Todos os artigos de Júlio

Parece que Salazar dava na veia

Foi há dias lançado o livro A Queda de Salazar, de José Pedro Castanheira e mais dois jornalistas. O lançamento foi na residência oficial do primeiro-ministro, em S. Bento, a antiga casa do Botas, que agora de vez em quando se abre ao público. Casa à cunha, para ouvir, entre outras, uma singular revelação: Salazar injectou-se durante mais de vinte anos com uma droga, havendo motivos fortes para pensar que era um opiáceo fabricado na Alemanha chamado Eucodal. Diz-se que era a droga preferida do Hitler. Era tipo morfina, mas “melhor”: dava euforia, bem-estar, autoestima e era “altamente viciante”. A princípio era comprada cá, depois vinha secretamente de Paris, enviada pelo embaixador. Nos anos 1960, já mais dependente, Salazar injectava-se dia sim dia não. No total, entre 1944 e 1968, Salazar injectou-se 1211 vezes, contadas nas agendas em que anotava tudo.

O opositor secreto de Passos Coelho

Quem acreditar nas memórias de Cavaco, fica agora a saber que ele se terá oposto às políticas do governo de Passos Coelho – a descida da TSU, os cortes dos vencimentos e o roubo dos 13º e 14º meses dos funcionários públicos (salvaguardando, porém, os rendimentos do capital), a forma como a política de austeridade foi aplicada pelo governo (sem equidade nem justiça social), a estratégia de comunicação do governo no anúncio dessa política de austeridade (quase parecendo “ter prazer em anunciar medidas negativas”), a extinção dos governos civis, a “falta de coragem para enfrentar as clientelas do PSD e do CDS” (que terá servido de pretexto à extinção dos governos civis), etc., etc.

Terá Cavaco afinal militado secretamente na oposição?

Mas porque não usou ele a sua voz para criticar as políticas daquele governo de que diz ter discordado – já não digo do mesmo modo como torpedeou sonoramente o governo de Sócrates, mas ao menos com uns puxõezinhos de orelhas amistosos? No seu silêncio público, Cavaco foi inteiramente cúmplice do governo de Passos Coelho, que agora diz ter criticado e admoestado nos bastidores. Compreende-se que queira reescrever a história, mas é preciso ter muita lata!

Neste novo volume das suas memórias, Cavaco critica também Passos Coelho pela sua “inexperiência governativa” e ignorância em matéria macroeconómica. Critica Paulo Portas pelos seus humores irresponsáveis. Diz ter ficado espantado com a nomeação de Relvas como ministro-adjunto, pelo que não ficou muito surpreendido quando ele teve de sair (vergonhosamente) do governo. Revela que Passos Coelho e Paulo Portas atiravam um para o outro a batata quente de nomear um ministro das Finanças para suceder a Vítor Gaspar. E adianta, em primeira mão, que Passos Coelho ameaçou demitir-se três vezes!

Não está mal, não senhor! Ao lado da sólida “geringonça”, o governo de Passos Coelho mais parece ter sido uma caranguejola ferrugenta sempre a cair em pane.

Cavaco diz ter declarado a Passos Coelho e Portas, após o episódio da demissão irrevogável: “No futuro, serei menos condescendente em relação a desentendimentos no seio da coligação que ponham em causa a estabilidade política.” Ai que medo! Certamente cortava-lhes a semanada e proibia-lhes as idas à discoteca.

Podemos perguntar-nos porque relata Cavaco estes desaires, erros e insucessos do governo que ele apoiou publicamente até ao fim – e que quis mesmo reeditar em Outubro de 2015, sabendo de antemão da falta de apoio no novo parlamento. Uma explicação plausível para estas confissões é que, perante o êxito ulterior da “geringonça”, de que ele desconfiava mortalmente e que chegou a pensar em evitar mediante um governo de iniciativa presidencial, Cavaco prefere agora apontar os erros Passos Coelho e Portas a ter, logicamente, de reconhecer o bom desempenho de António Costa. A mensagem que quer passar é esta: se a geringonça da esquerda triunfou, não foi por mérito próprio, foi por culpa da caranguejola da direita… Ele bem avisou Passos e Portas, mas não foi ouvido! Espera-se ansiosamente a reacção dos visados.

Entretanto, Marcelo garantiu hoje que jamais comentará as memórias de Cavaco. Perde, assim, uma excelente oportunidade para dar um show e divertir o país.

Uma questão de pilas

João Ribas, o director do Museu de Serralves que se demitiu por alegada censura à exposição de Mapplethorpe, foi ontem ouvido pelos deputados da nação na comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República. A magna questão que mobilizou este órgão de soberania durante várias horas era a de saber se várias fotografias com pilas, presumivelmente erectas ou enfiadamente explícitas, tinham ou não sido retiradas ou desviadas da dita exposição, e por quem. Uma das pilas em causa seria talvez esta, mas não há a certeza, porque Ribas não acompanhou as suas declarações com imagens das peças alegadamente censuradas, talvez para não ferir a sensibilidade dos deputados menores de idade. Estaremos perante um novo e gravíssimo caso de (auto)censura?

Ribas evidenciou nesta história sumamente ridícula a sua enorme presunção e o seu evidente autoritarismo. O director do museu era ele, o curador da exposição era também ele, por isso ninguém mais tinha de meter a pila, perdão, o bedelho na arrumação das peças nas salas de Serralves. Ribas é que sabe o que pode e deve ser exposto, e como, num museu público visitado por gente de todas as idades, porque viveu muitos anos nos states e até comissariou exposições em galerias de Nova Iorque. Além do mais, Ribas é capaz de falar durante horas sem dizer rigorosamente peva. Veja-se como o gajo debita este charabiá pretensioso e intragável numa simples entrevista. Leia-se, entre outras, a resposta hiperconfusa à singela pergunta “Como é que a política se insinua no mundo da arte, hoje em dia, e vice-versa?”

Ofendido com a administração da Fundação de Serralves sabe-se lá por que insondáveis razões, Ribas optou visivelmente por tentar juntar ao seu currículo a glória de se ter demitido em protesto contra uma “censura” ao sagrado Mapplethorpe. Quando se souber disto nos states, o seu prestígio pessoal vai crescer e florescer, espera ele. Sejam quais forem as conclusões da ociosa comissão parlamentar de Cultura da Assembleia da República, o Ribas vai explorar a imagem (falsa) de defensor da liberdade e de S. Mapplethorpe até ao fim dos seus dias. Que o ature quem puder e gostar.

“Austeridade dissimulada”

Desde o 25 de Abril, nunca a direita conseguiu apresentar orçamentos tão equilibrados como os de 2018 e 2019, apesar de alguns governos de direita até terem podido contar com melhores conjunturas económicas e maior crescimento do que os actuais.

Contudo, faça o governo socialista o que fizer em matéria de finanças, os tenores da direita e, às vezes, do PCP e do Bloco, arranjam sempre uma acusação. Se o governo abrir os cordões à bolsa, concedendo aumentos de salários e pensões, é “despesismo”, uma cedência irresponsável aos aliados de esquerda. Se isso acontecer a menos de um ano de eleições, é também “eleitoralismo”, rumo ao aumento da dívida e à bancarrota.

Se o governo persistir no equilíbrio orçamental, concedendo alguns aumentos, investindo em infraestruturas sociais, diminuindo a dívida pública e apostando no zero de déficit em 2019, pela primeira vez em 45 anos, então a direita berra que é “austeridade dissimulada” – como hoje voltou a dizer um pateta qualquer do CDS. Têm mesmo que acrescentar o adjectivo, porque austeridade descarada e ruinosa foi a deles e toda a gente que a sofreu a conhece.

Ora os déficits orçamentais e a dívida não aumentam só por via da despesa pública. Podem aumentar se a receita diminuir. O que a direita agora reivindica para 2019 é que se baixem os impostos sobre os rendimentos e sobre os combustíveis. Como a direita diz que é pelo equilíbrio orçamental, embora nunca o tenha conseguido, concluiu-se que a satisfação das reivindicações actuais da direita se deveria fazer à custa dos aumentos dos vencimentos e pensões, à custa dos investimentos na saúde, educação e transportes, etc. Não o dizem assim claramente, porque seria impopular, mas é exactamente isso o que dissimuladamente querem – a menos que dissimuladamente desejem a continuidade dos déficits e o aumento da dívida, o que também nunca dirão.

Quem são os dissimulados, afinal?

Toma lá e embrulha

Cavaco – Sou levado a pensar que esta decisão política de não recondução de Joana Marques Vidal é talvez a mais estranha tomada no mandato do governo que geralmente é reconhecido como geringonça.

Marcelo – O presidente Cavaco Silva, no fundo, disse que era a mais estranha decisão do meu mandato. Todos sabemos que quem nomeia as procuradoras-gerais da República são os presidentes, não são os governos. Portanto, a nomeação da procuradora-geral da República foi minha e de mais ninguém. Perante isso, tenho sempre o mesmo comportamento: entendo que, desde que exerço estas funções, não devo comentar nem ex-presidentes, nem amanhã, quando o deixar de o ser, futuros presidentes, por uma questão de cortesia e de sentido de Estado, e não me vou afastar dessa orientação.

Registe-se e arquive-se.

Mistérios de Tancos

O caso de Tancos, pelo que se vai sabendo, tem bastantes ingredientes do clássico conflito entre polícias civis e militares. A tropa não gosta da justiça civil e considera-a intrometida em matérias reguladas pelo Código de Justiça Militar; a polícia civil e os órgãos que a tutelam desconfiam da corporação militar, imaginando que ela cerra fileiras para proteger os seus ou para ficar impune. Em consequência, civis e militares não passam informações uns aos outros e até se pregam partidas.

No caso vertente, o DCIAP tinha sido informado pela PJ, “vários meses antes” do roubo de Tancos, de que “estava a ser preparado um assalto a instalações militares no distrito de Leiria”, mas não só o DCIAP e a PJ não comunicaram esse facto às Forças Armadas e à PJM como parece que até o tentaram ocultar destas, segundo afirmou um antigo subdirector da PJM, o coronel Vítor Gil Prata, no site Operacional em 12 de Novembro de 2017, hoje citado no Público online, mas não no jornal de papel. Trata-se de uma acusação gravíssima, embora pouca atenção tenha despertado entre os fãs políticos do Ministério Público e da santa Joana Vidal.

A PJM, por seu turno, depois da casa roubada, decidiu fazer as coisas à sua maneira, sem passar cartão à PJ. As armas roubadas acabaram por aparecer graças à PJM, mas não o ladrão, que obviamente não actuou sozinho. A PJ e o DCIAP deitaram agora a mão ao ladrão e parecem ter concluído que houve conluio dos militares com o ladrão para este entregar as armas e escapar à justiça. Vai daí, a PJ e o DCIAP prenderam o director da PJM e outros militares, lançando sobre a instituição uma nuvem de suspeitas graves, ainda não bem especificadas. Falta apurar exactamente o que é que a PJM fez para recuperar o armamento, se agiu de modo legal ou ilegal e porque é que o ladrão só agora foi preso, quando há muito que era conhecido da PJM… se não também da PJ e do DCIAP.

Entretanto, o MP/DCIAP deveria ter respondido, mas não respondeu à gravíssima acusação feita por Vítor Gil Prata em Novembro de 2017. Ora, se detiveram o director da PJM, não seria também caso para mandar prender algum alto responsável do Ministério Público, sob suspeita de ter deliberadamente ocultado dos militares informações sobre o assalto iminente a uma unidade militar? Não seria mesmo caso para a procuradora-geral da República ser ouvida? Não haverá, aliás, no caso de Tancos também o habitual dedinho conspirativo do MP? Nada me admiraria!

Como é que os referidos conflitos entre civis e militares se resolvem ou previnem? Aqui têm certamente de entrar o governo e o parlamento, legislando para impor colaboração entre a justiça militar e a justiça civil. Uma solução, a fusão da PJM na PJ, foi avançada há anos por um ministro da Justiça, António Costa. Não sei se a solução era boa, mas a sua proposta foi, como é hábito, ignorada e nada mais se fez.

Para além do clássico conflito entre polícias civis e militares, no caso de Tancos meteu-se também a política, por obra da oposição de direita e da sua obsessão patológica de politizar a justiça e judicializar a política, apontando em tudo o que vai acontecendo a culpa criminosa do governo. Nunca souberam bem explicar porquê, mas logo após a notícia do roubo de Tancos os habituais vocalistas da direita começaram a exigir a cabeça do ministro da Defesa (Rui Rio é quase única excepção nesse coro). Também querem a demissão do chefe de Estado Maior do Exército, o que significa que a direita quer tomar partido no referido conflito corporativo, a saber, pelos polícias civis contra os militares – o que é mais uma imbecilidade épica desta direita desnorteada.

Sócrates e o PS

José Sócrates declarou que o PS “foi cúmplice de todos os abusos” que sofreu por parte da justiça. Não deu mais esclarecimentos sobre a cumplicidade dos socialistas. Ora ser cúmplice significa, no caso em apreço, participar moral ou materialmente em delitos ou abusos criminosos. A acusação é grave, mas, pelo seu carácter genérico e aparentemente emocional, não parece ter outra consequência, senão a de involuntariamente contribuir para ilibar o PS de António Costa de qualquer possível acusação de intromissão na justiça a favor de Sócrates – acusação que estava obviamente implícita na histérica encenação produzida pela direita em torno da sucessão de Joana Vidal.

Algumas perguntas me ocorrem, porém.

– Será que Sócrates exige que o PS, António Costa ou o governo interfiram no processo judicial, advogando a sua causa, censurando a actuação do MP e dando assim a imagem de um partido, um primeiro-ministro e um governo que não se conformam com a independência do poder judicial?

– Será que o político experimentado José Sócrates ignora que é essa a ratoeira que o bando que congeminou a Operação Marquês estende agora a António Costa, ao PS e ao actual governo?

– Será que Sócrates ignora que o dito bando espera impacientemente que lhe seja oferecido o mínimo pretexto para tentar envolver António Costa e os dirigentes e governantes socialistas na Operação Marquês, salpicá-los de suspeitas de conivência e corrupção, fazer deles coacusados, colocá-los sob vigilância pidesca, etc.?

Não parto do pressuposto de que Sócrates se deva deixar imolar em benefício da causa socialista ou do governo. Desejo que ele prove em tribunal a sua inocência, denunciando todas as tramóias que a Operação Marquês, a nova PIDE e a comunicação social de direita lhe armaram. Nesse combate pessoal, mas em que não está inteiramente só, José Sócrates deveria estar ciente de que a pior ajuda que poderia ter neste momento seria precisamente qualquer tipo de “apoio” do governo de António Costa ou do PS.

As bobices do Tavares

No artigo que o Val cita abaixo, J. M. Tavares diz que anseia pelo liberalismo para Portugal. Define o liberalismo apenas negativamente, ou seja, como um regime “que não esteja dependente de um Vieira da Silva a redistribuir com a mão direita aquilo que Mário Centeno tira com a mão esquerda”.

Tanto quanto se pode presumir, Tavares defenderá, pois, um liberalismo oitocentista à Herbert Spencer, muito anterior ao advento do Estado social ou Welfare state que hoje impera consensualmente por toda a Europa. O também dito Estado de bem-estar social não é propriamente de esquerda, limitando-se a redistribuir uma parte maior ou menor do rendimento nacional através de políticas que a actual civilização europeia considera assegurarem um nível mínimo de coesão, solidariedade e justiça social. O liberalismo que Tavares presumivelmente defende foi condenado nos séculos passados não só pelos vários socialismos, comunismos e fascismos, mas igualmente pela social-democracia, pela democracia cristã, pela Igreja católica e até pelo Partido Liberal inglês, que introduziu em Inglaterra a segurança social inventada pela Alemanha do Bismarck, que também não era um perigoso esquerdista.

Julgo, porém, que Tavares não defende realmente o liberalismo selvagem do séc. XIX, universalmente condenado por todos os quadrantes políticos. Acho isso por uma razão simples: é que Tavares geralmente não defende porra nenhuma nem tem qualquer ideia doutrinária consistente sobre coisíssima nenhuma. Ele é tão somente um malabarista da palavra, apostado em construir frases, slogans e fórmulas atraentes, utilizáveis no combate político da direita contra o actual governo e contra a esquerda em geral.

Desde que Tavares conheceu Ricardo Araújo Pereira, a sua retórica caceteira tem vindo a deslizar para um plano cada vez mais circense, sem deixar de ser agressiva. Tanto no Governo Sombra como no Público, ele procura dizer em fórmulas pretensamente jocosas aquilo que uma parte da direita pensa ou deseja profundamente, mas nem sempre ousa exprimir.  É o que sempre fizeram os bobos. Independentemente da dose de mentiras e calúnias que Tavares inocule nas suas intervenções faladas ou escritas, ele é sobretudo um bobo. Não digo que um personagem que a comunicação social tanto tem promovido não deva ser levado a sério. Digo apenas que o nível dos seus comentários é o da bobice. Não tem pano para mais.

Sondagem atirada às urtigas

A Aximage realizou para o Correio da Manhã e o Jornal de Negócios uma sondagem sobre as intenções de voto neste momento. Os resultados aí estão, comparados com os da anterior sondagem, em Julho.

Os números aparecem no Diário de Notícias online e dizem que o PS subiu desde Julho 0,9 pontos percentuais para 39,9%, o PSD baixou 3,1 para 24,1%, o Bloco baixou 1,7 para 7,8%, o PCP subiu 0,1 para 7,1% e o CDS subiu 1,8 para 9,2%.

Ou seja, Costa reforça uma maioria confortável, Rui Rio vê o PSD a cair fortemente, o Bloco sofre o efeito Robles e Cristas sobe consideravelmente, mas capitalizando apenas parte da perda do PSD.

É inútil procurar esta notícia no Correio da Manhã online. Não gostaram da sondagem que encomendaram, não a divulgam!

Como se vai chamar o partido do Santana?

É cómico ler agora, quando Santana está decidido a tentar uma cisão no PSD, o que o Expresso disse dele após o congresso de fevereiro de 2018, há só uns mesitos: Santana o grande conciliador.

Se o novo partido não vai ser um aborto, Santana terá de lhe dar um nome. Do que ele gostaria era de Partido Popular Democrático (PPD), mas a sigla já está tomada pelo PSD, que oficialmente está registado como Partido Social Democrata (PPD/PSD). É chato, porque assim o Tribunal Constitucional chumbaria também um Partido Populista de Direita cuja sigla fosse PPD.

Se Santana não quiser entrar numa estéril guerra de siglas, terá de arranjar outra coisa. Em 1996 o mangas chegou a falar de um Partido Social Liberal, com a sigla PSL, que correspondia narcisisticamente às iniciais de Pedro Santana Lopes.

Aqui vão as minhas sugestões:

– Bloco Bolorento de Direita (BBD) – soa quase, quase como PPD!

– Partido Contra Rui Rio (PCRR)

– Partido Narcisista Santanista (PNS)

– Partido Sá Carneirista Requentado (PSCR)

Mais sugestões?

O que diz e o que faz Frei Tomás

Espero que agora, com a demissão de Ricardo Robles, os bloquistas deixem de fingir que condenam a economia de mercado, vulgo capitalismo.

Lembram aqueles católicos que condenam o pecado, mas o vão cometendo sempre e com proveito. Ao menos esses têm o confessor, que os absolve mediante simbólica penitência. Os bloquistas estão muito mais desprotegidos, coitados.

Um abutre chamado Zoé

Zoé Konstantopoulou, a fulana que há tempos era sócia de Tsipras e presidente do parlamento grego, passou depois a acusar o dito Tsipras de trair o célebre referendo de 2015. Nesse referendo, lembrar-se-ão, 61% dos votantes disseram não à austeridade. Perante tal vitória, Zoé esperava que o governo do Syriza declarasse a dívida grega “ilegal” e a anulasse. Em vez disso, Tsipras ignorou o resultado do referendo e pediu um terceiro resgate à troika, como muitos achavam que era previsível. Como era igualmente óbvio, o referendo não serviu para nada, excepto para rebentar com o Syriza ao retardador.

Numa entrevista dada hoje ao DN, o abutre Zoé responsabiliza histericamente o governo do Syriza pelos incêndios gregos, com argumentos semelhantes aos utilizados em 2017 pela direita em Portugal, e diz que vai processar o governo pelas 85 mortes verificadas. E também quer processar Tsipras por traição.

Além disso, Zoé denuncia o “regime totalitário” do traidor Tsipras e declara que é preciso “esmagar” os partidos políticos que destruíram a Grécia — isto é, todos os partidos, incluindo o Syriza, excepto o partideco que ela entretanto criou, que se chama Caminho para a Liberdade. Talvez Zoé  possa juntar os trapinhos com os nazis da Aurora Dourada, que pensam exactamente como ela sobre a dívida, a União Europeia, Merkel, Macron, etc.

Esta história da Zoé, que ainda não acabou, já é muito instrutiva. Aguardo impacientemente os próximos episódios.

Lágrimas de crocodilo argentino

Numa entrevista dada no domingo passado, Maradona, cada vez mais decadente, chorou lágrimas de crocodilo pelos jogadores de futebol africanos que, vítimas de supostas máfias, são “levados para a Europa para serem nacionalizados” e depois acabam a representar as selecções nacionais de França, Bélgica e Inglaterra – logo por acaso, três equipas que chegaram às meias-finais do Mundial, enquanto a Argentina ficou pelo caminho. Compreende-se a dor de cotovelo de Maradona, dado que a Argentina foi eliminada pela França, uma selecção europeia com uma maioria de jogadores de origem africana.

Meditando sobre isto, de repente dei-me conta que nunca vi nenhum negro ou mulato com a camisola da Albiceleste. Fui verificar e, de facto, em toda a América só a selecção de futebol da Argentina é 100% branca e sempre assim foi – excepto, parece, nos anos 70, quando tinha um guarda-redes suplente de origem africana.

Este chico-esperto do Maradona, que venceu a Inglaterra no Mundial de 1986 com um golo de cabeça marcado com a mão, deveria talvez explicar-nos por que razão a selecção argentina não tem nem nunca teve jogadores de origem africana. E, já agora, confessar-nos por que razão a população da Argentina, que no século XVIII chegou a contar 30-40% de negros, só tem hoje menos de meio por cento, mais exactamente, 0,37%. As razões não são bonitas, têm a ver com carne negra para canhão. Alguns falam mesmo de genocídio deliberado, por sinal cometido já após a libertação dos escravos. Portanto, mais valia que o Maradona calasse a trombeta e aprendesse a saber perder.

Uma voz do além

Ouviram-se repetidamente fortes pancadas vindas de um jazigo e o coveiro foi ver o que se passava. Levantou a tampa do caixão e reconheceu logo o dinossauro de Boliqueime, que ali se encontrava em merecido repouso desde 2015. Passava perto, perfeitamente por acaso, um repórter da Rádio Renascença, que logo aproveitou para entrevistar o paquiderme. Não é todos os dias que se pode entrevistar um dinossauro zombie. Este, pondo-se em bicos de pés dentro do esquife, fez então a seguinte declaração:

“Nas eleições legislativas de 2019 não votarei nos partidos que apoiarem a legalização da eutanásia e procurarei explicar àqueles que me são próximos para fazer a mesma coisa. Estando em causa a defesa do primado da vida humana, entendi que devia fazer uso das duas armas que me restam como cidadão: a minha voz, não ficando calado, e o meu direito de voto na escolha dos deputados nas próximas eleições legislativas.”

Dito isto, o dinossauro zombie deitou-se no caixão e, fazendo utilmente uso do seu direito de não ficar calado, disse para o coveiro:

– Volte a pôr a tampa.

O bando sinistro

A direita portuguesa vai perder as eleições de 2019, segundo as últimas sondagens continuam a dizer. O desespero e a raiva assomam já nos seus colunistas e porta-vozes. Tudo é de esperar dessa cambada raivosa, desde apelos indirectos aos incendiários até elogios à utilização da organização judicial para fins políticos.

Uma equipa sinistra, já muito experimentada, vai estar no terreno, mas não é para apagar incêndios. O seu objectivo é supostamente combater a corrupção, para suposta defesa da democracia. Na verdade, muito insatisfeita com uma democracia que dá vitórias à esquerda, pretende virar contra ela uma justiça politicamente enviesada, ou seja, corrupta. Depois de Sócrates, o seu alvo será agora António Costa, como é óbvio.

A equipa alinha assim (é só a ponta do iceberg):

Fernando Negrão – Foi director-geral da PJ entre 1995 e 1999, durante o governo de Guterres. Foi demitido pelo ministro socialista da Justiça, Vera Jardim, e acusado pela PGR de Cunha Rodrigues de violação do segredo de justiça no caso da Moderna (ainda se levava a sério o segredo de justiça). O STJ arquivou a coisa em 2001, por alegada falta de provas. Deputado do PSD desde 2002 até hoje. Breve ministro de Santana Lopes (2004-2005). Foi derrotado nas eleições para a câmara de Setúbal em 2005. Foi derrotado por António Costa nas eleições para a câmara de Lisboa em 2007. Brevíssimo ministro da Justiça do governo fantasma de Passos Coelho (Outubro-Novembro de 2015). Actual líder da bancada parlamentar do PSD (com apenas 35 votos dos 88 deputados), depois de ter perdido a eleição para presidente da Assembleia da República. É um frustradão calejado em derrotas, mas que, em compensação, adora puxar cordelinhos nos bastidores.

Jorge Rosário Teixeira – A sua carreira foi lançada por Fernando Negrão (ver acima), que o meteu na PJ para chefiar a Direção Central de Investigação e Combate à Criminalidade Económica e Financeira. Saiu da PJ em 1999, não se sabe porquê, quando Negrão foi demitido. Em 2004 caiu de para-quedas no DCIAP, na PGR. É o procurador que tem os processos mais importantes do DCIAP desde que para lá entrou. É o mago da Operação Marquês, de que a direita esperava o desaparecimento do PS da cena política e a recondução do governo de Passos Coelho. Propôs em 2014 ao juiz Carlos Alexandre a prisão de Sócrates para depois o investigar, como a PIDE fazia noutros tempos.

Carlos Alexandre – Juiz do Tribunal Central de Instrução Criminal desde 2004 e, durante muitos anos, o único. Trabalha desde 2004 com o procurador Rosário Teixeira, a quem faz todas as vontades, nomeadamente no processo Sócrates. Embora o juiz de instrução seja incumbido de fiscalizar o procurador nos processos que este conduz, Carlos Alexandre tem basicamente estado às ordens de Rosário Teixeira. É muito pio e participa nas procissões da sua terrinha. Já uma vez disse que a sua vocação era ter sido padre. Noutros tempos teria dado um eficaz juiz do tribunal da Santa Inquisição.

Joana Marques Vidal – Procuradora-geral proposta por Passos e nomeada por Cavaco em 2012, nem é preciso dizer mais nada. Filha de um antigo director-geral da PJ que se gabava de odiar a “classe política” (da democracia). Irmã de um célebre João, ex-chefe do DIAP de Aveiro, que pôs a circular o boato de que Sócrates tinha um fantástico plano para “controlar” os meios de comunicação social. É a responsável máxima de tudo o que a PGR fez e não fez desde 2012. P’ra inglês ver, mandou já duas vezes (2015 e 2018) investigar fugas de informação e violações do segredo de justiça no processo de Sócrates, mas nunca se apurou porra nenhuma. Em Julho de 2018 vai, felizmente, ser despejada da PGR, deixando muitas saudades à direita. O clã Marques Vidal vai, porém, continuar operacional através do mano João, que já é procurador-geral adjunto.

António Ventinhas – É presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, reeleito em Janeiro em lista única. Foi alvo de um inquérito mandado instaurar pelo Conselho Superior do Ministério Público (por 8 votos contra 5) por ter declarado a culpabilidade de Sócrates em 2016, antes mesmo de haver acusados no processo. Defendeu-se com o especioso argumento de que é sindicalista e ficou tudo em águas de bacalhau. Tem acusado o governo de António Costa e a ministra da Justiça de quererem “controlar” o MP para que este não possa investigar a corrupção. Afirmou recentemente estar contra o controlo hierárquico  do MP pela PGR, porque lhe cheira que o próximo procurador-geral não será de direita. Elogiou a Operação Marquês e a actuação de Rosário Teixeira e Joana Vidal nesse processo. É o palhacinho deste quinteto, com ventinhas a condizer.

Iliteracia histórica

As comemorações do 25 de Abril no parlamento vieram dar visibilidade mediática à estrela em ascensão na bancada do PSD e actual líder da JSD, Margarida Balseiro Lopes. No seu discurso, a jovem deputada disse que as conquistas da liberdade são de todos e exemplificou, referindo-se a dirigentes de todos os quadrantes políticos. Isso pareceu ser gentil e fez-lhe colher aplausos mesmo além das bancadas da direita. Falou também da corrupção, que definiu como a captura do Estado e do erário público por interesses privados, e da necessidade de a combater. A imprensa sublinhou ter sido a única voz a falar da corrupção no evento, como se isso tivesse algum significado ou importância.

Houve outras alusões no seu discurso que não mereceram destaque da comunicação social.  Uma delas foi a sua referência a duas revoluções, a de 1974 e a de 1975. Como quem diz: – Estamos aqui a comemorar a revolução de 1974, mas também houve a revolução de 1975, coitadinha dela, que não se comemora e, se calhar, é tão ou mais importante do que a outra. É uma variação suave do tema há muito glosado por gente da direita, que opõe o 25 de Novembro (a boa revolução) ao 25 de Abril (um golpe militar marxista).

Ora em Novembro de 1975 – duas décadas e tal antes de a deputada Balseiro Lopes nascer – não houve revolução nenhuma, mas apenas uma operação militar que fez abortar uma tentativa de insurreição de extrema esquerda e restabeleceu a ordem nos quartéis que não obedeciam à linha de comando nem aos órgãos de soberania, incluindo o VI governo provisório. Após essa operação militar, os órgãos de soberania mantiveram-se todos no seu lugar e a Assembleia Constituinte continuou o seu trabalho de elaboração da Constituição, que viria a ser aprovada em Abril de 1976. Em Novembro de 1975, o povo também não veio em massa para as ruas apoiar os militares, como fizera em Abril de 1974, mas a maioria do país, que entretanto já se expressara em eleições livres em Abril de 1975, suspirou de alívio por ter sido abafada uma tentativa revolucionária. Se se pode falar de revolução em Novembro de 1975, é dessa, a que foi abortada.

A história foi obviamente mal contada à deputada Balseiro Lopes, que também não deve saber o que é uma revolução. Os mestrados em direito e gestão não exigem que se saiba isso.

O Cerejo mostra como é

Como é que se transforma uma notícia sobre as irregularidades apuradas por uma inspecção à gestão de Santana Lopes na Santa Casa da Misericórdia numa notícia sobre a “demora” de Vieira da Silva em aprovar os resultados dessa inspecção? O Cerejo mostra como é que isso se faz no Público de hoje.

Na notícia praticamente só se fala de Vieira da Silva, incluindo no título, em que Santana está ausente. As irregularidades apuradas na gestão de Santana na Santa Casa são assunto meramente colateral. Só falta agora vir o Santana fazer coro com o Cerejo e denunciar o “encobrimento” de Vieira da Silva.

Se por acaso Vieira da Silva tivesse publicado o relatório da inspecção em fins de 2016 ou em 2017, logo as habituais carpideiras do Público e o próprio Santana viriam denunciar a manobra do governo para o “sanear” ou para o impedir de chegar à liderança do PSD. Vieira da Silva seria acusado de fazer um favor a Rui Rio e o blog do Zé Manel Fernandes falaria de uma conspiração do Bloco Central.

Alinháceos

Criei agora este neologismo para designar as aves da capoeira que desde ontem cacarejam freneticamente para que o governo português alinhe com os nossos aliados e expulse imediatamente diplomatas russos.

Paulo Rangel e Fernando Negrão são os primeiros a merecer o crisma de alinháceos. Para eles, alinhar com a histeria de Teresa May é um dever patriótico de todo o bom português. Pensar, reflectir, usar de prudência, ponderar os nossos interesses de país independente é antipatriótico e indigno. Alinhar é que é baril — nem que seja alinhar com o MI-6, o serviço de espionagem de sua majestade.

É caso para o PSD apresentar rapidamente uma proposta de lei para a alteração do hino nacional. Onde originalmente estava, pela pena de Henrique Lopes de Mendonça, contra os bretões, marchar, marchar, que depois a República oportunista amansou para contra os canhões, marchar, marchar, espera-se que o PSD de Rangel e Negrão proponha agora pelos bretões, alinhar, alinhar.

_______

P.S. 1: Não faço a mínima ideia se Putin mandou envenenar aquele agente duplo russo que foi parar ao hospital. Quanto ao governo de Teresa May, penso que das duas, uma: ou também não faz a mínima ideia quem foi, mas convém-lhe enormemente que tenha sido o Putin, ou sabe perfeitamente quem foi, mas nunca o confessará. Num caso como no outro, o lema de Rangel e Negrão de “alinhar com os nossos aliados” é imbecil. Que é que Portugal tem que ver com essas merdas de espiões ingleses e agentes duplos russos?

P.S. 2: Lembre-se que a mais recente invenção da direita inglesa contra o popular líder trabalhista Jeremy Corbyn foi acusá-lo de ter sido colaborador dos serviços secretos da Checoslováquia comunista. O jornal Independent publicou sobre isso há um mês uma reportagem hilariante, recordando a velha história de acusações falsas com que a imprensa de direita britânica (quase toda a imprensa britânica!) sempre tentou difamar os dirigentes trabalhistas insinuando a sua ligação ao Kremlin. Depois de Harold Wilson, também Michael Foot e Neil Kinnock foram alvo dessas acusações porcas, vindas de gente ligada aos serviços secretos britânicos e disseminadas pelos jornais do costume. Assim, não me custa nada imaginar que por detrás da actual histeria de Teresa May esteja simplesmente um plano cozinhado por ela e pelo MI-6 para atacar a popularidade de Corbyn. Desde as últimas eleições, os conservadores ingleses estão mesmo assustados com a perspectiva de uma próxima vitória trabalhista.

P.S. 3: E porque é que foram Rangel e Negrão a cacarejar pela cor laranja? Não há galo naquela capoeira?

Política de terra queimada

Há muito se percebeu que a direita demagógica e incendiária se prepara para jogar forte, se não tudo, na questão dos incêndios. Basta ler o Expresso de hoje, onde se declara solenemente que o “futuro do governo” (eleições de 2019) depende do “êxito ou fracasso na luta contra os fogos”.

Segundo esta visão irresponsável do problema dos incêndios, é tudo uma questão da eficácia da “luta” que este governo lhe der. Em vez da anterior visão dos fogos florestais como desastre de raiz ordenamental, climatérica e demográfica, tenta agora impor-se a tese imbecil de que, se em 2018 houver fogos, a culpa será deste governo. A direita desesperada encara a coisa como um maná político, pois parece que não tem mais nada por onde pegar.

Para já, vai preparando o terreno: todas as medidas que o governo toma são estimadas como insuficientes, atrasadas ou inadequadas (veja-se o Expresso de hoje). Depois dirá que tinha avisado. Assim, bastará haver fogos este ano para se “provar” que tinha razão.

Se, porém, houver poucos fogos em 2018, a marosca irá pelo cano abaixo. Resta à direita rezar para que haja mais incêndios ou, quiçá, dar uma ajudinha. Bora atear incêndios para deitar o governo abaixo?