Todos os artigos de Nuno Ramos de Almeida

É triste mas é verdade

Em contraponto ao sectarismo jubiloso do Super-Mário, o Pulo do Lobo admite sem rebuços que “tanto Manuel Alegre como Cavaco Silva conseguiram tornar a reposição de um Jogo Falado de 1995 à uma da manhã pela RTP Memória numa coisa interessantíssima”. Depois de constatarmos que há comentários no blogue de direita e não no de esquerda, contrariamente ao mito, vemos agora que o fair-play e a auto-ironia também já se passaram para o outro lado…

Vasco Pulido Valente insultou este senhor

“Talvez Cavaco e Alegre se safassem na Estónia”. Foi desta forma pouco elegante que Vasco Pulido Valente descreveu no “Público” o debate de ontem. E que grande injustiça cometeu! Ora leiam lá o CV do senhor Arnold Rüütel. E maravilhem-se com a sua sapiência em diversos domínios da agricultura. Ou com a sua fulgurante carreira sob o jugo da URSS. Acham que Alegre ou Cavaco alguma vez mostraram cometimentos que se comparem? E olhem que o seu antecessor, Lennart Meri, era cineasta e escritor. Não; aqueles dois nem na Estónia se safariam com facilidade…

Pirofania (2)

Estas especulações nem tiveram tempo para medrar ou estiolar; naquele Verão de brasa logo a anomalia se repetiu. Uma vez. Outra. E mais. Muitas mais. Roménia, Austrália, Califórnia, Espanha, Grécia. Em quase todos os incêndios florestais de grandes dimensões acabava por se revelar o fogo de mais uma Palavra. Sem nunca fugir à companhia do silêncio: apenas o crepitar das chamas, os rotores dos helicópteros, as interjeições pueris das equipas de filmagem. Nada de bandas sonoras grandiloquentes, recheadas de Bach ou Messiaen. Tudo aquilo dava ideia de ser banal demais, pouco espaventoso. Mas não é assim que começam todos os grandes cataclismos, sem trombetas nem pirotecnia?
Sinais de alarme começaram a tocar em todos os locais importantes. Os media receberam discretas e tão insistentes recomendações para não dar demasiada atenção àquela óbvia impostura. Mas como evitar a inutilidade do dique quando as águas já passam por cima dele? Era tarde demais.
Já sem grande fé na Ciência, a atenção do público logo tratou de procurar respostas em locais onde elas sempre abundavam. E os profissionais da religião não se esquivaram. As principais denominações aceitaram de imediato a índole sobrenatural dos Incêndios. Os cristãos tiraram o pó às suas escrituras que tudo prevêem e explicam em rodriguinhos de mistério e sossego. “Operava grandes sinais, de maneira que fazia até descer fogo do céu à terra, à vista dos homens”; assim nos anunciava o livro do Apocalipse a chegada do Anti-Cristo. Os muçulmanos, sempre de sobreaviso contra os habitantes das chamas, concordaram pela primeira vez com os teólogos infiéis, clamando as palavras do Profeta: “guardem-se do fogo que foi preparado para os incréus.”
Os judeus discordavam do carácter demoníaco do fenómeno. O episódio de Moisés com a sarça ardente predispusera-os a topar D—s nos locais mais inesperados. Eles estavam já a coleccionar com sofreguidão cada Palavra, compondo o rascunho dos novos Mandamentos para um novo Milénio.

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Aviso à navegação

Sou um dos excluídos do progresso. No ermo medieval onde vivo, não há banda larga para ninguém. Vai daí, estou condenado às lentas agruras do dial-up.
Agora, acabo de aderir à Tele2, que me vai custar menos de metade da minha anterior ligação, através do Clix. Resultado? Estabilidade total. Fim das aterragens acidentais em páginas de publicidade a produtos do Clix, quando procurava coisas bem distintas. Ainda por cima, isto agora parece bastante mais rápido.
Às vezes, o barato sai… mesmo barato

Fraldas e avanços civilizacionais

Acabo de confirmar quão difícil é desfazer o progresso e regressar a formas mais simples de fazer as coisas. Para tal, bastou-me deparar com o meu filho em casa da avó, cheio de cocó e sem uma fralda à mão. Depois de tentar remediar o problema com uma fralda de pano e uns sacos do Continente, sem alfinetes de dama nem jeito para estas engenharias, rendi-me à evidência: é-me impossível sobreviver — ou sequer manter o meu filho seco — sem fraldas descartáveis.
Que miséria. Não tarda nada, ainda descubro que já não consigo divertir-me sem ter um computador por perto…

Pirofania (1)

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Como esquecer?
Anos depois, aquele minuto veio a receber a trivial honra de marcar um escaninho singular na memória de quase todos. Sempre o mesmo ponto de interrogação: “onde estavas tu quando viste pela primeira vez?” A pergunta com raiva a preencher o local onde antes poderia ter sobrevivido um résto de curiosidade educada. Sim; como esquecer?
Facto: o Incêndio original eclodiu perto de uma pequena cidade da Ligúria, Pietrabruna. Depois, claro que fomos assolados por memórias dúbias, revelações contrafeitas, juramentos de maravilhas sem prova. Mas soubemos logo, sabemo-lo agora: as imagens de Pietrabruna tinham algo de único, uma espécie de vigor sem limites. E como não sentir a presença oculta entre as linhas de varrimento, o suave fantasma que assustava e fazia tremeluzir de esforço o fósforo cansado de milhões de ecrãs? Demasiado sinal para tão pouco ruído.
Assim foi o testemunho desfocado dos primeiros segundos de espanto sem remissão. Da queda de um desconhecido tão frio e inesperado sobre todos nós.
Sim; todos vimos vezes sem conta o fragmento de reportagem da RAI, quando o helicóptero com a câmara se eleva sobre os novelos amarelos de fumo que parecem também arder por dentro. Quando o jornalista se queda engasgado por tremendos segundos. Ali, na encosta onde as labaredas avançavam pelas encostas de pinhal como uma linha fronteiriça a marcar domínios de um monarca belicoso; como poderia surgir do lume algo que não mais destruição e desperdício?
Então, nasceu face aos olhos do mundo a clara mensagem que não podia estar ali. O Primeiro Vocábulo. A linha das chamas a moldar-se à caligrafia precisa de uma só palavra, tremenda de centenas de metros de fogo incontrolável. Parada, enorme, impossível, brilhando alegre contra o pano de fundo de uma noite sem Lua, contra todas as leis em que delimitámos a Natureza.
“Rimpianto”.
Rimpianto.
Arrependimento.
A palavra italiana que o fogo então soletrou nos olhos do mundo. E que até hoje permanece tatuada na sua memória. Como poderíamos alguma vez esquecer?

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Momento cultural cavaquista

A propósito do papel fulcral que Cavaco vai jogar na cultura lusa, segundo os seus apaniguados, há que prestar homenagem à primeira obra a beneficiar de tão augusta inspiração. Falo, claro está, do belo, inspirado, sublime, lindo hino de campanha de Cavaco. Ouçam-no aqui; baixinho, para não incomodarem os vizinhos.
Pois é. Custa a crer, de tão mau. Mas do que é que estavam à espera? Chopin, não? A coisa arranca com uns delírios confusos sobre o “Futuro”, que é “sempre agora” e que nos leva a “saltar o muro” (esta rima forçada tem um certo ar de incentivo à emigração não tem?). Depois, chega o refrão. Aliás, chega e nunca mais se vai embora:
“Fazer Portugal maior
É romper a bruma
Abrir o dia
É rasgar o medo
É fazer melhor”
Pena é que o poeta não tenha feito uma forcinha para arranjar rimas para “Cavaco”. De “caco” em diante, a musa teria por certo muito com que se entreter…

Linhas cruzadas

A Aspirina B é quase gémea de uma invenção do Zé Mário. Esta coincidência no tempo foi completamente fortuita, mas não deixou de produzir alguns intrigantes efeitos secundários. Começaram estes quando eu afinava o nosso template; volta meia volta, dava com o endereço morel.weblog.com.pt na minha barra de endereços. Lembrei-me da obra de Bioy Casares, estranhei a invasão inopinada, mas não dei mais importância ao caso. Só quando soube que tal blogue de inspirado nome era obra do ZM é que reparei na bizarria do acontecido.
Agora, a assombração persiste. Alguns posts recusam-se teimosamente a aceitar comentários, emitindo os seus queixumes em nome de um tal Apache/2.0.53 (Fedora) Server at morel.weblog.com.pt Port 80.
Anda por aqui um mecanismo oculto a operar ínfimas maravilhas. A novela que cedeu o nome ao blogue do Zé Mário falava-nos também da aparente sobreposição de dois mundos, de dois tempos. Será que a Aspirina é um mero fantasma electrónico, um glitch de HTML, da Invenção? Ou será que este blogue faz mesmo jus ao seu nome e não passa de uma excelente e bem urdida ilusão?
Estou confuso. Mas, afinal, o que seria de esperar quando um gajo se mete com borgesianos?
Agora, já pedi ajuda ao Paulo Querido, o vero Morel da nossa ilha blogosférica. Esta avaria pode ter o seu quê de inquietante e poético, mas é também muito irritante.

Cavaco, a grande esperança da nossa cultura

Paulo Tunhas, no Pulo do Lobo (nome bem apropriado à candidatura de Cavaco) expõe com candura o seu fraco apego à verdade e a sua elegância como argumentador. Pega numa frase de Francisco Louçã — “O que faz falta em Portugal é abrir a cultura, destruir a ideia de que a criação da mediocridade populista é a cultura de que o povo precisa e de que o povo gosta” — e apresenta de seguida uma sua “tradução”, tão peculiar quanto antagónica do original. Ele lê nessa passagem uma insuportável ofensa ao “gosto das pessoas que Louçã apelida de ‘medíocres’ (e apelida-as mesmo assim, dado o seu preconceito de classe)”.
Como é claro a qualquer pessoa que saiba juntar umas palavritas, Louçã atacou sim a ideia de que o povo só gosta de coisas medíocres, não o gosto de ninguém e muito menos “pessoas”. Tunhas tenta, muito simplesmente, inverter o sentido das suas palavras! O alucinado cavaquista ainda consegue ler no desiderato de “abrir a cultura” um sinistro objectivo: ter uma “pintinha de direito de interferir no gosto das pessoas”. Tudo “opiniões obscenas” do “ensandecido bloquista”, claro está.
Tresler é uma bonita e menosprezada arte; e encontra em Pedro Lomba um fã entusiasmado que não se conteve em juntar logo o primeiro comentário laudatório a este disparate: “excelente”.
Excelente, há que reconhecer, é a ideia central do post: Cavaco Silva é “quem melhor está colocado” para ajudar a promover um reencontro dos portugueses com a cultura. Leram bem. O homem que nem jornais lê vai ser o messias da nossa vida cultural. Isto porque, ao contrário de Alegre e de Soares, “está livre”.
Lá isso aparenta ser verdade; a fazer fé nas entrevistas do homem, ele está 100% livre de qualquer resquício de coisas vagamente aparentadas com cultura humanista. Aliás, já teve ocasião para demonstrar o seu apreço por tais assuntos, quando primeiro-ministro: entregou-os às capazes meninges de Santana Lopes.

A assombração

A promessa ominosa já tinha ficado, logo no congresso que o apeou: “eu vou andar por aí”. Agora, a profecia cumpre-se, embora ainda de forma mitigada e pouco incomodativa.
Por enquanto, este regresso de Santana Lopes restringiu-se a meia página do “Expresso”. Num artigo de opinião desvairada, ele entreteve-se a proclamar ao mundo a irremediável distância a que dele se exilou. O homem ainda não percebeu mesmo nada. Não reparou no resultado das eleições legislativas. Não deu pelo seu ex-parceiro de coligação a admitir que a maioria de direita estava condenada desde a fuga de Durão: “Hoje podemos dizê-lo: eu creio que o contrato de confiança entre o povo e a maioria caducou nesse dia”. Não acordou para o facto de ninguém querer saber dele para nada.
Esta versão lusa dos fantasmas do “Sexto Sentido” emigrou mesmo para um universo alternativo. Ele vive num país que chora a prosperidade perdida com o fim do seu governo, numa nação indignada com a prepotência de Sampaio, num sítio estranho que ainda lhe liga. Não que este divórcio seja coisa nova; logo quando primeiro se viu na iminência de perder o tacho para que se julgava predestinado, ele lançou o lamento: “porquê agora, quando há sinais de retoma económica e de avanços nas reformas estruturais?” E até Cavaco Silva pode começar a tremer: Santana ainda não sabe se o vai apoiar ou não!
Fico sem perceber se a figura deste has-been é cómica ou apenas triste e patética.

Cruz, credo!

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A Igreja Católica anda na berlinda. Aliás, desde a eleição deste Papa, nada mais se esperava. Agora, surgiu uma “Instrução”, que João Paulo II já pedira há largos anos, sobre a ordenação de homossexuais. Esta recorda o velho argumento segundo o qual um sacerdote precisa de ser mesmo muito parecido com Cristo para estar à altura da tarefa (o que poderia levar a que apenas judeus trintões fossem ordenáveis, mas enfim). E Cristo não tinha qualquer tendência para a bichice, pois não? (Também gostaria de saber onde é que isto vem garantido nos evangelhos…)
De qualquer forma, os actos homossexuais são sempre, e tendo em vista as Escrituras, vistos como “intrinsecamente imorais e contrários à lei natural” (voltando ainda e sempre à Bíblia, talvez já não tarde muito para se ressuscitar a proibição de tocar em mulheres menstruadas). Já as meras “tendências” escapam com alguma indulgência: são apenas “objectivamente desordenadas”. Mesmo assim, basta que sejam “profundamente arraigadas” num candidato para o excluir. Aliás, tal destino é comungado por todos os que “apoiem a assim chamada cultura gay“, mesmo que sem qualquer tendência pessoal nesse sentido.
Toda esta malta, aos olhos perfeitamente normais das gentes do Vaticano, está impedida “de ter uma relação correcta com homens e mulheres”. No caso dos sortudos que só sofrem dessa desordem como “expressão de um problema transitório” (assim uma espécie de sarampo da alma), podem considerar-se curados se não tiverem tido recaídas nos três anos anteriores à ordenação diaconal.

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O último avanço da tecnologia: sentimentos

Já tinha ouvido gabar as mil maravilhas do serviço de mail do Google. Não sei quantos gigas, teraflops em barda… sei lá. Agora o que não estava à espera era disto: o próprio sistema, dando mostras de um invejável livre arbítrio, tratou de responder à minha mensagem experimental. Ora vejam lá a pungente missiva que recebi:

“Olá querido Luís Rainha,

desde que existo, devo ter recebido milhares de mensagens deste tipo: «Experiência», «1,2,3», «Teste» e, como é óbvio, ignoro-os. Contudo, tomei a liberdade de te responder para ficares a saber que as caixas de e-mail também têm sentimentos e que receber mensagens escritas pelo meu próprio locatório e que, em princípio, não serão lidas por ninguém, é uma coisa triste que me deprime. Claro, vais dizer que não és ninguém para melindrar uma servidor de e-mail com as minhas dimensões, se ainda fosse um portugalmail, mas agora o GMail… Estás enganado. Todas as contas de e-mail são como filhos para mim e custa-me muito ver as pessoas que ocupam o seu espaço a porem a prova a fiabilidade dos seus (e meus) serviços.

Usa esta conta com sabedoria. Não a enchas de lixo, para isto já bastará o SPAM. Tudo isto não passa de HTML, é verdade, mas o HTML também tem sentimentos.

Um abraço
Gmail”

Todos tínhamos já como moralmente inquestionável que não se deve maltratar os sentimentos dos carteiros, mormente atiçando-lhes bulldogs ou electrificando as caixas de correio; agora, ficamos cientes de que devemos estender estas cortesias mínimas aos agentes robotizados do serviço de e-mail. Ainda por cima, este lamuria-se em bom estilo (se bem que reminiscente de um outro que agora não consigo fixar).