. Com a prestimosa ajuda dos amigos da Goldman Sachs, como é sabido. Mas não seria esta a ocasião para desenterrar punhais passados, pois não? Os gregos aldrabaram para a entrada no euro e aldrabaram posteriormente os valores do défice. Para além do regime de privilégios inaceitáveis de que gozava a generalidade do sector público e certas classes profissionais e de um sistema fiscal generalizadamente fraudulento (uma das tais “bad policies of the past” a que o vídeo, de facto, alude).

De certo modo, nós fomos vítimas da Grécia. Embora não tenhamos tido nos nossos registos mais próximos da crise qualquer fraude ou política irresponsável. Tanto assim é que nem teríamos tido resgate algum se a sede de poder do PSD e a cegueira dos radicais do BE e PCP não tivessem deitado a perder o acordo conseguido em Bruxelas.

Posto isto, é claro que a receita aplicada à Grécia (e a nós) foi-lhes servida recheada de preconceitos contra o sul e de propósitos de punição, que menosprezaram completamente as pessoas e  economia e só agravaram a situação de tragédia. Mas, podia Mário Centeno, ministro de um país que substituiu a austeridade pelo normal rigor, deixar de mencionar, ainda que de passagem, os erros da Grécia (de que também fomos vítimas, por errada analogia)? Ou será que a Grécia não cometeu erro nenhum nem havia nada a corrigir? Não é verdade.

Pode Mário Centeno não ter frisado suficientemente, como muitos gostariam, a nunca reconhecida defesa dos interesses dos membros mais ricos da família “euro” que orientou a maior parte das decisões de resgate. Mas não era esse o seu papel neste momento. O predomínio de quem se apresenta, na Europa, com melhor situação económica é uma realidade com a qual teremos de viver praticamente até à eternidade. Mas Portugal está a afirmar – a reconstruir, melhor dizendo – a sua imagem de país sério, autónomo e orgulhoso, por oposição à imagem de cachorro culpabilizado e obediente que o anterior governo passou. Assim, não percebo o alarido. Só o da oposição, claro.

Robles ao fundo e Bloco a esbracejar

Ainda não se sabe tudo sobre o negócio da aquisição e renovação do imóvel de Alfama por Ricardo Robles e a irmã. Mas, do que se sabe, tenho a dizer o seguinte:

Ricardo Robles, a não haver qualquer favorecimento na aquisição do prédio, fez tudo bem, de um ponto de vista suprapartidário, até se ter apercebido de que a sua militância no Bloco de Esquerda era incompatível com um lucro de milhões proveniente da prática da especulação imobiliária, que o Bloco tanto critica. A partir do momento em que suspendeu a venda com receio das críticas, fez tudo mal. Por outro lado, “fazendo tudo bem” e mantendo a intenção de venda, ainda por cima com promoção da Christie’s, só lhe restaria abandonar o Bloco e, livre, continuar a renovar a cidade e perder o preconceito contra o lucro.

Vejamos: lê-se hoje que, segundo a descrição da agência promotora, o edifício renovado é composto por 11 apartamentos pequenos, tão pequenos que a sua maioria tem a área de quartos, o que não tem nada de mal em si, mas indica que o destino do imóvel era mesmo o aluguer para alojamento local (outra prática que o Bloco considera já ter ido longe demais). Dizer que a irmã tinha planeado vir morar para o edifício não é, por isso, muito credível. Vinha habitar um T0 com 41 m2, o maior dos 11 anunciados? Sei não. Enfim, e o empréstimo pedido à Caixa, como será pago tendo em conta a nova intenção declarada de alugar os apartamentos para habitação? Que contrato ou acordo haverá com a Caixa? Evidentemente, eu não tenho nada com isso. A família pode ser rica e seguramente Robles não vai andar a roubar para cumprir os seus compromissos. Mas pagar cerca de 300 ou 400 mil euros à Caixa não vai ser fácil sem a venda lucrativa do imóvel. Digo eu.

A dor de consciência ficou, pois, aqui muito mal (porque “o mal já estava feito”, ou seja, já nada apaga a tranquilidade com que Robles se dispunha a ganhar 2 milhões, como tantos investidores imobiliários fazem hoje em dia, para bem da recuperação do casario antigo e contra os “princípios” do Bloco) e cria certamente sarilhos vários. Agora resta-lhe descalçar esta bota, mas terá que ser mais criativo nessa tarefa, porque as explicações dadas ontem foram algo risíveis. Não foi ele, foi a irmã? Não era uma venda directa, era por uma agência? Não foi ele que fixou o preço de venda, foi a agência? Que balelas são estas? A Mariana Mortágua, ontem, na SIC N, foi arrasada, e bem, pelo Adolfo Mesquita Nunes.

Mais valia estares calado, Tavares

O Público e o seu vomitório bissemanal da última página. Na direita que o colunista JMTavares representa, ou dizem que não há investimento do Estado, o que consideram uma tristeza e uma vigarice e uma desgraça, ou dizem que, se há, não devia haver, porque o financiamento ao abrigo do programa 2020 deveria ser canalizado exclusivamente para projectos de risco de empresas privadas. Estado não toca no 2020. É o que se conclui do paleio de hoje da última página. Demagogia em estado puro: passar a ideia de que «o Estado», subentendendo-se e sugerindo «os governantes» e seus amigalhaços, ficam com as verbas todas em proveito próprio, escamoteando o facto de, ao financiar projectos de melhoria de infraestruturas, o Estado convocar inúmeras empresas privadas, que assim prosperam e dinamizam a actividade económica. Apostar na qualificação das pessoas também é considerado investimento inútil.

Critica-se agora o estado de degradação da ferrovia, não é?  Pois, mas, ao criticar-se a utilização dos fundos do programa 2020 pelo Estado, critica-se o investimento na modernização da mesma ferrovia ao abrigo do dito programa europeu, por representar um “desvio” para o Estado de verbas que deveriam ir para empresas fantásticas, superinovadoras e potencialmente o orgulho de Portugal que só o Tavares conhece (embora não empreenda). Entretanto, testemunho, por exemplo, quantos fins de semana de alternativa rodoviária tem custado aos utilizadores a melhoria da via férrea na zona de Mortágua, linha da Beira Alta; mas está a ser feita. E outros troços se seguirão. Para o Tavares, deveriam ser apenas os impostos a pagar estes avultados investimentos (se considerarmos toda a rede). Sim, abelha. Sabemos onde queres chegar.

 

Mas o pulha vai mais longe. Dá como exemplo de “desvio” de verbas para projectos inúteis a atribuição de uma pequena parte das verbas recolhidas para ajudar as vítimas de Pedrógão à melhoria da unidade de queimados do hospital universitário de Coimbra.

“Lembram-se do miniescândalo de Outubro de 2017, quando se percebeu que parte dos donativos angariados para ajudar as vítimas de Pedrógão estava a ser canalizada para equipar a unidade de queimados do Hospital de Coimbra?”

O Estado come tudo e não deixa nada, in Público

Unidade de queimados. De Coimbra. Vêem? O que tem isto a ver com vítimas de Pedrógão? É só vigarices. Dos “xuxas”, “who else?”.

Tiradas ao estilo de Trump

Aliás, deixe-me dizer-lhe. Se o Orçamento chumbasse, em bom rigor, o dr. António Costa teria de viabilizar um Governo do PSD com o CDS. Ele não disse em 2015, que só chumbou o Governo de Passos Coelho porque conseguia uma maioria à esquerda? Se agora não conseguisse, em coerência devia dizer: pronto, peço desculpa, apoio um Governo do PSD e do CDS, que verdadeiramente foi quem ganhou as eleições em 2015, foi quem foi mais votado.”

Rui Rio, em entrevista à TVI

 

Não, ó Rio. Se não conseguir uma maioria à esquerda que aprove o orçamento para 2019, Costa não muda de maioria. Tu é que terás que ir a votos.