Todos os artigos de Júlio

O enterro de Portugal

Uma cegada tradicional portuguesa organizada em Agosto em Guimarães, berço da nacionalidade, acabou na demissão do comandante da GNR de Braga. O enterro de Portugal, num caixão feito por medida (video aqui), tinha sido apoiado pela Capital Europeia de Cultura 2012 e contou com a participação de um aprimorado grupo de militares da GNR armados de espingardas, por sinal disparadas para o ar no final de féretro da falecida nacionalidade.

As ótoridades iam tendo um fanico e, não havendo verba para bombardear Guimarães, demitiram de imediato o comandante da GNR da região. Ainda não foi divulgada justificação oficial da demissão, mas, de facto, não se pode deixar que se espalhe a notícia do falecimento de Portugal. Imagine-se que a troika sabia…

Post-scriptum:

A GNR participa todos os dias em procissões da Igreja católica por esse país fora, apesar do regime vigente de separação entre o Estado e a Igreja, mas pelos vistos não pode participar num acto cultural. Afinal é a cultura que está separada do Estado, não a Igreja?

O medo de criticar

O Público cedeu ontem duas páginas ao historiador Diogo Ramada Curto para fazer o balanço da polémica Loff-Ramos. Foi de bom augúrio a escolha de um verdadeiro historiador e investigador para comentar a troca de galhardetes entre dois militantes políticos que escrevem sobre história contemporânea. Sabia-se de antemão que Ramada Curto torce o nariz (é dizer pouco) a obras como as dos historiadores Ramos e Loff. A coisa prometia. Quebrando uma jura, fui levado a investir 1,60 € na compra de um exemplar do jornal de Belmiro de Azevedo – o tal que se ri dos que querem “mandar” politicamente no seu pasquim “sem pôr lá dinheiro nenhum”.

Pois bem, o artigo de Ramada Curto é uma relativa desilusão. Apostando numa alegada “serenidade académica” que, me parece, o faz abdicar da sua própria sinceridade académica, Ramada Curto declara-se pouco interessado em abordar os pontos quentes da polémica – a questão do “branqueamento” ou não do salazarismo e a questão do fanático e estapafúrdio denegrimento do republicanismo e da 1.ª República por Rui Ramos na sua parte da História de Portugal. Em lugar disso, afirma ser necessário recentrar o debate sobre essa obra de que Ramos é co-autor. Ramada Curto recusa, pois, entrar nos temas concretos da polémica suscitada entre Loff e Ramos, mas aproveita a ocasião para falar do que lhe interessa e tentar erguer, ao mesmo tempo, um modelo de debate alegadamente despolitizado, centrado em “aspectos analíticos”. Dito de outra maneira, Ramada Curto propõe-se analisar uma obra politizada e de fins políticos recentrando a atenção em aspectos criteriosamente seleccionados para evitar uma execrável politização do debate, a que ele chama “mera guerra de bandeiras à esquerda ou à direita”. Como se a própria politização de uma obra de história não fosse susceptível de ser estudada ou analisada.

Ramada Curto escolhe, assim, livremente um único tema da obra de Ramos, a guerra colonial, para em torno desse assunto tecer um punhado de considerações críticas que oferece à comunidade dos historiadores como modelo da boa e necessária crítica, que, segundo ele, tem estado ausente do panorama académico nacional. As críticas que tece à obra de Ramos são todas certeiras, valha-nos isso. Pelo tema que seleccionou para servir de modelo (a guerra colonial), adivinham-se as críticas que Ramada Curto poderia fazer às tais teses de Ramos sobre o salazarismo e a 1.ª República. Adivinham-se só, pois não as faz. O que causa mais perplexidade é que o próprio Ramada Curto denuncia neste artigo do Público o “medo de criticar” que segundo ele existe no mundo académico português. Será que Ramada Curto tem medo de criticar a politização de direita da obra de Rui Ramos? Ou terá medo de ser emparceirado com Fernando Rosas no campo esquerdista apoiante de Loff? O medo raramente é bom conselheiro…

Freitas ganha pouco

Há muito tempo que não se falava de Freitas do Amaral, o que em ex-celebridades desse calibre costuma provocar engulhos e obstipação. Anteontem Freitas dormiu mal, sempre a ruminar no seu nulo protagonismo na era Coelho – uma injustiça que só vem confirmar a ingratidão congénita do partido laranja e do gajo de Belém. Freitas nunca esquecerá que, nos anos 80, o mangas de Boliqueime se baldou a participar nas despesas da campanha Prá frente Portugal e o obrigou a trabalhar à noite durante dez anos para pagar as dívidas. O fabricante dos chapelinhos de plástico também o vigarizou, mas isso são outros contos.

Ontem, entre o peido contrito do pequeno almoço e a água de Colónia, Freitas voltou a meditar em tudo isto três vezes, o que nele costuma preceder explosões de génio. Vai daí, nasceu-lhe uma ideia poderosa. Foi ao armário roupeiro e procurou nos cabides de trás aquela camisola proletária que já não vestia desde que o filho, o futuro escritor pimba, o tratou de burguês. Sacou do telefone, convocou a RTP e largou a bomba:

“Uma pessoa que ganha mais que 15 mil euros é privilegiada. Os que ganham 50 são muito privilegiados. E os que ganham 200 mil euros mensais – porque os há – são os tubarões. Devia haver, por parte do Governo, um imposto, uma tributação especialmente pesada sobre essas pessoas”.

Que ninguém se engane. O que rigorosamente se pode inferir desta bocarra mediática do fundador da democracia cristã lusitana é isto, e só isto:

1. Que Freitas ganha actualmente menos de 15 mil por mês.

2. Que supostos amigos de Freitas, que ele secretamente despreza e inveja, ganham mais de 15 mil euros por mês.

3. Que alguns dos mais perniciosos inimigos de estimação de Freitas ganham todos, por um caprichoso acaso do destino cruel, mais do que 200.000 euros por mês. Por exemplo, o merdas do Pires de Lima quanto ganha?

 

Cara Cândida Almeida

Excelentíssima Senhora Procuradora-Geral Adjunta:

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, que destino foi dado aos 30 milhões de Euros que o GSC – German Submarine Consortium pagou à ESCOM, do grupo Espírito Santo, a empresa que fez “assessoria” (lindo nome) na negociação das contrapartidas e que até criou uma empresa offshore para receber as massas.

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se alguns militares, políticos e partidos portugueses abifaram parte ou a totalidade desses 30 milhões – em suma, quem, quais e quanto.

Continuamos sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se o então presidente da ESCOM, Luís Horta e Costa, o “Luís das Amoreiras”, já respondeu a estas perguntas e, se sim, como respondeu. Já agora, Luís Horta e Costa ainda está em liberdade e, se sim, porquê?

Continuamos também sem saber, e gostaríamos que a Senhora Procuradora procurasse, se Paulo Portas não terá fotocópias – ou porventura os originais – dos tais documentos relacionados com os contratos dos submarinos que, segundo o DCIAP, desapareceram do Ministério da Defesa.

Alguém da escolinha da JSD se lembrou de lhe fazer perguntas sobre estas matérias, cara Senhora Dona Cândida Almeida? E se não, porque não?

 

Os amanhãs que cantam, segundo Louçã

No chamado “Fórum de Ideias” do Bloco de Esquerda em Vila da Feira (rebaptizada Santa Maria da Feira), Louçã voltou a defender a necessidade de um governo de esquerda para o país. Ouçamos o grande líder, agora demissionário após ter ajudado a direita portuguesa a deitar abaixo o governo de Sócrates (já não havia mais nada para fazer depois disso):

“A pergunta que a esquerda tem que fazer para merecer ser esquerda é porque é que o povo não há-de governar? Esse governo de esquerda, que é a grande luta que temos que travar, criará muitos debates certamente, muita contraposição, muitas dúvidas. Mas uma coisa ele fará, perante toda a oposição social [sic], ele dirá que luta pela igualdade e pelo respeito [re-sic]. Sim senhor, nacionalizará a EDP e as redes energéticas nacionais por mais que isso incomode o Partido Comunista chinês; nacionalizará serviços financeiros por mais que isso incomode a família presidencial angolana, trará os hospitais públicos para o Serviço Nacional de Saúde por mais que isso incomode os Mellos e os Espíritos Santos”.

Leram bem, é tirado da esquerda.net.

O peralvilho lunático, que não deve conhecer os resultados das últimas eleições legislativas portuguesas, quer agora, mediante intensa luta a travar em sonhos, empossar um governo do povo, perdão, um “governo de esquerda”, para “incomodar” os comunistas chineses, a família Dos Santos e os interesses dos grupos Melo e Espírito Santo no sector da saúde.

Nacionalizar os investimentos dos chineses, dos poucos estrangeiros que têm investido em Portugal, parece-lhe uma excelente ideia. Com indemnização ou de assalto, camarada Louçã? Para indemnização o putativo governo do povo, perdão, o “governo de esquerda” não terá um tostão. Resta o assalto, pelo modelo de 12 de Março de 1975. O mesmo esquema se aplica aos “serviços financeiros” dos angolanos. Para os nacionalizar, ou o tal “governo de esquerda” lhes devolve o que cá investiram ou os rouba. Não há mais hipóteses. Os Mello e os Espírito Santo aparecem na lista das futuras nacionalizações de Louçã como o diabo no Credo.

O que o Bloco de Louçã deixa em herança é esta salgalhada vomitada após uma bebedeira de alucinogénios soviéticos em terceira mão comprados na Feira da Ladra.

Um caso de histeria colectiva

Basta ler os comentários que por todo o lado se fazem à notícia das recentes declarações da procuradora-geral adjunta Cândida Almeida para nos apercebermos bem de como está difundida em Portugal uma certa histeria paranóide em torno do tema da corrupção. A senhora disse afinal meia dúzia de coisas muito simples e claras, por vezes óbvias, mas a histeria epidémica impede até de ouvir o que ela diz, quanto mais tentar entendê-lo. E quem não alinhar nessa onda colectiva histérica é logo considerado suspeito ou chalado.

Quem não disser que Portugal é um país profundamente corrupto não é patriota!

 Para o cidadão médio, Portugal é um país corrupto e a grande maioria dos políticos e funcionários são corruptos, pelo facto de os media falarem quase diariamente de casos de alegada corrupção, geralmente não provada. Basta referir-se um caso, uma acusação, uma suspeita, fica logo provado não só esse caso como todos os outros. A simples distinção entre corrupção (peculato, suborno, extorsão, nepotismo, abuso de poder, etc.) e os chamados crimes económicos e financeiros (muito mais difundidos estes) devia ser ensinada desde a escola primária, tal a confusão que reina na cabeça das pessoas. As comparações internacionais também não interessam aos paranóicos nem os consolam, porque eles têm a certeza de que a corrupção é generalizada em Portugal, uma certeza baseada não em factos, mas em conjecturas e boatos, alimentados pela sanha política, pelo sectarismo e pelo bota-abaixismo.

 Primarismo e insanidade mental é o que caracteriza este fenómeno de massas, simultâneo e complementar da peste anti-política e da aversão aos políticos, que sempre foram as antecâmaras mentais da aceitação pública das ditaduras e dos autoritarismos de todas as cores. Aliás, para gente primária e paranóica, política = corrupção, consequentemente acabar com a corrupção é acabar com a política.

 Uma das consequências mais negativas desta histeria paranóide em torno do fenómeno da corrupção é que, com tanta gente a gritar ao lobo, as pessoas acabam por se desinteressar da real ameaça de corrupção e achá-la natural e inevitável. Os verdadeiros casos de corrupção atravessam incólumes por entre esta gritaria pública e, no fim, são relativizados e perdoados. Se a corrupção é supostamente “geral”, porque não se haveria de desculpar este ou aquele caso provado? “Eles são todos iguais” – diz a bacoqueira nacional.

O ping-pong de Loff e Ramos

 Sobre a polémica entre os historiadores Rui Ramos e Manuel Loff, que tem andado nos jornais e na blogosfera, por exemplo aqui  ou aqui , apetecia-me quase dizer que estão bons um para o outro. Não o digo, porém, porque sendo ambos cultores duma história ideologicamente orientada e politicamente militante, que não me agrada, é-me contudo mais antipática a obra do relativizador-edulcorador-amnistiador do salazarismo, Rui Ramos. Em vários livros, Ramos consegue ir mais longe do que os velhos historiadores monárquicos no denegrimento sistemático da I República, raiando frequentemente o delírio. A visão alucinada que Ramos tem da I República serve-lhe precisamente para adocicar a imagem da Ditadura Militar e do salazarismo que lhe sucederam. Não me parece duvidoso que Ramos obteria um prémio do SNI com a sua História de Portugal (na parte da sua autoria), se o saudoso organismo da propaganda salazarista tivesse durado até hoje, com alguma inevitável “renovação na continuidade” pelo caminho. De Loff conheço menos obra, é certo − apenas dois ou três capítulos de um seu antigo livro, além de entrevistas em que expõe a sua visão sobre o fascismo e o salazarismo. Não li O Nosso Século é Fascista!, nem desejo ardentemente lê-lo.

 São precisamente o conceito de fascismo e o qualificativo de fascista que mais têm andado às bolandas neste chato ping-pong entre Ramos e Loff. Na raiz do problema, para Ramos, parece estar a facilidade com que em Loff salta o qualificativo de fascista; em compensação, o que enfurece Loff é o rebuscado branqueamento do salazarismo que o Ramos faz na sua história do Estado Novo. Se calhar têm ambos razão, o que sói acontecer nestes casos.

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União a três oficializada

Duas mulheres e um homem que viviam juntos na mesma casa há três anos formalizaram a sua união civil num cartório do estado de São Paulo, no Brasil – lê-se aqui.

A notária defendeu o direito a reconhecer as três pessoas como uma família, mas a advogada Regina Beatriz Silva, presidente da Comissão dos Direitos da Família Brasileira, disse à BBC que a decisão é “um absurdo e totalmente ilegal”. E adiantou: “Isto é algo completamente inaceitável que vai contra os valores morais brasileiros”.

Então e a Santíssima Trindade?

 

Branco é, galinha o põe

O bispo de Angra deu directrizes de voto aos católicos:

O bispo de Angra, D. António de Sousa Braga, divulgou uma nota pastoral onde destaca a importância do voto, apelando aos católicos que votem “segundo os princípios da doutrina social da Igreja” nas eleições regionais de Outubro nos Açores. […] D. António de Sousa Braga salienta que “não há partidos de Igreja ou da Igreja”, mas refere que “o Magistério assinala critérios e directrizes para cada um votar, em consciência, segundo os princípios da doutrina social da Igreja”. […] A promoção dos direitos humanos e a defesa e proteção da instituição familiar, “fundada na complementaridade homem-mulher”, assim como o “respeito incondicional pela vida humana em todas as suas etapas e a proteção dos mais débeis” são alguns dos critérios que os eleitores cristãos devem ter em consideração.

(Açoriano Oriental, 29 de Agosto de 2012).

Os católicos açorianos devem pois votar nos partidos que defendem a família fundada na complementaridade homem-mulher e que condenam a interrupção voluntária da gravidez. Ou seja, os católicos açorianos devem votar nos partidos da direita.

Os bispos do Continente costumam dizer algo muito semelhante, pelo mesmo modo sinuoso e divinatório.

Mas porque será que a Igreja Católica se põe sempre com estas fosquinhas, com estes ademanes, com estas adivinhas de cacaracá, e não diz abertamente aos católicos para votarem na direita?

Demissão, já!

Mais um episódio da escabrosa saga da avaliação das fundações pelo governo Coelho/Relvas. A pontuação marada que pôs a fundação de Paula Rego (tal como a Gulbenkian) muito abaixo da fundação mafiosa de Alberto João, afinal é resultante de um erro crasso de contas! De contas de somar, valha-nos a senhora de Fátima! Deram-lhe 40 pontos, mas pelos seus próprios critérios, aliás muito discutíveis, deveriam ter dado 55. A filha da pintora denunciou-o hoje aqui.

É o descrédito completo e definitivo da operação fundações. Demitam-se já os idiotas e cabotinos do governo responsáveis por semelhante desconchavo!

Qual destas duas notícias foi hoje publicada?

A. O ministro da Solidariedade e Segurança Social garantiu ontem que os benefícios atribuídos aos elementos de um gang violento – nomeadamente o Rendimento Social de Inserção (RSI) – vão ser suspensos. Seis dos oito elementos do grupo – suspeito de 54 assaltos, de Norte a Sul do País, à mão armada, só este ano – ficaram em prisão preventiva. Um saiu em liberdade, com apresentações, e outro nem foi presente a tribunal por ter apenas 15 anos e não poder ser julgado criminalmente. O grupo, recorde-se, roubou mais de 500 mil euros, mas todos continuavam a beneficiar do RSI.

B. O ministro das Finanças garantiu ontem que os benefícios fiscais até agora atribuídos aos elementos de uma rede de fraude e evasão fiscal, facturas falsas e branqueamento de capitais vão ser suspensos e exigido o pagamento dos impostos devidos e a devolução dos benefícios ilegalmente auferidos no passado. Um dos oito elementos do grupo – suspeito de 54 crimes económicos e financeiros – ficou em prisão preventiva. Seis saíram em liberdade, com apresentações, e outro nem foi presente a tribunal por ter imunidade diplomática. O grupo, recorde-se, apropriou-se indevidamente de mais de 50 milhões euros, mas todos continuavam a beneficiar de benefícios fiscais.

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Para uma Constituição laranja

“Às vezes gostava que a Constituição fosse outra e não perdi a esperança” (Coelho no Aquashow).

Que tal esta:

Art.º 1.º
O crescimento da economia é obrigatório e começa impreterivelmente em 2013, logo a seguir ao champanhe do réveillon.
a) Serão dadas ordens terminantes para que a economia europeia e mundial reanime a tempo das próximas eleições legislativas.
b) Se as ordens previstas na alínea precedente não forem acatadas pela economia mundial, a frota nacional de submarinos entrará em acção.
c) O combustível dos submarinos acima mencionados será pago por uma nova taxa sobre os vencimentos dos funcionários públicos.

Art.º 2.º
As crises financeiras internacionais são expressamente proibidas em território nacional e punidas como crime de lesa-pátria.
a) Enquanto não se conseguir a sua extinção definitiva, as crises financeiras internacionais serão atribuídas à péssima gestão do governo anterior.

Art.º 3.º
O controlo do défice público faz-se roubando os subsídios dos trabalhadores e reformados do Estado.
a) O produto do roubo será colocado a render em paraísos ficais, aproveitando o know-how dos banqueiros laranja.
b) O rating da dívida pública portuguesa será substituído por um rating dos discursos do primeiro ministro.

Art.º 4.º
Esta Constituição substitui a de 1976.
a) Se os objectivos patrióticos fixados neste articulado não surtirem o efeito desejado, reactivar-se-á a Constituição de 1933, com leves actualizações.

Um passo em frente

«Há um ano o país estava à beira do estampanço e hoje está-se a discutir a melhor forma de criar condições para desenvolver Portugal», disse hoje Aguiar-Branco.

Faz-me lembrar aquela tirada de um político brasileiro: «O país estava à beira do abismo. Connosco, deu um passo em frente».

O Produto Interno Bruto de Portugal diminuiu 3,3% no segundo trimestre de 2012 relativamente ao mesmo período do ano anterior. A taxa de desemprego portuguesa atingiu os 15 por cento da população activa no segundo trimestre de 2012, o nível mais alto de sempre.

Sim, mas «hoje está-se a discutir a melhor forma de criar condições para desenvolver Portugal». Faz muita diferença! Quando se está a cair no abismo, não há nada melhor do que uma bela discussão.

Privilégios da Igreja

As fundações católicas – não as religiosas, mas as católicas – foram excluídas da avaliação ordenada pelo governo. Todavia, ao abrigo da lei n.º 1 de 2012, o censo abrangeria TODAS as fundações nacionais ou estrangeiras que actuam em Portugal, “com vista a avaliar o respectivo custo/benefício e viabilidade financeira e decidir sobre a sua manutenção ou extinção, sobre a continuação, redução ou cessação dos apoios financeiros concedidos, bem como sobre a manutenção ou cancelamento do estatuto de utilidade pública” (art.º 1.º). O governo interpretou a lei à sua maneira, declarando que as fundações católicas não eram abrangidas pelo censo.

As fundações católicas gozam em Portugal de um estatuto privilegiado em relação a todas as outras fundações públicas ou privadas, incluindo as de outras religiões, pois só a Igreja católica decide sobre a sua criação e extinção e aprova soberanamente os seus estatutos. Quando uma fundação católica faz o seu registo no Instituto Nacional de Registos, não há mais nenhum procedimento de reconhecimento a cumprir. A Concordata de 1940 garante que a personalidade jurídica da fundação católica é automaticamente reconhecida pelo Estado. Isto não quer obviamente dizer que as fundações não tenham de actuar de acordo com o direito português.

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Fundação Casamento Perfeito

A Fundação PortoGaia, também conhecida por Fundação Meneses-Pintinho ou Fundação Casamento Perfeito, foi criada pelo edil de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Meneses, como um trampolim para a conquista da Câmara Municipal do Porto, hoje ainda dominada pelo seu rival no seio da laranja, Rui Rio.

Através da Fundação PortoGaia e com dinheiro do Orçamento de Estado, foi pago o Centro de Estágio do Futebol Clube do Porto, agremiação desportiva que nem sequer é do concelho de Vila Nova de Gaia. O Centro de Estágio do Futebol Clube do Porto, como todos os dias é referido na comunicação social, e que inclui o Estádio Luís Filipe Meneses, foi pago pelo Estado central e é administrado pela proprietária, a Câmara de Vila Nova de Gaia, mas chama-se oficialmente “Centro de Formação Desportiva de Olival-Crestuma”. Os valores recebidos do Estado pela Fundação PortoGaia em 2008-2010 totalizam 4,2 milhões (e de 2002 a 2008?), mas o valor do património em 2010 é só de 2,2 milhões. Não faço ideia de quanto o FCP paga à Câmara pela utilização do seu Centro de Estágio, nem o inquérito às fundações o revela. O relatório do governo acredita que o Centro de Estágio tem 156.185 “utentes ou beneficiários ou destinatários”, número que deve ser a população do concelho de Vila Nova de Gaia menos os bebés de tenra idade, os acamados e os que já morreram, acrescidos dos 85 jogadores de futebol do FCP.

Na lista ontem divulgada de algumas fundações que estão ameaçadas de dissolução pelo governo, não figura a Fundação PortoGaia. Parece que os inquiridores não encontraram quaisquer ligações da Fundação a José Sócrates, Mário Soares ou Maria Barroso.

Paula Rego prá rua!

O governo quer acabar com a Fundação Paula Rego em Cascais, dizem hoje os jornais. Ora aí está uma medida que se impunha. De facto, para que serve aquela coisada, que sugou ao Estado 1 milhão em três anos? Uma maluca anónima qualquer chamada Paula Rego, que deve ser de esquerda, se não mesmo socialista, doou à Fundação umas bonecadas mal pintadas que estão expostas na “Casa das Histórias” (raio de nome) e decerto ninguém vai visitar. Por isso é que a Fundação digitalizou as obras dela e as quer expor online, para nos obrigar a conhecê-las. Só à força, realmente! Não haverá por aí artistas melhores, jovens talentos a despontar que nas suas obras retratem o imparável desenvolvimento do país desde que Passos chegou ao leme?

Excelente é a Fundação Social Democrata da Madeira, instituída por benfeitores anónimos (ocultar a mão que dá é uma alta virtude moral) e cujo património aumentou de 50 mil euros em 1992 para 13 milhões hoje em dia. Não recebe nem nunca recebeu um tostão de apoios públicos (tirando a isenção de IMI relativa a um património de 3,8 milhões de euros) porque não precisa. O seu presidente é o honesto Alberto João, que não deve nada a ninguém. A sede da fundação foi quase de borla, por ser para ele. A FSDM em 2007 deu cabazes alimentares a carenciados e em 2010 atribuiu dezenas de bolsas de estudo que só ainda não foram pagas aos estudantes beneficiados porque a filantrópica instituição tinha de momento outras prioridades, como a aquisição da Herdade do Chão de Lagoa onde se realizam as festas de Alberto João. O dinamismo da fundação revela-se bem na cooperação contabilística que mantém com uma empresa sediada no mesmo local da Fundação, a Sermaquipa SA, que esse aldrabão do José Manuel Coelho diz que se destina a facturação paralela e financiamento de campanhas eleitorais, bem como a lavar dinheiro e a receber donativos dos emigrantes e das empresas de construção, nomeadamente através dos off-shores. É tudo mentira. A Fundação só quer é criar um museu na casa onde Alberto João nasceu e viveu até aos 30 anos, para ali se recriar o ambiente em que decorreu a infância e juventude daquele que é o querido líder desde 1978 e para ali ficar exposta toda a grande colecção de magníficas medalhas comemorativas, quer nacionais, quer estrangeiras, que lhe foram sendo oferecidas durante mais de trinta anos de sacrifício pessoal pelo bem da sua pátria.

Aceitam-se sugestões

A cobertura pelos media do julgamento do grupo de rock Pussy Riot em Moscovo tem-me dado que pensar. No noticiário em inglês, a causa das raparigas é notoriamente prejudicada pelo nome da banda. A seriedade da sua luta em prol da democracia vai pelo cano abaixo quando o nome da banda aparece em jogo. As agências noticiosas anglófonas, geralmente hostis a Putin e simpáticas para com o grupo rockeiro feminista, redobram de cuidados quando têm de redigir qualquer frase sobre as Pussy Riot que não tenha duplos sentidos ou ressonâncias esquisitas.

Após busca na net, constato que fora do espaço anglófono é raríssimo traduzir-se a expressão Pussy Riot. Com muito trabalho, descubro um site brasileiro onde corajosamente se traduz por Motim das Bucetas. Eu preferiria Revolta das Conas, mas não sei se isto soa muito bem em português. Alguém sugere melhor?

Mais um génio das finanças

Se querem ter um álbum de fotografias artísticas emolduráveis dos 25 mais ricos de Portugal, não se esqueçam de comprar a Exame de Agosto, que o tio Balsemão quase vos oferece pelo preço de meia dúzia de bicas. Como brinde terão, entre outras coisas, uma entrevista com Pedro Trigo Pereira, sizudo professor de Finanças Públicas, que explica a sua já conhecida tese de que a dívida pública portuguesa é o resultado do défice democrático em que vivemos… desde 1974! Abdicando de outros € 3.15, podem também adquirir, da pena do mesmo génio, o último livrinho editado pela Fundação Pingo Doce (cotada pelo governo 5 pontos acima da Gulbenkian), obra intitulada precisamente Dívida Pública e Défice Democrático. Caso os tostões lhes façam falta, podem ver na net a apresentação do livro em causa pelo seu autor. É grátis e o ganho é o mesmo, se não for maior. A cassette debitada por Trigo Pereira pouco varia, mas há coisas curiosas que saltam boca fora ao improviso de uma apresentação oral. Por exemplo esta tirada, proferida com ar soturno de quem te avisa, a rematar a conversa no lançamento do seu livro: “Os partidos políticos têm que mudar e, se não mudarem, se calhar tem que surgir alguma coisa que os faça mudar.” Heil!

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