Todos os artigos de Júlio

Receita eficaz

 

Há 28 anos, uma aldeia transmontana, Veiga do Lila, resistiu heroicamente à tentativa da Soporcel de substituir 200 hectares de olival por eucaliptos. Não queriam lá essa árvore que lhes sugava a água e trazia incêndios. A empresa de celulose, que utilizava fundos europeus, era apoiada pelo governo de Cavaco e pelo ministro da Agricultura, Álvaro Barreto, que antes e depois foi presidente da Soporcel. O governo enviou para o local soldados armados da GNR, que carregaram sobre a população e efectuaram prisões. Em vão: a população arrancou 180 hectares de eucaliptos já plantados e a Soporcel acabou por desistir.

Hoje aquela zona é terra de nogueiras, amendoeiras e oliveiras. E em 28 anos nem um incêndio houve.

Uma história exemplar, bem contada e bem ilustrada aqui.

 

Juízes trogloditas desculpam a moca

Os  juízes Neto de Moura e Maria Luísa Arantes, do Tribunal da Relação do Porto, chumbaram o recurso contra uma sentença do Tribunal de Felgueiras que punia apenas com pena suspensa dois criminosos que sequestraram e agrediram gravemente uma mulher na cabeça e no corpo  com uma moca de pregos. Quando da agressão, a vítima estava separada há quatro meses de um deles, o marido, a quem fora infiel, e tinha sido amante do outro durante um mês, após o que o tinha deixado também. Meses volvidos, e depois de repetidas ameaças de morte tanto por parte do marido como do ex-amante, os dois homens encontraram-se e resolveram em conjunto sequestrar a mulher e agredi-la com uma moca de pregos. O Tribunal de Felgueiras condenou os dois homens a prisão, mas com pena suspensa.

No acórdão que negou provimento ao recurso, os juízes da Relação do Porto escreveram nomeadamente o seguinte:

Este caso está longe de ter a gravidade com que, geralmente, se apresentam os casos de maus tratos no quadro da violência doméstica. Por outro lado, a conduta do arguido ocorreu num contexto de adultério praticado pela assistente. Ora, o adultério da mulher é um gravíssimo atentado à honra e dignidade do homem. Sociedades existem em que a mulher adúltera é alvo de lapidação até à morte. Na Bíblia, podemos ler que a mulher adúltera deve ser punida com a morte. Ainda não foi há muito tempo que a lei penal (Código Penal de 1886, artigo 372.º) punia com uma pena pouco mais que simbólica o homem que, achando sua mulher em adultério, nesse acto a matasse. Com estas referências pretende-se, apenas, acentuar que o adultério da mulher é uma conduta que a sociedade sempre condenou e condena fortemente (e são as mulheres honestas as primeiras a estigmatizar as adúlteras) e por isso vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído, vexado e humilhado pela mulher. Foi a deslealdade e a imoralidade sexual da assistente que fez o arguido X cair em profunda depressão e foi nesse estado depressivo e toldado pela revolta que praticou o acto de agressão, como bem se considerou na sentença recorrida.

(Pág. 19 do acórdão datado de 11 de Outubro de 2017, que se pode ler aqui).

Isto passa-se em Portugal, não no Irão ou na Arábia Saudita, onde também se considera o adultério da mulher muito mais grave do que o do homem e onde “a sociedade” também “vê com alguma compreensão a violência exercida pelo homem traído”. A alusão dos juízes trogloditas à Bíblia também é curiosa, pois aludem veladamente ao Antigo Testamento e não ao Novo, onde a conversa é totalmente diferente, como é sabido (João 8, 1-11). E que dizer das saudades que os juízes do Porto têm do Código Penal de 1886? Será que também têm saudades das lapidações?

 

 

Desmistificando

Quando as coisas correm bem, aparecem o PSD e o CDS e dizem que isso se deve a eles, quando as coisas correm mal, é culpa deste governo. Ora Assunção Cristas devia ser a última pessoa a apresentar uma moção de censura motivada pelos incêndios, pois foi ministra da Agricultura durante quatro anos no último governo e não se notabilizou por ter tomado quaisquer medidas eficazes nessa área, muito pelo contrário (Constança Cunha e Sá hoje, na TVI, às 21h 30).

 

Uns tiram, outros põem

Em 2015, a universidade jesuíta americana de Saint Louis retirou uma estátua que tinha no seu exterior, representando o grande jesuíta Pierre-Jean De Smet empunhando uma cruz junto a dois índios, e colocou-a no interior do seu museu. De Smet foi um amigo dos índios americanos, como se sabe. A estátua tinha sido considerada por várias entidades e pelos alunos da universidade, que são de todos os credos e não apenas católicos, como um alegado símbolo colonialista e supremacista branco. Os jesuítas cederam e tiraram-na da vista pública, apesar dos remoques de gente conservadora.

Em Julho de 2017, em Lisboa, o provedor da Santa Casa, Santana Lopes, com o apoio do presidente socialista da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, colocou no Largo Trindade Coelho uma estátua de outro grande jesuíta, António Vieira, empunhando uma cruz junto a três crianças índias. Vieira foi um amigo dos índios, como se sabe. Houve recentemente uma manifestação contra a estátua, por alegadamente glorificar o colonialismo e o “escravagismo selectivo”, e logo uma contramanifestação de nacionalistas de extrema-direita. Não houve porrada, mas podia ter havido.

A estátua da Universidade de Saint Louis antes de ser retirada.

 

Medina na inauguração da estátua de Vieira em Lisboa

 

Não gosto da estátua de Vieira, completamente ultrapassada esteticamente e espiritualmente, mas nunca me passaria pela cabeça que ela glorifique o racismo, o colonialismo ou o escravagismo. Menos gosto de quem teve a ideia de a lá colocar, Santana Lopes, nem do motivo por que o fez – autopromoção em vésperas de regresso à política. Menos ainda de quem foi lá fazer a tal contramanifestação. Em suma, não há nada nesta história nem neste monumento que me agrade, excepto que posso concordar teoricamente com uma homenagem da cidade de Lisboa a António Vieira, que foi um grande lisboeta, um grande português e um grande cidadão do mundo, também perseguido pela Inquisição e grande mestre da nossa língua. Quero pensar que foi esse o motivo do apoio de Medina, e não o pensamento nas eleições autárquicas de Outubro, mas muito provavelmente estou a ser ingénuo.

Culturalmente, Lisboa está, de facto, a anos-luz da América (apesar do Trump) e de Nova Iorque, onde em 2017 se inaugurou uma fantástica estátua no coração de Manhattan, a Rapariga sem Medo, desafiante do popular Touro Enraivecido que já lá estava. É uma moderna, inteligente e bonita homenagem à mulher americana. Aqui fica, como contraponto.

O cúmulo do descaramento

Na sua acusação do processo contra Sócrates, o Ministério Público tem o descaramento de fazer 34 referências a “informações” do Correio da Manhã, o cano de esgoto tipográfico que desde sempre julgámos ser o órgão de divulgação das “informações” provenientes do Ministério Público.

Perante isto, torna-se urgente apurar se o Correio da Manhã é realmente a cloaca do Ministério Público, como se pensava até agora, ou se afinal é o Ministério Público que é a esterqueira do Correio da Manhã.

 

O Expresso julgou, está julgado

“Salgado criou offshore só para pagar a Sócrates”, titula hoje em grandes parangonas o semanário de Balsemão, numa das quatro páginas dedicadas a emitir sentença sobre o antigo primeiro-ministro. Não sei se a lei prevê possibilidade de recurso desta sentença para a justiça…

Na última página do 1.º caderno, o cabalista Henrique Monteiro esfalfa-se a desmentir a tese da “cabala” da defesa de Sócrates. Monteiro é perito nisso. Para ele nunca há cabalas  – quando não gosta de quem as denuncia ou quando gosta de quem as engendra. Daí o histórico acto censório desse falso jornalista, a sua vergonhosa recusa em publicar, quando era director do mesmo Expresso, em Setembro de 2009, o email que provava flagrantemente a conspiração de Belém e do Público contra o dito primeiro-ministro Sócrates. Na altura, Monteiro não gostou da cara política de quem lhe fez chegar o email, por isso recusou publicá-lo. Hoje titula assim a sua coluna no Expresso: “A cabala dada olhe-se o dente”. Traduzindo: “Desconfio logo de denúncias que vêm da cor política adversa à que eu sirvo”. Já em 2009 Monteiro pensava e actuava exactamente do mesmo modo. Nada de novo debaixo do sol.

O Expresso e Monteiro julgam sem provas contra Sócrates e escondem provas quando elas dão razão a Sócrates.

O Expresso julgou, está julgado.

Os mais racistas da Europa?

Segundo os dados de um inquérito às atitudes sociais dos portugueses apresentados hoje no Público, Portugal está entre os países da Europa “que mais manifestam racismo”.

É sempre bom conhecer as nossas realidades, ainda que elas possam desmentir velhos mitos (o “luso-tropicalismo”, a “Nação multirracial”) ou desagradar ao nosso amor-próprio e aos nossos sentimentos patrióticos. Não me soaria mal se a conclusão do estudo fosse a de que não somos muito diferentes dos europeus em geral em matéria de racismo. Dizer-se, porém, que somos dos povos mais racistas da Europa, soa-me a falso. São meras impressões minhas, pois são, mas o inquérito em causa também não me inspira confiança nenhuma.

No dito inquérito, Portugal aparece destacadamente no 1.º lugar dos 20 países europeus considerados numa comparação internacional quanto a “racismo biológico”, aquele que é geralmente considerado como a mais primária modalidade de racismo. As perguntas que pretendiam medir o racismo biológico foram estas: “Acredita que há raças ou grupos étnicos que nasceram menos inteligentes do que outros? Acha que há raças ou grupos étnicos que nasceram mais trabalhadores do que outros?” Tais perguntas, além de malparidas (os indivíduos é que “nascem”, não os grupos étnicos, e, de resto, à nascença, nenhum indivíduo é inteligente ou trabalhador), apenas indagam sobre crenças ou preconceitos, não sobre práticas discriminatórias. Pode haver correlação entre ambas, mas o preconceito racial (crença) e a discriminação racial (prática) não são a mesma coisa nem têm as mesmas consequências – algo que o inquérito ignora em absoluto.

Portugal aparece ainda no 5.º lugar quanto a “racismo cultural”, modalidade em que a liderança pertence à Noruega, país em que, estranha e paradoxalmente, o “racismo biológico” é dos mais baixos entre os 20 países (18.º lugar). A pergunta que serviu para avaliar o “racismo cultural” foi esta: “Pensando no mundo de hoje, diria que há culturas muito melhores do que outras ou que todas as culturas são iguais?” Uma pergunta particularmente condicionante e filha da mãe, porque quem não achar que “as culturas são todas iguais” será logicamente contabilizado como racista cultural.

Torna-se evidente que este inquérito (parte integrante, aliás, de um inquérito à escala europeia do European Social Survey) utilizou perguntas que previsivelmente conduziam a um tipo de resultado desejado. Com outras perguntas e outras metodologias, os resultados seriam provavelmente bastante diferentes.

De facto, outras fontes sobre temas idênticos, como os inquéritos periódicos europeus divulgados pelo Portal da Opinião Pública, não confirmam a liderança dos portugueses, nem no racismo nem na xenofobia. Nestes inquéritos periódicos europeus, as perguntas aos inquiridos e as metodologias são diferentes das do inquérito acima referido. Não se procura saber se o inquirido acredita que há raças que “nascem” menos inteligentes ou mais trabalhadoras, mas sim, por exemplo, se o inquirido recusa ter vizinhos de outras raças. Uma pessoa que diz (ou finge) que não é racista, mas que não quer vizinhos de outras raças ou não aceita que os seus filhos casem com pessoas de outros grupos étnicos (questões clássicas dos inquéritos sobre racismo) é, para mim, muito mais nitidamente racista do que uma pessoa que apenas acredita numa menor inteligência ou aptidão para o trabalho de certas raças, mas que apesar disso, na prática quotidiana, mostra respeitar e, sobretudo, não discrimina as pessoas de outras raças.

O sr. procurador-adjunto

Na sua edição de hoje, o diário da Sonae dedica as primeiras 11 páginas, com parangonas à la Correio da Manha, e ainda um editorial do Carvalho na secção respectiva, ao processo jornalístico que o mesmo jornal move (e julga) há dez anos contra o suposto roubo da PT aos seus justos donos, isto é, os donos da Sonae. Em suma, um modelo de jornalismo honesto, isento e independente.

É mais um episódio da longa vingança do clã Azevedo contra Sócrates, por este ter supostamente mandado chumbar em 2007 a OPA da Sonae sobre a PT. O jornaleco servil da Sonae insiste nessa velha alegação mentirosa dos Azevedos, apoiando-se agora em provas ridículas, como o “medo” (sic) que o ministro Mário Lino terá metido a um administrador da PT para o forçar a alinhar com o dito chumbo ‒ questão decidida, como se sabe, não por administradores, mas em assembleia de accionistas da PT. E volta também a velha “prova” de Sócrates ter instruído a CGD a votar com o núcleo duro accionista contra a desblindagem dos estatutos da PT, que permitiria à Sonae comprá-la. Quem quer que o tenha inspirado, o voto da accionista CGD (abstenção) não decidiu a votação, como também se sabe há muito. Mas o jornal da Sonae conclui imperturbável: “E foi assim que a Sonae perdeu a guerra”. Jornalismo abjecto.

O título garrafal da primeira página começa “JUSTIÇA SUSPEITA DE…”, mas toda a reportagem assenta na certeza de que as suspeitas do procurador Rosário Fernandes e as acusações dos Azevedos estão provadas e passadas em julgado. Ao fim de três ou quatro páginas já a minha opinião estava formada sobre este merdoso julgamento jornalístico em causa própria. Não li todas as 11 páginas e meia, onde também se pretende associar Sócrates a Ricardo Salgado e ao caso do BES (o próximo deverá ser António Costa), mas deu para perceber que na grande conspiração para “destruir a PT” estiveram implicados os suspeitos do costume, como Mário Soares e a maçonaria. Uma oportuna fotografia de Soares com Lula e Sócrates, no lançamento do livro deste último, serve de prova irrefutável a essa fantástica acusação ao pai da democracia portuguesa.

No seu afã bacoco de incensar os bons da fita, isto é, os Azevedos seus patrões, a jornalista Cristina Ferreira chega candidamente a admitir que terão sido “as ‘pistas’ levadas ao DCIAP por Paulo Azevedo [em 2015] que ajudaram Rosário Teixeira a virar o destino das investigações ao ex-primeiro ministro [Operação Marquês], até aí orientadas para as conexões ao Grupo Lena”. O actual patrão da Sonae deverá, pois, ser promovido brevemente a procurador-adjunto, pelos relevantes serviços prestados (a si mesmo) em matéria de virar investigações.

Resumindo: um procurador oficiosamente coadjuvado por quem há dez anos pretende dar cabo de Sócrates e um jornalismo vingativo que julga desinibidamente em causa própria. É o que há.

Chega de badalhoquice!

Dá simplesmente vómitos a badalhoqueira que o PSD anda a propagar em relação com o número de vítimas dos incêndios. Não me recordo de ter jamais presenciado, em Portugal ou fora dele, politiqueirice tão porca, tão baixa, tão nauseabunda.

Primeiro foi a macabra invenção dos suicídios, aproveitada para declarações incendiárias por esse miserável Passos Coelho. Agora é uma asquerosa “empresária da região”, certamente com motivações políticas, se não com cartão laranja, a inventar uma lista de mortos com nomes repetidos. E, novamente, Passos Coelho, Hugo Soares e outros badalhocos vieram repetir a ignomínia e tentar lançar a confusão com a exigência de o governo revelar a suposta “lista completa” das vítimas. Na esteira da centelha lançada pelo título principal do Expresso de sábado passado, os noticiários das 20h de hoje, em todos os canais, dedicaram a essas invenções e mentiras cerca de vinte minutos a meia hora. Isto apesar de todos os presidentes de câmara da região terem vindo pessoalmente desmentir as aldrabices patrocinadas pela direcção do PSD. A única coisa de que as televisões se esqueceram foi de entrevistar a “empresária da região” ou, pelo menos, revelar o nome dessa responsável pela hedionda aldrabice, que, pelos vistos, deve andar na clandestinidade.*

Esta corja toda, desde a “empresária” até ao Passos Coelho, anda a brincar com o fogo, porque ao politizarem desta maneira abjecta uma tragédia, estão na prática a incentivar terrorismo incendiário, certamente com o fim de criar as por eles tão apetecidas “más notícias”.  A necessidade de responsabilizar os disseminadores de mentiras incendiárias foi hoje defendida pelo presidente da câmara de Pedrógão. Quando é que esses malfeitores todos vão ser responsabilizados pelo que andam a fazer? A PJ, o MP, o PR não intervêm?

A que novos patamares de baixeza moral descerá o PSD de Passos Coelho, Montenegro, Hugo Soares, Rangel & Cia?

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* Não pude ver tudo o que estava a dar em seis canais ao mesmo tempo. Sobre este assunto, ver aqui os comentários.

Ladies and gentlemen

O metro de Londres acabou nos seus altifalantes com a saudação “ladies and gentlemen”, por esta ter sido considerada “fora de moda” e sentida como “ofensiva” por utentes que não se consideram nem ladies nem gentlemen. Trata-se, aparentemente, de lesbians, gays, bisexuals e transgenders.

É mais um avanço da luta pela igualdade ou neutralidade de género, causa que vai progredindo irresistivelmente através de uma multidão de “pequenos passos”, até à vitória final.

Não sei onde estaremos quando chegarmos à vitória final, mas imagino que, do ponto de vista linguístico, será assim:

– Os pronomes pessoais de dois géneros, nas línguas em que os houver, serão substituídos por um pronome pessoal neutral, como já está a ser experimentado por militantes sueco(a)s na(o) Suécia(o). Em português, por exemplo, ele e ela poderão ceder o lugar ao neutral eli. Criar-se-á assim uma saudável incerteza acerca de quem falamos. Por exemplo, quando dissermos “Eli deu à luz”, ninguém saberá se estamos a falar de uma parturiente ou de um electricista barbudo, se ainda não tiver sido proibido o uso de barba.

– Os artigos definidos e indefinidos dos dois géneros (em português o, a, um e uma) serão implacavelmente eliminados. Há línguas que não têm artigos definidos e os seus falantes, como é bem sabido, são muito mais felizes. Os artigos indefinidos, quando muito, poderão ser substituídos por pequenos grunhidos neutrais, tipo oink, hein, uh, ahn, etc.

– Os pronomes possessivos serão neutralizados. Em português, meu/minha darão lugar a, simplesmente, me.

– Os substantivos com género, onde os houver, serão impiedosamente neutralizados. Os que têm o mesmo radical e apenas diferem pela vogal final, como menino/menina, senhor/senhora, etc. poderão ser substituídos por excelentes neutrais como menine, senhori, etc. No caso de terráqueo/terráquea, a óbvia solução seria terráque, mas é melhor procurar outra coisa, para não se confundir com traque quando pronunciado com dois rr.

– Os outros substantivos, como cão/cadela, cavalo/égua, pai/mãe, etc. oferecem porventura maior dificuldade. Em princípio, os mais neutrais canídeo, equídeo e progenitor seriam bons. O problema é que, em português, essas palavras ainda são do género masculino. Por isso talvez fosse melhor optar por canide, equide e progenite.

– Assim, quando se quiser dizer: “Vou andar a cavalo com o meu pai enquanto a minha mãe passeia o cão”, passaria a dizer-se: “Vou andar a equide com me progenite enquanto me progenite passeia canide”. É simplesmente linde e bué neutral!

– Há ainda palavras de género neutral, como isso, mas que parecem masculinas, pelo que isso passará a isse.

Vamos a isse?

Ambiente de golpe de Estado, com espadas

O Movimento das Espadas, em Janeiro de 1915, protagonizado por oficiais monárquicos alegadamente descontentes com alegados “atropelos”, deu lugar a um governo ditatorial de direita, chefiado pelo general Pimenta de Castro e empossado pelo seu amigo presidente da República, Manuel de Arriaga. Tudo acabou em sangue, uns meses depois, com a revolução de 14 de Maio, que reinstaurou a República.

O movimento dos oficiais que quarta-feira vão alegadamente depositar as suas espadas à porta do presidente Marcelo tem todo o ar de se inspirar nos acontecimentos de 1915, a começar pelo depor das espadas. Quererão um golpe, como o de Arriaga-Pimenta? O país, hoje, não é o mesmo, só o nome é igual, mas o objectivo deste novo Movimento das Espadas parece ter algo de essencialmente comum com o do seu antepassado: contribuir para a queda do governo que está.

A direita está raivosa com o  êxito do governo de António Costa. A direita está fartinha de “boas notícias”. A direita está possessa e raivosa com as sondagens. Por isso, vai querer explorar até ao tutano qualquer “má notícia” para o grande objectivo do derrube do governo, como Passos Coelho e Cristas claramente dão a entender.

Se estivéssemos em 1915, tudo isto perfaria um claro ambiente de golpe de Estado… Em 2017, esta história exala um inegável fedor a ranço , mas estamos aqui para ver o que o presidente Marcelo vai fazer.

A direita radical e fascistóide só se satisfaz se o PR dissolver o parlamento.  E os seus comentadores (como o Garoupa do Pingo Doce) até já fazem contas e previsões sobre novas eleições legislativas.

 

Uma galga “independente”

Não precisamos de aguardar por nenhum estudo, nenhuma avaliação, nenhuma auditoria, para saber que o Estado falhou. E eu quero acrescentar ainda está a falhar. Dez dias depois ainda está a falhar. Eu tenho conhecimento de vítimas indiretas deste processo, de pessoas que puseram termo à vida, pessoas que em desespero se suicidaram e que não receberam em tempo o apoio psicológico que deveria ter existido.

A besta que disse isto – que entretanto foi desmentido – é a mesma que propôs uma averiguação completa da tragédia, “tão depressa quanto possível”, por uma “comissão técnica independente”.

Para dizer a besteira que disse, Passos Coelho baseou-se apressadamente num boato que lhe foi passado pelo candidato do seu partido à câmara de Pedrogão.

Ficamos perfeitamente esclarecidos sobre a independência em que o gajo acredita. E também sobre a boa-fé com que propôs averiguações completas por uma comissão técnica. Para quê, se ele não precisa de saber nada para saber que o Estado falhou?

O grande investimento da direita

Compreendem-se bem estes gemidos de indignação de António Barreto. A direita sente-se enrabada e AB assume, voluntarioso, a sua quota-parte das dores.

O maior investimento estratégico da direita portuguesa de 2004 até hoje foi a tentativa de assassinato de carácter de Sócrates, o ganhador de duas eleições e da única maioria absoluta socialista desde que Soares fundou o PS. O comentador “independente” AB colaborou pressurosamente nessa tentativa desde os seus alvores. Releiam-se os seus “retratos da semana” repletos de ódio, publicados no jornal do Belmiro em 2007 e 2008, quando ainda não havia uma crise financeira internacional cujas culpas se pudessem atirar para Sócrates. Usando de pulhices saloias, AB chegava a interrogar-se se Sócrates não seria fascista: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.” Fosse ou não fascista, Sócrates era então, para AB, “a mais séria ameaça contra a liberdade” que Portugal conhecera desde os anos 70 (Público, 6 de Janeiro de 2008). O carapetão da “asfixia democrática”, espalhado pelo PSD em 2009, também colheu ali inspiração. Veio, então, a crise financeira e a direita mudou completamente de registo: fora Sócrates o seu autor.

O alvo último da longa campanha negra da direita – que desde 2014 conta com a desavergonhada assessoria jurídica do Ministério Público – nunca foi exactamente Sócrates, mas sim o PS. A direita presumiu erradamente que, linchando Sócrates, arredaria o PS do poder durante uma década ou duas. Essa gente vê hoje o seu logro, que o ódio cego de antanho não lhe permitiu vislumbrar. Investiram tudo num papel marado, que em 2015 se desvalorizou completamente. Sentem-se enrabados, mas a culpa é deles próprios, que investiram as suas poupanças e esperanças num pacote de patranhas.

Com efeito, a derrota da direita nas últimas eleições legislativas, a formação do governo de Costa e o balanço francamente positivo de um ano e meio de governação socialista vieram pôr totalmente em causa a racionalidade do maior investimento estratégico da direita no presente século – a diabolização de Sócrates e, por tabela, o aniquilamento do PS e o esmagamento da esquerda.  A campanha anti-Sócrates  já não rende – a não ser, talvez, como mera e triste vingança pela vingança – e não se vê quem poderia substituir Sócrates no papel de bode expiatório e bombo da festa.

A desorientação e o desespero grassam nas fileiras e estados maiores da direita raivosa. O maná da diabolização de Sócrates faliu, é chão que já deu uvas. Continuam a odiar Sócrates com todas as suas forças, mas já não sabem porquê nem, sobretudo, para quê. O grande investimento, que até já tinha granjeado alguns dividendos na bolsa eleitoral, parece agora perdido. Há, porém, saudosos que sonham ainda recuperá-lo. AB dá eloquentes sinais disso mesmo, exibindo em cambalhotas retóricas uma desesperada tentativa de conotar Costa com o “nefando” governo de de Sócrates.

Note-se que, para AB, António Costa teria sido em 2007, quando saiu do governo para a câmara de Lisboa, uma vítima da limpeza que o déspota Sócrates teria levado a cabo no governo, com o objectivo de ficar “enfim só” no poder (Público, 27 de maio de 2007). As lágrimas de crocodilo que AB então verteu por Costa aparecem agora transformadas em libelo acusatório contra o mesmo Costa, a quem acusa de branqueamento e complacência criminosa com o “nefando”. Os objectivos últimos são sempre exactamente os mesmos: atacar um governo de esquerda, atacar o PS e, se possível, apagá-lo do mapa.

O sucesso da geringonça, segundo Vítor Bento

No DN de hoje, Vítor Bento discorre sobre “A improvável geringonça”. Este “técnico” tem-se mantido a uma prudente distância da política – sobretudo a política mais arriscada, como quando recusou as Finanças que Passos Coelho lhe ofereceu. Nem por isso deixa de pensar e escrever politicamente – à direita, naturalmente.

Na sua coluna, o ex-conselheiro de Estado de Cavaco tenta dar a impressão que plana a grande altura sobre a bagunçada da luta política. Dá-se ares de isenção, assenta umas rabecadas fáceis no seu próprio quadrante político e até reconhece uns pozinhos de talento a Costa, sem nomear nomes. Uma pessoa distraída acaso pensará que Bento é um modelo de isenção.

O sucesso da geringonça constitui o objecto das reflexões de Bento, mas começa por apontar dois erros a Coelho: a teimosa recusa da legítima solução de governo encontrada pela esquerda e as previsões catastrofistas falhadas à luz dos resultados económicos até hoje conseguidos. Ora, na opinião de Bento, o que é que Coelho deveria ter feito? Deveria ter olhado para a frente e construído “um programa de futuro”, que “valorizasse” o que duramente conseguira no seu governo “incompreendido”, que respondesse aos “anseios sociais” e que fomentasse uma “alternativa mobilizadora”. Puro blá-blá-blá sem mistura. Como poderia agora Coelho valorizar a sua incompreendida política de 2011-2015, apontada à frustração dos mais elementares “anseios sociais”? Não saberá Bento que a direita perdeu 700 mil votos nas eleições de 2015 porque a sua governação a tornou o absoluto contrário de uma “alternativa mobilizadora”? Adiante.

O “improvável” sucesso (quer dizer que Bento não o previu) da chamada geringonça deve-se, segundo ele, a uma mistura de talento, sorte e cumplicidade dos media. Vejamos então.

No talento, refere a promoção de uma solução de governo nunca antes tentada e o “perceber que, em economia, tudo o que desce acaba por subir, e que, feito o ajustamento [pelo governo anterior], a viragem da onda não deixaria de trazer aproveitáveis dividendos”. Reparando melhor, este falso elogio não explica como surgiu a inédita solução de governo (o eventual talento de Costa não esclarece o essencial, que foi a recusa pela esquerda toda do governo de Coelho), deixa de fora as políticas concretas deste governo, aponta o oportunismo do confisco dos dividendos da política do governo anterior (a actual treta dominante da direita) e refere uma “viragem da onda” económica que, transparentemente, ele considera um bambúrrio e, logicamente, deveria constar do ponto seguinte, a sorte.

Na sorte, o colunista enumera uma salgalhada de coisas, desde a inesperada boa conjuntura económica internacional e o inesperado boom turístico, até à cumplicidade nunca antes vista (diz ele) do presidente da República com o governo (o que também relevaria da sorte). Não se coíbe aqui de mencionar, pasme-se, os “acidentes favoráveis à autoestima do país”, a saber, os êxitos do futebol e da Eurovisão, sem esquecer a visita do papa. Pelo meio refere um “amolecimento da obstinação dos falcões de Bruxelas”, que se teria devido apenas à conjuntura política internacional e não a qualquer mudança de atitude por parte do governo de Portugal. Qualquer burro pode ter sorte, é o que se conclui.

Na cumplicidade mediática, por fim, Bento expõe uma versão light da velha teoria da “asfixia democrática”. Segundo ele, há hoje em Portugal um “controlo do efeito político da comunicação social”, que “se materializa muito mais no que omite do que no que declara.” Dito mais claramente, a comunicação social portuguesa “reproduz e amplifica as notícias ou opiniões convenientes [ao governo], multiplicando-lhes o impacto social” e “ignora ou amortece as inconvenientes, abafando-lhes o impacto.” Bento não está a falar da Coreia do Norte ou da Venezuela. Está a falar de Portugal e do Público, do DN em que ele escreve, do Expresso, da SIC, da TVI, da TSF, da RTP, da CMTV, do Correio da Manhã e não sei se do Observador e do Diabo. Ou seja, uma vastíssima conjura destinada a glorificar o governo e a abafar a oposição – mas completamente inexplicável, dado que os media portugueses estão quase exclusivamente nas mãos da direita.

Os êxitos da geringonça estão a pôr a direita fula, cega e paranóica. Nem almas bentas escapam.

 

Carreiras meteóricas

Dijsselbloem é um político trabalhista holandês que se licenciou em economia agrícola numa cidadezinha do sul do seu país. Do currículo oficial do mangas chegou a constar ser detentor de um mestrado irlandês em economia empresarial, aldrabice depois denunciada na Irlanda por um jornal. O gajo esteve mesmo na Irlanda a passar uma temporada, presumivelmente com uma bolsa que pagou farras e cerveja Guinness, mas não concluiu qualquer curso. Depois de ter sido vereador na sua cidade natal, saltou para deputado do parlamento holandês, onde se ocupou de questões de educação, juventude, ensino especial, professores, etc. Escusado será dizer que não tinha qualquer formação ou experiência prévias nessas áreas. Desde 2012, sem que ninguém saiba explicar porquê, é ministro das Finanças da Holanda. Em 2013, foi feito presidente do Eurogrupo, sem outra experiência política europeia prévia. Em 2014 chegou a falar-se dele para comissário europeu, numa pasta que não lembraria a um careca: Melhoria da Legislação, Relações Interinstitucionais, Estado de Direito e Carta dos Direitos. Pelos vistos, o fulano é um tapador de buracos nato.

Tal como Miguel Relvas, com quem tem várias afinidades, Dijsselbloem tem fama de ser “sincero” e “directo”, isto é, incontinente verbal. Talvez seja esse o segredo da sua carreira ascensional, que nenhuma outra razão parece justificar, além do amor paternal que Schäuble lhe vota. Há tempos, declarou que Claude Juncker bebia demais. O acusado lá teve de ir à televisão negar que tivesse problemas com o álcool. Há poucos dias, referindo-se aos países do Sul da Europa, o gajo disse que “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e copos” e depois ir pedir dinheiro aos países ricos. Políticos dos países sul-europeus, incluindo Costa e Renzi, reagiram chamando-lhe vários nomes merecidos e sugerindo a sua demissão de presidente do Eurogrupo. Até o líder do Partido Popular Europeu lhe pediu mais respeito e tento na língua.

Como ministro das Finanças da Holanda, Dijsselbloem ajudou o seu partido a cair a pique nas recentes eleições. Com Passos Coelho também tem outras afinidades: estão ambos a caminho do desemprego, depois de carreiras políticas meteóricas em que apenas se distinguiram como serventuários de Schäuble.

A caminho do desemprego… ou da Goldman Sachs?

O populista antipopulista

Pacheco Pereira alerta em “O grande abandono”, no Público de sábado, para uma possível irrupção do populismo em Portugal. Os ingredientes base estariam cá todos, ou quase. Os abandonados da política esperam apenas que surja o seu líder, de preferência fabricado pela televisão, para que o salto final para o populismo seja dado.

Eles sabem que o CDS, o PSD, o PS os abandonaram à sua sorte, estão-se literalmente borrifando para as ‘causas fracturantes’ do Bloco de Esquerda, e a ‘linguagem de pau’ do PCP não os mobiliza. Eles esperam no seu fel – até um dia.”

Observador aéreo e supostamente isento, planando a grande altura sobre a cena portuguesa, Pacheco culpa, pois, pelo iminente “salto” de Portugal para o populismo o abandono a que as classes desprotegidas estão alegadamente votadas por todos os principais partidos políticos e, com nuances, pelos outros também.

E em que é que Pacheco se baseia? Directamente na vox populi. No “restaurante popular” que frequenta, Pacheco ouviu o comentário de uma cozinheira à reportagem que a televisão estava a passar sobre a entrega de uma casa provisória a uma família de refugiados chegados da Síria. “Vão-lhes dar uma casa melhor do que minha. Eu trabalho toda a vida e a mim ninguém me dá nada” – queixou-se ela, achando-se talvez com mais direito à casa dos refugiados, que supostamente seriam mandriões –  além de não serem portugueses, parece implícito.

Pacheco aprova: “É verdade. E isto é algo que é sentido como uma enorme injustiça. E é uma injustiça. O bem-estar destas famílias e das pessoas como aquelas que estão ali a trabalhar duramente foi abandonado. E estamos assim a alimentar claramente o populismo.” Por isso avançaria o trumpismo, o lepenismo, etc., etc.

Ainda bem que o comentário da cozinheira e a claríssima aprovação do dito comentário por Pacheco se situam logo no início do artigo, porque assim já não nos deixamos enganar com o que se segue. Porque é completamente estúpido partir de um argumento tipicamente populista para um arrazoado que pretende ser antipopulista.

Ainda se compreende que uma cozinheira mal informada ou iletrada não saiba distinguir a sua situação pessoal, que talvez seja socialmente injusta, da situação desses desgraçados que são escorraçados por uma guerra sangrenta e aqui chegam aos baldões, após peripécias trágico-marítimas e estágios em campos de tendas. Mas como aceitar que o informado Pacheco ache injusto que a cozinheira tenha uma casa eventualmente menos boa do que o alojamento provisório desses desgraçados que fogem à morte?

Será injusto que Portugal, dentro das suas possibilidades, preste um acolhimento minimamente decente a um certo número de refugiados de guerra, sabendo-se embora que muitos portugueses vivem em condições socialmente injustas? Pacheco acha que sim, que é injusto. E nisso irmana-se com todos os populistas que acham o mesmo.

Muito mal, Marcelo!

A nota do presidente da República sobre o caso Centeno, divulgada pela presidência segunda-feira à noite, é a primeira gafe grave de Marcelo desde que chegou a Belém. E dizer gafe é pouco, porque são várias e não são só meras gafes.

Em cinco pontos singelos, o presidente da República começou por revelar que Centeno pôs o seu lugar à disposição do primeiro-ministro – o que não lhe competia a ele, presidente, revelar. Aludiu depois a uma alegada falha de comunicação entre o ministro das Finanças e o gestor Domingues – o que não lhe competia a ele, presidente, relatar. Queixou-se de forma velada de que alguém (Centeno ou Costa?) interpretou indevidamente as “posições do presidente” sobre o assunto da Caixa – deixando para o público a tarefa de interpretar o significado dessa queixa enigmática e de perceber a quem ela se refere. Declarou enfim que, depois de ouvir o primeiro-ministro, o qual lhe disse manter a sua confiança em Centeno, ele presidente “aceitou tal posição”, atendendo ao “interesse nacional, em termos de estabilidade financeira” – sem que se perceba porque é que um presidente tem de aceitar ou não aceitar a confiança do chefe do governo num dado ministro.

Temos, pois, que o presidente Marcelo parece mesmo querer continuar a sua antiga actividade de comentador político, de preferência fazendo revelações apimentadas e inconfidências de bastidores. O mais grave de tudo é o dislate final, que lhe foi já apontado pelo deputado socialista Porfírio Silva e pelo constitucionalista Vital Moreira. Com efeito, os ministros não carecem da confiança política do presidente da República, muito menos da sua “aceitação”, termo que implica um poder que a Constituição não lhe dá. Acrescente-se que também a confiança do primeiro-ministro num ministro não carece da “aceitação” do presidente da República.

Se o presidente quiser, pode formular, perante o primeiro-ministro, todas as dúvidas que entender sobre a permanência ou não de um ministro no governo. Vir exprimir essas dúvidas para a praça pública é insólito e até pode ser estúpido, ainda que não seja propriamente inconstitucional. Absolutamente estúpido e profundamente errado é vir declarar publicamente que “aceita” ou não “aceita” determinado ministro, coisa que definitivamente não lhe compete. Se o presidente está descontente com o governo e se não lhe chegam as reuniões com o primeiro-ministro para fazer as suas pressões ou ameaças, então só tem um caminho constitucional, se não quiser estar quieto e calado: dissolver a Assembleia e convocar eleições.

Já se percebeu que Centeno foi trapalhão nas negociações com Domingues e que lhe faltou alguma prudência, o que certamente advém da sua total inexperiência na política. Outra coisa é a histeria da direita, inconsolável com os resultados positivos do primeiro ano de governação de Costa e Centeno e ansiosa que se fale de outra coisa. Mas eis que Marcelo resolve ceder à histeria raivosa e vem dar uma no cravo, outra na ferradura, para assim se justificar e sacudir o capote perante o execrável laranjal – necessidade que até agora não tinha sentido. Muito mal, senhor presidente!

A direita está possessa (com o Marcelo)

A direita está crescentemente fula com o Marcelo. Mal contém a sua raiva. A explosão de fúria de Coelho poderá estar para breve. Falta só a pastilhinha de menta dos Monty Python, de que há tempos aqui falei, para se dar o cataclismo gástrico do chefe da oposição, farto de engolir toda a bicharada marcelina. Até agora ele tem apenas deixado cair uns pingos de fel, umas coisitas lamurientas, mas começam a surgir no seu entourage reações não só de enfado (“o presidente anda com o governo ao colo”), como até de frontal repúdio das declarações de Marcelo – entre estas a recente defesa de Centeno no idiota “caso” da CGD. Marcelo não se ficou por aí, qualificou também de absurda a eventualidade de demissão do ministro das Finanças. Ora esta demissão é presentemente o objectivo n.º 2 do partido coelhista. O objectivo n.º 1 é desde 2015, e continuará a ser, a queda do governo de Costa, peditório para o qual Marcelo  tem notoriamente recusado dar. O objectivo n.º 3 parece ser a desestabilização permanente da Caixa, com vista à futura privatização das ruínas do banco público, outro assunto em que Marcelo já tem aparecido a desancar o coelhismo. E mais objectivos parece não ter o partido coelhista, porque os golpes de Estado estão fora de moda.

Na entrevista de ontem ao El País, Marcelo dá mais um chuto no cu da firma Coelho, Montenegro e Cª, ao afirmar sem complexos que o governo de Costa “superou as expectativas iniciais”, e que isso, “para Portugal, foi positivo”. Coelho, o discípulo dilecto do conspirador Cavaco, deve ter tido terríveis pesadelos a noite passada.

O presidente, sobre cuja pessoa nunca tive, no passado, grande opinião, tem-me surpreendido notavelmente, devo confessá-lo. Não só dou a mão à palmatória, como lhe darei o meu voto em 2021, se tudo continuar como até agora e Marcelo mantiver a presente linha de conduta.

Tentando entender o que move o actual presidente nesta atitude de lealdade institucional para com o governo socialista apoiado pelo Bloco e o PCP, começo por constatar que Marcelo assumiu de facto o seu cargo, desde o início, com um espírito genuinamente presidencial – unir, construir pontes, sarar feridas, como constata o El País. Mas isto não é explicação e não vai fundo. As boas intenções declaradas de um político são muitas vezes traídas pela sua prática.

No passado, como dirigente partidário e líder da oposição, Marcelo tinha falhado, lembram-se? Pelo menos, os pêpêdês correram rapidamente com ele. Antes já tinha falhado como candidato da direita unida à câmara de Lisboa. Como presidente da República, triunfalmente eleito meses depois de uma derrota eleitoral da direita nas legislativas de Outubro de 2015 (39% da direita contra mais de 50% do conjunto da esquerda), Marcelo está a triunfar crescentemente. É o que diz a sua alta cota de popularidade em todas as sondagens. Recorde-se que Marcelo iniciou esta carreira triunfante como candidato auto-proposto contra a vontade do Coelho. Ou seja: no seu partido ou como candidato dos partidos da direita, Marcelo falhou, mas na sua carreira individual, incluindo a de comentador político, Marcelo conseguiu singrar e triunfar. Foi a popularidade individual que angariou como comentador político, pisando, aliás, alguns calos à direita, que lhe deu a capacidade de impor a sua candidatura presidencial aos partidos de direita. É novamente a popularidade individual que mantém o presidente Marcelo em níveis de aprovação muito superiores aos da votação que conseguiu nas eleições presidenciais.

O presidente Marcelo não deve nada ao seu partido – partido, aliás, que ajudou a fundar em 1974, com Sá Carneiro e Balsemão, quando os tristes Coelho e Montenegro ainda mijavam na cama. Marcelo não deve nada aos partidos de direita, que não tiveram outro remédio senão apoiá-lo nas presidenciais de Janeiro de 2016. A sua legitimidade vem-lhe directa e unicamente do eleitorado. O que os partidos da direita esperavam dele eram apenas sonhos húmidos, vãs esperanças, porque o candidato não teve que passar por quaisquer negociações prévias com o Coelho ou a Cristas.

Já pensaram o que seria Marcelo como presidente da República se a direita fosse maioritária na AR? Se a actual solução governativa e a actual composição do parlamento parecem ser muito favoráveis ao intervencionismo e até ao protagonismo político de Marcelo, no caso de um parlamento maioritário de direita e de um governo Coelho-Cristas, que papel sobraria para o presidente? Desconfio que ele não ficaria caladinho em Belém e que procuraria a todo o custo intervir, mas estou convencido que tal presidência seria uma grande seca para Marcelo. Na actual situação é que me parece que ele se dá bem, pois cabe-lhe muitas vezes o papel de fiel da balança. E, sobretudo, porque não tem de aturar os fedelhos sectários e histéricos que hoje mandam no seu partido.